Cinderela
8 Capítulo oito
Notas iniciais
Há coisas que não devíamos querer
8
O conselheiro era um senhor curioso, com um bigode espesso, olhos pequenininhos e um monóculo, seu jeito de falar era correto e contido.
Seus pés eram enormes.
— Vossa Majestade, se me permite, gostaria de coordenar as buscas por Bree. Creio que nesta busca não serão necessários apenas músculos e, sim, cérebro. — revelou o Conselheiro, mexendo em seu bigode.
— Sim, sim, claro. Porém, como encontrá-la? Ela foi sagaz ao permitir que o único a realmente ver seu rosto fosse meu filho. Bree não queria a coroa. E Edgard se recusa terminantemente a sair de seus aposentos.
— Visitaremos todos os palácios deste reino em busca de Bree; acredite em mim, Vossa Majestade.
O Conselheiro parecia confiante, sabia que comandaria a busca por aquele pé.
Pés. Eles sempre foram seu ponto fraco. Ao entrar na corte aquilo havia acabado. Todavia, o vicio voltara ao ver aquele sapatinho.
Era pequeno e delicado, de um cristal fino, porém sua dona fora delicada a ponto de nem ao menos riscar o material.
Seu pé deveria ser primoroso, sem calos ou unhas encravadas.
O pé de uma princesinha!
—Encontraremos Bree o quão rápido possível, Vossa Majestade. — prometeu o Conselheiro ao notar a tristeza nos olhos do Rei: ele queria seu filho de volta, queria vê-lo sorrir e, para isso, seria de suma importância que Bree fosse localizada. E seu pé seria apenas parte do pacote.
...
Era difícil pensar a respeito de seu fetiche por pés como algo doentio; ele não beijava pés, não os cheirava. E, exceto por aquele incidente, nunca os arrancava.
Somente olhava: como um rapaz contemplando uma garota e vice-versa.
Sua mãe fora uma grande apreciadora de sapatos, porém era também uma educadora severa e seus castigos beiravam o ridículo. Ela pisava em suas mãozinhas rechonchudas usando tamancos quando ele cometia erros ortográficos e, ao ser grosseiro, deveria encerar todos os 120 pares de salto altos da mãe.
Contudo, ele a amava, e amava ainda mais seus pés.
...
PASSARAM-SE ALGUNS MESES, E MESMO ASSIM AINDA FOI HÁ MUITO TEMPO.
{NÃO, O PRÍNCIPE AINDA NÃO SAIU DO QUARTO. NÃO, CINDERELA NÃO VIROU PRINCESA E ZOFIA CONTINUA MÁ.}
...
Durante as buscas viu-se quase todo tipo de pé: com verruga, com micose, com unhas encravadas, com unhas aparadas, grandes, médios, com pele grossa e com pela fina, com ferida e com olho de peixe. Exceto um, é claro, o menor e mais delicado pé do reino.
...
A manhã era fria e ventosa, porém lá estava o Conselheiro batendo à porta de mais um palacete em busca de Bree e seu pezinho de princesa, um homenzinho o acompanhava segurando uma pequena almofada de veludo vermelho: nela repousava o sapatinho de cristal esquecido.
Cinderela abriu a porta arfando.
O Conselheiro nunca gostara muito da garota, porém vinha nutrindo um ódio especial por ela.
Era extremamente incômodo pensar que ela realmente se considerava capaz de passar despercebida em suas idas e vindas ao castelo.
— O que deseja, senhor?— ela perguntou, seca.
— Desejo entrar, Cinderela. Missões para a coroa. — disse ele, cheio de pompa.
— Não posso deixar ninguém entrar sem o consentimento de minha madrasta, senhor. São ordens expressas de Zofia, — Cinderela torceu o nariz— exceto, é claro, que esse alguém seja o Rei. E como vê: ela não está aqui. E você não é o Rei.
— CINDERELA!— repreendeu Zofia, puxando seus cabelos — Entre, Antoine, por favor. Desculpe a petulância de minha enteada. Ela nasceu sem mãe... — disse a Madrasta de forma inocente— isso pode estragar uma pessoa, não?
Cinderela parecia preferir saltar um despenhadeiro usando salto alto a permanecer ali ouvindo toda aquela baboseira formal. Por isso. foi sisuda:
— Entre, conselheiro, farei chá para o senhor.
O Conselheiro mexeu em seu bigode.
— Oh, seria ótimo. Mas, vim para uma missão diplomática como já disse. Precisamos encontrar uma dama de nome Bree. Ela é dona deste primoroso calçado.
— Droga— murmurou Cinderela
— O que disse?— questionou a madrasta
— Que o Rei ordenou que todas as moças do reino experimentassem o sapatinho.
Zofia olhou feio para Cinderela.
— Vou chamar Charmin e Charlotte. Leve o Conselheiro para o salão de visitas.
— Sim, madrasta.
O Conselheiro a seguiu calado, porém em sua cabeça, formavam-se diversas perguntas: e se fosse Cinderela a tão almejada Bree? Seus pés descalços eram pequenos como o sapatinho, mas... Não, não poderia ser!
Zofia desceu encaminhando duas sonolentas Charmin e Charlotte.
Devia ser cedo, ele constatou.
— Se me dão licença, vou retirar-me para a cozinha. — resmungou Cinderela.
— E quais seriam as damas que compareceram ao baile?
— Charmin e Charlotte, é claro. — respondeu Zofia, irritada.
Charmin e Charlotte sentaram nas tapeçarias e puxaram a barra do vestido, expondo seus pés grandes e finos, que, com certeza, nunca caberiam no pequenino calçado de Bree.
Ao notar esse pequeno, digo, grande problema, Charmin cochichou para Charlotte:
— E se cortássemos a ponta de nossos pés, Char?
— Não seja tosca, irmã! Somente os dedos crescem de novo, mas talvez devêssemos cortar os calcanhares!— respondeu Charlotte.
— Vocês não vão cortar parte nenhuma— intrometeu-se Zofia.
— Podemos?— pediu o Conselheiro.
— Oh, claro.
Ambas espremeram os pés, quase quebraram algumas falanges e torceram os dedos, porém nada do sapatinho entrar.
— Meu pé deve estar inchado hoje— revelou Charlotte.
— E o meu deve estar... humm, incrustado. — divagou Charmin, séria, erguendo as sobrancelhas.
— Não ligue para as bobagens que pulam da boca de minhas filhas, Conselheiro. — disse a madrasta.
— Oh, eu não me importo, Zofia!— ele riu— E quase me esqueci: o Rei pediu que eu lhe entregasse isso.
Ao sair, o Conselheiro entregou uma carta selada, nela dizia:
Zofia,
Provavelmente já ouviu os rumores que correm ao redor do Reino, e gostaria de dizer em primeira mão que os piores se provaram concretos e autênticos: Edgard, meu filho querido, apaixonou-se por uma dama que não Charmin.
Dói informar que nosso acordo deverá ser desfeito para que ambas as partes saiam o mais ilesas que a situação possa permitir.
Apesar de ter selado este pacto em sã consciência, sinto que não seria correto aprisionar Charmin em uma união fadada ao desastre e fazer, de forma indireta, com que meu filho sofresse.
Adoraria que você entendesse esta premonição paternal.
Mil perdões,
Gustaff Esplendóre Terceiro
Zofia gritou furiosa e dedicadamente. Era uma louca em seu eu original, uma psicopata em sua verdadeira face.
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