Cidade dos Anjos
1 Here our dreams aren't made, they're won
Notas iniciais
I am home, home, home, home
Lost in the city of angels
Minha mãe me disse uma vez que, quando ela era criança, o céu era azul.
Ela lançou um olhar melancólico ao montinho de terra que fizera no topo da colina descampada onde, alguns metros abaixo, jazia sua mãe. Ela disse “Adeus”, e sua voz cansada ecoou como todos os barulhos ecoavam naqueles dias. Ela esperou que o eco sumisse antes de continuar.
Eu lembro que ela me disse que as árvores não eram somente esses troncos de madeira carbonizados, mas cresciam a cada dia e possuíam folhas no topo. Eu lembro que ela me contou da grama macia que fazia cócegas nos pés quando as pessoas corriam, e lembro de ouvi-la descrevendo, em detalhes, as flores. Eu não sei se acredito que tudo isso existiu.
Ela fincou a cruz de madeira no chão. Seus ombros e braços doíam de carregá-la até ali, mas ela não se importava, porque sua mãe merecia. Merecia ser mais que um simples monte de terra sem nome. A cruz não era um símbolo religioso — ninguém mais acreditava na religião. Era difícil acreditar que havia um deus olhando por eles quando estavam prestes a deixar de existir.
A cruz agora simbolizava a morte.
E o abandono.
Ela tinha dezessete anos, e dezessete anos já era uma idade madura. Seu nome era Esperança, porque sua mãe achara adequado. Sua mãe era assim, incrivelmente boa e sonhadora. Tola. O último coração bondoso do mundo.
— A esperança, minha filha, a esperança é o que leva as pessoas para frente. Mantenha a sua e lembre-se de quem você é.
Ela deixou uma lágrima escapar — mas só uma. A voz de sua mãe martelava em sua cabeça, as suas últimas palavras, e seu peito explodia em saudade. Ela pegou o vidro de tinta que ela mesma preparara — uma das únicas coisas práticas que sua mãe soubera fazer e ensinar — e escreveu, em letras de fôrma, “Aqui jaz Marina”.
Suas letras não eram perfeitas — nem de longe —, mas pelo menos ela sabia escrever. Uma habilidade estúpida, já que ninguém escrevia naqueles dias. Ainda assim, sua mãe fizera questão de ensinar a ela.
— É o que nos diferencia dos outros animais, minha filha. Nossa memória. Nossa cultura. Nossas palavras. Não podemos deixá-las morrer, ou estaremos perdidos.
E lá estava a voz dela novamente, e a imagem de seu rosto mais jovem e com aquele olhar perdido que ela assumia quando falava aquele tipo de coisa. Marina estava sempre falando sobre a vida e a humanidade, temendo que fossem perdidas. Era Esperança quem, junto com seu irmão, e desde que se entendia por gente, garantia que sobrevivessem para o próximo dia. Era Esperança quem garantia que as casas em que se abrigavam tinham estruturas sólidas e que as comidas que encontravam não estavam podres demais.
Mas era a sua mãe quem impedia que ela se tornasse vazia.
E não sabia se conseguiria continuar fazendo isso agora que ela se fora. Seu irmão certamente não a ajudaria.
Esperança encarou suas palavras, sentindo que não eram o suficiente.
Minha mãe me ensinou a ler e a escrever quando palavras escritas não eram importantes. Me ensinou a desenhar quando desenhos eram fúteis e me ensinou a perceber as cores que se infiltravam no cinza do mundo. Minha mãe costumava dizer que ela tinha alma de artista — e eu mesma nunca entendi muito bem o que alma e artista queriam dizer. Minha mãe me dizia que se você não pudesse viver, sobreviver não era importante.
Eu nunca entendi muito bem a diferença entre as duas palavras.
Ela lançou um último olhar para a cruz, meio torta, e para as suas palavras insuficientes. Lançou outro olhar para o céu, então, naquele tom acinzentado que ele assumira desde o grande tremor de terra que assolara o planeta em 2012 e destruíra quase tudo. Para Esperança, desde sempre.
Respirou fundo.
Não podia ficar ali para sempre: a noite cairia logo, e tudo ficaria escuro. O breu que a noite trazia só podia ser quebrado pelo fogo, e Esperança não tinha nada que pudesse usar para fazê-lo ali, consigo. Talvez seu irmão tivesse, mas ela duvidava que ele permitiria que ficassem ali até anoitecer. Ela lançou um olhar à figura que a esperava na base do monte e então acenou.
Ela já estava quase terminando de descer do morro quando seu irmão começou a andar.
— Não vai se despedir dela? — perguntou ao alcançá-lo.
— Não. Ela está morta, não faz diferença.
Esperança suspirou.
— Não faz para você? — Ele negou. Esperança suspirou mais uma vez, e o silêncio caiu entre eles, quebrado apenas pelo som de seus pés contra o asfalto quebrado e pelo vento ecoando entre as ruínas das construções que, outrora, poderiam até ser consideradas bonitas.
— Sabe, Esperança, você não percebe, mas é muito parecida com ela.
— O que quer dizer?
— Levar uma cruz até lá em cima. Escrever nela. Dizer adeus.
— Não quero que ela seja esquecida — disse simplesmente.
— Que diferença faria?
— Eu… — ela não soube dizer. — Ela gostaria, sabe? De ter uma cruz. Lembro-me que ela falava sobre os cemitérios e de sua vontade de ser enterrada em um. Não pude fazer isso por ela.
— Ela não sabe. Está morta.
Esperança não soube dizer porque a constatação a incomodara, então não a respondeu.
Minha mãe me dizia que a memória é uma coisa importante. Mais que isso, minha mãe dizia que a memória é uma das coisas que faz da gente um ser humano. Costumava me dizer que se uma coisa não é lembrada, então ela nunca existiu — e não fazia diferença se realmente acontecia ou não. Ela dizia que as coisas importantes nunca eram realmente esquecidas, porque, se eram esquecidas, então não eram importantes.
Minha mãe era importante.
Minha mãe não será esquecida.
Esperança lançou um olhar ao morro. Não conseguia mais reconhecer a silhueta da cruz que colocara lá, tão pequena, mas conseguia ver, ainda bem claramente, as ruínas das letras que indicavam o nome que aquela cidade possuíra no passado. Havia somente um enorme H e, mais na frente, um L. Hollywood.
— Aqui. — Liberdade apontou para uma ruína que parecia particularmente inteira, e logo eles começaram o ritual. Esperança bateu em uma das paredes, que permaneceu em pé. Bom. Liberdade se jogou contra uma das outras que, apesar de ter tremido, o que era normal, também não se despedaçou. Perfeito.
Os dois jogaram suas mochilas no chão — o que consistia em panos amarrados e enrolados juntos para que suas coisas ficassem mais fáceis de carregar por aí — e se sentaram. Liberdade se ajeitou e fechou os olhos. Dormiu. Ele tinha o corpo condicionado para dormir quando fechasse os olhos, porque algumas vezes dormir não era possível, principalmente se houvesse mais gente na cidade. Algumas pessoas eram capazes de matar por um pouco de comida ou um abrigo decente.
Esperança, por outro lado, não estava com sono, nem queria dormir. Ela abriu sua mochila com cuidado, para não desfazê-la, e puxou de lá um caderno. Era um caderno dos tempos antigos, com folhas pautadas, que ela encontrara certa vez numa das ruínas, quase todo em branco. Ela o dera para sua mãe, que ficara mais que feliz ao recebê-lo, e passara a utilizar como diário.
Esperança o abriu na primeira página que sua mãe escrevera e passou o dedo pelas letras redondas e caprichadas. Deu um sorriso fraco, que deixou à mostra seus dentes amarelados. Ninguém o viu.
Minha mãe me disse uma vez que o diário era uma maneira de se ter certeza de que o passado era real. Ela dizia que, às vezes, temia estar ficando louca. Disse uma vez que, sempre que perdia a mim e ao meu irmão de vista, tinha medo de ter inventado nós dois.
Eu não entendia, na época, e até achava engraçado.
Mas estou começando a entender.
À noite, quando está tudo num breu e eu não consigo ver nada, me sinto da mesma maneira.
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