Notas iniciais
— Um textinho daqueles que se escreve em uma tarde chuvosa ao som de uma música melancólica. Enjoy!
Certos detalhes da vida estão fadados ao fracasso e, por mais que se tenha plena consciência, há quem insista em fazer dar certo. Esse era o meu caso, vinte e dois anos carregados nas costas e menos do que isso no bolso. Havia investido todo o meu dinheiro em uma banda de modern rock, acreditando plenamente que faria a mudança no cenário musical, quando eu era apenas mais um. Apenas um aluno qualquer da turma de composição de melodias, quem dirá da universidade. Apenas um número para as estatísticas de quem acorda e toma para si um pouco do oxigênio. Apenas mais um que sonhava com estádios lotados enquanto tinha uma mini van com cheiro de cerveja velha. E, mesmo assim, não é a essa frustração que me refiro. Eu quero contara vocês sobre ela, a garota da boca curta e olhos vastos.
Ela me olhou naquele momento triste, em que você afasta os dedos das cordas e espera a explosão da plateia – mas não há. Presenteou-me com uma intensidade que parecia ser característica exclusivamente sua e, então, sorriu. Não de forma maldosa, como eu já estava acostumado, mas sim de alguém que estava expressando o quanto havia se divertido com o show. Em seu braço, percebi uma tatuagem em forma de triângulo, quase idêntica a uma que eu tinha praticamente no mesmo local. A única diferença era que a minha tinha sido preenchida; a dela, havia apenas o contorno. Contudo, antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, ela levantou logo após largar o cigarro e foi embora. E eu? Bom, olhei por alguns segundos o vento carregar as cinzas e acendi o meu. A noite de Londres estava apenas começando e isso significava dizer que ainda veria muitas outras saias de couro como aquela. Afinal de contas, não era grande coisa assim. Olhei uma última vez para o palco e sai carregando minha guitarra nas costas, deixando impregnado o cheiro de fumaça em quem passasse.
Fui em direção ao meu único meio de transporte e ela estava lá, segurando uma margarita de forma despretensiosa. Disse que queria diversão e que eu seria o sortudo da noite, podendo fazer o que bem entendesse com a boca curta e todo o resto. Ela só exigia que eu cumprisse uma única regra: nada de afeto. Em hipótese alguma, palavras de carinho e números de telefone trocados. Seria apenas uma noite que ficaria guardada na minha mente; no caso dela, apenas mais algumas horas esquecidas. A última coisa que lembro desse dia foi ter pegado as chaves e a puxado para dentro, afinal, onde mais eu conseguiria uma diversão daquelas se eu não podia contar nem com as groupies que ninguém queria?
Ao acordar no dia seguinte, ela já estava vestida na blusa apertada e me olhou de forma desesperada, como se não quisesse que eu flagrasse sua fuga. Contou-me que nunca passava a noite com ninguém e que foi um erro ter adormecido comigo, colocando a culpa no excesso de álcool logo depois. Como resposta, eu apenas perguntei se não queria um café e, para a surpresa de ambos, ela aceitou. Relutantemente, respondeu minhas perguntas, falando sobre como havia meses que viajava sem um destino certo e vivia da forma que podia. Em recompensa, saciei suas curiosidades sobre a minha banda e revelei os meus planos futuros: desistir da carreira e, finalmente, aceitar o emprego no barzinho da esquina. Ela foi embora, de novo, mas não antes de me convencer a continuar tocando. A insistir nos meus sonhos, independente de quais sejam eles. A não usar tanto gel no cabelo também, porém isso é o de menos.
A verdade é que aquela saia de couro não era apenas mais uma, era uma raridade que a minha irmã se estapearia fácil com outra para conseguir. Era isso ou os meus olhos me enganavam, não me permitindo ver nada mais bonito que aquele par de pernas. Porque, sim, eu cheguei no ponto que podia escolher facilmente com que groupie queria passar um tempo. No entanto, não era nada comparado àquela que me devolveu as esperanças perdidas. Quando nada conseguia me satisfazer, eu pegava aquele mesmo cigarro que vi entre seus lábios anos atrás e tinha dois ou três devaneios. O primeiro, de ter a famosa saia jogada no chão do quarto. A segunda, de que ela fosse unicamente minha. E, por último, a terceira, que se tornava apenas um pedido desesperado de ver aqueles olhos novamente. Entretanto, nada disso aconteceu e eu apenas continuo procurando pelas respostas.
Agora, eu canto para ela, mesmo que milhares de pessoas ouçam no seu lugar. No refrão da minha música preferida, a questão pelo qual tenho buscado respostas:
“Quem seria a causadora dos meus devaneios de cigarro?”.
Notas finais
— Se você gostou, por mais simples que seja, deixe um review. É sempre bom saber a opinião de quem lê, ainda mais quem pode acrescentar à história. Ou seja, críticas construtivas são super bem-vindas!— Obrigada por ler até aqui. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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