Cinco Mil Memórias Por Segundo
1 Capítulo 01. My Dear Innocence...
Notas iniciais

Love of my life
You've hurt me
You've broken my heart
And now you leave me
(Scorpions, Love Of My Life)
O sangue quente escorria de minha testa, adentrando um dos orbes azuis, o cheiro metálico já muito bem conhecido me dava náuseas, eu sabia que morreria ali, eu podia sentir a vida dando passos cada vez maiores, para longe, e um frio ia se apossando do meu corpo, que cada vez mais dormente se tornava.
Com a mão trêmula, consegui pegar meu celular, no bolso do sobretudo, não sei exatamente onde consegui forças para aquilo, já que até respirar era difícil, entretanto, ali era o fim da linha, e, ao menos uma última vez, queria ver seu rosto.
Seu belo rosto, esculpido por Deuses, que ele teimava em chamar de escroto, suas madeixas carmesins como o sangue que jorrava de meu recém aberto ferimento. Com muita dificuldade, e duas tentativas falhas no desbloqueio do aparelho, do qual ELE insistira que eu colocasse senha, a fim de proteger meus dados. A Tela de bloqueio se foi, dando lugar a tela inicial, com sua foto, minha e dele na verdade, tirada por Near, há muitos e muitos anos, Matt me abraçava por trás, sorrindo após furtar minha barra de chocolate, enquanto eu, emburrado sentado num banco, mostrava o dedo do meio para a câmera.
Minha cabeça girava, a ânsia aumentava, fechei os olhos, deixando que uma única e pesada lágrima caísse e atingisse a tela do aparelho, antes de meu braço perder a força e derruba-lo no chão.
— Me perdoe… Matt…
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— MAS QUE INFERNO, VOCÊ NEM AO MENOS SABE RESPIRAR DIREITO! — gritava, irritado, enquanto meu companheiro de quarto se encolhia, prendendo a respiração.
— Desculpa Mello…
Matt olhou para o chão totalmente constrangido, estava resfriado e com uma febre altíssima, vê-lo daquele jeito fez com que minha consciência rapidamente pesasse, quando estava prestes a me desculpar, Near abriu a porta do quarto.
— Não se incomode com ele, Mello é como um chiuaua sem roupinha no frio. — Se auto convidando, aquele incherido adentrou o cômodo, sentando ao lado de Matt que jogava em seu Nintendo Switch, no chão.
Coisa que era estritamente proibido fora da sala de jogos da Wammy’s, contudo, demos um jeito de esconder pelo menos um ‘brinquedinho’ do ruivo.
Com isso, minha raiva voltou em dobro, fazendo com que soltasse algumas palavras impróprias antes de sair do quarto, batendo a porta atrás de mim.
Passando as mãos euforicamente pelos cabelos, caminhei apressadamente até uma árvore distante, que pela janela da Wammy’s House não seria visto. Apenas eu conhecia aquele ponto cego, bom, Matt e eu.
Me lembrar do ruivo me causou uma dor de cabeça instantânea…
Ele me irritava tanto, mas ao mesmo tempo me fazia me sentir assim… eu o leio facilmente, sempre o li, na verdade, sempre percebi os olhares sobre mim, mas, esse mesmo olhar, é como se me despisse por completo… bom.. que seja, não é como se fosse grande coisa mesmo.
Descendo minha mão esquerda até o bolso da jaqueta, percebi que estava vazia.
— Merda.
Onde estavam os chocolates que havia escondido lá?... Me forcei a pensar… talvez Matt tenha tirado para entrega-las a uma das lavadeiras. Mordi o lábio inferior pensativo, não queria voltar para lá, não com aquele albino irritante presente, ele me dava nos nervos.
Felizmente, ou não, não precisei pensar muito, porque pouco mais de um minuto havia se passado quando senti alguém tocar meu ombro, por reflexo agarrei aquela mão e a girei, fazendo com que o dono dela caísse de costas contra a grama. Sentei em seus quadris, para imobilizá-lo
— Ai, ai, ai…
— MATT?!
— O-oi…
Rapidamente sai de cima do meu amigo, o libertando, em seguida me reencostei na árvore, um pouco corado por não ter conseguido identificar de quem se tratava, realmente, devia prestar mais atenção às aulas de percepção, será que Near conseguiria identificar quem era antes mesmo da ação instintiva?
— Droga… o que faz aqui?! — questionei com um tom ríspido, ao que ele naturalmente recuou, como sempre fazia.
— Lembrei que havia tirado o chocolate do bolso da jaqueta… pensei que, sei lá, fosse querer…
Sem jeito, Matt retirou do próprio bolso uma barra de chocolate um pouco torta, provavelmente devido ao impacto contra o chão.
Tentando parecer sutil, aceitei o doce, mas não pude esconder meus olhos, que brilhavam radiantes, realmente… esse era meu vício, e duvido solenemente que algum dia deixaria de ser. O ruivo pareceu contente em apenas ver minha reação perante o doce, pois um sorriso sorrateiro de formou em seus lábios.
Discretamente ele se encostou do meu lado no grande e velho tronco, não fazia tanto tempo assim que Matt havia chegado a Wammy’s, cerca de um ou dois anos apenas. E mesmo assim, como átomos negativos e positivos, nos atraímos instantaneamente desde a primeira noite dele no orfanato.
— Se sente mais calmo? — Mal percebi que ele me fitava, sorrindo abertamente, assenti com a cabeça, mas logo uma dúvida me veio em mente.
— Por quê? — Seus olhos inexpressivos revelavam que Matt não fazia a menor ideia do que eu estava me referindo — Eu te xingo, e você vem até mim com chocolates? Por um acaso é masoquista?
Minhas sobrancelhas arqueadas, fingindo uma cara de espanto, o ele me encarou durante um determinado tempo, sem reação alguma, mas logo soltou uma sonora gargalhada, fechou os olhos, deixando com que a brisa balançasse suas madeixas, que quase tocavam-lhe os ombros.
Depois do tempo torturante de espera,que eu obviamente escondi minha ansiedade, veio a resposta:
— Provavelmente… — Coçou a cabeça, corando — Mas você também cuida de mim, como ninguém jamais cuidou… permanece ao meu lado mesmo que eu seja apenas uma casca oca, do qual não sabe nem o próprio passado, eu te admiro… e quero permanecer ao seu lado, para sempre, Mello.
— Keehl. Mihael Keehl — Eu sabia que uma das principais regras do orfanato era NUNCA, absolutamente NUNCA, contar sua real identidade para alguém, porém as palavras saíram de meus lábios como o ar que respirava entravam e saíam de meus pulmões, algo tão simples… mas que fazia tantos anos que não era dito, que como em um transe me vi repetindo a sentença novamente, mas para afirmar a mim mesmo quem eu era do que para Matt — meu nome é Mihael Keehl.
— Prazer, Mihael Keehl, Mail Jeevas! — Ele estendeu a mão, demorou alguns segundos para que entendesse o que aquilo queria dizer, mas, me recuperando rapidamente, apertei a mão que me era estendida, trocamos um breve sorriso cúmplice antes que me levantasse num só pulo.
— Prazer, Mail Jeevas! — Pisquei para Mail, já de pé — Saiba que o simples fato de estar vivo, andando por aí, já não lhe deixa ser um saco vazio, e sim um cheio de carne e ossos, agora vamos, ou a monitoria vai descobrir esse ponto cego.
Matt assentiu, se levantando também.
— Germânico*? — perguntou, mas foi solenemente ignorado quando lhe mostrei a língua e com o polegar de uma das mãos puxei a bolsa do olho direito para ele, oras! Já estava querendo saber demais, não? Matt riu, passou um dos braços em volto de mim e seguimos para dentro da Wammy’s House novamente.
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Era uma noite tempestuosa quando ele chegou, um menino mirrado, podia ter quase certeza de que todos seus ossos eram visíveis, se não fosse pela manta grossa que o baixinho segurava ao redor do corpo, poderia comprovar minha teoria.
Watari tinha um dos braços nas costas do pequeno, como que para lhe dar apoio, e me fitava de um modo quase paternal, quase, qualquer pessoa acreditaria que aquele era um olhar gentil, se não fosse o fato de que ele contribuía, de corpo e alma, para manter um orfanato que cria crianças paranoicas com o complexo de intelectualidade e competitividade, mas isso eu descobriria anos depois.
Agora a única coisa que precisava me focar era no garotinho, que olhava o chão, com olhos sem brilho, quase como se fosse um cadáver vivo.
— Mello, este é Matt, L e eu o trouxemos aqui, você é um dos únicos garotos sem um companheiro de quarto, então gostaríamos que se encarregasse dele.
L havia trazido esse tal de “Matt”? Isso é algo estranho, para não dizer raro, as vezes que L estava envolvido, eram sempre casos extremamente raros, ou até mesmo os que as pessoas salvas ficavam o resto de suas vidas com distúrbios mentais.
Entretanto, aquele menino não parecia apresentar nada do gênero… era só uma criança assustada e confusa, a coisa mais natural para todos que acabam aqui.
Assenti casualmente, Watari sorriu, dizendo que iria providenciar roupas e outros adereços logo, para mim lhe mostrar o quarto, e o ajudar no banho.
E por acaso tenho cara de babá? Pensei em retrucar, entretanto, o estado deplorável de Matt me irritava ainda mais, todos passamos por maus bocados nessa vida de merda, isso não era nem de longe motivo para ficar com aquela cara de cachorro perdido.
— Entre. — disse secamente, após o velho sair para providenciar o que foi dito. Surpreendentemente, o menino prontamente obedeceu, sem nem um pingo de hesitação, isso me irritou.
Após fechar a porta, andei até o banheiro, não precisei dizer muito, pois Matt percebeu que deveria me acompanhar, chegando no cômodo, liguei a torneira para que a água morna a preenchesse.
— Tire a roupa. — Um sorriso sacana em meus lábios, estava de costas para o novato, ele parecia incrivelmente obediente, queria testar até onde aquilo iria, começava a ficar divertido.
Contudo, quando me virei para ele novamente, este havia realmente retirado a roupa, os braços suspensos ao lado do corpo, a cabeça ainda para baixo, um boneco quase sem vida, se fosse outra pessoa, certamente riria da cena, mas, por algum motivo que não entendia, o único sentimento que me preencheu naquele momento foi revolta.
Uma revolta que fazia meu peito arder e o canto dos meus lábios caírem para baixo, aquilo já estava ficando ridículo.
Caminhei até ele, o agarrei pelos ombros, chacoalhando-o algumas vezes enquanto proferia com a voz alterada.
— EI, ESCUTA AQUI, você não tem vontade própria, não? Que caralhos aconteceu para ficar assim? Tão PATÉTICO!
Em determinado momento quando o balançava, sua cabeça foi para trás, com o movimento, e nossos olhos se encontraram, paralisei.
Os enormes olhos verdes, antes opacos, agora possuíam um brilho, sim, mas um brilho aguado pelas lágrimas que escorriam pela sua face, logo se tornaram compulsivas, e pequenos soluços escapavam de seus sutils lábios.
Olhei para minhas mãos, que apertavam a pele muito suja de Matt, assim como todo seu corpo estava, sujo de lama, folhas, cortes… realmente, era possível ver praticamente todos seus ossos.
Quase não percebi quando a banheira começou a transbordar, a água chegando até nossos pés, os dele descalços e os meus com meias, as encharcando.
— Droga! — Corri até a torneira, a fechando às pressas. — Seria melhor apenas uma ducha… se Yumi tivesse trocado a resistência como havia pedido… tsc!
Matt ainda permanecia parado, chorando e tentando conter seus soluços.
— Vem, entra aqui, irei enxugar isso aqui e te ajudo no que precisar depois. — percebi que depois de minha crítica, ele parecia indeciso se me obedecia ou não — A menos que queira ficar sujo desse jeito.
Olhando para si mesmo, Matt negou com a cabeça, caminhando até a banheira, a cabeça ainda levemente baixa.
Após puxar toda a água que havia transbordado para o ralo mais próximo, retirei as meias, Deus como odiava ficar descalço…
Me abaixei perto do objeto, apoiando ambos os braços nas bordas, percebi que Matt tinha certa dificuldade em ensaboar os cabelos, seus finos dedos estavam repletos de machucados, diria que alguns pareciam até mesmo em carne viva.
— Deixe que faço isso. — Tentei parecer gentil, mas quando meus dedos entraram em contato com o seus, foi como se uma corrente elétrica transpassasse, e ele afastou a mão bruscamente, contudo, logo em seguida se acalmou.
Respirei fundo, gentileza a maioria das vezes não fazia parte do meu repertório, mas tinha que ser gentil, porque, de algum modo,sentia que a qualquer feito brusco aquele garoto fosse simplesmente… quebrar, bem diante do meus olhos, não estava errado quanto a isso.
Após o banho, o auxiliava a vestir uma de minhas calças pretas de algodão, um pijama, na verdade, Watari ainda não havia voltado, provavelmente, só retornaria ao amanhecer.
Apenas agora havia percebido o tom de seus cabelos: vermelhos. Um carmesim vivo, sólido, magnífico.O observando vestir a calça, perguntei:
— Então,você não fala? — Me joguei em uma das camas, presunçosamente.
— Falo… — A voz saiu baixa, rouca, e esse foi nosso primeiro diálogo.
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— Mello, Mello!! Vem, rápido! — Matt me puxava pelos corredores da Wammy’s House, sorrindo abertamente.
— O que quer me mostrar que não pode esperar nem eu escovar os dentes?… — Revirei os olhos como fazia costumeiramente antes de minha paciência se esgotar.
Convenhamos, para a pessoa te acordar sete da manhã, em um dia de folga, pulando em cima de si e o chacoalhando para que saísse correndo pelos corredores com os demais moradores te encarando como se fossem lunáticos… tinha que ser algo realmente MUITO bom.
Mas, de fato, quando paramos bruscamente, e meus olhos seguiram para onde a ponta de seus dedos apontava, meu coração deu uma falhada. Algumas pessoas já se amontoavam perto do quadro de avisos, alternando em olharem para o quadro e para mim.
As “posições de inteligência” dos estudantes da Wammy’s algumas vezes variava, mas nem esse fato impediu que um sorriso colasse em meus lábios no mesmo segundo.
Ahh… o doce gosto da vitória, tão bom, tão saboroso… me aproximei mais para ter a absoluta certeza de que não estava vendo coisas, não, não estava, meu nome, ou melhor, meu codinome, estava em primeiro lugar.
Deixando Near em segundo, seguido por Matt. Num ímpeto, não me contive e saltei sobre meu amigo ruivo, que me recebeu de braços abertos apesar do leve rubor em sua face.
— AGORA EU VOU ESFREGAR NA CARA DAQUELA OVELHA! Cade ele?! — Busquei com os olhos ao redor, tentando lhe encontrar, em vão, provavelmente estava no quarto, e eu fazia questão de ir até lá, escrito na minha testa minha posição atual dentro do orfanato.
Não me cabia de felicidade, pois, uma coisa era sempre estar em primeiro lugar, outra era estar em primeiro lugar DEPOIS de Near ter chegado a Wammy’s.
Me afastei de Matt apenas o suficiente para lhe circundar a sua mão, e agora era eu quem o arrastava corredor a dentro, subindo às escadas de madeira, ganhando o segundo andar e rumando ao quarto do albino.
Chegando a fria porta de madeira, a escancarei sem dó, adentrando no quarto num pulo apenas, enquanto Matt, atordoado com a breve corrida, tentava se equilibrar, eu mal percebi que ainda segurava sua mão quando apontei o dedo para a figura muito clara sentada em cócoras sobre a cama.
Ele montava um quebra cabeças qualquer, seu olhar não foi de surpresa quando as grandes bolas negras se encontraram com as minhas azuis. Em silêncio, ele apenas nos fitou, posicionou o dedão perto do lábio inferior como de costume e voltou sua atenção para o puzzle.
— Aham! — Sorri vitorioso, mas logo percebi que provavelmente estava parecendo apenas uma criança, então, fazendo pouco caso, soltei a mão do ruivo e me escorei no batente da porta, dizendo sarcasticamente — Então, ovelha, por um acaso você já desceu hoje?
— Mello, se está se referindo ao quadro, por favor, seja direto pois prefiro gastar meu raciocínio com coisas importantes. — Seu tom de pouco caso fazia meus nervos ferverem, mas me segurei, limitando-me a um “tsc” tentaria uma nova tática.
— Na verdade, ia te convidar para sairmos em comemoração.
Matt pareceu confuso e me encarou “sobre o que ele está falando?”.
— Comemorar? O quê?
O olhei como se ele fosse um idiota, ou, talvez estivesse fingindo ser, ele continuou:
— Não há nada para comemorar, os lugares mudam de tempos em tempos, sabe disso.
— Nesse caso, iremos nós dois comemorarmos. — Matt segurou meu braço, percebendo que minha paciência já estava a um fio. Não preciso dizer que tinhas várias respostas na ponta da língua, e caso não fosse aquele ruivo ir me puxando aos poucos para trás, provavelmente teríamos intrigas.
Percebi o olhar de Near mudar quando Mail se esforçava para me tirar de lá, algo como… um interesse? Não… impossível! Será que aqueles dois haviam se tornado amiguinhos de baixo do meu nariz?
Frisei o cenho uma última vez antes de sair de lá, com um braço circundando MEU amigo.
Quando voltamos para nosso quarto, sentei irritado em na cama, bufando, Matt que me olhava quieto, andou até mim, se sentando ao meu lado.
— Tudo bem, comemoramos sozinhos, tudo bem…
Sabia que ele tentava me acalmar, mas, minha preocupação, pela primeira vez passava longe da competitividade entre mim e Near, aquela ovelha olhou para Matt com COBIÇA!
Não, eu não era gay, ou algo do gênero, mas veja bem, minha possessividade também não era novidade para ninguém, quando Matt passou do meu lado, provavelmente indo pegar seus googles que estavam na cômoda, sem pensar lhe puxei contra mim.
Com o peso do outro corpo, o meu foi para trás, e o ruivo caiu sobre mim, fazendo pouco caso sobre os olhos esverdeados arregalados, o abracei fortemente, provavelmente, alguns lugares perto de suas costelas ficariam arroxeados, mas confesso que isso nem me passou a cabeça no momento.
— Mihael… o que, o que está fazendo? — questionava com dificuldade devido a falta de ar.
— Você é MEU, entendeu? Só MEU!
Um sorriso fraco se formou em seus lábios, e ele confirmou pausadamente com a cabeça, dando um beijo em minha testa, retribuindo o abraço.
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Sentado de frente para o diretor da Wammy’s tremia incessavelmente um das minhas pernas, não poderia ser… teria que deixar o orfanato? Ok, eu sabia que isso um dia aconteceria, e até mesmo havia uma sombra de alegria por enfim conseguir minha almejada liberdade.
Mas para trabalhar junto a NEAR? Eu não podia aceitar isso, nunca, nem em mais de duzentos anos!
E foi por isso, por esse meu lado que descobriria ser puro egoísmo, que naquela mesma noite abandonei a Wammy’s House, iria me virar, trabalhar sozinho e fazer meu próprio nome sem ter que levar o sub título de sucessor do L embaixo do meu nome, como Near teria.
Andando na ponta dos pés para não acordar Matt, não lhe deixei nada, não pensei em deixar, tudo o que ansiava era sair daquele lugar, talvez esse tenha sido meu maior erro, um dos… abandona-lo naquele momento.
Há algumas semanas, descobriram que Matt sofria de depressão, sempre suspeitaram, mas fora apenas naquela semana que com a confirmação médica ele havia passado a tomar remédios antidepressivos.
Nada muito novo para os membros do orfanato, na verdade, eu mesmo tomava um desses remédios, entretanto, voltado à ansiedade. O caso era que além da depressão, o ruivo possuía uma auto-estima muito baixa, de forma que até mesmo uma folha que o atingisse o fazia repensar num todo.
Algumas das crianças da Wammy’s viviam cochichando pelos cantos que era por isso, e o fato de Matt ser distraído, apenas por isso, que ele estava sempre em terceiro no ranking, e que caso desse tudo de si, me passaria facilmente.
Por mais que odiasse perder, não nego que seria algo no mínimo interessante, visto que ele não era acostumado estar em alta. Pensando nisso, pulei o muro do orfanato com um sorriso nos lábios, apenas nesse meio segundo, o sentimento de reconsideração pairou sobre mim, entretanto, já era tarde demais, o muro já havia ficado para trás.
“Adeus… Matt, meu querido amigo.”
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Os dias foram passando rápido, as semanas, meses, anos… havia conseguido parceria com uma das máfias japonesas, com minha grande influência dentro do local, era divertido ver os yakuza me obedecendo cegamente, mesmo que eu mandasse que matassem um dos seus, eles obedeciam.
Em contrapartida, exatamente por essa obediência cega, que passava muito estresse naquele meio, como se não conseguissem nunca agir por si mesmo e sempre precisassem de alguém puxando as cordinhas.
Esse tipo de atitude me lembrava até um certo alguém… de madeixas ruivas, baixinho… como será que Mail estava? Bufei, pedindo outra dose de absinto para o garçom da boate.
Não me recordo quantos já foram, eu e as máfias vizinhas tínhamos feito uma reunião há pouco, discussão de taxas, trocas de fabricantes, armas… algumas gangues eram aliadas, outras não, a que pertencia fazia parte de uma das panelinhas mais influentes de Tokyou.
Minha cabeça latejava um pouco, mas nem isso me impedia de pedir cada vez mais doses, talvez fosse o efeito da mistura dos remédios com o álcool, o fato era que um grande vazio preenchia meu peito aquela noite.
Sendo mais específico, as lembranças passadas que vinham a tona aquela noite me faziam sentir assim, algumas vezes durante o tempo afastado do orfanato, houve diversas vezes que esse mesmo vazio me visitara.
Mas não com tamanha intensidade, e eu sabia exatamente o porquê… horas antes, um número desconhecido me ligara, era Matt… não faço a mínima ideia de como ele havia conseguido meu número, bom, no final ele me explicou, que estava num ramo de hackers e afins, que se surpreendeu ao descobrir meu número interligado com a máfia, ignorando essa parte, me disse que também havia deixado a Wammy’s pouco depois de mim.
Tudo foi dito muito superficialmente, eu tentava não transparecer interesse, no final, ele apenas me perguntou como estavam as coisas, e disse um “até logo, salve esse número, quando precisar de mim, não hesite em ligar, Mihael”.
Sabia que estava tentando não forçar muito a barra, não invadir tanto meu espaço, sua voz, que agora era mais máscula, possuía uma boa hesitação para que percebesse tal coisa. Talvez ele não tenha mudado tanto, e eu ainda conseguisse o ler facilmente.
Ouvir meu nome ser pronunciado depois de tanto tempo sem que eu mesmo o falasse, fazia com que meu peito apertasse… droga, estava tudo sobre controle, porque ele tinha que voltar agora?
Uma morena com seios fartos passou do meu lado, piscando para mim, a segurei pela cintura sussurrando em seu ouvido, saí acompanhado do local, meio cambaleante. Aquilo deveria bastar para me tirar de meus devaneios.
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Como se estivesse respirando areia, o ar me faltava, arrastando-me para fora do galpão com muita dificuldade, ainda tive forças para me jogar em uma vala qualquer. Dei uma última checada, olhando para trás, tudo estava em chamas. Otimo, nenhuma pista para os investigadores , e eu ainda estava vivo, mesmo que incapacitado.
Pensava quais possibilidades tinha devido às circunstâncias, minha moto havia pegado fogo junto com as demais coisas, sentia minha cabeça pesar, sabia que não poderia desmaiar, tinha que aguentar firme, por mais que estivesse enxergando apenas com um olho, já que o outro estava ensanguentado.
O lado direito do meu rosto formigava muito, era esperado, o lado mais próximo à bomba. Forçando a permanecer consciente, me lembrei de algo, teria que ser isso, por mais que meu orgulho chorasse com tal ato.
Disquei um número pausadamente no meu smartphone, não tive forças para dizer muito, minha voz estava falha… apenas… “Matt, me ajude.”
Isso poderia soar patético para qualquer pessoa, mas não para ele, o homem que conseguiu meu número sozinho, a partir do zero, que vivia em sua toca de fios e programas complexos. Foram poucas as vezes que nos falamos depois daquela ligação, nos vermos? Nunca…
A última coisa que me lembro do ocorrido, foi uma silhueta alta, não muito forte, mesmo assim, mas alta que eu. Ele se aproximou, virando delicadamente meu rosto mole para o lado.
— Oh… merda! — ele dizia algo sobre meu rosto estar em carne viva, mas… eu sinceramente não ouvi — Vai ficar tudo bem….
Tudo ficou escuro.
Continua...
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