Notas iniciais
Morangos e chocolate em calda

— Eu sei que fui eu quem disse que deveríamos manter os olhos vendados, mas vai ser difícil... – ele coçou a nuca – ainda mais quando envolve morangos, chocolate em calda... Se eu não estiver olhando, posso esbarrar acidentalmente nas travessas e causar uma verdadeira bagunça na sua sala.

Jemma achou particularmente adorável como ele se preocupava com tudo.

— Levando em conta o quanto suas mãos são habilidosas, duvido que tenha grandes problemas, mesmo com os olhos vendados – Supostamente, aquele era para ser apenas um pensamento que ela não ousaria verbalizar. Mas Jemma deixou escapar sem perceber que o estava proferindo em voz alta.

Ele arqueou as sobrancelhas, a encarando com um semblante confuso, ainda tentando assimilar as palavras que ela acabara de pronunciar. Jemma, por sua vez, devolveu seu olhar tentando, sem sucesso, disfarçar seu súbito constrangimento.

— Quer dizer... Você sabe que é bom com as mãos... Você é engenheiro, afinal... E... – quanto mais ela tentava consertar, pior ficava – Podemos começar de uma vez? Eu tenho urgência em terminar porque tenho outros assuntos para resolver – disse, determinada ao perceber que um sorriso divertido curvava os cantos dos lábios de Fitz.

— Ok. Sem vendas, então.

Ela ergueu os ombros.

— Você é quem sabe... Em tese, deveríamos inibir a visão.

— Abaixamos um pouco a luz do seu apartamento, Podemos manter os olhos fechados a maior parte do tempo... Daremos um jeito.

— Tudo bem, então. Se você acha que é melhor assim – ela deu de ombros.

*

Todas as suas roupas já estavam pelo chão, espalhadas à sua volta, pelo tapete, quando Fitz mergulhou um morango no chocolate em calda. Jemma manteve seus olhos cerrados, enquanto o sentia encostar o morango em sua boca. Ela entreabriu os lábios, lambendo em torno da fruta, saboreando a calda de chocolate que a cobria. Finalmente ela o mordeu, apreciando melhor seu gosto.

Ele deslizou outro morango banhado em chocolate pela pele nua dela, por entre seus seios, sua barriga, até a região da virilha antes de dar uma mordida naquele suculento morango. Então fez o mesmo caminho de volta pelo corpo de sua parceira, agora com seus lábios. Outro morango mergulhado no chocolate e ele o esfregou pelos seios dela para logo em seguida lamber o rastro de chocolate que ficara por sua pele. Os gemidos ameaçavam escapar da garganta da bioquímica, mas ela se esforçava para contê-los.

O engenheiro cobriu o corpo dela com o seu, levando aquele terceiro morango novamente à boca de Jemma, fazendo com que ela mordesse uma metade da fruta, enquanto ele mordia a outra e, assim, suas bocas se encontraram, pela primeira vez, em um beijo arrepiante, selvagem e cheio de ardor. Ela sentia o gosto do morango nos lábios do engenheiro, na língua que invadia sua boca. Outra vez, fez um esforço sobre-humano para impedir um arquejo ao senti-lo morder levemente seu lábio inferior.

*

Naquele dia, eles combinaram de não haver penetração.

Depois de todas as preliminares com os morangos e o chocolate em calda, era o momento de partir para a etapa do sexo propriamente dito como parte de seu experimento. E ambos acreditavam que o sexo oral era a melhor opção.

Sentada sobre a face do engenheiro, Jemma sentia os lábios e língua de Fitz em sua intimidade, ligeiros tremores percorriam seu corpo inteiro ante aquela sensação. Inclinou o corpo para frente, a fim de tomar o membro dele em sua própria boca. Fitz sufocou um gemido ao sentir os lábios dela envolverem sua ereção. Aquilo estava muito bom. Aquela sensação era indescritível, revigorante, extasiante... Para ambos. Mas seria ainda melhor se ele estivesse usando os dedos nela, pensou Jemma consigo. Assim, a bioquímica ficava cada vez mais convicta de que o toque era mesmo primordial.

Como se lesse seu pensamento e quisesse contestá-la, Fitz a afastou somente um pouquinho, suspendendo-a, para dizer: Não use suas mãos. Ela sequer reparou que estava alisando-o com os dedos. Jemma fez como ele pediu, deixando sua boca fazer todo o trabalho. Enquanto sentia ora os lábios dele em seu clitóris, ora a língua dele em sua entrada, ela lambia lentamente toda a extensão de seu membro para então abocanhá-lo, sugando-o, concentrando-se na ponta e pressionando sua língua nos pontos que mais lhe davam prazer.

Ele escapou ligeiramente de sua boca quando ela atingiu o ápice, sentindo seu corpo todo estremecer violentamente como consequência daquele orgasmo. Ela quis gemer, mas exercitou seu autocontrole, sendo bem-sucedida em sua tarefa. Então, continuou seus movimentos de sucção no membro dele até que seu parceiro de laboratório também chegasse ao clímax.

Embora o paladar fosse o sentido a ser priorizado naquele dia, ela o tirou de sua boca antes que o prazer absoluto o tomasse por inteiro, permitindo que ele gozasse entre seus seios. Deixar que ele gozasse em sua boca era um pouco demais para ela. Era algo que ela nunca havia concedido a outro homem e não estava preparada para tal, mesmo como parte de seu experimento.

Segundos após ele ter chegado ao auge, Jemma pensou consigo se não havia sido injusto ter gozado na boca de seu parceiro enquanto ela não havia lhe dado a satisfação de fazer o mesmo. Mas Fitz realmente não pareceu se importar. Estava mais centrado no júbilo pós-coito, naquela sensação regozijante que se alastrou por toda sua anatomia, dos fios de seu cabelo até os dedos dos pés. Sua respiração se normalizava e ele parecia voltar a si, recuperando a racionalidade no exato momento em que Jemma começava a deslizar de volta pelo corpo dele, beijando a parte baixa de sua barriga, então a região de seu abdômen, seu tórax, a linha de sua clavícula, seu queixo até chegar à sua boca.

Era um ângulo interessante, um beijo de cabeça para baixo coroando aquele momento. Fora o beijo mais lascivo que ela já partilhara. Havia sido a experiência mais obscena de sua vida.

E em pensar que se tratava apenas de uma experiência científica...

*

Como de costume, ela permaneceu de bruços sobre o tapete, apoiando-se sobre os cotovelos, para fazer suas anotações. Enquanto a ponta da caneta deslizava pelo papel e ela sacudia ligeiramente as pernas no ar, levantando uma após a outra, em movimentos alternados, sentiu algo gelado em seu quadril. Parou de escrever, tornando a cabeça na direção de Fitz que passava um morango com chocolate em calda por sua cintura.

— Fitz, o que está fazendo? – perguntou ela com um sorriso, sentindo um breve arrepio.

— Os morangos ainda não haviam acabado. Não devemos desperdiçar.

Ele se aproximou mais de Jemma, deitando-se ao seu lado no tapete, na mesma posição em que ela se encontrava. Fitz levou o morango à boca dela, o qual ela mordeu prontamente, de um modo mais sensual do que o planejado. Foi involuntário, na verdade.

O engenheiro fitou os lábios dela por tanto tempo após ela dar aquela mordida no morango que acabou por soar um tanto desconcertante.

— Então – disse ele, desviando o olhar, dando-se conta de aquele momento foi deveras embaraçoso – o que você anotou?

A bioquímica arqueou as sobrancelhas em sua direção com um ar astuto.

— Fitz, toda a ideia dos morangos e do posterior sexo oral que fizemos – disse ela sem uma ponta de constrangimento ao proferir aquilo em voz alta – foi realmente brilhante, mas você não atingiu seu propósito. O paladar foi apenas... Um estímulo a mais. O toque esteve presente durante todo o tempo e, obviamente, foi imperativo.

Ele a encarou com uma expressão austera, de poucos amigos.

— Está falando sério? – indagou, irritado, adiantando-se para ler o que Jemma havia anotado em seu bloco de notas. A proximidade fez com que um arrepio involuntário percorresse a pele dela por meros segundos. Teve de mandar um alerta mental ao seu corpo para que se controlasse. A segunda etapa de seu experimento havia acabado por aquela noite, afinal.

— Eu não acredito, Jemma. Não acredito que não consegue ver o que está diante de si. A experiência seria completamente diferente, totalmente outra, se não fosse pelo paladar.

— Sim e eu concordo inteiramente – replicou, tamborilando a ponta da caneta pelo papel – mas isso jamais seria possível sem o toque – ela parou para refletir por um momento – a sensação do morango na minha pele foi imprescindível para me excitar. E, para tanto, o tato foi fundamental.

Fitz bufou, jogando-se para trás no tapete, exatamente como havia feito na outra noite, mas ainda mais frustrado desta vez.

— Eu desisto Jemma. Você e sua teimosia.

Ela ignorou as últimas palavras. Odiava ser chamada de teimosa quando estava apenas certa. Mas o início de sua sentença lhe chamou a atenção.

— Desiste mesmo? – ela perguntou, não conseguindo disfarçar certo receio em seu tom de voz.

Ele a encarou intensamente por um momento. Sem jeito diante daquele olhar, ela desviou o rosto, direcionando seus olhos novamente para as anotações e levando uma mecha de seu cabelo para trás da orelha. Fitz ajeitou-se no tapete de modo a ficar sentado.

— Eu não vou desistir de nosso experimento porque temos de ir até o fim. Não cabe parar uma experiência na metade sem obter resultados concretos. Mas você precisa abrir sua mente, Jemma. Do contrário, estaremos fazendo algo... Totalmente inútil, perdendo nosso tempo.

Abruptamente, ela tornou o rosto em sua direção. Os lábios entreabertos. O engenheiro sustentou seu olhar por um segundo, antes de se afastar com um breve suspiro. Levantou-se, contornando Jemma que permanecia estendida sobre o tapete e passou a recolher suas roupas do chão, vestindo-as novamente.

— O que está fazendo?

— O que lhe parece? – ele levantou os ombros, soando intransigente em sua resposta – estou me vestindo – completou, sem olhar para ela, enquanto fechava o zíper de sua calça jeans.

— Eu sei! Não foi o que eu quis dizer – ela rebateu, irritada com o tom que ele empregara para se dirigir a ela – Eu... O que vai fazer?

— Vou embora – disse ele, como se fosse óbvio, agora fechando os botões de sua camisa – para o meu apartamento – ele pegou o casaco que se encontrava em uma poltrona no centro da sala e se dirigiu à porta – a gente se vê – disse, ainda sem olhar para ela.

A porta fez um estrondo quando se fechou atrás de Fitz. Jemma cerrou os olhos, levemente alarmada pelo barulho.

Bufou ao se ver sozinha em seu apartamento, ainda nua sobre o tapete enquanto seu parceiro de laboratório acabara de sair, aparentemente contrariado pelas conclusões obtidas por Simmons daquela experiência.

Ela não entendia por que ele havia ficado tão irritado. Eles teriam de discutir suas devidas considerações ao final do experimento a fim de chegarem a um consenso. E, por enquanto, aquelas eram as considerações dela.

Rolou pelo tapete, ficando de costas sobre a superfície felpuda – exatamente no ponto onde Fitz se encontrava, minutos antes – os braços estendidos horizontalmente de ambos os seus lados. Ela estava frustrada com a forma como ele havia abandonado seu apartamento e mesmo com o que ele havia dito. Totalmente inútil, tempo perdido. Ele quis dizer mesmo aquilo?

Jemma espantou suas paranoias para longe. Ele quis dizer no sentido de estarem realizando um experimento que poderia não levá-los a um lugar comum. Fitz era profissional e levava a pesquisa muito a sério. Embora o sexo fosse, em essência, algo instintivo que envolvia uma torrente de variadas emoções, o desejo e o puro prazer carnal, Fitz permanecia essencialmente racional.

Ela até pensou em pedir para ele ficar. Ou lhe mandar uma mensagem assim que ele deixou seu apartamento. De modo a apaziguar os ânimos.

Mas esses gestos poderiam colocar seu experimento em cheque.

Era melhor, não. O certo era apenas respeitar as etapas de seu estudo sobre o sexo e os sentidos e não deixar que nada interferisse naquele momento.