Cinderela
13 Capítulo doze
Notas iniciais
Há mudanças que não deveriam acontecer
12
O quarto que Cinderela ocupava era enorme, muito maior do que seu antigo quarto na torre abandonada, porém não tão acolhedor, os aposentos da Pretendente (bem ao lado dos aposentos do príncipe) eram azul claro com janelas brancas e uma cama cheia de almofadas e travesseiros de pluma de ganso, um closet enorme para todos os vestidos, cerimoniais e para o dia a dia, e a escrivaninha era branca com puxadores feitos em prata escovada.
Nas gavetas ainda se encontravam os pertences de Ariana: um camafeu de ouro amarelo, algumas mensagens de seus pais, um mapa do palácio, uma folha de plátano seca, uma carta lacrada e um diário. As prateleiras estavam praticamente vazias, exceto por um frasco do perfume favorito da ex futura princesa.
Cinderela folheou o diário e percebeu que Ariana fora extremamente infeliz quando viva, ela contava da noite em que a escolheram como pretendente, havia páginas onde poesias sobre que estavam borradas, como se ela tivesse chorado nelas, ela mencionou Zofia e seu desejo megalomaníaco de matar Edgard, nas folhas mais recentes Ariana contava sobre ter ouvido risadas vindas do quarto do príncipe, no dia seguinte ela vira Cinderela entrar no quarto dele e repetidas vezes ela ouvira reclamações seguidas de risinhos; a última página era recheada de pequenas marcas e escrito em letras garrafais: EDGARD E CINDERELA.
Ela ouviu uma respiração leve roçando seu pescoço e fechou o diário abruptamente.
— Desculpe. — sussurrou Edgard— Mas eu precisava falar com você.
— O que houve?
— Eu tive uma lembrança, Cind, acho que ela é importante.
— Eu...
Ela não pôde terminar a fala, pois tudo ficou turvo e começou a girar.
Ela estava em um cemitério, tinha doze anos e usava preto, um vestido de renda que chegava aos tornozelos, uma meia calça e um chapéu grande.
O céu estava azul pálido e o vento frio deixara suas bochechas vermelhas.
Tudo que ela conseguira sentir era raiva: toda sua tristeza se esvaíra ao ver o Conselheiro no enterro.
Ele havia colocado na cabeça de Zofia este espírito assassino.
E a culpa era toda dele.
O padre orava pela vida imortal de seu pai, o grande general. Edgard olhava para os próprios pés e em suas roupas pretas parecia mais pálido que de costume.
— Posso dar um último adeus?— Cinderela perguntou ao padre
— Desculpe, Cinderela, mas não. O caixão deve permanecer fechado.
— Eu é que peço desculpas.
Ela se afastou e sentou-se na grama seca. As lágrimas escorriam e braços a envolviam.
Ela não saberia dizer se eram reais ou apenas parte de sua lembrança atordoante.
— Oh, Cind. Não chore. — sussurrou Edgard— Já passou. Eu estou aqui e por você sempre estarei. Você é minha princesa.
— Foi horrível... — disse ela com o rosto afundado no peito de Edgard
— O que você viu?
— Eu vi o enterro dele, Edgard.
— Do seu pai?
— Sim. E nada fez sentido! Eu lembrei que não pude vê-lo...
— Cind, ninguém o viu... Isso não é conveniente?
— Conveniente?
— Ninguém o viu morto. E eu me lembrei do dia em que meu pai recebeu a carta de Zofia, informando a morte do General, eu estava lendo em seu escritório. O Rei e o Conselheiro foram ao enterro. Depois disso não houve homenagens. E ele não era qualquer um na guarda real. Ele era um general.
— Edgard...
— Cinderela você ainda não entendeu?
— Edgard...
— Cinderela! Seu pai está vivo.
— Edgard, dá pra se acalmar? Meu pai está morto, minha mãe está morta, sua mãe está morta, minha Madrasta é uma psicopata e isso não é mais curiosidade, é paranóia. Em primeiro lugar, eu o vi morrer. E, depois, porque ele faria isso?
— Eu não sei, Cind. Mas, admita, há algo de podre nessa história. E eu vou descobrir o que é. E você vem comigo, é claro, a não ser que você prefira fica aí lendo o diário de princesas mortas enquanto choraminga pelos cantos. — ele ergueu uma sobrancelha— Hoje à noite iremos, hm, visitar Zofia e pegar “emprestada” sua correspondência.
— Não. Zofia tem olhos e ouvidos felinos: nos mataria no primeiro suspiro.
— Ah, Cind... Por favor...
— Não.
— Sim.
— Edgard, isso é sério. Zofia te mataria. Ela nos mataria. Você sabe que esse sempre foi o objetivo dela.
— Pelo menos eu morreria ao seu lado. Não vejo como a morte poderia ser melhor.
— Edgard...
— Cinderela, você sabe muito bem que sei ser discreto. A barulhenta é você, não fui eu que fui visto e ouvido andando na “surdina” pelo palácio. Uma suposta surdina. E só pegaríamos as cartas mais antigas. Ela nem repararia. Não me olhe desse jeito, juro que entraremos, pegaremos as cartas e iremos embora.
— Claro. Tá bom. Perfeito. Vamos ao encontro da morte, vossa discretíssima alteza real.
— Seu escárnio me encanta, vossa pretendente real.
Ele a beijou nos lábios delicadamente.
— Nos vemos ás 23 horas, após o jantar.
— Sua insolência ainda me surpreende.
— Você sabe que só faço isso porque te amo.
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