Notas iniciais
Capítulo revisado e editado.

Corria, corria, corria.

Corredor bem iluminado para uma noite de gala. Chão, parede e luminárias polidas tendo seu brilho quase perturbado pelas ondas sonoras vindas dos sapatos de Cecilia Phantomhive.

Corria, corria, corria.

Fugir no meio de uma festa. Onde já se viu? A vergonha que deveria sentir por comportamento inadequado estava já havia, há muito, ficado para trás. O sentimento que lhe predominava era o enjoo, diante de calamitosas declarações.

Esta, sim, a verdadeira vergonha.

Corria, corria, corria.

Segurando o vestido cor-de-rosa nas mãos. Seguida pelo irmão. Por sua vez, seguido pelo mordomo.

— Cecilia!! — o irmão gritava.

— Bocchan!! — o mordomo chamava.

Corria, corria, corria.

Até que entrou no quarto.

Um dos muitos quartos de hóspedes vazios da mansão de Madam Red.

Entrando logo depois, Ciel Phantomhive fechou a porta do cômodo imediatamente.

— O Visconde não voltará mais a incomodar.

Cecilia ofegava, pingos de suor que lhe desciam pela pele sem cessar. Debruçada sobre a cama, a agitação ainda inquietava seus pulmões. Olhos escancarados sem ponto fixo. As palavras românticas lhe causaram náuseas. Pintarroxo? Comparar um garota a um pássaro, depois lhe fazer propostas de casamento de favores sexuais enquanto dedilha sua cintura não é a mais simpática forma de cortejar uma dama. Ainda mais se ela ainda não houver sequer debutado e você já tiver passado dos 25.

Mãos apoiadas no colchão, braços esticados, cabeça abaixada. Cecilia soltou um arfar tão alto, seguido por uma série de soluços que lembravam um choro.

Ciel caminhou apressadamente até onde ela estava para abraçá-la. A posição parecia um tanto desfavorecedora, já que era difícil abraçar alguém que está quase engatinhando. Mas ele ainda conseguiu envolver Cecilia nos finos braços de pré-adolescente. Não era grande o bastante para parecer adequado, mas era tudo o que ele poderia oferecer. Cecilia deixou escapar mais soluços até desabar em lágrimas. Abraçava Ciel de volta.

— E-ele me tocou....

— Calma... — Afagou os cabelos por sobre a nuca dela.

— Foi nauseante, Ciel... — Se aconchegou mais próxima ao calor habitual; o calor que Cecilia tinha a regalia de sentir toda vez que ele lhe concedia um abraço, um toque, ou um gesto de carinho. Nada mais reconfortante que isto, pensava em seu íntimo.

— Já passou. Fique calma — Pediu que ela silenciasse com um chiado fino e sereno. — Ninguém mais vai te cortejar; não de modo tão pervertido. Não se esqueça, você está noiva. Parcialmente. Nenhum outro cavalheiro se aproximará de uma jovem comprometida, basta a notícia se espalhar.

E então, o único som ali proferido era o fôlego pesado da jovem. E os eventuais "Shh..." que Ciel lhe dizia para acalmá-la toda vez que sua respiração saía do ritmo.

Até que em um gesto quase involuntário, Cecilia se afastou devagar, transparecendo não estar mais tão chorosa. Ciel passou as mãos delicadamente pela bochecha rosada e úmida, tirando uma mecha de cabelo molhada de seu rosto. Fitou seus olhos azul-safira enquanto deslizava as pontas dos dedos pelo rosto de Cecilia, como se desenhasse seus traços. Um leve arrepio ascendia-se para apagar-se no mesmo momento toda vez que Ciel tocava áreas mais sensíveis, como o canto das orelhas. Ou próximo à mandíbula. Ciel a olhava do jeito mais quieto, mais amável alguém poderia observar uma flor delicada. Raras eram as vezes que Cecilia via Ciel atribuir este olhar. A única vez que o via com tal expressão era quando ele olhava para ela.

Sempre tão irônico, tão imperioso, tão Lorde. Como e por que conseguia postar-se tão cordial e carinhoso só de virar-se para Cecilia?

Ciel quebrou o silêncio.

— Deve estar desconfortável nesta roupa ensopada. Já dei a Sebastian a ordem de que lhe preparasse um banho. Deixe-me ajudá-la a se despir.

Levantou-se, gesticulando para que ela fizesse o mesmo.

Cecilia se apoiou na barra da cama, ficando de costas para Ciel. Dedos macios e finos desamarravam fio por fio o corset cor-de-rosa que envolviam firmemente o esguio corpo da menina. Cecilia sentia feixes de arrepio descerem por sua espinha cada vez que Ciel a tocava. Seria um apego de irmã mais nova? Todas as irmãs sentiam isto quando tocadas? Fosse talvez a proteção que ele tivesse por ela desde tão pequeninos.

Quando terminou de desfazer os laços, retirou o espartilho, deixando-a nua da cintura para cima. Cecilia, envergonhada, cruzou os punhos sobre o peito. Ciel, com os olhos nos dela, tirava a blazer que vestia e lhe ofereceu. Após vestir-se, Cecilia sentou-se na cama.

Ciel tocou um assunto do qual Cecilia havia quase esquecido.

— Como foi beijar o Conde Trancy?

Seu coração quase deu um salto com a pergunta. Havia pensado bastante sobre isto, é verdade. Deu seu primeiro beijo há poucos dias atrás. Três dias.

Pés tortinhos, costas levemente curvadas, rosto inclinado pra baixo. Suor descendo pelas costas, colando sua tensa e quente pele no tecido do paletó emprestado.

Meias brancas e úmidas de suor. Sapatinhos pretos delicados. Cecilia esfregou os pés antes de responder.

— Ah... Bom, eu acho. Na verdade não foi como eu imaginei.

Ciel deu um sorriso labial.

— Mas gostou, não gostou?

Demonstrou alguma felicidade pela gêmea.

Havia menos de uma semana, em uma tarde florida e fresca, a Aranha da Rainha fez um convite aos Cães de guarda para um chá em sua mansão. Desde o convite, já demonstrava cortesia e certas intenções com a jovem lady.

Em um momento oportuno, enquanto Ciel jogava xadrez com um dos trigêmeos — Thompson? Timber? Ou seria Canterburry? — Alois puxou Cecilia para um canto afastado dali.

No jardim, em meio a arbustos ornamentados em flores amarelas e roxas, o conde com cabelos cor de trigo tocou com mãos macias a mão pequena da garota. Disse-lhe baixinho, quase em sussurros, palavras doces que quase fizeram o delicado coração dela tremer. Segurou sua cintura com firmeza, aproximando o corpo dela ao seu, até colarem. Aproximou seu rosto ao dela, que se mexeu em resposta, poucos milímetros. Alois deu os passos primordiais. Cecilia abriu a boca de leve e sentiu uma língua roçar suavemente sobre a sua. O louro fechou seus lábios sobre os dela e envolveu-os, em movimentos suaves.
O beijo não durou mais que um minuto. O lorde deslizou a língua para fora dos lábios semi-cerrados de Cecilia e afastou um pouco o rosto. Sorriu, com semblante satisfeito. Passou o dedo de leve pelo canto do lábio da menina, de onde escorria um fio de baba. Tão próximos um do outro, passou o dorso da mão pela bochecha macia e rosada da herdeira Phantomhive.
Encarou-a com seus olhos azuis-ciano.
Puxou a mão que ainda segurava de Cecilia. Ela por um momento havia esquecido que ele tinha a mão dela na sua. Alois lhe colocou um anel prateado ornamentado com motivos angelicais. A pedra do anel era vermelha-viva, como sangue a ferver nas veias. Um anel de noivado.
A cor da joia descombinava com as roupas que lady Cecilia trajava. Mas mesmo para o ligeiramente excêntrico lorde Trancy, não havia importância.
Com lábios mansos e em sussurros, Trancy dizia:
— Não tem de responder agora. Esperarei até o fim do outono.
Estavam em meio de primavera.
Alois Trancy levou o mão de Cecilia Phantomhive aos lábios e beijou-a.



— Ciel...

— Sim?

— Como foi beijar Elizabeth? Quero dizer, vocês se beijaram tantas vezes até agora. Mas a primeira vez, como foi?

Ciel umedeceu os lábios. Deixou algum ar escapar da boca, esvaziando os pulmões. Ponderou. Nunca tinha parado para conversar com Cecilia sobre isto.

— Você também achou que seria diferente? — perguntava a menina, inquietamente — Esperou que acontecesse outra coisa quando não aconteceu nada do que você imaginou?

— Pelo que você estava esperando quando ele a levou pro jardim? — replicou.

— Eu não sei... — suspirou, dando de ombros.

Ciel Phantomhive havia beijado Elizabeth Middleford havia dois anos. Beijou anos antes de Cecilia. Noivou antes dela. Ele já estava noivo de Middleford desde o berço, afinal. O gêmeo sempre parecia estar anos à frente dela, Cecilia sentia. Parecia ser o primogênito, o primeiro e único herdeiro dos Phantomhive. O que tomava a frente e a responsabilidade nos casos que afligiam a Rainha da Inglaterra. O que havia selado um contrato com o mordomo demônio. O próprio modo como cuidava de Cecilia já o fazia parecer um irmão mais velho, mesmo ela tendo nascido alguns segundos antes dele; as damas primeiro. O cavalheirismo veio desde antes de virem à luz.

— Também não achei que fosse acontecer do jeito que foi. Mas não pude deixar transparecer. Principalmente porque eu eram quem a tinha beijado. — Tocou a mão de Cecilia — Garotos não tem... como dizer isto?.. Permissão para se mostrar nervosos ou apreensivos. Devem transparecer firmeza.

— Se serve de consolo, as damas também não podem se demonstrar frágeis por muito tempo. Se não, atrapalham seus homens. Devem apoiá-los, mantê-los firmes. Sempre em silêncio, para não fazê-los parecerem ou sentirem-se dependentes de uma mulher. Limpar suas lágrimas, quietamente. Se necessário, limpar seus pés em água morna. Dentro de casa, é claro. Felizes e bem-aparentados fora de casa; a mulher aguentando firme por ele em momentos ruins, enquanto sozinhos.

Suspirou.

— Pelo menos, foi o que aprendi. — Concluiu, com os olhos para baixo.

— Então, estamos quites. — Sorriu Ciel.

— Transparecer firmeza nunca deve pareceu difícil para você.

— ....

Ciel piscou vagarosamente. Nada respondeu, embora tivesse pensado em dizer algo. Se realmente havia formado alguma resposta para dar-lhe, Cecilia nunca saberia.

Cecilia suspirou, entortando ainda mais os pés e curvando mais as costas.

— Acha que ele beija mal? — indagou Ciel.

— Não. Não é isto. Só não sei se eu gostei de ser beijada, compreende?

— ....

Por que dizer sim se seria mentira? Não compreendia.

Por que dizer não se isto a incomodaria? Certamente, machucaria.

— Ciel?

— Hm?

— Como se sentirá se eu aceitar ser noiva do Conde Trancy?

— Profundamente magoado — respondera.

Os olhos de Cecilia se arregalaram em surpresa. Seus lábios se abriram o suficiente para deixar escapar um discreto suspiro. A proteção do irmão sobre ela, a preocupação a ponto de ser afetado significativamente por suas escolhas a faziam sentir-se tão bem-cuidada.

— Isto é: — complementou — se você não estiver de acordo com seus próprios sentimentos ao dizer sim a tal proposta.

Cecilia torceu os lábios. Uma parcela de desapontamento esvaziou seu peito das emoções de poucos segundos atrás.

— Mas se minha menina estiver feliz, então estarei a favor deste laço matrimonial — enlaçou um braço em volta de Cecilia, que sorriu, recuperando as emoções que há pouco foram interrompidas — Sabe que eu nunca desejaria um casamento arranjado para você, irmã — acariciou seu queixo — Nem nunca a submeteria ao sofrimento eterno de passar a vida ao lado de quem não ama. Mas se estiver feliz, então, pelos demônios!, também estarei feliz! — beijou-lhe a bochecha. Cecilia corou com tais palavras e gesto.

— Você sempre será meu primeiro pensamento se eu ouvir sobre proteção.

Ciel sorria.

— Você ama o Lorde Trancy?

— Eu não sei.

— Os sentimentos podem demorar para aflorar.

—Pode ser...

— Não quer aprender como agradar um garoto desde já?

— Como?

— Há várias formas de "cortejar" um lorde.

Cecilia estreitou os olhos.

— Quais seriam? — ela perguntou.

— Uma delas, com a dança.

Ciel levantou-se. E como se fosse um nobre cavalheiro que jamais havia encontrado Lady Cecilia Phantomhive senão naquela ocasião, estendeu-lhe a mão e convidou:

— Concede-me esta dança, senhorita?

Notas finais
Comentem o que acharam, onegai ^^ Muito fraco? Muito arrastado? Aceito críticas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!