Cinco Minutos
20 Desespero
Notas iniciais
A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero. – Victor Hugo.
Neji Hyuuga sabia muito bem que havia algo errado. Enquanto olhava para sua prima, quase irmã, o gênio dos Hyuuga tentava analisar a situação, de forma que descobrisse o que estava havendo.
Mas Neji sabia que Hinata era uma ótima mentirosa. Não que fosse mentirosa de fato, mas era ótima em ocultar tudo o que estava sentindo. Mas depois de anos convivendo com ela, cuidando dela, Hinata deveria saber que não poderia esconder nada dele, especialmente quando se tratava de sentimentos.
Mas ali estava ela, tentando com todas as forças fingir que estava bem, quando estava óbvio que não estava. Ele sabia muito bem que ela havia cortado de vez todos os seus laços com o Uzumaki. A notícia de que o loiro havia ido parar no hospital se espalhou tão rápido quando uma epidemia e Neji sabia que tudo aquilo estava relacionado com a separação. Não podia negar sua surpresa ao ver como Hinata se comportou ao receber tal notícia. Quer dizer, não que alguém tivesse vindo avisá-la, mas ele estava com ela quando, por acaso, ouviu alguém comentar que o Uzumaki estava no hospital e não estava passando pelos melhores tempos.
E Hinata pareceu surpresa e até preocupara por dois ou talvez três segundos. Neji imaginava que talvez ela saísse correndo e, completamente arrependida de ter cortado seus laços com o grande amor de sua vida, fosse se jogar nos braços do Uzumaki e perdoá-lo por tudo que havia acontecido entre eles. Mas não. Hinata não fez nada disso. Depois que a surpresa passou, ela simplesmente voltou a fazer suas tarefas.
É claro que Neji não sabia o que realmente havia se passado entre os dois, mas sabia que Hinata estava escondendo alguma coisa. Não via motivo para a prima mudar tanto em apenas um mês, se tornar tão determinada a ponto de minar todos os alicerces que construíra junto de Naruto.
Mas, talvez, Neji não soubesse o que era ter seu coração partido milhares de vezes.
– Hinata-sama... – ele chamou e Hinata murmurou alguma coisa sem olhá-lo, ainda prestando atenção nos papéis do clã. – Fiquei sabendo que o Naruto já saiu do hospital. – Neji disse, tentando chamar a atenção da prima. Hinata o olhou por algum tempo sem entender onde ele queria chegar com aquela conversa.
– É mesmo? – ela disse baixando o olhar novamente para os documentos e fingindo não estar curiosa para saber mais sobre isso, mas não conseguiu enganar o primo.
– Sim. – o rapaz afirmou com os olhos estreitos. – Se quiser, nós podemos ir vê-lo... – ele tentou novamente e Hinata finalmente pareceu lhe dar atenção, deixando os documentos em cima da mesinha e olhando-o profundamente nos olhos.
– E por que eu iria querer? – ela perguntou firmemente e Neji não conteve a surpresa.
– Bom, por que ele... – o rapaz começou, mas Hinata o interrompeu.
– Não entendo como isso pode ser da sua conta. – ela disse friamente, fazendo Neji ficar ainda mais curioso para saber o que estava acontecendo. – Neji-nii-san... Acho que já deixei claro que eu e o Naruto-kun não temos mais nada em comum. – Hinata disse sem desviar seu olhar uma única vez dos de seu primo. – O que acontece com ele ou deixa de acontecer não me interessa mais. – ela disse e baixou o olhar novamente, concentrando-se no seu trabalho.
– O que aconteceu, Hinata-sama? – Neji perguntou, realmente odiando não saber o que estava acontecendo com sua prima.
– Não foi você mesmo que disse que eu não deveria perdoá-lo? – ela perguntou e Neji a olhou de forma decepcionada.
– Você não precisa fazer isso... Ele é seu grande amor e esse amor faz parte de você. Não precisa mudar tanto só para...
– Acontece que eu preciso. – Hinata disse e o olhou firmemente. – Eu preciso ser determinada e ser forte, porque precisam de mim agora... Não posso viver desse amor para sempre.
– E por que não? – Neji perguntou. – Você sabe que não pode deixar de amar o Uzumaki. Mesmo que eu o odeie, mesmo que seu pai o odeie, mesmo que o mundo o odeie por ter magoado você tantas vezes, você nunca poderá odiá-lo. – Neji disse e olhou para a prima da mesma forma que olhou anos atrás, quando lutavam pela primeira vez. – Você não pode deixar de ser quem é, Hinata-sama, só para satisfazer as vontades de seu pai e do seu clã. – ele disse e Hinata fechou os olhos, suspirando fortemente.
Quando Hinata finalmente os abriu, o que Neji viu em seus olhos deixou-o tão assustado quanto sem chão. Os olhos de Hinata continham uma determinação tão avassaladora que Neji não pôde deixar de lembrar o Uzumaki. Era irônico que quanto mais ela tentasse não parecer com ele, mais ela lembrava o loiro. Mas Neji sabia que havia algo mais naquele olhar. Era um olhar feroz, de proteção. No entanto, não havia absolutamente nada que ela pudesse proteger além do clã Hyuuga, não é? E o rapaz sabia que nem em um milhão de anos, Hinata Hyuuga, a garotinha humilhada pelo pai e desacreditada pelos conselheiros dos Hyuuga, apresentaria um olhar tão forte pensando no clã. Com certeza, havia algo mais que Hinata estava escondendo.
– Talvez você tenha razão. – ela disse finalmente respondendo-o. – Talvez eu não possa odiá-lo. Mas eu preciso tentar. – Hinata falou finalmente, surpreendendo o primo.
– Você não pode estar falando sério. – o rapaz disse completamente chocado. Viu então, Hinata apresentar um grande sorriso sarcástico, coisa que Neji nunca havia visto a prima fazer. Estreitou os olhos, tentando entender de uma vez por todas o porquê das atitudes de Hinata.
– Você obviamente nunca teve o coração partido. – Hinata disse finalmente voltando a trabalhar, enquanto Neji a olhava atônito e surpreendentemente, sem resposta.
[...]
Sakura Haruno olhou-se mais uma vez no espelho do banheiro do hospital e se odiou. Seus cabelos estavam sem brilho e oleosos; seus olhos continham olheiras profundas; estava tão pálida que qualquer um que a visse de longe pensaria que estava doente. Mas Sakura não estava doente. Tudo aquilo era produto de duas noites sem dormir e infelizmente, não porque estava trabalhando, mas porque estava tão preocupada que simplesmente não conseguiu.
Depois de falar com Tsunade a respeito do bingo book, Sakura resolveu encomendar a versão mais atualizada do livro. Para isso, contou com a ajuda de Sasuke, já que os ANBU tinham todos os tipos de coisas.
E era por isso que estava sem dormir fazia tanto tempo. Porque estava lá. Estava tudo lá. Todos eles. Todas as suas informações. Da idade ao tipo sanguíneo. Da altura ao aniversário. Tudo. Todo o histórico deles. Seus mestres, seu nível de controle de chakra, suas missões; no de Sasuke havia seus dados criminais, seu antigo grupo fora de Konoha; e por fim, o porquê de estarem querendo suas cabeças e quanto estavam pagando por elas.
O que mais lhe impressionou em tudo aquilo era como eles sabiam todas aquelas informações. Há quanto tempo estavam os espionando? Como estavam fazendo isso? Quem estava fazendo isso? Se eram assim tão bons, talvez até já soubesse da gravidez de Hinata... Talvez ela já estivesse correndo perigo.
Sakura colocou as mãos na cabeça e puxou os fios com força tentando parar de pensar naquilo. Mas como aquilo era possível? Como era possível que soubessem de tantas informações pessoais? Quer dizer, no livro dizia até mesmo que Sakura e Sasuke estavam envolvidos em um relacionamento. Mas como puderam saber de tal coisa? Havia espiões em Konoha? Como podia confiar nas pessoas agora?
Seu coração acelerou de medo. Tanto que Sakura hiperventilou. Respirou fortemente algumas vezes e tentou se acalmar, mas foi em vão. Olhou-se no espelho. Seus olhos estavam arregalados e a boca aberta na tentativa de entrar o máximo possível de ar. Suas pernas tremeram e falharam, fazendo-a cair no chão sentada.
Pensou em Naruto. Se o loiro por acaso soubesse daquilo iria querer espionar Hinata dia e noite. Iria querer sequestrá-la e ir o mais longe possível, para que nada acontecesse a ela e ao bebê. E Sakura sabia que deveria contar ao amigo. Mas algo lhe dizia que seria melhor se ele não soubesse de nada por enquanto, para não fazer nenhuma besteira.
Respirou mais lentamente e com menos dificuldade e finalmente levantou-se. Jogou água no rosto para melhorar sua cara de espanto e saiu de lá, indo em direção à sua sala. O pior de tudo era que ainda estava devendo uma conversa com Hinata à Tsunade, antes que a loira contasse tudo ao pai da morena. Mas já fazia dois dias que tinha tido aquela conversa com a Hokage e não havia encontrado nenhuma maneira de dizer tudo que estava acontecendo à Hyuuga.
Aliás, essa era uma das coisas que estavam alimentando a insônia de Sakura. O que Hinata diria quando soubesse de todas aquelas informações? O que Hinata faria? Sakura sabia que ela não seria capaz de fugir e se esconder. Mas talvez fosse capaz de aceitar as ordens de seu pai; e Sakura sabia que de Hiashi não viria nada de bom.
Não sabia o que Hiashi seria capaz de fazer, mas aceitar um neto fora do casamento e ainda por cima, filho de alguém que não era do clã Hyuuga era algo improvável. Mas pelo visto Hinata não seria mais tão facilmente manipulada pelo pai. A atitude da Hyuuga ao romper com Naruto pegou Sakura totalmente de surpresa; não sabia o que pensar.
Ela só sabia com certeza de uma coisa: em toda aquela situação, além da própria Hinata e do filho que ela estava esperando, quem mais sofreria seria o Uzumaki. Por isso Sakura não podia contar para ele ainda. Imaginou o desespero de Naruto, ao saber de tudo aquilo, e não poder fazer nada, nem mesmo chegar perto de Hinata, para que assim pudesse protegê-la.
Girou a maçaneta da porta de seu escritório e abriu-a, entrando logo em seguida. Sentou-se na cadeira alta atrás da escrivaninha e suspirou, pensando em tudo que estava prestes a acontecer em Konoha. A rosada sabia que se por acaso Naruto perdesse Hinata de alguma forma, nada ficaria bem. Naruto não ficaria bem, Konoha não ficaria bem. Nada ficaria bem. E muito menos quem fizesse alguma coisa contra a Hyuuga.
[...]
Hinata suspirou finalmente tirando a máscara fria que pôs no rosto o dia inteiro. Já era hora do almoço, mas Hinata utilizaria o pequeno horário de folga para deitar-se um pouco. Suas costas doíam muito e ela não tinha certeza se poderia fazer tantos esforços assim nos primeiros meses de gravidez. Já estava com quase dois meses e sua barriga já havia despontado um pouco, desfazendo a ilusão de que aquela gravidez era uma ilusão.
Deitou-se na cama de barriga para cima e olhou para o teto suspirando fortemente.
– Eu disse que o papai ia ficar bem... – Hinata sussurrou, acariciando a barriga ainda pequena, mas já um pouco arredondada. – Ele é forte... Muito forte. Você também vai ser. – ela disse baixinho. O bebê era a única coisa que mantinha Hinata ali, firme e forte. Talvez porque aquele pequeno ser fosse inegavelmente uma parte Naruto. E Naruto tinha o dom de mantê-la forte, por mais subjetiva que fosse a sua presença.
Pensou em como o filho seria. Se seria menino ou menina. Se pareceria com Naruto ou com Hinata. Torceu para que fosse igualzinho ao Uzumaki. Tanto na aparência, quanto na personalidade. Pensou nos nomes que poderia dar. Nenhum dos que lhe vieram à mente a agradaram. Suspirou. Queria tanto fazer aquilo com Naruto ao seu lado, opinando. Talvez ele dissesse que não, que não queria que o filho fosse parecido com ele. Talvez dissesse que queria que fosse parecido com ela. E os dois discutiriam e no final chegariam à conclusão de que de qualquer forma o bebê seria o bebê mais amado do mundo, não importando com quem ele parecesse.
Mas Hinata sabia que não poderia ter nada daquilo. Tinha cortado todas as relações com o Uzumaki; havia dito a ele coisas horríveis, mas que sabia que precisavam ser ditas. Tinha que colocar um ponto final naquela relação, naquele vai e vem. Precisava pensar em ser forte para proteger o filho e para se proteger, para proteger o clã Hyuuga. Precisava tomar as decisões corretas e sabia que Naruto não fazia mais parte delas.
Ouviu alguém subindo as escadas e parou de acariciar a barriga, sentando-se rapidamente na cama. Bateram na porta suavemente. Era um dos empregados daquela enorme mansão.
– Hinata-sama? – a empregada entrou no quarto com cautela. Hinata disse para que entrasse de vez e deixasse de bobagens. – Neji-sama pediu para que trouxesse seu almoço. – a mulher falou e deixou uma bandeja com uma enorme variedade de comida em cima do criado-mudo. – Ele pediu para que não descesse se não estiver se sentindo bem. – a mulher disse e Hinata lhe sorriu gentilmente.
– Diga ao Neji-nii-san que eu estou me sentindo muito bem. E que não há desculpas para não fazer meu trabalho. – disse gentilmente e a mulher lhe sorriu singela, fazendo-lhe uma reverência e saindo do quarto.
Hinata olhou para a bandeja e sorriu. Mesmo não merecendo, Neji sempre iria cuidar dela. O pior de tudo é que Hinata sabia que Neji desconfiava de alguma coisa. Mas não havia o que se fazer. Hinata teria que agir daquela maneira de agora em diante. Não poderia ser fraca, nem depender de ninguém. Não seria com Naruto que ela contaria ao seu pai que estava grávida, seria sozinha. Por ela, pelo bebê e pelo clã Hyuuga, Hinata deveria ser forte.
Mas Deus sabe que aquilo era muito difícil. Ela sabia que suas atitudes lembravam seu pai e até mesmo Neji, quando mais jovem e era disso que Hinata tinha mais medo: de fingir tanto ser como Hiashi e acabar ficando igual a ele.
Mas ela esperava de coração, que quando aqueles tempos difíceis acabassem – um dia eles teriam que acabar – que ela pudesse voltar a ser a mesma Hinata de antes, só que mais forte e mais determinada, quem sabe, parecida mais com Naruto do que com Hiashi.
Comeu alguma coisa da bandeja sem perceber imaginando como seria a conversa que teria com seu pai dali a algum tempo. Hinata temia que Hiashi fosse fazer alguma coisa muito extrema, como pedir para que ela desistisse do filho ou destituí-la do posto de líder do clã.
Sinceramente, não sabia se o pai tinha mudado tanto (depois daquele maldito incidente) a ponto de passar a mão em sua cabeça após uma burrada daquelas. Porque apesar de estar feliz – diga-se muito feliz – por estar esperando um filho do homem que amou desde menina, engravidar não tinha sido lá a coisa mais inteligente do mundo. Não era uma coisa desculpável e era exatamente por isso que Hinata achava que Hiashi não iria perdoar.
Ouviu passos nas escadas novamente. Colocou mais alguma coisa na boca, pensando em todos os seus problemas, distraidamente. Alguém bateu na porta, chamando-a. Era a mesma empregada que havia lhe entregado a bandeja. Hinata mandou que entrasse.
– Hinata-sama... – a mulher a chamou ganhando total atenção da Hyuuga. – Tem alguém que deseja vê-la. – a mulher completou e Hinata suspirou.
– Referente ao clã? – Hinata levantou-se rapidamente e olhou para a mulher preocupada.
– Não, senhora. – a empregada disse balançando a cabeça negativamente. – É a sua médica. Diz que é de extrema importância. – a moça completou e Hinata assentiu.
– Diga para que se dirija ao meu escritório, Amaya. – Hinata disse. – Eu já estou descendo. – a morena afirmou enquanto via a outra assentir com a cabeça e se retirar imediatamente.
[...]
Amaya Hyuuga trabalhava na casa principal há anos. E já havia visto de tudo. Desde sequestros dentro da mansão até mortes. Mas nunca havia visto tantas visitas de moradores de Konoha em tão pouco tempo.
Ela sabia que era normal o líder do clã receber visitas de senhores feudais e de outros lideres de clãs de outras vilas, a fim de fechar acordos de paz, ajudar Konoha e preservar os interesses do clã Hyuuga.
Mas moradores de Konoha dentro dos domínios do clã eram raros. Primeiro o Uzumaki, agora a doutora Haruno. Parecia que agora, com a liderança de Hinata, as regras iriam ficar menos rígidas, o que Amaya achava ótimo; os conselheiros do clã deviam saber que a idade das trevas já havia acabado há muito tempo.
Depois de falar sua nova senhora, Amaya dirigiu-se a entrada do clã, onde a doutora Haruno aguardava ansiosamente, batendo o pé. Amaya tinha que admitir que quando a viu, assustou-se. A doutora não parecia nada bem. Estava com a pele pálida e os olhos estavam constantemente arregalados, como se estivesse em choque. Ela carregava um livro pequeno e grosso nas mãos; de vez em quando apertava-o entre os dedos e estreitava os olhos.
Com certeza algo estava errado.
– Doutora...? – a mulher chamou; viu Sakura olhá-la quase imediatamente. – Hinata-sama a espera em seu escritório. Por favor, me acompanhe. – ela pediu e viu Sakura assentir aliviada, como se só por Hinata permitir a sua entrada, já houvesse tirado muito peso das costas.
As duas caminharam em silêncio até o escritório da líder do clã Hyuuga. Enquanto Sakura pensava em como poderia começar aquela conversa – que por sinal devia ser a conversa mais importante da vida de Hinata – Amaya perguntava-se qual seria aquele problema tão grave que fizera a médica vir ao clã conversar com Hinata.
Pela cara da rosada, Amaya julgava não ser nada de bom. Talvez houvesse algum problema com os exames de Hinata. Talvez sua senhora não estivesse tão bem. Amaya apertou com força o avental, torcendo para que o que quer que fosse, não fosse assim tão problemático.
[...]
Sakura agradeceu rapidamente à criada que a levara até o escritório de Hinata e esta desapareceu porta afora, indo fazer suas tarefas.
A rosada sentou-se em uma almofada à frente da de Hinata e observou o lugar por um momento. Não era nada parecido com Hinata, mas Sakura tinha que admitir que era a cara do clã Hyuuga.
As paredes tinham cores sóbrias, puxadas para o cinza, com quadros enormes retratando o que Sakura imaginava ser membros dos Hyuuga em luta. Havia uma lareira com uma poltrona ocidental enorme e aveludada, em que jaziam alguns papéis, fruto da desorganização da nova líder.
Sobre a mesinha que ficava a sua frente, Sakura viu mais documentos, alguns organizados em pilhas enormes, enquanto outros estavam espalhados, sinal de que Hinata acabara de mexer neles.
Sakura suspirou. Colocou o bingo book sobre a mesa e folheou-o rapidamente, tentando não prestar muita atenção aos nomes que estavam ali e sofrendo internamente por saber que o de grande parte de seus amigos também estava.
Ouviu a porta do escritório ser aberta e não precisou virar a cabeça para saber que era Hinata. Sentiu seu chakra de longe e se surpreendeu por sentir não somente o seu, mas também uma formação de chakra diferente, que partia do ventre de Hinata. Não acreditava que com tão pouco tempo aquela criança já tivesse tanta energia. Perguntou-se como, com o controle de chakra avançado e com o byakugan, ninguém ainda tivesse descoberto que Hinata estava grávida.
– Sakura-san. – Hinata cumprimentou sua médica e agora amiga, fazendo uma pequena reverencia e se sentando na almofada em frente a da rosada, do outro lado da mesinha. – Deseja alguma coisa? Um chá ou...
– Hinata, por favor, não precisa dessa formalidade. – a rosada a cortou e Hinata não conteve a surpresa com a falta de paciência da Haruno. – Não temos tempo para isso. – Sakura afirmou e só agora Hinata notara suas feições adoentadas.
– Tudo bem. – ela disse, simplesmente, olhando para a médica com curiosidade e preocupação.
Sakura suspirou fortemente. Suas mãos tremiam. Estava assustada e perdida e não sabia o que fazer. Não sabia como começar a contar a Hinata que ela nunca correra tanto perigo antes.
– Hinata... – a rosada começou. – Você sabe o que é isso? – ela disse e levantou o livro que estava sobre a mesa, mostrando-lhe a capa.
– Claro. Todos os shinobis sabem o que é isso. Mas por que está me mostrando esse livro, Sakura? – a morena perguntou, sem entender realmente quais eram as intenções da médica.
– O bingo book... Pessoalmente acho uma das muitas atrocidades do mundo shinobi... Oferecer recompensar pela cabeça de outros ninjas. – Sakura começou. – Mas eu não vim lhe dar uma aula de ética ninja, Hinata. Eu vim lhe mostrar pessoalmente, a mando da Hokage, quem está no bingo book. – Sakura disse e começou a folhear as páginas do livro. Até que achou o nome que queria: Hyuuga Hinata. Ofereceu o livro a Hinata que o pegou com incerteza, olhando cautelosamente para Sakura.
– Meu nome está aqui. – a Hyuuga disse muito simplesmente. – Eu não entendo o que isso quer dizer. Meu nome sempre esteve... – Hinata ia dizendo quando de repente se tocou do que estava acontecendo e do porquê de Sakura estar indo ao clã lhe mostrar aquele livro.
– Você como herdeira do clã, sempre esteve presente neste livro. – a rosada afirmou. – Mas esta é uma versão atualizada do bingo book, Hinata... Você virou líder do clã há pouco tempo, mas eles já sabem disso. E sua cabeça agora vale muito mais.
– O... O que está querendo dizer? – Hinata perguntou com os olhos arregalados, embora já tivesse alguma noção de onde a médica queria chegar com aquilo.
– Eu estou dizendo que você corre perigo, Hinata. – Sakura sussurrou, inclinando-se para frente de modo que a morena escutasse melhor sua fala. – Eles sabem de tudo. Sabem de tudo o que está acontecendo e não vai demorar para que descubram sobre o... Você sabe. – a rosada sussurrou, enquanto Hinata arregalava os olhos, apavorada. – Você não pode confiar em ninguém. – a rosada completou, tão apavorada quanto a Hyuuga. – Tsunade-sama deseja alertar o seu pai sobre o que está acontecendo; sobre o que está prestes a acontecer.
– O que... O que está prestes a acontecer? – Hinata perguntou baixinho, no mesmo tom de Sakura.
– Esse bebê que você está esperando é filho de Naruto Uzumaki... – a rosada disse no tom mais baixo que conseguiu, mas Hinata entendeu todas as palavras. – E de Hinata Hyuuga. Ele irá possuir o seu kekkei genkai, o controle de chakra do Naruto e daqui a alguns anos... Ele será o herdeiro da Kyuubi. – Sakura completou. As mãos de Hinata tremiam. Ela tentou escondê-las no kimono, mas Sakura viu que ela estava apavorada. – Se algo acontecer com o seu bebê Hinata – a Haruno continuou sussurrando. – e ele por acaso for tirado de você... Essa criança será uma das mais poderosas armas do mundo shinobi. – a rosada completou e Hinata a olhou sem chão.
– O que... O que eu tenho que fazer? – ela perguntou com lágrimas nos olhos, segurando com força a beira da mesinha. Suas mãos tremiam.
– Você não pode confiar em ninguém. – ela sussurrou e olhou para os lados. – Não saia de casa. Não saia tanto lá fora. Eu senti o seu chakra de longe e também o dessa criança... – Sakura disse baixinho Hinata arregalou os olhos completamente surpresa. – Não deixe ninguém saber. – a rosada alertou.
– O... Naruto-kun sabe disso? – ela perguntou quase envergonhada. – Ele sabe que...
– Não. Se o Naruto souber... Eu não sei o que ele será capaz de fazer para proteger você e o filho. – Sakura disse e Hinata não pôde negar que se sentiu aliviada. Fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar. – Hinata. – Sakura chamou e Hinata voltou sua atenção a ela novamente. – Lembre-se que Tsunade-sama irá falar com o seu pai. – ela disse e Hinata assentiu, percebendo por fim que aquele era o menor de seus problemas. – Lembre-se de ter cuidado. – a rosada advertiu. – Não confie em ninguém, não sabemos do que as pessoas são capazes. Nem mesmo nos conselheiros do seu clã. – a rosada sussurrou e Hinata afirmou com a cabeça.
– Eu não confio. – ela disse firmemente, como se os conselheiros do clã nunca tivessem sido de sua confiança.
– Eu tenho que ir. – Sakura disse e se levantou rapidamente. – Preciso falar com a Hokage. – ela se explicou e Hinata concordou rapidamente.
– Obrigada, Sakura-san. – a morena agradeceu e Sakura lhe sorriu minimamente. Virou-se para ir embora, mas quando alcançou a porta parou por um momento e virou-se para trás.
– Não sei se lhe disseram, mas o Naruto foi parar no hospital. – a médica disse e Hinata assentiu, confirmando que sabia muito bem. – Pensamos por um momento que ele estava tentando se matar. – a rosada afirmou e Hinata abriu a boca, surpresa. – Ele sente sua falta Hinata. – ela disse e finalmente saiu do escritório.
[...]
Hinata olhou a porta a qual Sakura havia saído pelo que pareceram horas. Sozinha no escritório, finalmente, a ficha caiu. Se seu filho fosse descoberto, se soubessem quem era seu pai... Hinata não gostava nem de pensar.
Colocou as mãos nos cabelos e os puxou com força, como se aquilo fosse arrancar todas as suas preocupações. O que ela iria fazer? O que iria fazer? Como havia pensado que estava de alguma forma preparada para os problemas que iria enfrentar? Aquilo era demais. Não dava para suportar.
Andou de um lado para o outro dentro do escritório com o peito apertado. E se descobrissem?
“Não confie em ninguém, não sabemos do que as pessoas são capazes”. Fora o qu Sakura dissera. Mas como poderia viver assim? Com cautela? Com medo de que sentissem o chakra do seu já poderoso filho, como Sakura havia sentido?
Sentou-se na almofada em que antes estava. O que iria acontecer?
– Hinata-sama? – alguém a chamara. Era Neji. Hinata nem ao menos havia ouvido a porta ser aberta, não escutara seus passos, nem quando o primo parara na sua frente há alguns segundos, olhando-a puxar os cabelos, desesperada. – Está tudo bem? – o rapaz perguntou e Hinata o olhou com os olhos arregalados.
“Está tudo bem?” A frase dita por Neji ressoou em sua mente por alguns minutos. Neji. Seu primo, amigo e protetor de todas as horas. Estavam sempre juntos não é? Ele estava sempre a apoiando.
Neji. Aquele que sempre quisera fazer parte da Souke, que era o gênio dos Hyuuga. Devia ter sido ele a nascer no lugar de Hinata. Devia ser ele a estar cuidando do clã. Mas não era. Era Hinata. Sempre tivera que ser Hinata. Mas Neji sempre estava lá por ela. Sempre cuidou dela. Foi o melhor irmão que alguém poderia ter.
Hinata levantou-se da almofada rapidamente, caminhando até Neji e olhando-o intensamente. A ideia que lhe veio à mente além de louca e completamente absurda, era quase brilhante. Não seria justo, de jeito nenhum. E Hinata sabia disso. Mas estava desesperada.
Segurou os ombros de Neji, parada em frente a ele. O rapaz lhe olhou curiosamente, preocupado. Abriu a boca e Hinata soube que era para perguntar se estava tudo bem novamente. Mas ela não deixou. Não deixou que ele dissesse nada. Porque se ouvisse a voz de outro que não fosse a dele desistiria de tudo.
– Case-se comigo. – ela falou olhando-o intensamente. Neji arregalou os olhos completamente sem ação. Abriu a boca para poder falar alguma coisa, mas simplesmente nada lhe vinha à mente. Ele só tinha certeza de uma coisa.
Não havia sido um pedido.
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