Cinco Sentidos
7 6 Conclusão
Notas iniciais
Sentado, na beirada da cama, ele passou a mão pelo rosto se recriminando. Estava vestido apenas da cintura para baixo, sacudindo freneticamente a cabeça em negativa, como se reprovasse continuamente a si mesmo. Não se atrevia a olhar para ela. Há vários minutos que estava assim, virado para o lado oposto, encarando a parede clara e discretamente decorada do quarto de Jemma.
Da janela, era possível avistar o movimento das ruas, tomadas por veículos diversos e pela pressa das pessoas – minúsculas, da altura em que se encontrava – que andavam e corriam pelas calçadas. Ouvia-se o barulho dos automóveis, de buzinas barulhentas, sinalizando que um novo dia havia chegado e a vida continuava correndo efervescente do lado de fora daquelas paredes...
Nada mudou. Inclusive em sua relação com Simmons. Era inútil pensar o contrário. Cogitar a possibilidade de que eles pudessem mudar o status de seu relacionamento de amizade para algo mais. Jemma definiu os termos de seu estudo desde o começo. Tratava-se puramente de um experimento científico, até porque ela não via o sexo através de uma perspectiva moral e, sim, sob uma ótica racional. Ela chegara a mostrar certa preocupação com o fato de que aquilo pudesse prejudicar a amizade entre eles, mas é claro que não estava preocupada com si própria e, sim, com Fitz. Receosa de que ele a encarasse diferente uma vez que dessem início à sua peculiar pesquisa.
Agora, ele repassava mentalmente todos os termos de seu acordo. Todas as conversas preliminares que tiveram acerca daquele experimento. E não podia evitar censurar a si mesmo por considerar um avanço em seu relacionamento. Isso era mandar às favas todos os seus princípios éticos e profissionais. Algo que Jemma jamais faria. Apertou os olhos, insultando a si mesmo em pensamento.
Havia uma sombra de um sorriso no rosto de Simmons quando despertou. Porém, esta logo desvaneceu assim que ela se deu conta de que havia algo errado... Os braços de Fitz não estavam mais ao seu redor, ela não mais sentia o calor da pele do engenheiro na sua...
Confusa, girou o corpo devagar sobre a cama, virando-se para o outro lado e encontrando Fitz, sentado na beirada, de costas para ela, com a cabeça enterrada entre as próprias mãos.
— Fitz...? – ela o chamou, cautelosamente.
Ele não respondeu.
— Fitz? – tentou novamente, com mais determinação.
O engenheiro limitou-se a erguer a cabeça, ainda sem virar-se na direção dela. Deu um prolongado suspiro, como se ponderasse a ideia de encará-la olhos nos olhos.
— O que houve? – Jemma perguntou, já consumindo-se de impaciência, sentando-se na cama e puxando o lençol para cima de modo a cobrir sua nudez – há algo errado...?
— Sim, há! – ele a interrompeu bruscamente, então, finalmente virou-se para fitá-la. Havia desesperança em seu olhar e Jemma não soube indicar a procedência daquela expressão de desalento. Estava genuinamente intrigada – Jemma... Eu sinto que isso foi longe demais.
Ela franziu o cenho, ainda sem compreender onde ele queria chegar.
— Isso...?
— Esse experimento científico – tornou ele, um tanto ríspido – acontece que isso deixou de ser... De ser apenas um experimento científico pra mim – disse de uma vez, sem rodeios.
— O que quer dizer? – indagou, ainda confusa.
Fitz riu sem humor antes de responder.
— Ah, Jemma... Eu sinto muito. Você deixou bem claro desde o início de que isso se tratava... Mostrou preocupação com nossa amizade, sempre encarando toda essa história de um ponto de vista profissional que eu não fui capaz de sustentar.
— Mas como...?
— Eu me apaixonei por você! – ele a cortou, abruptamente, sem olhá-la nos olhos, no entanto. Olhar para ela exigia um esforço que estava além de sua alçada – ou, talvez, eu sempre estive apaixonado por você, só não tinha me dado conta... Ou não queria aceitar esse sentimento de modo a não acabar com tudo o que construímos durante todos esses anos.
Jemma o fitava ligeiramente boquiaberta. Chocada demais para pronunciar qualquer som, ainda que fosse uma interjeição de surpresa. As palavras lhe faltavam. Era como se todo o seu vocabulário houvesse fugido de sua mente, evadido da memória.
Como o silêncio constrangedor se instalou no recinto, Fitz não teve outra alternativa que não tornar o rosto novamente na direção dela. Nos olhos de Jemma, encontrou apenas o choque diante daquela revelação inesperada.
— Nós não deveríamos ter iniciado isso... Assim, poderíamos continuar seguindo em frente como sempre seguimos. Apenas como amigos. Mas... Todas essas noites com você... Te tocando de uma forma que eu nunca ousei pensar em tocar... Me desculpe por isso! – disse ele humildemente, o rosto tomado pela vergonha que sentia – Eu só não poderia continuar fingindo ou tentando enganar a mim mesmo. Você não precisa responder se não quiser e... Bem, você decide o que fazer com essa informação – prosseguiu enquanto levantava-se da cama, vestindo a camisa, abotoando-a apressadamente e com um pouco de dificuldade – por ora, eu só posso me desculpar. Eu deveria ter sido tão profissional quanto você. E não estragar tudo como estou fazendo agora. Sinto muito! – disse, por fim, o semblante pesaroso enquanto fechava a porta do quarto com um estrondo e deixava o apartamento a passos apressados.
Jemma permaneceu na mesma posição, ainda procurando digerir a cena que acabara de se desenrolar diante dos seus olhos.
Fitz havia mesmo confessado sua paixão por ela antes de sair de sua cama, de seu quarto e, por fim, de seu apartamento? E o que ele pretendia agora? Sair de sua vida?
Aquele pensamento lhe afligiu. Sentiu, de repente, uma sensação desconfortável e esmagadora em seu peito, como se o coração fosse um fardo pesado demais para ela suportar.
Ela ainda estava confusa e extremamente surpresa. Mas não poderia permanecer inerte, de modo que levantou da cama de um salto, procurando por suas roupas e encontrando-as sobre uma cadeira, no canto do quarto. Eram as mesmas peças que usara na noite anterior e que haviam sido esquecidas no tapete da sala enquanto ela e Fitz se entregavam um ao outro na última etapa de seu estudo. Na certa, ele as havia trazido para o quarto juntamente com suas próprias roupas e, ao mesmo tempo em que se vestia, parado para pensar em tudo o que acontecera entre eles.
Oras, ele dormira em seu quarto, sobre sua cama, envolvendo-a em seus braços. Eles haviam combinado desde o início que manteriam seu experimento em uma esfera profissional. No entanto, o final da noite anterior, culminou em algo extremamente íntimo e pessoal.
Jemma levou uma mão à testa e foi a vez dela censurar a si mesma. Não era à toa que ele se encontrava confuso daquela forma.
*
Ao deixar o apartamento de Simmons, sentiu alguns pingos de chuva atingirem os ombros de seu casaco e sua cabeça. Ele andou por horas a fio sob a chuva leve, porém persistente, repassando na memória os acontecimentos dos últimos dias e procurando recordar em que momento, toda aquela história de estudo acerca da atuação dos sentidos no sexo, havia fugido ao controle e despertado nele sentimentos que iam muito além da costumeira e confortável amizade que sentia por Simmons.
Que ideia foi aquela de envolver-se fisicamente com sua amiga? Ele não poderia topar uma proposta absurda daquelas a menos que...
A menos que já estivesse atraído por ela? Que quisesse mesmo tocá-la e senti-la daquela forma? Ele sacudiu a cabeça, decepcionado consigo mesmo. Lá estava ela sendo profissional e ele passando longe de qualquer conceito de ética que houvesse conhecido... Fitz jamais teve a intenção de desrespeitá-la e, agora, sentia-se horrível. Culpado por, provavelmente, destruir sua amizade com Jemma. Apertou os olhos, jogando a cabeça para trás, como se clamasse aos céus por alguma intervenção, por alguma luz que indicasse o que deveria fazer para consertar o tamanho estrago que fizera.
Ele andava a esmo pelas ruas, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. A pluviosidade se intensificava e, logo, o que era uma chuva leve se converteu em um intenso temporal. Não podia caminhar sem rumo para sempre, ainda mais sob o risco de adoecer por conta da chuva que açoitava suas costas impiedosamente, penetrando pelo tecido de suas roupas e congelando até seus ossos. Isso não lhe traria as respostas que procurava.
Todo aquele efeito dramático de caminhar, melancólico, sob um temporal era belo em uma cena de cinema, mas ineficaz na vida real. E até mesmo idiota. Deveria voltar para casa, tomar um banho morno, vestir roupas secas e aquecer-se embaixo de cobertas antes que pegasse um resfriado.
Apressou o passo, de modo a chegar o mais rápido possível em casa e surpreendeu-se antes de subir os degraus de entrada do edifício em que residia. Jemma estava lá, trajando um pesado sobretudo e segura sob a proteção de seu guarda-chuva. Ele estacou a princípio, devido surpresa, então aproximou-se com passos receosos até se ver diante dela.
— O que está fazendo embaixo de chuva? – ela perguntou em um tom de repreensão.
Fitz a fitou, confuso.
— Jemma, o que você...? – mas suas palavras foram cortadas pelos lábios dela que capturaram os seus de imediato, como se não quisesse mais perder tempo. O beijo, doce e afável, pareceu afugentar o frio que assaltava o corpo de Fitz, prolongando-se por mais de um minuto e fazendo com que todo o universo ao redor deixasse de existir naquele meio tempo. Uma das mãos dela foi parar em seu cabelo, correndo os dedos deliciosamente por entre seus salientes cachos. Com a outra, ela permanecia segurando o guarda-chuva sobre suas cabeças. Ele não se conteve em envolvê-la em seus braços e Jemma não reclamou do fato de ele estar totalmente ensopado e congelado, consequentemente, molhando o casaco que ela trajava.
Por fim, seus lábios se afastaram e Fitz tornou a olhá-la com certo espanto, como se ela não passasse de uma miragem ou uma ilusão de ótica.
— Você está mesmo aqui?
Ela revirou um pouco os olhos, um sorriso iluminando seu rosto.
— É claro que eu estou.
— E por quê? – ele perguntou, ainda confuso.
— Eu vim atrás de você – disse como se fosse óbvio, erguendo os ombros de maneira adorável – não é isso que se supõe que uma namorada deva fazer? – continuou, o rosto ruborizando levemente.
O coração de Fitz pareceu dar um salto em seu peito ao ouvir aquela palavra.
— É isso que você é?
— Eu acho que é você quem tem que me responder. Eu já tenho minhas próprias convicções.
— Mas... Bem, eu quero que você seja – tornou ele, terna e honestamente – eu só não entendo... Tudo o que aconteceu entre nós... O nosso estudo...
— Fitz, eu não poderia fazer isso com mais ninguém.
— Você disse que estava sendo profissional e encarando tudo sob uma ótica racional e não emocional...
— Eu sei o que eu disse, droga! – agora ela soou rude e irritada – mas um experimento científico envolvendo algo tão íntimo? Acha mesmo que eu faria isso com qualquer outra pessoa?
Ele ainda parecia desorientado diante daquela nova e surpreendente informação. Mas havia um novo brilho em seu rosto, uma leveza em seu semblante, uma pureza inegável e indiscutível em seu olhar. Parecia aliviado, como se tivesse acabado de retomar a esperança.
Jemma sorriu diante daquela expressão deslumbrada no rosto de Fitz e encarou seus lábios que soavam tão convidativos. Não hesitou em aproximar-se para um novo beijo. O seu primeiro como namorada de Fitz, como ela mesma havia sugerido. E, talvez, por isso mesmo, interrompido de maneira brusca e desconcertante pelo engenheiro, que a afastou para que pudesse virar a cabeça para o lado e espirrar.
— Ugh, Fitz! – exclamou entre repreensiva e receosa – por que diabos estava embaixo de chuva? Está encharcado agora.
— Me desculpe... – ele suspirou longamente, mantendo seus braços ao redor da cintura de Jemma – não estava chovendo tão forte quando eu saí de seu apartamento. Eu caminhei por horas...
Agora ela lançou um olhar compreensivo a ele, dando-se conta de que ele esteve andando pelas ruas nas últimas horas, refletindo sobre as palavras que dissera em seu quarto naquela manhã.
— Eu até me compadeceria, mas... Você me deixou esperando por horas em frente ao seu edifício, embaixo de um guarda-chuva. Pensei até que estivesse me evitando – declarou um tanto emburrada.
Fitz deu um sorriso enviesado diante daquela expressão.
— Em minha defesa, eu posso afirmar que jamais imaginei que você viria.
— Eu sei disso – foi a vez de Simmons demonstrar ternura em seu semblante ante as palavras dele — e também te perdôo porque… Bem, não é todo dia que alguém me faz ter orgasmos múltiplos — sussurrou com um ar malicioso.
O engenheiro riu, mas não conseguiu evitar que o rubor lhe cobrisse a face.
— Vamos entrar?
— Eu achei que jamais diria isso – ela gracejou antes de ambos seguirem, de mãos dadas, para dentro do prédio de Fitz.
*
Com o pretexto de que ele não poderia ficar com aquelas roupas molhadas, sob o risco de pegar um resfriado, ela não tardou a despi-lo, começando pelo seu casaco.
— Se partirmos de sua lógica... De que eu posso... Pegar um resfriado... Se continuar com as roupas molhadas... Você estaria correndo risco agora, não? Ao me beijar? – perguntou ele entre um beijo e outro, também se ocupando de desabotoar o casaco dela, ao mesmo tempo que fechava a porta atrás de si com o pé.
— Eu posso parar se você preferir – provocou ela com um sussurro ao pé de seu ouvido.
— Oh, não! Eu só estou preocupado com você.
Ela não conteve uma risada, pensando no quão fofo ele era.
— Não se preocupe, eu sou bem resistente. Não tenho baixa imunidade... Espero que esteja me guiando para o seu quarto – disse, enquanto dava passos para trás, sendo orientada por Fitz e amparada pelas mãos dele em seus quadris. Ela deu um gritinho ao sentir que ele a encostara contra uma parede, beijando-a com ardor.
— É para 0 meu quarto que você quer ir? – perguntou durante uma pausa no beijo e Jemma não pode evitar desviar o rosto brevemente para o tapete no centro da sala do engenheiro.
— Definitivamente! – respondeu, taxativa; levando suas mãos ao redor do pescoço de Fitz e aproximando os lábios do ouvido dele – eu quero ir para o seu quarto, para a sua cama... – completou em um sussurro.
— Você manda!
E, pela primeira vez, eles fizeram amor. Como Fitz desejara na noite anterior. Como Jemma desejava já há um tempo. Isso não queria dizer, no entanto, que não houve lascívia, gestos e toques mais ardentes durante toda aquela tarde em que se esqueceram do restante do mundo, entre as paredes do quarto de Fitz. Na verdade, havia na relação entre eles, um perfeito equilíbrio entre a ternura e a volúpia. O sexo fora intenso, quente e, desta vez, contando com a colaboração de todos os sentidos combinados, em harmonia.
Desse modo, seus ouvidos estavam atentos a cada suspiro, gemido, lamúria, palavra de incentivo e pedidos indecorosos que eram prontamente atendidos. O perfume de um inebriava o outro. O sabor de seus corpos era apreciado por suas línguas e bocas. Por fim, eles eram contemplados pela visão um do outro, imersos em um êxtase absoluto, com expressões de deleite estampando suas faces ao mesmo tempo em que o prazer descomunal tomava conta de seus seres por inteiro.
Finalmente, poderiam apreciar o sexo sem amarras, sem a necessidade de suprimir nenhum de seus sentidos.
Estavam exaustos, lado a lado, sobre a cama quando terminaram, levando quase cinco minutos para normalizar o ritmo de suas respirações.
Após finalmente se recuperar, Jemma, que mantinha os olhos fechados, tornou a abri-los de modo a encarar Fitz com um sorriso ardiloso.
— Sabe o que concluí desse estudo, Doutor Fitz? – indagou com um ar de atrevimento.
— O quê, Doutora Simmons? – tornou ele, embarcando em sua brincadeira.
— Que eu realmente amo você – respondeu, sem hesitar.
Ele sorriu em resposta.
— Finalmente chegamos a um consenso? Porque eu tirei a mesma conclusão.
Jemma aproximou-se, aninhando-se em seus braços.
— Você ainda acredita que o sexo é puramente tátil? – perguntou ele, genuinamente curioso – ou concorda comigo que ele depende dos cinco sentidos combinados?
— Sinceramente? Creio que é algo subjetivo...
Fitz meneou a cabeça, assentindo.
— No nosso caso, por exemplo... Depende de mais do que tato ou dos sentidos atuando em consonância – continuou, agora olhando dentro dos olhos de Fitz – depende exclusivamente de um sentimento – finalizou.
O engenheiro não poderia concordar mais. E expressou sua aquiescência partilhando com ela um novo beijo apaixonado.
Em poucas semanas, ingressariam em uma divisão sigilosa da SHIELD. Só esperavam que o status de seu relacionamento não fosse visto com maus olhos pela organização para a qual trabalhavam.
Mas não queriam se preocupar com isso naquele momento. Por ora, bastava que estivessem juntos, finalmente assumindo seus sentimentos. Mais do que amigos, parceiros de laboratório ou amantes curiosos envolvidos em uma pesquisa peculiar, agora eles eram um casal.
F I M
Fale com o autor