Cinderela
11 Finalmente o capítulo onze
Notas iniciais
Há coisas que ninguém pode saber
11
— Vossa Majestade, o príncipe saiu de seus aposentos!— revelou uma criada— E está mais afável do que nunca, sorrindo o tempo todo.
O Rei riu gostosamente e seguiu em direção ao salão de refeições para unir-se ao Conselheiro e, finalmente, rever seu filho.
— Edgard? Meu filho, o que houve?— perguntou ele— O que tanto o atormentou? A ponto de esconder-se no quarto durante meses?
— Mamãe— o príncipe respondeu, simplesmente
A fisionomia alegre do Rei tornou-se lúgubre e seu tom de voz adquiriu a fragilidade de um caco de vidro.
— O que tem ela?
— Lembrei-me do dia em que ela morreu, pai. — disse Edgard mexendo em seus ovos.
— Edgard, você sabe que este é um tema delicado. — intrometeu-se o conselheiro.
— Eu não terminei de falar, Antoine. — disse o príncipe— E eu me senti mal demais, pai. Eu não a vi morrendo nem nada do gênero, mas, lembro de seus gritos de agonia, e de você chorando durante semanas, lembrei-me do dia em Antoine chegou e você o tornou conselheiro. Acabou por penas de morte. Mas, graças a isso eu pude conhecer Cinderela, foi em uma de suas primeiras transações com Zofia. Eu tinha oito anos, ela tinha sete. A gente brincou perto da fonte enquanto vocês negociavam a morte de alguém. E ela era simplesmente a luz em pessoa: tinha os cabelos trançados batendo na cintura, falava pelos cotovelos e sorria o tempo todo. Ela me contou algumas histórias. Seis anos depois, o pai dela morreu, muito provavelmente de tuberculose ou envenenamento. Achei que isso nos tornaria mais próximos ainda; afinal tínhamos uma dor em comum. Eu estava mais que enganado, é claro. Zofia tornou-a criada e cortou seus cabelos. Fazia com que ela trabalhasse dia e noite. E ela nos culpou, pai. Tenha certeza de que é de nossa responsabilidade que seu brilho seja devolvido.
O príncipe retirou-se para os Jardins e o Conselheiro bufou.
— Será que ele desconfia de algo? — indagou o Rei
— Ele não. Truddy.
...
Fazia tempo que não chorava, porém naquele momento o príncipe sentiu as lágrimas inundando seus olhos.
Lembrou-se de uma poesia que sua mãe sempre recitava (de certa forma ela chegava a cantarolar os versos):
A tristeza nos segue, e como é difícil espantá-la
Ela sempre estará lá
A espreita...
Pois a maldade é paciente
Usa os artifícios da mente
Mas, lembre-se
A felicidade é fidedigna
Tem quem quer ter
Tem quem precisa ter
Tem quem a conquista
Mas, sobretudo, o mais feliz dos homens não é o que ignora
[a tristeza do outro
É o que procura em meio aos escombros a esperança
Não era mais uma das lembranças enviada por Truddy.
Era algo que ele mesmo desenterrara de sua cabeça. Era algo que ele escolhera lembrar.
E era algo a se espelhar.
Ele apostava que Cinderela estava fazendo o mesmo: lembrando que nem tudo no passado foi triste e especialmente doloroso.
...
Cinderela não pôde deixar de sorrir ao ver Charmin e Charlotte falando mal de Bree enquanto devoravam seus brioches.
— Essa Bree é uma vadia. — Charmin revelou— V-A-D-Y-A.
— E você é uma B-U-R-R-A. Vadia é com E. — reclamou Charlotte— E o príncipe deve ser cego! Primeiro escolheu a você e não a mim, depois se apaixonou por qualquer uma. Hunft.
— Do que está rindo, Cinderela?! Acha engraçado? Você nem ao menos foi ao baile. — zombou Charmin
— Nem ao menos experimentou o sapatinho de cristal. — replicou Charlotte
Cinderela pensou em continuar com a farsa, abaixar a cabeça para suas irmãs e ignorá-las para no final do dia rir ao lado do príncipe.
— Ah, mas eu fui sim. E não experimentei o sapatinho. Eu o usei. Dancei com o príncipe, até.
— A única que dançou com o príncipe foi Bree, você é uma mentirosa. — disse Charmin
— Eu sou Bree. — disse Cinderela sorrindo— Você é cega?
Ela voltou à cozinha satisfeita, ouvir os gritos de indignação de suas irmãs era um néctar doce para seus lábios ressequidos.
— Mamãe!!! — gritava Charmin
— ISSO NÃO É JUSTO!!! — bradava Charlotte
Cinderela riu, e notou com orgulho o fardo que tirou de seus ombros com tanta facilidade.
Era como seu pai dizia antes de ir à guerra: Se ainda não deu certo, é porque não é o fim.
Sim, como conseqüência deste ato impensado haveria uma gritaria por parte de Zofia, mas fora ela mesma quem a deixara ir ao baile, contanto que fizesse suas tarefas, era claro que o Rei ficaria sabendo disso numa rapidez inimaginável e com Rei sabendo de tudo era óbvio que as pessoas também saberiam.
E o povo não era gentil. Mas talvez eles entendessem a escolha do príncipe.
Talvez seu pai tivesse razão nisso também, talvez finais felizes realmente existissem.
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