Cinco Sentidos
3 Paladar
Notas iniciais
Ouvi barulhos de chaves na porta e olhei para ela. Castiel surgiu, a abrindo, entrando e a fechando.
— Onde você estava? Eu chego aqui e você não está — resmunguei.
Ele largou as chaves no balcão da cozinha e levantou uma sacola que estava em mãos.
— Ah, foi no mercado?
— Fui. Decidi de última hora.
— Comprou o quê? — Levantei e andei até ele. Fui tentar pegar a sacola, mas ele segurou meu pulso.
— Não senhora. — Deu um sorriso de lado.
— Por quê? — Fiz bico.
— Daqui a pouco você descobre. — Me puxou até o sofá e me fez sentar de novo. — Seja uma boa menina e espere aí.
— O que você vai fazer? — perguntei, enquanto ele sumia no corredor do quarto.
— Seja paciente.
Encostei no encosto do estofado e cruzei os braços, esperando. Alguns minutos depois, Castiel voltou, descalço e sem sua jaqueta. Deixou a sacola na mesinha de centro e pegou seu celular do bolso da calça jeans. Mexeu nele e o colocou no sistema de som.
Logo um ritmo conhecido começou a tocar baixinho nas caixas de som. Pearl Jam.
Castiel empurrou a mesa de centro para a parede e estendeu a mão para mim. Assim que a peguei, percebi que ele tinha algo enrolado no pulso. Ele me puxou, me fazendo ficar de pé, então desenrolou o tecido do pulso, uma bandana.
Lancei um olhar desconfiado, não que tivesse adiantado. Ele me virou, e logo colocou aquele tecido sobre meus olhos.
— Castiel... — Ele amarrou a bandana na minha cabeça.
— Relaxa, garotinha. Eu só quero brincar. — Me virou de volta.
— Esse é o meu medo. — Dei risada.
— Senta. — Puxou minhas mãos para baixo, então me sentei no chão, cruzando as pernas.
Comecei a ouvir o barulho da sacola. Parecia que ele estava tirando as compras dela e colocando em cima da mesinha.
— É o seguinte... Comprei algumas coisas, e vou dá-las na sua boca. Você vai comer e vai ter que acertar o que é, enquanto eu passo essa mesma coisa em você.
— Quê?! — Comecei a rir. — Castiel, você sabe que eu sou péssima para adivinhar sabores...
— Eu sei. — Ouvi ele dando aquele sorriso dele.
Opa. Ele ia levar isso a sério. — M-mas e se eu não acertar?
— Bom... aí eu vou ver na hora até quando vou te sujar. Mas não vai ser tão fácil assim.
— Como assim? — Ouvi uma tampinha sendo aberta, e depois ele segurou minha mão com a palma para cima.
— Vamos começar com algo simples. — Ele disse enquanto eu sentia algo meio líquido sendo colocado em minha mão.
Engoli seco, cheia de expectativa e curiosidade.
— Abre a boca, e não vira a mão.
Segurei o riso e abri a boca. Ele tocou meu queixo, me fazendo erguer a cabeça, então senti aquele líquido em minha língua, e no mesmo segundo um gosto doce. Saboreei aquele doce, voltando à posição inicial.
Castiel voltou a segurar minha mão e a levantou, e tomei um susto quando o senti passar a língua onde ele havia colocado o líquido. Eu não sabia o que fazia primeiro.
Castiel riu. — Vai, adivinha.
Tentei prestar atenção no sabor que estava em minha boca, mas a sensação dele lambendo minha mão atrapalhava meu cérebro.
— Ainda não? Vou te sujar mais... — ameaçou.
— Ah...! Calma, calma! — Engoli, sentindo o sabor, tentando lembrar do que era. — Calda de... é... caramelo?
— Finalmente. — Riu e deu um beijo rápido em minha boca.
— Isso não é justo.
— Quem disse que é para ser justo? — Revirei os olhos. Não que ele fosse ver. — Vamos para o próximo...
E assim foi indo. Demorou para eu adivinhar cada coisa? Demorou. Mas com certeza ele estava se divertindo à beça.
Castiel sujou meu pescoço de leite condensado — e provavelmente deixou umas marcas de presente —, sujou minha clavícula de doce de leite, meu antebraço de geleia de morango, meu joelho de pasta de amendoim e meus dedos de nutella.
— Meu arsenal está acabando. — Ele anunciou. — Tenho só mais uma coisa.
— Não sei se fico triste ou feliz.
— Bom, se estiver triste, não precisa acabar aqui, mas deixemos isso para depois... Deita.
— Deitar?
— É.
— Okay... — Sentei mais para frente e deitei para trás.
Castiel levantou, indo para algum lugar, e logo voltou. Ouvi um pote sendo aberto. Ele segurou a barra da minha regata e a subiu, deixando minha barriga de fora.
— Ai meu Deus viu... — sussurrei, rindo.
Ouvi sua risada soprada, e dei um berro quando senti algo gelado acima do meu estômago. Ele começou a rir muito, e em um reflexo levei as mãos até a cabeça.
— Ei! — Ele segurou meus pulsos no ar. — Não é para tirar.
— Eu não ia tirar! Vai logo, esse troço tá gelado!
Ainda rindo, largou minhas mãos. — Abre a boca.
Fiz o que ele mandou enquanto sentia aquele troço gelado derretendo e escorrendo pela lateral do meu corpo. Castiel deu uma colherada na minha boca.
— É sorvete! — Já anunciei.
— Ah, vá. — O senti abaixar. — Mas de quê? — Então começou a lamber o sorvete que escorria. Comecei a rir, já que ele estava me fazendo cócegas. Tentei me concentrar no sabor.
— É... sorvete de... flocos?
— Não. — Sua língua brincava para cima e para baixo, para os lados...
Pelo menos não estava mais gelado, porém, ele tacou mais sorvete no mesmo lugar e eu tremi, choramingando.
— Eu não sei! Baunilha? Chocolate branco? Com pedaços de chocolate?
— Não. — Sentia ele rindo. Mais uma colherada de sorvete. — Ops, sujei sua blusa.
— Ai, Castiel! Você vai lavar!
— Não tem problema. — Ele levantou mais o tecido. — Eu tenho máquina de lavar roupas. — E voltou a lamber.
— Eu não sei do que é. Eu desisto, me rendo!
— Tem certeza? Vai sofrer as consequências.
— Que consequências? Você não disse nada disso antes.
— É porque eu ainda estou pensando nelas. — E minha venda foi tirada. Me sentei, vendo o tanto de embalagem que tinha na mesinha, e vi o bendito sorvete.
— Sério? Cookies and Cream? Como eu ia adivinhar isso?!
— Ué, adivinhando. — Riu, lambendo a colher.
— Quem vai sofrer as consequências agora é você. — Peguei a colher dele, recebendo um olhar provocativo e curioso.
Deixei a colher no sorvete, já meio derretido, e me virei para ele. Peguei a barra da camiseta dele e a subi, e o fiz tirá-la.
— O que você vai aprontar? — perguntou rindo.
Deixei a roupa no chão, peguei o pote e me levantei. Me ajoelhei atrás dele e dei uma boa colherada no doce, e coloquei em sua nuca.
— Ah! — reclamou, curvando as costas, enquanto eu ria sem parar. — Tá escorrendo! — Se tremeu todo.
Tentei parar de rir e comecei a lamber onde o sorvete tinha escorrido, de baixo para cima. Puxei seu cabelo e terminei de limpar a pele da nuca.
— Olha, até que está bom assim, pode continuar.
Eu ri. — Até parece. — Soltei seu cabelo e comi o sorvete da colher. Castiel se virou, me olhando com os olhos semicerrados. Então pegou o pote de mim.
— Então eu vou tacar sorvete até no seu cabelo.
— Sai fora!
Ele riu e me puxou contra ele pela cintura, e deu um beijo em meu pescoço. — Você ainda está com gosto de leite condensado.
— Por que será, né? Não limpou direito.
Deu um sorriso de lado. — Não por isso. — Deixou o pote de lado e apoiou minhas costas, me jogando no chão.
Fiquei rindo enquanto ele voltava a beijar meu pescoço, mais fazendo cócegas do que outra coisa.
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