Cidade dos Sonhos
1 Capítulo único
Notas iniciais
A fumaça dançava encobrindo seu rosto, mas não o escondia, realçava sua beleza. Sua respiração era o som mais alto, aspirava o aroma de café das cinco e expirava serenidade. Era adorável como ela jogava a menor mecha de sua franja para trás da orelha mesmo sabendo que ela tornaria a perturbar. Os olhos grandes se ergueram um pouco e encontraram seu observador de óculos, um vestígio de sorriso surgiu no canto dos lábios alaranjados, um sorriso envergonhado.
– Me conquistou pelo olfato.
– Eu percebi. — a voz saiu rouca, um tanto baixa, ele limpou a garganta, talvez a fazendo pensar que aquilo era um gesto de nervosismo, e talvez ele estivesse mesmo. Os ombros tensos, postura impecável e os olhos pregados nela. Assim que esse pensamento terrível passou por sua cabeça, automaticamente sua mão puxou um banco alto que havia embaixo do balcão. Ele se sentou e serviu para si mesmo uma xícara de café, não ousando a olhar mais, pelo menos por alguns segundos. — Vamos ver como está o gosto.
Direcionou sua xícara para a dela. Um brinde de café, incomum. Mas ela achou interessante, não hesitou quando também ergueu sua xícara e bateu contra a dele levemente, o choque fez um barulhinho agudo que ecoou pela sala. Eles recolheram as xícaras para si e, quase que simultâneamente, tomaram o primeiro gole do primeiro café do primeiro apartamento de Noel.
– Hm… — gemeu, enquanto ainda engolia. O líquido quente desceu queimando por sua garganta e deixando um sabor agradável em sua boca, foi uma ótima sensação — Dos deuses.
– Está sendo gentil.
– Eu não mentiria sobre seu primeiro café. — aquele vestígio de sorriso voltou, se expandindo até mostrar um sorriso completo enquanto o olhava. Ele ousou olhá-la novamente.
– Obrigado. — ele sorriu, um pouco lisonjeado por ela dar tanta importância aquilo. — Jillian…
– Jill. — corrigiu, mais uma tentativa de insistir que ele a chamasse pelo apelido.
– Jill… Posso te fazer uma pergunta? — ela apenas assentiu, deixando a xícara no balcão após mais um gole. — Por que você veio aqui?
Ficou confusa.
– Achei que tinha me convidado.
– Eu convidei, eu sei. — coçou a nuca, não sabia ao certo o que estava dizendo. Noel poderia estragar tudo, mas precisava se arriscar para saber. — É que você sabe o que acham de mim.
– Eu não sei.
– Bom… Que eu sou meio surrealista, que eu não sei viver e que eu vivo na cidade dos sonhos durante algumas aulas… — tinha vergonha de falar aquilo, afinal, ele era uma pessoa culta e muito inteligente, e uma pessoa assim não deveria se perder em pensamentos bobos com tanta facilidade como ele fazia, sempre imaginando o mundo perfeito e planejando um futuro impossível, mas aquela era a forma dele se sentir melhor em relação à realidade, ele se iludia com seus próprios pensamentos e criava um fio de esperança de que um dia eles se tornassem real.
Jill riu, não debochando dele, mas de sua explicação. Ria das pessoas que achavam que ele era daquela forma. Ele o via de um jeito completamente diferente, o achava um homem encantador que, apesar de tudo que passou, não perdeu a fé na vida.
– Eu não te vejo dessa forma… Eu acho incrível a forma com que você sonha e mesmo assim não foge da realidade. Você é só um sonhador, você é um morador da cidade dos sonhos, não é o prefeito.
Aquela fora a melhor definição de si mesmo que já tinha ouvido na vida. Para a mãe, ele era apenas um menino traumatizado por conta do pai, que o abandonou tão cedo. Para a irmã mais velha, era um bobo que deveria aprender a viver de verdade, pois o mundo lá fora não era gentil como o da sua mente. Para os alunos de escolas que frequentou toda a vida, era apenas um lunático que estava sempre perdido em aulas e conversas, mas Noel tinha rapidez para se encaixar nos assuntos, não valorizavam aquilo.
O que Jill dissera só fez Noel ficar mais impressionado com ela. Era impressionado com sua beleza, sua inteligencia e agora, com sua visão de mundo. Ela não procurava definir uma pessoa com seus defeitos, mas com suas qualidades. Se a pessoa tivesse apenas uma qualidade em meio a 999 defeitos, ela não citaria nenhum destes, mas faria toda uma análise da pessoa segundo a única qualidade. Ela não era perfeita, claro. Mas ele tinha a sensação estranha de que até mesmo seu defeito era suportável.
– Sinto muito que te achem assim.
– Tudo bem… — ele se levantou do banco e deu a volta no balcão, para se sentar em um lugar mais próximo dela para terem uma conversa melhor. Ela ficou de lado, o vendo se sentar de frente para ela. — Eu me acostumei.
– Não devia. É completamente normal imaginar um mundo perfeito, as pessoas se conformam com a atualidade… Eu também imagino as coisas, não tanto quanto você, eu não sou tão criativa. — riu um pouco, talvez esse fosse seu defeito. — Mas… Eu imagino uma cidade linda e urbana e bem atual… Eu adoro como as coisas evoluem e ajudam as pessoas a cada dia, facilitam suas vidas para que elas possam ter tempo para fazer outras coisas, isso na minha cidade dos sonhos… Na atualidade, elas reclamam de tudo, ou então usam a tecnologia para fazerem tudo e perdem a essência de sair na rua e ter uma conversa com um estranho, dar um bom dia… — Jill parecia realmente incomodada com essas coisas, a falta de comunicação e a ignorância e arrogância cada vez maior entre as pessoas. — Veja como é bom, vir aqui, tomar um ótimo café — ele sorriu — e conversar sobre qualquer coisa. São coisas pequenas que formam a nossa cidadezinha.
Ela esperava alguma resposta, alguma objeção, apenas um comentário, mas não teve nada além de um olhar admirador. Era como se ele olhasse uma obra de arte ou uma cena inspiradora. Ela era uma pessoa que o entendia mais do que qualquer um. O contato com as pessoas não era seu forte, mas ele gostaria que fosse, gostaria que fosse exatamente como ela disse. Um bom dia para qualquer um, não só para um conhecido, um vizinho ou para alguém do trabalho. Um simples bom dia, um oi, um sorriso.
Era tão bonita e especial. Em sua mente, imaginou muitas vezes a mulher ideal para ele, e não sabia que ela poderia existir. Não a conhecia tão bem ainda, mas o pouco que conversaram lhe parecia o bastante para concluir que era era uma moradora da cidade. A achava linda, irresistivelmente linda.
– Tenho que ir agora… Estudar.
– C-claro. — ele devia estar a olhando fazia tempo, poderia tê-la deixado incomodada. Noel se levantou imediatamente e esperou que ela fizesse o mesmo para a acompanhar até a porta.
Andaram em silêncio até a saída. Antes que Noel pudesse abrir a porta, Jill entrou na frente, como se ela mesma fosse fazer aquilo. Ela o olhou com um pequeno sorriso discreto.
– Tchau. — ele disse, saiu quase num suspiro.
Quando ela deu um passo a frente e pôs sua mão em seu ombro, ele achou que fosse apenas lhe dar um beijo no rosto como despedida, mas foi surpreendido quando ela o beijou nos lábios. Logo, a sua outra mão foi para o rosto de Noel, e ele não vacilou. Envolveu suas mãos na cintura fina de Jill e acompanhou seu beijo apaixonadamente.
Ela se afastou um pouco, ainda deixando seus rostos próximos. O olhou esperando sua reação, mas logo percebeu que o pegou de surpresa e ele não teria o que pensar na hora. Apenas sorriu singelamente e compreensiva, se afastando de vez e abrindo a porta. Antes de sair, ela respondeu seu “tchau”, do mesmo jeito que ele fizera, quase num suspiro, e saiu.
(...)
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