Cigana De Luxo!
18 A bela e a fera
Quando dizem que alguém não possui um coração estão se referindo a imagem que tal pessoa demonstra ou o que ela é de verdade? Um monstro sem coração pode tirar a máscara que coberta sua verdadeira alma e revelar quem realmente é? Será que ele possui uma máscara? Um beijo é suficiente para quebrar a maldição?
Ou talvez se limparmos o baú ou cavarmos bem a fundo vamos perceber que como no conto de fadas da bela e a fera, o monstro repugnante não era o que todos pensavam ser, sua aparência temida afastava todos a sua volta, menos a garota que mais tarde roubou seu coração... O transformou em um príncipe.
Mas porque o feitiço teve que ser quebrado para ambos serem felizes? Não bastava apenas ela saber que a fera que amava era um príncipe de coração? Pelo menos em uma história, esperava eu, que a beleza morresse por baixo dos gritos de amor, mesmo que fosse o mais singelo sussurro, deveria valer mais... Mil vezes mais. A história contada aqui, porém, não é essa... Embora naquele dia em que Jazmim chorou até dormir pensando que Bernardo não tinha um coração, se dissipou e foi esquecida no silêncio da fera que nem sequer a deu um beijo de boa noite. Ouviu seus soluços em completo silêncio, e com essa escolha se afogou em sua própria angústia até o nascer do sol.
...
A cigana já estava pronta, decidida de sua própria decisão: Não iria ficar mais naquela casa nem sequer um minuto. Como não trouxe nada nem sequer se incomodou de levar nada embora ou simplesmente de carregar nada até a porta. Eram oito horas da manhã e ela estava convicta de que Bernardo havia saído para trabalhar. Enganou-se, e bastou abrir a porta da frente.
- Que surpresa! – Bernardo sorriu ironicamente entrando lentamente na casa fazendo Jazmim recuar. – Aonde pensa que vai?
Bernardo bateu a porta atrás de si enquanto a garota levantou a cabeça e respirou fundo.
- Vou embora, Ana já deve estar me esperando.
- Não, não está. – Disse sério. – Seu comprador morreu, mas você já foi vendida. Pertence a mim agora.
- EU NÃO PERTENÇO A NINGUÉM! – Levantou a voz, brava.
Para Bernardo, ver aquela garota o enfrentar como muitos homens não o faziam já não era mais novidade, porém o incrível, era que mesmo se a amarrassem pelas mãos e pés ela era orgulhosa o suficiente de nunca admitir que foi dominada. Jazmim cada vez mais o surpreendia.
- Nem mesmo a você...
- Não ache que tem o poder para me desafiar garota porque não tem.
Jazmim deu um passo à frente, porém Bernardo se locomoveu para o lado. Até fez o gesto de recuar quando o viu, mas já havia tomado uma decisão, embora não aceitasse que Bernardo tinha razão... Aquilo se transformou em um jogo de passos, o que foi encerrado com a impaciência de Bernardo.
A segurou com força pelos braços, arrastando a garota até o quarto.
- Eu não quero ficar!
- E eu te proíbo de sair.
Ele parecia calmo, mas sua vontade era de agarrar aquela menina com toda a força e a beijar, tê-la só para si. Controlou-se, deslizou a mão sobre o cabelo louro, pegou uns papéis que havia esquecido e voltou a sair. Ordenando, é claro, para que o segurança não a deixasse colocar um pé para fora da casa.
Não havia trancado a porta e isso a cigana percebeu após dar um chute com força sobre a mesma de raiva.
- ARGH! EU TE ODEIO!
Gritou, quebrou alguns objetos, descarregou toda a raiva que sentira... Foi o suficiente para se manter mais calma por alguns segundos e até pelo resto do dia.
Não vou mentir, Bernardo escutou tudo de fora, e de uma forma um tanto engraçada pra ele, entrou no carro dando altas gargalhadas. Jazmim tentou sair mais algumas... Dez vezes, mas todas as suas tentativas de distração ou de fugas pela janela quase acabaram com uma perna quebrada. Por fim, desistiu.
- Você parece que voltou da guerra.
- Obrigada Sandra, me sinto bem melhor!
Atirou-se no sofá, enquanto Sandra tirava o pó dos móveis com um sorriso.
- Olha querida... – Sandra se sentou ao seu lado, fazendo Jazmim fazer o mesmo. – Não vou te pedir para dar uma chance a ele, seria egoísmo... Eu sei o que você passou. Mas... Só vai piorar as coisas se continuar com esse gênio.
- Eu não sou assim Sandra... Não consigo ficar em silêncio quando algo me parece injusto. Eu sou cigana, e sou muito rancorosa.
Sandra ficou em silêncio por alguns minutos, e logo após interrompeu seus pensamentos com uma gargalhada.
- Sabe Jazmim... Vocês são dois orgulhosos.
- O que...?
Antes que Jazmim pudesse contestar Sandra continuou.
- Ele é o demônio e você o anjo... Mas são cabeças duras e orgulhosos da mesma maneira. – A empregada levantou-se, apoiando o corpo na vassoura entre as mãos. – Ele pode parecer muito cruel Jazmim, mas eu acredito que dentro daquela proteção quase impenetrável, tem um homem com coração de ouro... Mas muito triste.
- Por que acha isso?
A cigana fitava os olhos de Sandra, e conseguia enxergar a verdade que aquela simples mulher a transmitia.
- Venha comigo.
Sandra se aproximou da escada, indo em direção ao porão que havia ao lado. Abriu a porta com a única chave que possuía e depois a guardou no bolso das vestes. A porta não rangeu tão alto, mas o silêncio deu essa impressão. As duas desceram quase vinte degraus até chegarem a um lugar pequeno, mal podia elas ficar em pé.
- O que quer me mostrar Sandra?
Sandra não respondeu se aproximou de um armário pequeno, e de uma caixa tirada da primeira porta, revelou fotos. Uma foto de Bernardo quando serviu no exército, outra dele pequeno com o pai – a única que tirara até o mesmo morrer – uma com Ana, e outra de quando ele era apenas um bebê. Jazmim observou aquelas fotos com cuidado, pareciam peças extremamente valiosas que qualquer toque mais forçado rasgaria as relíquias por inteiro.
- Sabe o que mais me intriga vendo estas fotos Jazmim?
A cigana demorou a responder, mas sim, ela sabia. A mesma sensação, o mesmo incomodo que Sandra sentia... Tudo indo através de imagens antigas e que Bernardo tentava esquecer. Deus o livre se por acaso ele as encontrasse ali – Como pensava Sandra.
- Acho que eu sei... – Jazmim entregou a foto em que Bernardo estava fardado, fixado com os olhos claros em um ponto inexistente. Era sufocante. – Em nenhuma foto ele está sorrindo.
O silêncio de Sandra dava razão as palavras da cigana, pois por fim, as imagens acabaram sendo guardadas e devolvidas para o armário empoeirado. Sandra com um triste sorriso voltou a subir, deixando a garota sozinha, com o olhar curioso presa à imagem de Bernardo que ainda não havia guardado.
- Se meu sofrimento é tua felicidade... Como pode não ser o homem mais feliz do mundo?
Dito isso a si mesma, respirou fundo, e guardando a imagem consigo voltou a subir as escadas em direção à luz.
...
Já era costume chegar naquela casa, porém o mais gratificante era saber que a pessoa que normalmente iria ver não estava mais lá, agora pertencia a ele. Entrou na casa com brilho nos olhos e um sorriso malicioso no rosto. E é claro, mal cruzou a porta e foi recebido por Ana.
- Sabe, não esperava que fosse voltar tão cedo. – A mulher sorriu.
- Sabe que não sou homem de apenas sexo...
- Mentiroso!
Os dois riram e Ana abriu passagem em direção ao escritório. Do topo da escada, Camila observava tudo, pois só bastou os dois desaparecerem atrás das portas para a garota correr para fora.
Após a porta ser fechada Ana e Bernardo sentaram-se, tendo uma conversa longa sobre assuntos profissionais, e alguns um tanto pessoais.
- Já ouviu falar de algo que eu não tenha conseguido Ana?
- Dez anos que nos conhecemos, e continua sendo modesto. – Ana sorriu, tragando o cigarro dentre os dedos e soltando a fumaça pelas narinas. – Sabe que nada disso vai dar certo não sabe?
- Não posso pensar assim.
Bernardo abaixou a cabeça, coçou a sobrancelha e fitou Ana de forma pensativa.
- Apenas mantenha o controle Bernardo.
- Eu estou Ana, só que... – Respirou fundo. – Não suporto esses políticos e coronéis fardados que acham que só porque possuo ligações com presidentes exteriores podem me comprar com charutos e bebidas... Tudo conseguido através de dinheiro sujo, até o sapato que pisam.
- Xavier está lhe importunando de novo não é mesmo?
- Me dando dor de cabeça. – Bernardo se remexeu na cadeira, enquanto Ana permaneceu imóvel. – Diz que é importante que eu vá na próxima semana!
- Já? Tão depressa?
- Não há tempo...
...
O começo da tarde foi entediante, mas nada que algumas pedrinhas na janela não mudassem o seu dia. Já havia perdido o animo até para dançar, fazia tempo que não mostrava um passo ou um gesto que a fizesse lembrar-se de onde veio. Camila estava do lado de fora, esperando uma brecha para entrar de penetra na casa de Bernardo para ver a amiga. Jazmim apoiou-se na janela, fazendo sinais para a garota entrar pelos fundos, bastava apenas pular o muro.
Camila não teve dificuldades, afinal fazia muito isso quando tinha que fugir das esposas dos homens com quem passava a noite.
- Você é maluca. – Jazmim a abraçou com força.
- Sabe que eu não poda deixar de vir te ver... Eu soube... Como está sendo?
- Quero ir embora. – Abaixou a cabeça. – Não suporto mais ficar perto dele.
Camila sorriu, sentando-se no sofá.
- É a primeira garota que tem essa reação diante dele!
Jazmim não entendeu o que ela quis dizer, porém não fez questão que Camila explicasse. As duas ficaram praticamente a tarde toda conversando sobre sentimentos e dando alegres risadas, fazia tempo que nenhuma das duas ria daquela forma.
- Segue esse conselho que eu te falei.
- Vou tentar... – A cigana sorriu. – E como está a vida na casa?
- A mesma coisa, a gente vai levando a vida como dá.
A cigana percebeu que Camila não estava feliz pela maneira que falava, e antes que pudesse perguntar se havia algum sentimento envolvido – o que suspeitava – Camila mudou de assunto.
- O que vai fazer amanhã? – Camila abriu um sorriso gigantesco.
- Como assim?
- ORA! Vai dizer que a jovem cigana esqueceu-se do próprio aniversário? – Camila gargalhou alto enquanto Jazmim ergueu os olhos surpresa... Realmente havia esquecido. Tantas coisas na cabeça...
- Acho que sim. – A morena sorriu triste. – Bom isso não importa mais... Antes importaria mais agora...
- Não fale assim. Você vai fazer dezesseis anos importa muito!
Jazmim nem sequer sorriu, apenas tomou um gole de chá que Sandra havia preparado enquanto Camila a encarava séria, analisando a situação.
- Não sei se vou conseguir vir te ver amanhã, mas juro que vou tentar!
Foram as últimas palavras que trocaram antes de uma figura séria e convicta entrar afrouxando a gravata, fitando as duas com o canto dos olhos.
- Senhor... Desculpe... Eu... Avisado... Deveria que viria...
Camila embaralhou completamente as palavras, dando um pulo do sofá e abaixando a cabeça. Bernardo não fez nada apenas disse que não havia problema e que dá próxima vez ela avisasse que viria em sua casa. Jazmim não entendeu todo esse nervosismo de Camila, já que a mesma não deu nem três passos para estar na rua sem nem despedir-se... Isso também deixou a cigana irritada. Ele sempre intimidava as pessoas que chegavam perto dela... Que grosseria! – Pensava.
- Tem amigas muito abusadas Jazmim.
A cigana o fitou seriamente e por fim girou os olhos não respondendo a afirmação. Bernardo tirou e gravata e antes que pudesse desabotoar a camisa sua atenção foi desviada para a morena que girou os calcanhares e o deu as costas como se ele não estivesse ali.
Seus passos aumentaram assim como os de Bernardo. Uma pequena angústia invadiu o sue coração, já que não teve tempo de sentir outra coisa recíproca. Bernardo a agarrou no segundo degrau, prensando seu corpo contra a escada. Suas costas doíam, ele depositava todo o seu peso contra ela...
- Nunca mais me vire as costas, entendeu?
Nesse momento parecia que toda a sua alma cigana saiu para fora em um poço de raiva, porém apesar de ele a machucar não a fitava de forma raivosa... Conhecia aqueles olhares e o daquele momento não era esse. Sentiu-se domada por um monstro mesmo parecendo uma coelhinha assustada.
- Entendeu?
Bernardo se irritou com o silêncio provocativo e com aquele olhar desafiador, cerrando o punho. Jazmim fechou os olhos com a intenção de se proteger de uma possível bofetada, mas o que chegou passou longe disso. Bernardo a beijou. A beijou de forma agressiva, com ânsia, fúria, possessão e uma dose loucura. Não era um beijo carinhoso e tampouco cuidadoso, seu coração disparava e ele não entendia... Jazmim tentou o afastar de si, conseguiu por dois segundos, o que não foi o suficiente para correr. Sabia como se defender, mas estava com medo da punição, se haveria uma... Não sabia.
Bernardo se afastou bruscamente com a mordida. Não chegou a sangrar os lábios e o que Jazmim pensou que o fosse fazer recuar e até a agredir se transformou em uma brincadeira excitante. Sim, aquilo o atiçou de certa forma, o que o fez a levantar da escada em apenas um puxão e a tomar nos braços novamente.
- Está aprendendo rápido.
Ele sorriu, enquanto nos olhos de Jazmim dominava a incerteza. Quando Bernardo a deu o próximo beijo a única coisa que desejou era que quando abrisse os olhos novamente talvez a o monstro se transformasse em outra pessoa. Talvez a maldição podia ser desfeita, nas mínimas possibilidades.
Às vezes a maldade que pensamos existir em algumas pessoas esteja bem mais evidente em outras, mesmo quando não vemos. Há muitas portas para despertar em nosso coração essa maldade, pois não acredite que ela nasce com a gente, ela surge ao longo da vida. Quando se tem alegrias durante a vida você demonstra alegria, assim como amor e assim como o sofrimento... Tantos sentimentos diferentes e todos surgindo da mesma maneira. É o ciclo, não haveria o bem se não existisse o mau, mas o mundo também não é divido só entre pessoas boas ou más... Todos temos coisas boas e ruins dentro de nós o importante é escolher o lado certo para se cultivar.
Não tenho certeza se isso acontece com todas as pessoas, mas acredito que sim. E foi o resultado daquele fim de tarde, embora o que aconteceu depois nunca tenha saído da mente de Jazmim.
Foi à voz cortante de Rebeca que interrompeu tudo. Seu grito que chegou a quase derrubar as paredes. Ela estava ali, parada em frente e ele enquanto Bernardo tomava pelos braços a cigana de olhos claros. Rebeca bufava ódio, e não importava o que acontece não iria mais viver daquela maneira... Dividindo a casa com uma cigana enquanto o homem que amava dormia com ela. O mais intrigante era quem em meio a olhares vingativos em nenhum momento Bernardo deixou que Jazmim fosse embora... Segurava seu corpo ao dele como um ouro terrivelmente cobiçado. Ela sentia Bernardo segurando-se para não matar aquela mulher agora mesmo, sentiu medo por isso... Bernardo a olhava com uma fúria terrível, devastadora, como se a qualquer momento fosse se transformar na mais temida das criaturas. Pensei... Afinal, a fera está na aparência física ou no coração de quem é cruel?
Notas finais
Bom, só tenho uma coisa a declarar: Jazmim está em perigo!
Podem especular ;)
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