Cinco minutos é o tempo que a droga leva para arrancá-lo do mundo, ao menos daquele mundo comum, e é exatamente o tempo em que Suigetsu está recostado contra aquela parede. Agora, parece haver um tropel de cavalos atravessando com estrondo toda a extensão de seu peito, batendo os cascos com uma força furiosa e derrubando tudo pelo caminho. Ele bate sobre o peito com um punho fechado, mas o tropel não interrompe sua marcha destruidora. Enquanto isso, alguma coisa escorre ao longo da parede oposta, ao lado da porta, e Suigetsu fecha os olhos porque acha aquilo desagradável.

Entretanto, mesmo de olhos fechados, ele continua vendo aquele pedaço de matéria indistinto que desce lentamente até acumular-se junto do canapé. Ele pergunta-se se aquilo está vivo, mas depois se dá conta de que a questão não é importante. Então sorri, passando uma mão suada pelo rosto. A única coisa importante continua sendo Karin. Na luminosidade cósmica em que sua mente transformou-se, Suigetsu vê nuvens de poeira que deformam-se até atingirem contornos humanos. Seus olhos espiam lá do fundo daquele espaço inominável e Suigetsu não gosta do modo como aquelas coisas o observam.

Seu corpo está leve feito uma pluma, mas, por algum motivo, seus movimentos saem estranhos. Karin. Ele experimenta falar o nome dela, porém, sua voz vem de longe, abafada e arrastando-se como um trovão na tempestade. O tempo adquire um novo sentido ali, e embora Suigetsu não o compreenda, sabe que aquela é a hora em que seus demônios aparecem. Ele sente quando aquelas nódoas repugnantes desprendem-se de seu próprio ser e ganham vida independente.

Suigetsu pensa – na medida em que a mente fragmenta-se até quase não restar nada que faça sentido – que talvez aqueles demônios sejam o motivo pelo qual Karin não pode amá-lo. Aquelas coisas o arruínam e fazem com que ele se torne um homem mau. Algo parece se partir dentro dele e Suigetsu geme de dor. Incrivelmente, a dor agora está muito próxima do prazer, e o gemido acaba transformando-se em um sorriso. Ele inclina-se para frente na tentativa de alcançar uma daquelas nódoas que rastejam pelo chão e finalmente a agarra.

Ele a esmaga entre os dedos e a coisa parece se partir em mil pedaços.

Sua mão repentinamente torna-se vermelha e molhada, e Suigetsu acha graça de como as coisas acontecem. Se soubesse que seria assim tão fácil livrar-se daqueles malditos demônios, teria injetado aquela droga há muito tempo. Ele pensa que a sensação que o envolve no momento pode ser definida como transcendente. Karin. Parece-lhe vê-la ali, tão perto de seu rosto que ele aproxima-se para beijá-la, mas então a imagem se desfaz e todo o seu ser é tragado de volta para aquele universo luminoso e incrivelmente profundo da dimetiltriptamina.

Suigetsu quer fazer amor com ela durante uma noite inteira, por horas e horas, até que seu corpo se renda, acabado para sempre. Ele quer sentir o gosto dela na ponta da língua, quer sentir seu cheiro e o calor do interior úmido de seu corpo. Ele quer fazê-la sua – sua garota, sua razão para respirar, sua Karin. Estranhamente, a cabeça reverbera numa pancada e ele grita porque a sensação que o assalta é a de estar caindo numa velocidade inumana. Mundos e épocas distantes passam por ele enquanto ele é sugado pelo redemoinho. Estrelas há muito mortas e criaturas que não existem mais murmuram e depois misturam-se numa única coisa, densa e muito quente.

Uma mão.

A última coisa de que Suigetsu lembra-se é de uma mão.