Notas iniciais
O estímulo, dessa vez, é visual. E é Jemma quem sugere a melhor forma de executar a quarta etapa de sua pesquisa empírica.

— Eu sinto que isso se tornou... Uma competição, ao invés de um estudo.

Enfim, Fitz tomou coragem para verbalizar o que vinha lhe incomodando há dias. Ele e Jemma conversavam sentados sobre o tapete da sala da bioquímica. O mesmo que servira de campo para as duas primeiras etapas de sua singular pesquisa.

— Não podemos deixar isso se tornar uma guerra velada entre nós – complementou.

— O que quer dizer? – Jemma se fez de desentendida, agitando as mãos sobre o colo, sentada sobre os próprios joelhos.

Mediante seu comentário, o engenheiro a fitou com um ar de reprovação.

— Não finja que não sabe. Estamos lutando para decidir quem está certo e quem está errado. Não estamos tentando chegar a um consenso e, sim, provar, cada um, o seu ponto. É como se estivéssemos em um duelo, ao invés de um dueto.

— Fitz – ela rolou os olhos um pouco – isso nunca teve a intenção de ser um dueto. Não se trata de um solfejo musical e, sim, de um estudo com termos bem definidos. Sobre o que você diz, de cada um estar tentando provar o seu ponto... Bem, esse foi o ponto de partida da nossa pesquisa. Temos uma visão diferente. É natural. E todas as minhas anotações, ao final de cada etapa, refletem as conclusões a que realmente cheguei...

— Nem tente, Jemma! — Fitz ergueu uma mão no ar, sinalizando para que ela parasse de argumentar – Você sabe muito bem que não é o que esta acontecendo aqui. Estamos finalizando, cada etapa, irritados um com o outro por conta das nossas visões contrárias e opiniões divergentes. Sendo que deveríamos manter isso em âmbito profissional.

Jemma o fitou com um semblante atordoado.

— Nunca vi isso de outra maneira.

— Vai dizer que desligar o telefone na minha cara sem me dar chance para falar não foi uma revanche pessoal sua? – inquiriu.

— Não! – ela negou veementemente, então fez uma pausa como se estivesse ponderando melhor as palavras do cético engenheiro – Bem… Sim! – admitiu meio a contragosto, afinal não havia como esconder.

Ela procurou engolir a cólera momentânea que lhe invadiu ao notar o olhar petulante com que Fitz a encarava após sua confissão.

— Está vendo? Não podemos levar para o lado pessoal – disse ele, não percebendo, a princípio, que seu comentário dava margens para diversas e dúbias interpretações, gerando uma onda de constrangimento que atingiu a ambos.

— Sempre foi profissional para mim, Fitz – tornou ela com a cabeça baixa e um tom de voz contido.

— Não! Não há dúvidas – ele rebateu prontamente, procurando consertar sua gafe – Não é disso que estou falando. Não podemos nos deixar irritar e nem brigar por isso. Isto é...

— Eu entendi! – ela o interrompeu, na tentativa de amenizar o clima desconfortável que se instalou entre eles – Em minha defesa, posso dizer que acato suas opiniões. Até concordo com você em termos. Só não em um plano geral.

Ele agitou a cabeça em negativa, discordando.

— Sabemos que não é isso que acontece, Jemma. Sua teimosia impera.

Ela respirou fundo, mordendo a parte interna dos lábios, novamente, procurando não demonstrar sua contrariedade em face do comentário dele.

— Devemos ceder mais se quisermos ir adiante... Se quisermos, de fato, prosseguir com nosso estudo.

— Ceder é a palavra de ordem – disse ela, arqueando uma sobrancelha de maneira maliciosa.

Fitz não evitou um sorriso enviesado.

A bioquímica desviou o olhar por um momento, pensando em como dariam continuidade ao seu estudo após aquela conversa.

— Você teve alguma ideia de como fazer isso? – perguntou, referindo-se à etapa da visão e quebrando um silêncio de quase meio minuto.

Fitz, sentado em posição de lótus, há poucos metros de onde Jemma estava, deu de ombros, sacudindo a cabeça em negativa.

— Não consegui pensar em nada.

Simmons arqueou uma sobrancelha, uma expressão de desafio se desenhando em seu rosto.

— Isso é uma surpresa. É sempre você a ter as ideias.

O engenheiro deu um longo suspiro, incomodado com o tom de cinismo contido nas palavras de sua melhor amiga.

— Na verdade, eu pensei em algo. Mas rejeitei a ideia no mesmo minuto.

Ela franziu o cenho, entre confusa e curiosa.

— O que seria?

Fitz tomou fôlego antes de falar, sem olhar para ela.

— Pensei em... – havia uma nota clara de constrangimento em seu tom de voz – filmes adultos...

— Ewww! – Ela deixou escapar uma interjeição de repulsa.

— Eu sei...

Novamente ficaram em silêncio.

— Ok... – Jemma levantou-se cuidadosamente do tapete, pondo-se de pé bem diante de Fitz – como é sempre você quem tem as ideias, eu resolvi tomar a liberdade e pensar em um meio de executar a quarta etapa.

Com a cabeça levemente inclinada para trás, a fim de encará-la, ele observou enquanto Jemma abria os botões do trench coat vermelho que vestia, revelando sua silhueta coberta pela lingerie vinho que incluía... Bem, um corselet...

Ele não conseguiu evitar, tampouco, procurou disfarçar sua surpresa, admirando-a levemente boquiaberto, não se importando com o quanto a cena soava embaraçosa.

Fitz já havia notado, com certa curiosidade, que ela trajava um trench coat sem que fosse realmente necessário. O clima estava frio lá fora, mas dentro de seu apartamento, ela poderia ficar mais a vontade, uma vez que contava com ar-condicionado.

Entretanto, havia uma explicação razoável para a peça: a surpresa que o aguardava por baixo...

Sua respiração falhou por um momento, enquanto ele se erguia do tapete, ficando cara a cara com Jemma. A expressão da bioquímica foi de maliciosa para desorientada ao perceber a hesitação de Fitz. Ele achou particularmente adorável aquela inesperada ingenuidade e inocência contidas no olhar dela combinados à sua vestimenta audaciosa. Aquilo apenas o instigou ainda mais, fazendo com que uma onda de calor percorresse toda a sua pele.

Quanto à hesitação de Fitz que confundira a bioquímica, havia uma justificativa totalmente aceitável:

— Ok! – ele bufou antes de continuar – como eu, supostamente, deveria fazer isso sem te tocar?

A confusão imediatamente se desfez no rosto de Jemma, cedendo espaço a um semblante presunçoso.

— Não sorria vitoriosa, Jemma! Isso ainda não acabou – tornou ele, com um tom de voz grave empregado para repreendê-la, mas também por conta da excitação que tomava conta de seu ser.

Jemma, por sua vez, não deixou de atentar para o quão sexy ele soava quando amofinado.

— Você está certo. Não acabou mesmo – disse, desviando o rosto na direção do espelho vertical pendurado no alto da parede de sua sala e ligeiramente inclinado para frente. Fitz acompanhou seu olhar, novamente surpreso.

O engenheiro já havia notado o novo item disposto no ambiente, mas, ao se deparar com ele, acreditara que Simmons estava apenas redecorando a casa. Ele encarou o arranjo, observando seus reflexos por um instante, então fechou os olhos, se dando conta do motivo de o espelho estar ali. Mordeu os lábios, procurando se conter.

— Então, vamos nos ver enquanto fazemos isso? – perguntou, meio vacilante, já sabendo a resposta de antemão.

— Algo errado?

— Hmmm… – ele tornou a olhar nos olhos dela – eu não sei se tenho autoestima suficiente para isso – confessou.

— Ugh, Fitz! – a bioquímica rolou os olhos, consumindo-se de impaciência – quer fazer o favor de colaborar!

— Hey! Não questione minha contribuição para a ciência – rebateu irritado, ao mesmo tempo em que deslizava o trench coat que ela vestia pelos seus ombros, dando início à nova etapa de seu estudo.

— Você é inacreditável, Fitz! – ela o parafraseou, usando suas próprias palavras contra ele.

No entanto, o instante de hostilidade entre eles pouco durou.

Logo, estavam sobre o tapete, como de costume. Encarando seus reflexos no espelho, encontrando, nos olhos um do outro, o desejo que ardia dentro deles e que estava expresso em suas faces.

Jemma estava em uma posição conhecida como cowgirl invertida – sentada de costas sobre ele, os joelhos apoiados no chão, sentindo o membro dele tão profundamente dentro de si, como ela não pensou ser possível naquela posição. Obviamente, ajudava o fato de que Fitz não estava completamente deitado. Ele permanecia sentado, as pernas estendidas para frente, os braços para trás, as mãos apoiadas no tapete de modo a sustentar seu tronco. Assim, impulsionava seus quadris para cima, indo de encontro ao corpo dela e aos movimentos constantes de vai e vem que ela fazia sobre ele.

A posição beneficiava a ambos. Eles procuravam controlar seus gemidos e suas respirações, enquanto espiavam a performance um do outro, bem como as suas próprias, através do reflexo no espelho.

Aquilo soava extremamente obsceno.

Por mais que Jemma relutasse em admitir como Fitz, ela também sentia uma pontinha de embaraço em fazer sexo em frente ao espelho. Não tinha ideia de como costumava se portar nesses momentos e temia que isso a limitasse, a refreasse, fizesse com que ela não conseguisse se soltar e se sentir confortável. Mas, conforme avançavam em sua cópula e deixavam que os instintos os guiassem plenamente, Fitz e Simmons foram deixando de lado todas as suas inseguranças quanto aos seus corpos, desempenhos e suas imagens em pleno ato sexual e se rendendo ao desejo e a excitação que os dominava.

O engenheiro se encontrava completamente liberto de suas roupas. Jemma, em contrapartida, ainda sustentava o corselet. Em um dado momento, quando fez menção de remover a peça, sentiu as mãos de Fitz sobre as suas, impedindo-a e quebrando um dos protocolos da etapa – que era exatamente tocarem-se o mínimo possível além do obviamente necessário. Ela o fitou através do espelho, e o viu agitar freneticamente a cabeça, em negativa, compreendendo que ele desejava que ela mantivesse a peça.

E fora realmente uma boa ideia. Por incrível que pareça, a bioquímica se sentia mais sexy, confiante e extremamente maliciosa portando aquele corselet do que se estivesse completamente nua.

De fato, se tratava de um acurado estímulo visual.

Ele aproveitou para contemplar melhor a mulher sobre si pelo espelho. Especialmente a maneira como ela se agitava em seu colo em uma frequência precisa. Ou como ela mordia os lábios inferiores ou levava a mão à boca na tentativa de refrear seus gemidos. Como era hipnotizante o movimento circular dos quadris dela sobre si. Jemma era deliciosamente perfeita.

Ela observou a linha rija da mandíbula dele pelo reflexo do espelho; os olhos extremamente focados; a espessura dos braços que sustentavam seu tronco; o brilho de sua pele derivado das gotículas de suor; as veias proeminentes de seu pescoço sinalizando que ele estava prestes a explodir em um orgasmo avassalador.

Era impossível ignorar a dopamina liberada por seus cérebros mediante todos aqueles estímulos e bombeada através das células de seu organismo, desencadeando impulsos nervosos que os levaram à uma sensação de plenitude incomparável. Bem como a pontada de orgulho e satisfação que os atravessou ao, literalmente, verem o quanto eram capazes de proporcionar extremo prazer um ao outro.

*

O barulho do lápis rabiscando o bloco de notas parou abruptamente.

Jemma, já trajada com seu trench coat novamente, ergueu a cabeça para olhar para Fitz. O engenheiro acabara de vestir a camisa e se concentrava em abotoá-la. Eles se vestiram rápido demais dessa vez...

Após um momento de minuciosa observação, procurando analisar o motivo do silêncio de Fitz, ela conseguiu capturar sua atenção. O engenheiro não deixou de atentar para a expressão no rosto de Jemma. Ela parecia encará-lo com expectativa.

— O que foi?

— Você não vai dizer nada?

— O que espera que eu diga? – tornou ele, sentando-se ao lado dela no tapete, agora totalmente vestido.

— Bem... Suponho que, de acordo com nossas novas diretrizes estabelecidas antes de executarmos a quarta etapa, eu deveria levar em conta as suas conclusões e anotá-las, não?

Fitz engoliu em seco, sem olhar para ela.

— E então...? – ela insistiu.

— Bem... – ele respirou fundo antes de prosseguir – o estímulo visual foi apenas isso: Um estímulo. Teve uma contribuição significativa na execução da etapa, mas...

— Foi apenas complementar – Jemma o interrompeu, com um novo sorriso vitorioso.

Ele revirou os olhos, irritado.

— Hey, não foi você quem disse que não deveríamos nos irritar ou brigar um com o outro por conta de nossas conclusões acerca de cada etapa do processo? – disse, o repreendendo.

— Sim, sim... Você está certa. E eu admito que sou obrigado a concordar com você. A visão, nesse caso, foi apenas um elemento a mais. Algo que apenas instigou o toque – reafirmou, cabisbaixo, dando o braço a torcer pela primeira vez desde que iniciaram seu estudo.

Jemma fez mais algumas anotações em seu bloco de notas, sem o ar presunçoso e petulante das outras ocasiões.

— Então é isso! – Fitz levantou-se, de repente, dando a entender que já era hora de deixar o apartamento de Jemma –Podemos partir para o trabalho teórico, fazendo um balanço de nossas conclusões a partir da pesquisa empírica. Podemos discutir isso na próxima semana se você estiver de acordo...

— Hey, Fitz! Espere! – ela o cortou, agitando uma mão no ar, tentando fazer com que ele parasse de falar – ainda temos mais uma etapa antes de partir para a teoria!

O engenheiro franziu o cenho, confuso.

— Mais uma etapa?

— Sim, o tato! – disse, como se fosse óbvio.

— Não faz sentido, Jemma – tornou Fitz com um riso contido – se você mesma defende que o tato foi elementar nas demais etapas e o restante dos sentidos se tratavam apenas de meros complementos – ele fez o sinal de aspas com os dedos – porque uma etapa totalmente dedicada ao tato?

— Ora, porque será um estudo incompleto se pularmos esse passo. Precisamos de uma etapa centrada apenas no toque. Assim, teremos uma visão mais abrangente da importância dos demais sentidos quando obstruídos.

Fitz manteve seus olhos fixos nos dela, procurando entender aonde ela queria chegar.

— Não parece necessário.

— Mas é! – tornou ela, obstinada.

— Ok! – sabendo que ela não se daria por vencida, ele resolveu concordar – sem visão, paladar, audição ou olfato. Apenas toques...

— Apenas toques – repetiu ela.

Enfim, avançariam para a última etapa de seu estudo.

Notas finais
Vem trilha sonora! https://www.youtube.com/watch?v=rd8bY1aRWWY HAHAHAHAHA! #Brinx ;)