Cinco Sentidos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
CINCO SENTIDOS
.visão
Alviss não tem certeza de que está acordado. Ele não pode dizer exatamente há quanto tempo ele abriu seus olhos – ou ele não abriu? Quando ele finalmente nota que suas pálpebras estão abertas, ele silenciosamente concorda consigo mesmo que é hora de entrar em pânico. Ele tenta focar seus olhos, tentando desesperadamente ver alguma coisa, qualquer coisa, mas não existe mais nada no mundo, somente escuridão.
Piscando em confusão, estando ferido e cansado, ele precisa de um certo tempo para notar o tecido negro cobrindo seus olhos, roçando suavemente contra sua pele, o impedindo de ver a luz da lua desaparecendo através das grades de metal daquela prisão. Também é impossível notar o olhar intenso que um homem alto e pálido dirige para ele, ou que este homem está sorrindo para o garoto das sombras.
Observando Alviss, Phantom ri.
.audição
O riso de Phantom acorda Alviss dos sonhos que ele não tem certeza se está tendo (é mais como se fosse um pesadelo, ele pensa, mas não é o momento certo para pensar nesse tipo de coisa). Claro que ele sabe que é Phantom. Quando o cavaleiro gargalha, todo o mundo parece quebrar. Soa como metal contra metal em uma batalha, soa como um grito de guerra, como sede de sangue, com doença e loucura e morte.
Alviss pensou a princípio que era ódio, pura e simplesmente algum tipo de aversão por qualquer coisa viva, mas se fosse tão simples, Phantom não seria tão cruel. Era a falta de emoção que ele percebeu logo após encontrar o homem, porque humanos odeiam, e Phantom não é humano o bastante para lembrar-se de como odiar é. Mas o garoto de cabelos negros lembra muito bem, e quando ele abre sua boca para gritar palavras raivosas, elas são azedas e cheias de rancor, e seus lábios tremem de medo. O cavaleiro sabe que o rapaz está ferido.
Phantom sorri e parece satisfeito.
.olfato
Alviss morde seu lábio inferior ao sentir Phantom se aproximando. Ele sabe que o homem está andando em sua direção, não exatamente por culpa dos passos silenciosos, mas porque existe alguma coisa na maneira em que o ar se move ao seu redor. O garoto para com suas tentativas fúteis de gritar para Phantom (tentativas frustradas porque, deus, como sua garganta arde e como sua boca está seca) para sentir a velocidade das batidas de seu coração aumentando rapidamente. Ele simplesmente não consegue se mover porque está imobilizado graças ao medo, embora seja orgulhoso demais para admitir.
O cavaleiro para em sua frente e não sente vergonha ao ajoelhar entre suas pernas. Phantom sabe muito bem que ajoelhar à frente de alguém não significará nada se ele não desejar, especialmente em um calabouço, à frente de um garoto que não tem forças para se levantar de sua posição, com as costas pressionadas contra a parede para buscar apoio.
Alviss tem certeza dos gestos do outro, afinal, ele sente o cheiro de sangue ficar mais forte.
.paladar
O corpo de Alviss fica tenso quando Phantom respira perto dele. Ele sabe que o cavaleiro pode mata-lo com suas mãos nuas agora (eles estão tão perto que, se Phantom colocar uma de suas mãos ao redor do pescoço do moreno e apertar só um pouquinho, ele poderia...) mas a percepção de que os lábios do homem não estão tão longe assim dos seus é o que o faz tremer e engolir em seco, mordendo sua língua e levantando a cabeça, tentando não parecer afetado, tentando não mostrar qualquer traço de tristeza, vergonha ou dor.
Ele falha miseravelmente.
Tem alguma coisa a ver com o fato de que um garoto vulnerável de dezesseis anos não consegue aparentar ser de outra forma, não importa quantas guerras ou morte ele tenha visto. Alviss acredita que ele é forte, e ele é.
Ele só não é forte o bastante.
Só este pensamento é o bastante para faze-lo esquecer do gosto metálico de sangue em sua boca.
.tato
As pontinhas das digitais dos dedos de Phantom percorrem as bochechas de Alviss. Suas unhas gravam um rastro na pele clara, vermelho o bastante para ser visto sob uma lágrima que Alviss finge não ter chorado. Uma tatuagem imaginária é criada em sua face com os dedos do homem. Ele circula seus olhos sobre a venda, traça curvas e círculos em suas bochechas, acaricia seus lábios. É como sua tatuagem ficará, Alviss está certo. E quando o cavaleiro permite que sua mão desça e percorra o corpo do rapaz, por baixo de sua camisa suja e rasgada, agora tocando a tatuagem vermelha verdadeira que existia nele, Alviss suspira e finge não sentir mais nada.
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