Cigarette Daydream
2 Wots...uh the Deal
Notas iniciais
Tris. Quase duas semanas atrás.
Eu estava sentada em um bonito restaurante de frente a Tobias Eaton. Nós dois nos encaramos de uma maneira estranha. Ele tentava adivinhar o que eu queria com ele e eu esperava o garçom se afastar para começar a falar. Eu não tinha pedido uma mesa num canto afastado e discreto à toa. Esta quarta-feira estava tão estranha que eu nem sabia como me expressar direito.
O garçom termina de anotar os pedidos, olha mais uma vez de Tobias para mim e se afasta, com a sobrancelha erguida. Eu tinha feito meu melhor para passar despercebida em Chicago: o capuz do moletom tampando boa parte do meu rosto, óculos de sol grande e sempre olhando pra baixo. A última coisa que eu queria eram fotógrafos e repórteres em cima de mim agora.
— Olha, eu não aguento mais esse suspense. — Ele diz, forçando um sorriso. Ele estava tenso desde a hora que eu o havia encurralado na porta do prédio que ele trabalha dizendo que nós precisávamos conversar. Eu entendia a tensão. Não é sempre que uma pessoa com quem você passou algumas noites em Vegas, uma vez na vida, te chama furtivamente no meio da rua e te obriga a ir num restaurante afastado porque quer conversar, quase uma semana e meia depois de nós termos nos despedido. — Por tudo que é mais sagrado, não me fala que você saiu de Nova York e veio pra Chicago pra me dizer que está grávida.
Eu havia viajado mais de 700 milhas para encontrar esse cara. O cara de exatas três noites em Vegas. O cara muito gato de três noites em Vegas. Eu tava tão ferrada que nem sabia por onde começar. Eu já podia imaginar o escândalo correndo solto e os contratos publicitários correndo da minha mão.
— Eu nem sei por onde começar. — Eu digo, suspirando. — Mas não, eu não estou grávida. — Eu falo e ele respira fundo aliviado. Tobias dá um sorriso, parecendo alguém 100 quilos mais leve. Eu acho que preferia me jogar em frente a um trem do que estar grávida nessa fase da minha vida.
— Qual é o problema? — Ele pergunta, me olhando intensamente. Eu sabia que as pessoas geralmente tinham esse costume de me olhar de maneira intensa. Mas receber esse olhar dele era algo diferente. Ele parecia alguém com capacidade para ler a minha alma, mas alguém que eu não conseguia ler facilmente. Era estranho a sensação de ter sua alma exposta para alguém sem conseguir um pedaço em retribuição. — Se você preferir, pode ir direto ao ponto pra tirar essa carga de seus ombros. Pode jogar a bomba de uma vez, prometo não sair correndo e gritando. — Ele diz, sorrindo.
— Ok. Aqui vai. — Eu respiro fundo. — Nós estamos casados. Legalmente casados. Marido e mulher aos olhos do Estado. — Ele me olha por alguns segundos antes de conseguir pronunciar qualquer coisa. Acho que ele esperava eu desmentir a brincadeira ou alguma câmera de pegadinha aparecer.
— Nós estamos casados? Tipo… — A ficha dele parece cair. — Bêbados em Vegas. Nós casamos bêbados em Vegas. — Ele fala, não como uma pergunta, mas como uma afirmação de descrença. Ele dá uma risada esquisita, como alguém em estado de negação.
— Minha assessora recebeu uma documentação e tal. — Eu digo. — Eu precisava te contar e bem, esse não é o tipo de coisa que a gente fala por mensagem de texto ou coisa assim. — Eu finalizo e ele concorda com a cabeça. O garçom traz os nossos pedidos. Tobias agradece e o cara se retira. Eu estranho o fato de ele ainda não ter falado nada sobre divórcio. Eu tinha meus motivos, mas esperava que ele sugerisse isso imediatamente, o que ele não o faz. — Fala alguma coisa, por favor. — Eu digo em voz baixa.
— Nós estamos tão ferrados. — Ele diz, bebendo um gole grande de Coca-Cola. Eu me limito a tamborilar os dedos em cima da mesa.
— Eu já consigo ver meus contratos sendo cancelados e o escândalo que isso vai ser. Consigo ver meus contratos sendo jogados no fogo. Do inferno. — Eu desabafo. — O mundo da moda é cruel. As pessoas não esquecem. Eu vou ser, pra sempre, a modelo que se casou bêbada em Vegas e pediu o divórcio duas semanas depois, que foi quando descobriu que estava casada. Sabe mais quantas capas da edição de setembro da Vogue eu vou ser? Nenhuma. Victoria’s Secret Fashion Show também já era. — Eu começo a ter um acesso de riso, para disfarçar o pânico que eu estava sentindo. Eu podia ver tudo que eu tinha feito nos últimos anos se esvaindo. — Eu estou acabada aos 24 anos de idade.
— Eu consigo ver a presidência da corporação escapando pelos meus dedos. — Ele diz, com o olhar vidrado. — E eu sou um dos favoritos. Imagina o escândalo. — Ele faz uma pausa, parecendo atordoado. — Eu posso até ser demitido por justa causa. De quase presidente para o olho da rua. Eu estou acabado aos 26 anos de idade. Vou trabalhar num muquifo sem nome relevante para o resto da minha vida. A vergonha de Harvard para o resto da história. — Agora eu entendia porque ele também tinha medo de um escândalo midiático em proporção internacional. Como eu, ele tinha muita coisa a perder.
— Nós estamos tão ferrados. — Eu digo, repetindo o que ele tinha falado minutos atrás. Nós dois ficamos em silêncio por alguns minutos. Nenhum de nós toca na comida a nossa frente. Eu costumava colocar aquelas três noites em Vegas como algumas das melhores noites da minha vida — não que eu me lembrasse de muita coisa, mas a visão de um Tobias seminu na minha cama pela manhã era algo a se considerar -, agora eu já não tinha certeza se aquelas três noites compensaram a dor de cabeça.
— Qual a chance da gente conseguir se divorciar sem que isso seja divulgado? — Ele pergunta, provavelmente já sabendo a resposta.
— Nenhuma. — Eu digo, desiludida. — Se tem uma coisa que a mídia é boa, é em achar os podres das pessoas. Nós vamos ser destruídos. Eu já consigo ver os letreiros dos tabloides.
Ele me encara por alguns segundos e dá um sorriso. Os olhos dele se iluminam de uma forma que me faz querer sair correndo. Era o olhar de uma pessoa que tinha acabado de ter uma ideia fantasticamente perigosa.
— É só a gente não se divorciar. — Ele diz. — Vamos deixar as coisas quietas desse jeito mesmo. Ninguém vai descobrir.
— Primeiro, se isso vazar e descobrirem que a gente acobertou, vai ser mil vezes pior. — Eu digo. — E imagina só quando a gente realmente for casar com alguém e ter que pedir o divórcio anos depois, que escândalo. Você pode já ser presidente da empresa, mas os acionistas não vão ficar feliz com a visibilidade negativa de todo jeito e eu vou estar acabada no momento que isso vazar. Nós… — Eu então tenho uma ideia genial e ao mesmo tempo arriscada.
— Nós? — Ele pergunta, erguendo uma das sobrancelhas. Perceptivo. Tobias era o tipo de pessoa que não deixava passar nada. Bom, aparentemente não era atoa que ele era um dos principais candidatos a presidência de uma das maiores corporações dos Estados Unidos aos 26 anos. Eu o encaro.
— Nós assumimos nosso casamento pra todo mundo. — Eu digo, sorrindo.
— Você está louca? — Ele pergunta, abismado. Eu tinha pensado a mesma coisa segundos depois de verbalizar minha excêntrica, arriscada e quase sem noção ideia. Ele parecia alguém prestes a ter um ataque cardíaco ou algo do gênero.
— Tobias, pensa e não surta. — Eu falo. — Nós assumimos pra todo mundo que estamos casados, que nos casamos em Vegas depois de ter nos apaixonado à primeira vista. — Eu completo rapidamente. — A América ama uma história de amor improvável, é só a gente inventar uma sem falhas e totalmente apaixonada. A gente espera dar um tempinho, um ano e pouquinho mais ou menos, e anuncia o divórcio. Nós podemos falar que nos damos bem, mas que percebemos que somos só amigos. Ninguém sai como o ruim da história e ninguém vai ser prejudicado. — Eu finalizo. Ele parece estar compreendendo a história.
— Até lá, eu já consegui ou não a presidência da empresa, você continua com seus contratos e isso não vai destruir nossas carreiras. — Ele sorri. — Nós só temos um problema: eu moro aqui e você em Nova York. Ninguém nunca vai comprar essa história de amor à primeira vista dessa forma.
— O quão grande é a sua cama? — Eu pergunto, sorrindo pra ele, que sorri de volta e me olha de cima a baixo — não que tivesse muita coisa pra ver, já que eu usava um moletom gigantesco e estava com o capuz na cabeça.
Essa era, de longe, a coisa mais louca que eu ia fazer na minha vida. E olha que a minha cota de loucura era bem alta. Se bem que eu considerava Tobias mais como um investimento do que como uma loucura. O cara era realmente muito gato e muito gostoso. Eu poderia facilmente anunciar para o mundo que estava casada com aquele projeto de deus.
— Você está sugerindo…
— Me mudar pra cá? Sim. — Faço uma pausa. — Pensa, eu tenho nome o suficiente para fazer as pessoas que quiserem me fotografar se deslocarem de onde é que elas estejam para Chicago. E bem, é só pegar a porcaria de um avião, se eu precisar. Sem contar que depois que nosso casamento for anunciado, o interesse das pessoas vai aumentar, o que significa que campanhas publicitárias, capas de revista e muito mais também vai aumentar. Meu precioso posto de angel da Victoria’s Secret continua garantido, assim como o contrato com as marcas mais prestigiadas do mundo. E as semanas de moda.
— E nesse meio tempo, eu sou o candidato à presidência da empresa que está casado com uma supermodelo. Minhas chances passam de altas para muito altas. — Ele sorri e percebo que ele era tão louco quanto eu. — Acho que nós já podemos começar a montar uma história de contos de fadas perfeita. — Tobias diz, dando uma garfada na comida diante dele. Eu faço o mesmo. Eu tinha certeza que nós nos daríamos bem. Aparentemente, nenhum de nós tinha muito escrúpulos quando se tratava de nossa vida profissional.
— E eu sou de Nova York, você é daqui. Ninguém nunca vai pensar nisso como uma farsa, afinal, nós nunca nos encontramos antes de Vegas. Nenhum contato, nem por internet. E não tem porque ninguém desconfiar de armação, já que nós dois somos bem sucedidos nos nossos respectivos empregos e não teríamos porque inventar algo assim. — Eu digo. — É a história perfeita. Amor à primeira vista vai colar imediatamente. Nós vamos ser assunto por meses!
— Quando você se muda, Tris? — Ele pergunta, sorrindo pra mim.
— Já vou providenciar para que tragam as minhas coisas de Nova York pra cá. Pelo menos algumas coisas necessárias, inicialmente. — Eu respondo. Ficar voando de lá pra cá várias vezes seria arriscado. Eu ia aproveitar que ninguém tinha me localizado aqui ainda pra nós podermos fazer uma aparição pública bombástica. — Mas por enquanto, vou ficar anônima em Chicago, na sua casa porque não vou me arriscar num hotel. As pessoas falam e se vazar para a mídia que eu estou em um hotel em Chicago, nosso conto de fadas já era. E eu quero que nosso casamento seja anunciado da maneira mais bombástica que existir.
Tobias concorda com a cabeça. Isso tudo era perfeito pra nós dois. Meu nome iria circular muito nos próximos meses e Tobias estava praticamente com o pé na sala da presidência. A imagem de bom moço casado com uma supermodelo iria garantir isso. Tudo o que nós dois tínhamos que fazer era nos suportarmos por um período não muito longo e passar a impressão de estarmos apaixonados. Tobias abre um sorriso.
— Sábado eu tenho uma festa pra ir. Quer dizer, nós temos. — Ele diz. — Todos os figurões da cidade vão estar lá. Todo mundo importante do mundo dos negócios, da elite e claro, a mídia. E eu estou na lista de convidados e tenho convite extra para uma acompanhante. Vai ser perfeito.
Eu concordo com um sorriso, já pensando em pedir para Tori enviar um dos últimos vestidos que eu tinha comprado na Dior. Ia ser ótimo, porque eu tinha um contrato milionário com eles e eles veriam o uso do vestido como uma prova de fidelidade à marca. Os próximos passos seriam dados a partir daí e eu já podia ver uma renovação de contrato se fortificando.
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