Saki pensou bem nas duas opções. Até que decidiu que seria melhor investigar a casa do Doutor Keichi.

– Concordo. — Disse Toshio — Pra falar a verdade, tenho até um certo medo do que podemos encontrar lá.

Os dois voltaram para dentro do carro. Toshio deu a partida, e começou a seguir o caminho.

– A casa do doutor Keichi fica a algumas quadras daqui... Não vamos demorar muito.

Quando Toshio olhava para o rosto de Saki, ele se lembrava do ataque que ela teve no laboratório. Aparentemente, ele se preocupava com ela.

– ...Ei. Você está com fome?

Saki se surpreendeu com a pergunta de Toshio. Mas parando para pensar, ela não havia comido nada desde que Alexia e Reika trouxeram o espelho para o templo, e isso havia sido no dia anterior. Toshio pegou uma espécie de lancheira no banco de trás do carro. Ao abrí-la, retirou um sanduíche feito com pão fatiado triangular embalado em um plástico.

– Eu comprei alguns quando cheguei em Tóquio essa manhã. Pega esse. Estão muito bons.

Saki agradeceu e pegou o sanduíche. Após retirá-lo do plástico, começou a comer.

– ...Algo me diz que estamos prestes a descobrir algo. Mas ainda assim, acho um tanto estranho que o doutor Keichi seja responsável pela cidade estar deserta... A menos que ele tenha feito algo realmente terrível.

Saki concordou. Como seria possível uma simples pessoa isolar um cidade? Mesmo sendo um cientista, isso seria algo grandioso demais.

– O que eu fico me perguntando é... Se as pessoas dessa cidade ainda estão vivas... E se não estiverem... Então... Bem, eu não quero pensar nisso. Vamos apenas focar no que estamos fazendo.

As perguntas que Toshio se fazia eram quase as mesmas de Saki. O que aconteceu naquele lugar? Onde está todo mundo? E o que houve com a sacerdotisa Sirena? Ela pegou seu diário e voltou a escrever.

"Eu não sei o que dizer. Toshio parece se preocupar bastante comigo. Eu realmente quero ajudá-lo a encontrar sua família.

Estamos indo para a casa do Doutor Keichi, e esperamos encontrar algo que nos leve à resposta de pelo menos uma de nossas questões."

O carro parou em frente a uma casa. Ao olhar para ela, Toshio se assustou.

– Mas... Mas o que é isso?

A casa de Keichi estava cercada por faixas da polícia, que interditavam a entrada. Toshio rapidamente abriu a porta do carro e saiu. Saki fez o mesmo.

– A casa dele... Algum tipo de crime aconteceu por aqui? Mas...

Toshio passou por baixo de uma das faixas e se aproximou da porta de entrada. Estava trancada. Saki também passou por baixo da faixa.

– Trancada... Vamos ter que entrar de alguma outra forma...

Toshio observou as janelas de vidro.

– ...Saki... Se por acaso o doutor ainda estiver vivo... Não conte isso pra ele, Ok?

Saki não entendeu. Toshio pegou uma grande pedra que estava próxima a uma árvore. Após tomar alguma distância, a arremessou contra a janela, quebrando boa parte dela. Saki não acreditou no que viu.

– ...Bem, era isso, ou não entraríamos nunca, concorda?

Após hesitar um pouco, Saki concordou.

– Agora, vejamos...

Toshio colocou a mão para dentro da janela com cuidado. Em seguida, tirou a trava e a abriu.

– Perfeito! Vamos entrar.

Toshio pulou a janela primeiro. Após cair na sala, ajudou Saki a pular também. Os dois se encontraram em uma sala de estar. Havia uma escadaria que levava para o segundo andar, e algumas portas, além de um corredor que terminava na cozinha.

– Se vamos encontrar alguma coisa, provavelmente vai ser no quarto dele... Que pela lógica fica no segundo andar.

Toshio caminhou em direção às escadas. Saki deu uma última olhada no estrago que fizeram na janela, e continuou seguindo-o. No segundo andar havia uma porta que provavelmente levava para o quarto do doutor Keichi.

– ...É aqui... Bem, pelo menos eu espero que seja...

Toshio girou a maçaneta e abriu a porta. De fato era um quarto. Havia uma cama, um guarda-roupa de madeira e um grande espelho.

– Bingo! Vamos.

Os dois entraram. Toshio notou que havia um criado-mudo ao lado da cama com uma gaveta.

– Eu vou checar aquela gaveta. — Disse ele, já em direção à ela.

Saki parou em frente ao espelho, que aparentava ter quase dois metros. Por um instante ela se lembrou do espelho que causou toda essa história. Saki começou a arrumar seu cabelo.

– ...Droga, acho que não tem nada aqui. — Disse Toshio, ainda remexendo a gaveta.

Saki se virou para ele. No momento em que voltou seu olhar ao espelho, notou algo estranho... Seu reflexo estava imóvel, olhando para ela. Assustada, Saki começou a se afastar, mas seu reflexo continuava a encarando. De repente, ela trombou com Toshio.

– Ai! Saki, o que houve, eu... Mas que diabos é aquilo?!

Toshio também viu o que estava havendo no espelho. De repente, o reflexo de Saki deu um assustador sorriso e bateu suas mãos no espelho, fazendo-o se quebrar.

– Cuidado!! — Gritou Toshio, segurando Saki.

Os cacos de vidro chegaram bem perto, mas não os atingiram.

– ...Saki... — Disse Toshio, ainda segurando-a — ...Você está bem?

Saki acenou positivamente.

– ...Eu imagino... Que você já tenha passado por algumas coisas antes de nos encontrarmos. Estou certo?

Novamente, ela confirmou.

– ...Vamos sair daqui.

Os dois desceram as escadas de volta para a sala.

– Eu não sei exatamente o que está acontecendo aqui, mas se eu fosse algum tipo de fanático pelo sobrenatural, diria que tem alguma força estranha nessa cidade.

Saki já tinha certeza disso a algum tempo. Toshio sentou-se em um dos sofás. Saki sentou-se no outro, logo a frente.

– Bem... Quando encontrar meu filho, ele nunca vai acreditar em mim. Você terá que ser minha testemunha ocular se eu quiser explicar tudo isso pra alguém, e...

Naquele instante, Toshio olhou para o tapete que estava entre os dois sofás. Um tapete vermelho quadrado.

– ...Saki, olha esse tapete. Não tem algo embaixo?

Saki olhou para o tapete. De fato, parecia ter algo fazendo um pequeno volume. Toshio se levantou do sofá, e puxou o tapete.

– Eu não acredito nisso!

Havia uma pequena porta no chão, como se fosse um alçapão.

– ...Isso é a entrada de um porão! O doutor Keichi tinha algum tipo de porão secreto?

Toshio tentou abrir a porta.

– Trancada! Droga, com certeza tem alguma coisa aí embaixo! Rápido, procura algo para abrirmos isso!

Toshio correu até a cozinha e começou a checar as gavetas. Saki não sabia o que fazer, então correu até a outra porta. Quando abriu, notou que era apenas um banheiro. Será que uma toalha ajudaria?

– Achei!! Saki, venha!

Saki voltou correndo. Toshio tinha um martelo em suas mãos.

– Essa fechadura está bem velha. Não vai resistir a alguns bons golpes.

Toshio parecia uma criança que encontrou uma loja de doces trancada. Uma, duas, três, quatro, cinco marteladas. Até que finalmente, o trinco ceceu.

– Pronto! É agora!

Lentamente, Toshio abriu a porta. Havia uma escada que descia para uma sala completamente escura.

– ...Ok. Saki, me dê a lanterna. Eu vou checar.

"Ele vai checar?" Como assim? Ele não queria levá-la?

– Vamos, Saki. Você espera aí. Deixa que eu vou ver o que tem lá baixo.

Saki começou a pensar.

– ...Vamos. Eu não quero que você se arrisque. Espere aqui fora.