Cidade dos Ratos

6 Oi... Alguém pode me ouvir?


“20 de Outubro de 1766”

“Ele prometeu que tudo acabaria naquela noite... mas eu estava errado. Todas as manhãs sinto seus olhos sobre mim.”

--

22/02/1991 — Sexta-feira, 6:21 PM.

Ao chegar em casa, encontro meu pai sentado no sofá, folheando o jornal que ele próprio escreveu. Meu irmão estava ao seu lado com o rato que ele apelidou de Ruske; minha mãe estava na cozinha e conseguia sentir o cheiro da janta de longe.

Ele fechou seu jornal. – Ah, oi, Aly, finalmente chegou.

– Oi?

Ele se levantou e foi até a gaveta da mesinha da TV, mexeu um pouco e, de lá, pegou a fita cassete e veio até mim.

Ele me deu a fita. – Aqui, ela está consertada para você.

Eu peguei a fita e dei um abraço em meu pai. — Valeu, pai!

Corri para cima para pegar o tocador de fitas, fiquei me perguntando o que havia naquela fita. Será que eram relatos dos antigos moradores? Um diário em áudio? Muitas ideias passaram por minha cabeça até que finalmente as coloquei dentro da fita cassete e apertei no play.


Um chiado estranho começou a soar.

– Que droga, parece estragado ainda.

Só que...

“Alô, alô? Eu sei, crrshhh, eu sei o que fazem com as crianças... Eles entregam tssssshhhhh na tsssssssshhhhhhhh caverna, eles sabem que eu sei, crrrrsssssssshhhhh, eles vão me pe...pe..pegar, diga aos meus pais que eu Quuuuuuííí Quuuuuuííí os amo Piiiiiiiiiiiiiii.”

Arregalei os olhos – Hã?

Havia um chiado terrível e, antes de a gravação acabar, consegui escutar sons que pareciam vir de algum animal ao fundo. Coloquei a fita para tocar novamente. No meio do chiado, havia outro som escondido. Fechei os olhos e aumentei o volume. Era claramente o som de um rato.

Que estranho... Eu precisava mostrar aquilo para o pessoal. Aquela fita tinha alguma ligação com a caverna, se fosse a mesma caverna, é claro. Eu precisava convencê-los a explorá-la.

Desci novamente para a sala e fui até o telefone. Liguei para Alefh, Samn e Thomas, implorando para que nos encontrássemos na biblioteca na manhã seguinte.

Ale não queria ir, mas, quando eu disse que tinha encontrado algo bombástico, ele cedeu e afirmou que só apareceria por curiosidade. Convencer Thomas e Samn foi mais fácil; eles não tinham sido tão afetados pela minha ideia e, quando mencionei a fita antiga, logo demonstraram interesse.

***

23/02/1991 — Sábado

Fui até a biblioteca bem cedo, fiquei esperando o pessoal. Eles demoraram tanto que pensei que não iriam vir. Ao chegarem, nos juntamos na mesma mesa de sempre e botei eles para ouvir a fita. Após todos ouvirem, começamos a discutir.

Thomas pôs as mãos na cabeça. – Hum...

Todos ficamos em silêncio; parecia que eles não queriam aceitar.

Samn, inspecionando a fita, disse: – É de quando essa fita?

– Eu... eu não sei, achei no porão da minha casa.

Ale estava com a cabeça deitada na mesa. – Hum? Então é verdade... – Ale começou a tremer. – Eles estão levando crianças para a caverna?

Thomas levantou a cabeça. – Tá bom, o que prova que isso é verídico? E se for só mais um cara zoando?

Samn rapidamente se levantou e bateu sua mão na mesa. — Aly, só falta me dizer que você gravou essa fita para convencer a gente a entrar na caverna.

Comecei a suar frio. — NÃO, NÃO, eu juro... eu juro que encontrei lá em casa, meu pai está de prova! Ouvimos a fita juntos antes de ele levar ao concerto.

Samn se sentou com uma cara de estresse. – Acho bom mesmo! Tá? E o que vamos fazer?

– TEMOS QUE EXPLORAR A CAVERNA!

Ale bateu a cabeça na mesa. – Ai, de novo não...

Depois de quase uma hora discutindo e tentando encontrar outro caminho, percebemos que aquela era a única pista concreta que tínhamos. Não podíamos perdê-la.

O silêncio tomou conta da mesa; eles não queriam... Parecia que não importava o quanto eu fosse tentar convencê-los. Thomas colocou sua mão em minhas costas.

– Pessoal, eu acredito que podemos entrar sem nos perdermos. Vamos dar apenas uma verificada de leve! Amarramos o barbante, eu desenho mapa, e que tal desenharmos setas na parede? E podemos deixar rastros dentro da nossa própria casa, caso nos perdemos lá dentro, o que seria meio que impossível, né, Aly?

Thomas me cutucava com o cotovelo.

– SIM, SIM! Vamos, lembrem-se: estamos fazendo pelo Luiz. – Eu sabia que isso iria mexer com Ale e talvez o fizesse mudar de ideia.

Samn bufou. – Tá, tudo bem... mas só uma olhadinha!

Ale levantou rapidamente a cabeça. – O quê? Samn, você está brincando, né?

– Relaxa, Ale, vamos tomar precauções, e não tem problema em ficar aqui, a gente vai dar apenas uma olhada.

Ale pareceu relutante; eu sabia que ele não suportaria a ideia de ficarmos sem ele. Ele deveria se sentir mal por isso.

Ale bateu em seu próprio rosto. – Tá bom, eu vou!

— Então está decidido — disse Thomas. — Amanhã, depois do almoço.

Eu finalmente pude me sentir feliz por conseguir convencê-los.

***

Finalmente a hora chegou; estávamos em frente à caverna. Sua entrada era grande, não dava para ver nada do lado de fora; as árvores eram tão perto uma das outras que a luz do sol não chegava lá.

Ale, tremendo, disse: — Checa tudo, por favor.

Eu comecei a revirar a bolsa e mostrar tudo que tinha trazido. – Dois carretéis de barbante, duas lanternas, trouxe várias barras de cereal, e eu deixei um bilhete na mesa do meu quarto dizendo que entramos na caverna, caso... – Eu sabia que isso ia assustar o Ale, então decidi me calar.

Samn carregava sua câmera e alguns giz de quadro negro; Thomas carregava uma lanterna grudada em um capacete e seu bloquinho. Na bolsa de Ale, estavam lotados terços e algumas cruzes.

Eu olhei para Ale. – É sério isso?

Ale segurou firme a bolsa. – Claro... precisamos de bênçãos.

Respirei fundo. – Vamos?

Demos um passo à frente, só que a Samn ficou parada.

Ale se virou. – O que foi, Samn?

– Escutaram? Eu...

Aproximei-me do ouvido de Thomas. – De novo, faz tanto tempo que não o vejo fazer isso.

Ale se aproximou e pegou na mão de Samn. – Vem, Samn, vamos ficar de mãos dadas.

Antes que eu pudesse esquecer, amarrei o barbante em uma árvore bem perto e fomos para dentro da caverna. Cada passo fazia eco pelos corredores de pedra. O chão era irregular e escorregadio, coberto por pequenas poças d'água. Gotas caíam do teto de tempos em tempos, quebrando o silêncio absoluto do lugar. Samn sempre desenhava setas nas paredes e Thomas desenhava em seu bloco. Conforme a gente mais entrava na caverna, o cheiro piorava; era como se algo podre estivesse lá dentro. A caverna se dividia em vários corredores, mas sempre pegávamos o da direita.

Começamos a ouvir barulhos mais para o fundo.

HÃ? – Ale agarrou o braço de Samn. – OUVIRAM ISSO?

– Se acalma, Ale, foi só o vento.

— HÃ, não, não. Não foi o vento! Acho melhor voltarmos.

– Calma, Ale, só mais um pouquinho. – disse Samn. – Está bem?

Ale balançou a cabeça e continuou a andar ao lado de Samn.

Já fazia quase meia hora desde que tínhamos entrado. O barbante já havia desenrolado vários metros, e eu já não conseguia enxergar a entrada da caverna.

Samn parou de andar.

— Vocês ouviram isso?

Thomas apontou sua lanterna para Samn — Ouvir o quê?

Ela apontou a lanterna para um corredor escuro.

— Alguém acabou de me chamar — Samn sussurrou. — Escutaram?

Olhei sério para Thomas, mas Thomas não me olhou de volta; ele realmente achava aquilo normal.

Entrávamos cada vez mais fundo na caverna; havia marcas de garras nas paredes e pequenos montes de pelos cinzentos espalhados pelo chão.

Ao andar mais fundo na caverna, Samn apontou sua lanterna para algo. – O que é aquilo?

Nos aproximamos devagar. Parecia um monte de tecido molhado.

Thomas iluminou melhor. Meu estômago gelou; eram dois olhos vermelhos de plástico nos encaravam.

Thomas colocou a mão sobre a boca. – O quê? Não pode ser!

Samn rapidamente tirou sua câmera da bolsa e tirou foto daquilo. – Porra...

Ale começou a respirar mais rápido.

Aquilo... era... a fantasia do rato que vimos no festival! Ela estava lá no chão.

Thomas estendeu sua mão para mexer. – Não, Thomas! – disse Samn.

Mas já era tarde demais; Thomas mexeu na fantasia e dela começaram a sair centenas de ratos.

Ale começou a correr desesperadamente e a gritar: – AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH.

Os ratos não paravam de sair da fantasia.

Olhei rapidamente para Samn e Thomas. – CORRAM!

Começamos a correr desesperadamente, mas Samn tropeçou. Eu olhei para trás e voltei para ajudar.

— Samn, Samn, você está bem? Eu disse enquanto a levantava.

Os ratos já tinham sumido; eles deveriam ter entrado em algum dos vários corredores da caverna. Samn se levantou, mas antes que eu pudesse levantar para sair de lá.

CRACK

O chão abaixo de mim cedeu; eu só pude ouvir os gritos de Samn enquanto eu desaparecia na escuridão.

...

...

Eu estava meio tonto, minha cabeça estava doendo muito, mas eu podia escutar... os gritos de Samn.

– ALYYYYY, ALYYYYY, VAMOS TE AJUDAR!!

– ALYYY.

Estava escuro e frio, minhas pernas estavam doendo, eu podia ver uma pilha de barbante em cima de mim, uma certeza eu tinha: ele arrebentou. Eu apenas fiquei sentado calado, torcendo para que alguém pudesse me ajudar. Pela primeira vez desde que entramos ali, pensei que talvez não fosse sair daquela caverna.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.