Cinco Dias em Sussex
1 Duas Conversas e Uma Decisão
Notas iniciais
Watson lavava o rosto mais uma vez, examinando sua imagem no espelho.
Como era possível? Como, depois de dois anos juntos? O quie tinha mudado? Ela tinha garantido que não era sua culpa. Enquanto tomavam o chá das cinco no Splendid House, no coração de Londres, ela colocara em primeiro lugar, sue anel sobre a mesa. Ele engoliu em seco. Fazia alguma idéia do que aquilo significava, embora isso jamais tivesse acontecido com ele. Na verdade, ele sequer imaginou que isso poderia ocorrer algum dia com ele.
Ela estava terminando tudo. Parecia pisar em vidros. O problema é que só agora ele percebeu. Ela tinha um carinho muito profundo por ele, mas não era amor. Não era recíproco como ele imaginava. Uma amizade, era o que deveria ter sido, e ele, um idiota sentimental e com o coração triste, abalado, imaginou tudo errado. Ainda assim, ele era capaz de fazê-la feliz e sabia disso.
Ela parecia nervosa, com medo de despertar sua raiva, tristeza, o que quer que fosse de ruim. Disse que reencontrou alguém. Claro, havia outro homem. Watson fechou os punhos, e ela não escondeu sua preocupação com o que tinha visto isso.
–Quem é ele? — ele perguntou, secamente.
Esther baixou os olhos. — Um homem que conheci antes de vir à Londres. Você não o conhece.
–Quem é ele, Sophie? – disse, com insistência, tentando evitar a lágrima nos olhos. – Acho que mereço ao menos saber por quem estou sendo trocado.
–Watson...
Watson riu. — Ele revirou sua cabeça mesmo. Veja só, eis que de uma hora para outra sequer me chama de John...
–Ele também se chama John. — Esther mentiu. — John Sigerson. Ele é norueguês...
–O que esse sujeito faz da vida?
Esther pareceu envergonhada, ele percebeu. — Ele é um viajante, se assim pode se dizer.
Os olhos azuis de Watson se arregalaram, ele estava ainda mais irritado.
–Por Deus, Sophie! Isso é ridículo! Você está agindo como uma menina inconsequente, apaixonada por um aventureiro qualquer!
–Por favor, não torne as coisas mais difíceis para mim...
–Não tem que ser... — ele diz, segurando em sua mão, com uma força beirando ao desespero. -Não tem que ser difícil para nenhum de nós dois, Sophie. Sabe, eu sou um homem vivido, estive em muitos lugares em minha juventude... Posso entender o tipo de fascínio que sujeitos como esse podem exercer nas mulheres... — Watson suspirou, e pegando a pequena caixinha com seu anel de noivado, ele a pôs na mão de Esther, que tentou recusar. — Olha, nós podemos esquecer o que se passou aqui...
–Não Watson, por favor...
–Sophie, esse homem não merece alguém como você...
–Watson, chega! Eu não quero estragar a nossa amizade, por favor...
–Eu posso lhe dar um tempo para pensar... — disse Watson, já com poucas esperanças.
–Não, eu não quero te encher com falsas esperanças. Eu vou me casar com ele. – ela despejou, deixando-o boquiaberto, atônito. – Daqui a uma semana.
Watson ficou indignado, e ergueu sua voz.
–Uma semana?!
–Ele tem uma viagem à África... Graças a alguns amigos, ele conseguiu uma licença para se casar.
–Eu preciso ver esse homem... — murmurava Watson, na dor de ser preterido. — Aonde vocês irão se casar?
Esther entrou em desespero. — Eu não vou lhe contar. Não vou lhe contar porque quero me casar com o homem que amo em paz. — ela disse, levantando-se, com raiva.
Ele suspirou. Tinha se passado um pouco mais de vinte e quatro horas disso e ainda assim, a dor parecia ser a mesma de quando ela contou-lhe tudo a respeito desse tal de John Sigerson, um viajante vulgar, certamente com muita conversa e sedutor, que tinha arrebatado sua noiva tal como um abutre e tirado-lhe uma das pessoas que, ultimamente, tinha lhe feito sorrir.
A outra pessoa que tinha lhe feito sorrir depois de anos de dor e tristeza tinha sido Holmes. Mas agora, nem mesmo ele estava por perto. Desde que um estrangeiro tinha tentado invadir sua casa para assassinar-lhe, aparentemente sem motivo — que outro motivo para vê-lo morto senão porque ele é Sherlock Holmes? -, Watson mal o encontra em Baker Street. Ele não estava envolvido em nenhum caos, pelo contrário. Os jornais noticiavam sua volta, uma fila de jornalistas cercava a casa. Watson chegou a dar algumas entrevistas, e prometeu lançar uma de suas histórias. Mas Holmes sequer apareceu, sequer disse uma palavra que fosse, algo que Watson já esperava. Mas ainda assim, ele estava sumido nos últimos tempos.
ooooooo
–Isso é loucura! — vociferava Mycroft, na sala de sua casa, ocupada por um casal com os olhos esperançosos e cheio de planos loucos demais para si. — Loucura!
–Vamos, Mycroft. O que há de mal nisso? Uma licença de casamento...
–Em nome de um nome falso! Dois nomes falsos, aliás! Acaso perdeu o juízo?
–Nunca estive em tão perfeito juízo quanto agora, acredite em mim... — ele disse, trocando um olhar breve, e ainda assim apaixonado, com Esther.
–Eu sei que os documentos são legais, mas eles foram concedidos para outra finalidades, não para acobertarem essa sandice! Até posso entender os motivos de Miss Katz. Dmitri pode estar morto, mas o Conde Ivanov ainda está livre e constitui-se de uma ameaça, não sabemos ao certo. Mas quanto a você, meu irmão... Isso é abominável! Você quer se casar sob o nome de JohnSigerson para se livrar da responsabilidade de um casamento e ter vida dupla!
Holmes bufou, irritado com as acusações. — Óbvio que não. Se tomo essa escolha, é porque penso no bem-estar de Esther. Eu temo os tipos de perigo que nosso casamento possa provocar a ela...
–Isso não me convence. Se assim o fosse, os policiais seriam todos solteiros. Os reis, presidentes, políticos...
–São casos diferentes, Mycroft. Eu sou um cidadão comum, com uma profissão incomum e que me coloca sobre risco o tempo todo. E já conversei com Esther, e ela não se importa.
Mycroft se virou para Esther, depois de dar uma vagarosa baforada.
–O que pensa disso, minha cara? Quero ouvir de você sua opinião.
Esther concordou. -Mr. Holmes, o... Holmes está certo.
Naquele momento, os três riram juntos.
–Acho, minha cara Katz, que você terá de começar a chamá-lo de Sherlock.
Sherlock. O nome era estranho, apenas de se pensar.
–Sherlock... – ela disse, como se degustasse a palavra na boca. – Nem pensar. Deveras estranho. Aliás, de quem foi idéia desse nome?
Os dois irmãos mudaram de humor rapidamente.
–Er... Foi de nossa mãe. — disse Mycroft. — Nossa mãe e seus nomes exóticos.
–É, mas eu nunca entendi o porquê de Sherlock... Soube que aqui na Inglaterra, é uma espécie de gíria para denotar homens loiros, mas Holmes não é loiro e...
Pelo semblante de ambos os Holmes, o assunto parecia rumar para caminhos tortuosos.
–De fato, Esther, melhor esquecermos Sherlock. – interrompeu Holmes. – Não é bom que você se acostume a me chamar assim, você deve me chamar de Sigerson, é melhor para nossa condição...
–Pare de manipular o jogo. Deixe a moça falar por si. Miss Katz, em momento algum você não se sente ofendida, ou mesmo com a sensação de que meu irmão está fazendo isso porque tem vergonha de ser um homem casado?
Esther pausou por um momento. POrém, antes que Mycroft se sentisse vitorioso, ela respondeu.
–Eu sei que o problema não é esse. Acho que já basta os meus problemas, que sinto que ainda não estão terminados. Não, eu não quero ajudar Holmes a carregar os seus.
Holmes observou-a, muito chocado. Esther sentiu-se ofendida com sua reação.
–Ora, há quantos anos trabalha como detetive? Precisou da ajuda de alguma esposa alguma vez?
Mycroft soltava uma leve baforada, espantado com a frieza metódica de Esther.
–Parece que esse casamento é o mais ideal que já se tem notícia...
Após dois copos de licor e uma conversa à beira da lareira, Mycroft decretou sua sentença.
Com um pouco de conversa com alguns contatos, Mycroft poderia conseguir uma licença para casamento, daqui a uma semana. Conhecia também um pastor em Sussex, que poderia realizar o casamento rapidamente e de maneira discreta, sem perguntas.
ooooooooooo
Holmes terminava de dar aquela que seria sua última garfada no prato. Não que o quiche feito por Esther não estivesse delicioso, mas ele sempre comera bem pouco. Esther, que pôde conhecê-lo melhor em suas andanças pela França, aliás como poucos, sabia disso e não se importava. Exceto quando ele se recusava a se alimentar.
–Porquê Sussex? — ela perguntou.
–Mycroft morou em Sussex por um tempo, depois que se formou. Ele ainda tem contatos lá.
–Aliás, podemos convidá-lo para ser nosso padrinho...
Holmes riu. — Mycroft, sair de Londres? É com o imaginar um navio ancorado no deserto do Saara, minha cara. Bem, ele deve ter pessoas de confiança como testemunhas, por isso definiu Sussex. O fato é que teremos uma longa viagem a percorrer amanhã. — ele disse, levantando-se.
Caía uma tempestade forte. As malas de Holmes estavam na sala. Esther não fazia idéia de como ele conseguira sair para um dito caso em outra cidade sem trazer Watson consigo. Ou até mesmo fazia, mas não queria pensar muito sobre isso. Ele precisava superar isso.
De manhã cedo, enquanto Holmes ainda estava dormindo em seu sofá, Esther levantou-se e foi até a sala. Ele dormia sempre do mesmo jeito, com um ronco quase imperceptível e de bruços. Seu cabelo, negro e liso, estava levemente despenteado, caindo-lhe a testa. Num impulso, ela caiu na tentação de passar-lhe levemente as mãos. Sentiu-o pesado e oleoso pelo excesso de brilhantina, mas ainda assim fascinante.
–Acabarei voltando a dormir desse jeito. – ele disse, ainda com os olhos fechados, surpreendendo-na. Ela parou imediatamente de passar a mão por seus cabelos.
–Não queria te acordar. – ela confessou.
–Não há com que se desculpar, Esther. Cedo ou tarde eu acordaria. Aliás, quanto mais cedo partimos, é melhor para aproveitarmos Sussex. O casamento está marcado para uma da tarde. – ele disse, levantando-se com energia.
OOOOOOO
O casamento tinha sido rápido, mas bonito. Esther vestia um vestido de noiva, simples, mas sutilmente bonito. Holmes, no entanto, pouco tinha feito para estar deslumbrante. Vestiu um terno bom, embora Esther tivesse lhe pedido para usar o fraque que tinha aparecido no quarto daquele hotel. Presente de Mycroft, murmurou Holmes. Seu irmão sabia que ele detestava vestimentas daquele tipo.
Na porta da Igreja, estavam as duas testemunhas. Dois agentes do governo, reconheceu Esther. Não fizeram qualquer pergunta aos dois, aliás, nenhum deles trocou uma palavra sequer. Holmes apenas apertou-lhe as mãos antes de entrar na Igreja. Depois, não foram mais vistos. Holmes confirmou que ambos trabalhavam para Mycroft, sabe-se lá com o quê.
Esther teria pensado que Holmes estava calmo, sereno, se não fosse por sua mão levemente tremida quando ele segurou as alianças, que foram compradas às escondidas — por ela, e não por Holmes. Ela sabia que ele tinha se esquecido, e não engoliu muito bem aquela história de que ele não poderia ir a uma joalheria comprar um par de alianças. "O que vou dizer? que eram para algum experimento científico?", ele alegava. Mas fez questão de pagar a conta e ela não reclamou disso.
O buquê era de flores do campo. Não era temporada das flores, e seu buquê era escasso, mas nada parecia derrotá-la. Nem mesmo a tempestade horrenda e a ventania que se armou naquele vilarejo afastado de Sussex.
Quando chegaram ao hotel, depois da cerimônia, ambos estavam completamente molhados e com os pés sujos de barro. Engana-se quem pensa que se entregariam imediatamente à paixão. A racionalidade era forte em ambos. Primeiro trocaram de roupas, apesar do leve constrangimento da situação, mas agiram como nos velhos tempos, virando-se enquanto o outro vestia-se.
Quando era apenas o estranho Sigerson, Homes virava-se para o canto do quarto que não tivesse nenhum objeto que refletisse o que estava atrás de suas costas e olhava para o teto na maioria do tempo. Isso quando não se ausentava do quarto. Mas não daquela vez. Ele permitiu que seus olhos voltassem para a sombra de Esther, que se projetava sobre o chão. Pôde ver o traço de seu corpo, sem uma boa parte dos tecidos a cobrir-lhe. A sensação fazia seu coração disparar. Não apenas em saber que a mulher que ele mais amava estava ali, a centímetros de si, vulnerável aos seus instintos, mas no que inevitavelmente ocorreria naquele quarto. E isso parecia sufocar-lhe.
Ele esperava que ela fosse compreensível. Ela seria a primeira — a única, sem dúvida, porque ele não se imaginava com outra que fosse. Não era o caso dela. Isso era doloroso de se saber e ele procurava esquecer. Temia por comparações que ela poderia facilmente fazer, embora tivesse se casado com um monstro, ela tivera alguma experiência — ruim, ele sabia, mas já era alguma coisa. E ele?
Apenas uma vez ele pensara nisto. Estava em Oxford, no primeiro ou segundo ano da faculdade, ele não se recordava muito bem.Queria saber, por curiosidade, o porquê da relação tão doentia de alguns homens com o sexo, quase como um estudo científico. Ele chegou a contratar os serviços de uma prostituta para isso. Uma vergonha. Tudo deu errado e nada acontecera, em um dos episódios mais vexatórios de sua vida, que ele só desejava esquecer. Mas agora, ele estava sendo posto à prova outra vez e não queria decepcioná-la.
–M-Melhor almoçarmos, não?- ele perguntou, tentando se esquivar da sombra sobre o chão, que lhe acenava para muitas coisas.
–Sim, penso que seria ótimo. – ela concordou.
Fale com o autor