Cidade dos Ratos
5 Que santa Tereza nós guie!
“12 de Setembro de 1766”
“Eles pediram um sacrifício, minha pobre filhinha.... eu não sei o que fazer, será que devo? Ele diz que salvará a todos!"
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22/02/1991 — Sexta-Feira
Passei a noite inteira tentando entender o que tinha acontecido no hospital. Quanto mais eu pensava nos gritos de Gustavo, menos sentido tudo fazia.
Como havíamos combinado, nos encontramos novamente na biblioteca depois da aula. O lugar continuava vazio e silencioso, exceto pelo barulho das páginas virando e do ventilador no teto.
Ale se jogou na cadeira e apoiou a cabeça nas mãos. — Só de lembrar daquela cena, já me dá dor de cabeça...
Samn sentou-se lado dele. — Calma, Ale. Vai beber uma água.
Enquanto ele caminhava até o bebedouro, Thomas girava um lápis entre os dedos, claramente frustrado.
— E agora? O que a gente faz?
Samn largou a câmera sobre a mesa e começou a mexer nas fotografias que tinha tirado com Luiz. — Meus pais tentaram visitar o Gustavo ontem. Como nossas famílias são próximas, eles acharam que conseguiriam entrar... mas os pais do Luiz não deixaram ninguém falar com ele.
Thomas franziu a testa. — Ninguém?
— Ninguém. Minha mãe disse que eles estavam agindo de um jeito estranho, como se quisessem esconder alguma coisa.
Fiquei encarando a mesa por alguns segundos. — Então o Gustavo sabe de alguma coisa.
O silêncio tomou conta da mesa.
Foi quando Samn puxou uma fotografia do fundo da pilha.
— Espera...
Todos nos aproximamos.

Eu olhei a foto. — Essa foto foi tirada no festival.
— Vocês juram que não estão vendo nada?
Thomas encarou a foto por alguns segundos. – Espera! Não é aquele rato esquisito?
Peguei a foto. Era a nossa foto com o MC Ratão. Estávamos no meio da multidão e, bem ao fundo, parado entre as barracas, estava aquele sujeito fantasiado de rato. – Pera, é ele mesmo!
Ficamos encarando a foto por alguns segundos. Alefh logo chegou.
Ale nos olhou confuso. – Hã? O que vocês estão fazendo?
Samn o chamou com as mãos. — Olha, olha, Ale!
Thomas, com uma cara de medo: — Não, não é que é ele mesmo?
Ale ainda confuso. – Ele quem? Meu Deus, me fala.
Thomas disse: — Aquele cara fantasiado de rato... ele estava nos seguindo, é?
Samn mostrava a foto enquanto seu dedo ficava abaixo do rosto do rato. – Hum... Ele estava seguindo a gente? Ele não parece estar encarando alguém?
Olhei e comecei a balançar a cabeça. – Não, não é possível! Por que ele estaria encarando o Luiz?
O rosto de Samn ficou sério. – Talvez estivesse encarando sua presa.
Ale fechou a cara. — Merda... Será que esse rato tem alguma coisa a ver com o Luiz?
Thomas botou a mão em sua boca. – Será possível?
Ale tomou da mão de Samn a foto e aproximou-a do rosto. – Quando eu estava indo para a escola hoje, ainda tinha gente arrumando a área do evento, talvez... possamos achar alguma coisa lá!
Samn sorriu. – Boa, devemos ir lá, talvez os funcionários saibam quem era aquele rato esquisito!
Pegamos todas as nossas coisas e fomos correndo ao parque de São Roque. Quando chegamos lá, ainda havia algumas barraquinhas vazias, muito lixo no chão e alguns funcionários limpando o local. Ao entrarmos no parque, fomos buscar informações.
Parei à frente de um homem com uma vassoura. – E aí, moço, você pode nos ajudar?
Ele virou seu rosto e soltou um cuspe no chão. – Depende, o que você quer?
Ele falava naturalmente errado; ele parecia ter mais de 60 anos, um dos seus olhos era completamente branco, ele fedia como se não tomasse banho há dias.
— Você estava trabalhando aqui no dia do festival?
– Humm, eu estava, estava sim, trabalhei na barraca de milho.
Samn chegou mais perto e mostrou a foto, apontando para o rato na fotografia: — Você viu esse rato esquisito aqui?
Ele chegou muito perto da imagem. – Hum, vi, vi esse danado sim, ele estava andando por aí, mas simplesmente sumiu! Ele se aproximou um pouco de nós enquanto coçava sua barba e começou a cochichar: — O povo mais antigo diz que coisas estranhas acontecem durante o festival...
Nós encaramos e Thomas logo perguntou.
Thomas encarou o velho. — Sério? O que elas dizem?
O homem olhou rapidamente para os lados. – Ah, besteira de gente velha... lendas urbanas, sabe... Sempre dizem que alguma coisa vem visitar o festival.
— OOOH, EI, EI.
Chegou uma mulher gritando. Ela vestia um terno, carregava uma cara séria e parecia mandar em tudo – De volta ao trabalho! E parem de atrapalhar o trabalho das pessoas!
O velho rapidamente saiu de perto de nós... e a mulher, com uma cara de raiva, encarou a gente.
Ela cruzou os braços. – E vocês? Vão embora ou estão pouco de atazanar meus funcionários?
Eu logo a encarei e comecei a falar: — Por favor, né? Viemos só passear um pouco no parque, não é para tanto.
Ela me encarou de volta. – Só vazem daqui.
Decidimos ir embora para não arrumar mais problemas. Enquanto saíamos do parque, eu me virei para dar uma última olhada nele; de longe consegui ver a mulher gritando com o pobre velho que nos ajudou.
– Huum, alguma coisa vem visitar, é?
Samn pensou um pouco e disse: – Talvez na biblioteca tenha algum livro sobre o festival, vai que talvez tenha algo sobre lendas...
Sorri para Samn. — Boa, Samn, pode ser que tenha.
Começamos a apressar o passo de volta para a biblioteca. Ao chegar lá, fomos em direção à biblioteca.
Ela fechou seu livro. – O que vocês gostariam, crianças?
Thomas botou sua mão na mesa. — Onde ficam os livros sobre nossa cidade?
Ela abriu uma gaveta e começou a mexer lá dentro. Após um tempo, ela pegou uma chave.
Ela se levantou segurando a chave. – Me acompanhem.
Ela nos levou... até uma antiga porta e logo enfiou a chave no buraco.
A porta logo se abriu. — Fiquem à vontade, depois me avisem para eu fechar.
O ar tinha cheiro de papel velho e mofo. Uma pequena lâmpada amarelada piscava no teto, iluminando pilhas de jornais, livros e caixas esquecidas.
Ale olhou todos aqueles papéis. – Ah, não, vamos ficar o dia inteiro procurando algo!
Dei uma leve risada. – Lembra? Pelo Luiz...
Ale revirou seus olhos e logo entrou dentro da sala.
— Eu e Samn procuramos sobre o festival, e você e Thomas procuram sobre lendas locais!
Passamos a tarde inteira procurando naquele lugar; muitos arquivos estavam desgastados, não dando nem para ler o que estava escrito, alguns livros estavam úmidos e cheios de mofo, até que...
Samn ergueu alguns papéis amarelados. – Olha, gente! Tem alguma coisa aqui falando sobre o festival de São Roque!
Samn foi para o lado de fora da sala e foi direto para a mesa em que estávamos antes.
Logo começamos a ler o que estava escrito, o papel era velho, algumas palavras estavam apagadas e as beiradas arrancadas.
“18/02/1767 — Quarta-feira
Eu sinto... Ele está me observando; ele não parava de me no festival de São Roque. O que ele quer? O que ele quer mais? Eu não vou oferecer nenhuma inocente, da minha filha já não basta?”
Havia algumas palavras faltando, mas dava para entender um pouco.
Samn arregalou os olhos. – Hã... isso está falando daquele rato?
Thomas cruzou os braços. – Será? Bem...
Eu encarei o papel por alguns segundos. — Ele fala algo sobre oferecer... oferecer o quê?
Ale, tremendo, presumiu: – Cara! Deve ser uma pessoa!!! Uma pessoa!
Samn chegou perto de Ale. — Respira, amigo.
Abaixo tinha mais algumas palavras e continuamos a ler.
“19/02/1767 — Quinta-Feira
Moradores o viram; ele estava andando pela antes de sumir para dentro de uma caverna. "Eu preciso com aquela coisa, ela não pode ficar por aí, eu preciso fazer algo."
Depois as folhas estavam completamente vazias, como se a pessoa que começou a escrever tivesse parado, mas talvez existam outras folhas dessas por aí.
Thomas se afastou um pouco dos papéis. — Caverna?
Ale, enquanto abraçava a Samn, disse: – Será que é a caverna de Santa Tereza?
Eu olhei confuso para Ale. – Oxe, que caverna é essa?
Samn me encarou e disse: – É uma caverna que fica ao lado da igreja do meu pai. Ele me disse que uma garota entrou lá e nunca mais voltou... Por isso apelidaram a caverna de Santa Tereza... Depois que ela desapareceu, começaram a chamá-la de Santa Tereza....
Tampei minha boca e comecei a pensar. – Então... será que o Luiz?
Thomas balançou a cabeça.
— Mas espera... Estamos falando de um papel escrito há mais de duzentos anos. O que isso tem a ver com o Luiz?
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Eu não sei... mas é a única pista que temos.
Thomas botou suas mãos na cabeça. – Não... não pode ser, por que ele estaria lá? Não faz sentido...
Sentei-me e comecei a pensar. — Tá bom, lembrem-se, sinais de briga na casa, porta entreaberta. — Parei um pouco e logo retomei. — E se alguém obrigou o Luiz a entrar lá dentro?
Thomas ficou perplexo e se sentou. – O quê? Por quê?
– Eu, eu não sei! Existem pessoas más e não precisam de motivo para machucar alguém...
Samn ajudava Ale a se sentar. – Tá? E o que vamos fazer?
Eu apontei para o papel. — Vamos entrar... digo, e se Luiz estiver lá?
Ale, se levantou rápido e gritou: – O QUÊ? NEM PENSAR!
Samn logo se levantou e botou as mãos no ombro de Ale. – Calma, calma, Ale.
Ale, lacrimejando, disse: — Vocês estão loucos? Uma menina sumiu lá e, se realmente Luiz estiver lá, quer dizer que ele não saiu de lá. — Ale começou a ficar vermelho e a lacrimejar. — Eu não quero acabar igual a eles!
Eu comecei a ficar um pouco aflito. — Calma, Ale, ninguém vai morrer! Respira. Thomas pega um copo de água para ele.
Thomas foi correndo pegar um copo de água para Ale.
Samn segurava em sua mão. – Calma, Ale, você não precisa fazer nada, obrigado... Tenta respirar mais devagar...
Ale começou a segurar a respiração e soltar devagar. Thomas logo voltou com um copo de água em suas mãos e deu para ele.
Ficamos em silêncio por alguns minutos; acho que todos estavam com medo.
– Então... e se Luiz estiver vivo? Digo faz pouco tempo que ele sumiu... talvez possa estar perdido...
Thomas botou a mão na cabeça e a mexer a perna. – Está bom, salvador da pátria, e como a gente entra sem se perder? Se nós perdermos, vai ser mais 4 pessoas desaparecidas.
Pensei por alguns segundos. – Podemos amarrar barbante, digo, prender barbante na entrada da caverna e ir desenrolando enquanto entramos, e você, Thomas, pode ir fazendo algum tipo de mapa para nos ajudar!
Samn, enquanto acariciava a cabeça de Ale, disse: — Porra, você está vendo muito filme, hein?
Eu levantei e botei a mão na mesa. – E estaríamos preparados para entrar, teríamos lanternas, comida e poderíamos pegar mais coisas úteis. A gente não entraria dentro da caverna; a gente teria uma chance maior de sair de lá!
Thomas coçou o pescoço. — Não sei não, cara...
Samn me encarou irritada. – Acho que já chega por hoje... vamos para casa, outro dia pensamos melhor nisso.
Ale apenas ficou calado... Samn o ajudou a levantar e o levou até a porta da biblioteca.
Thomas pegou suas coisas e levantou. — Olha, cara, você sabe que eu sempre te apoio, mas eu... Dê-nos um tempo para pensar, tá?
Apenas balancei a cabeça e vi Thomas indo embora, eu me sentia mal, eles não gostaram da ideia... mas e se Luiz ainda tiver vivo? Mas também tem a chance de estar morto e nem estar dentro daquela caverna, mas não, eu não posso pensar assim! Ele não está morto. Fui embora e fiquei o caminho de casa todo repetindo:
“Ele não está morto.”
“Ele não está morto.”
“Ele não está morto.”
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