Depois do almoço, com todos de barriga cheia da maravilhosa comidinha da vovó, Lilian resolve atacar: — Pai, será que posso sair essa noite, por favor?

Seu Osvaldo olha para a filha e levanta a sobrancelha.

— Hoje? E aonde você vai hoje?

— Ah, só passear com o Douglas, a Ana e o Cristian. Dar umas voltas e tal, nada muito louco.

Dona Maroca interfere na hora.

— Sexta-Feira Santa é dia de ficar em casa, é uma noite perigosa, hoje mais que nunca.

Osvaldo, que achava as crendices da sogra exageradas, fala:

— Que isso, sogra. Esta noite é como outra qualquer, não tem nada demais.

— Isso você que pensa, Osvaldo – Dona Maroca já agarrando um terço — As forças do mal estão à toda hoje, não brinque com isso.

— Bobagem, – diz Osvaldo, — pode ir sim, Lilian, mas não volte tarde. Meia noite no máximo!

— Obrigada, pai! – diz Lilian sorrindo

Tudo saiu exatamente como Lilian previa, ela sabia que seu pai acharia exagero da Vó Maroca e ficaria do seu lado. Ela corre para o quarto e liga para Ana.

— Ana, tem um baile para ir hoje, topa? – diz Lilian animada.

— Hoje? Oxê... E sua mãe permitiu? – indaga Ana chocada, porque sabe que a mãe de Lilian é igual a sua avó Maroca. Acreditam em tudo que é crendice.

— Menina, apelei para meu pai e não disse que iria a um baile e sim, passear com você, Douglas e Cristian. E ah, chama o Cristian para ir junto.

— Já topei, mas o baile é aonde? – pergunta Ana.

— É na rua Dora Oliveira – responde Lilian

— Mas lá nem tem prédios e casas, onde vai ser esse baile? – diz Ana confusa.

— Ah, certeza que montaram um galpão lá ou coisa assim. – Lilian diz confiante.

— Então está certo, 20h? – pergunta Ana

— Perfeito, — diz Lilian

Enquanto Lilian se arrumava, sua avó entrou em seu quarto e ficou olhando para ela.

— Oi vó, a senhora precisa de alguma coisa? – perguntou Lilian intrigada.

— Não... – Dona Maroca mexendo as mãos nervosa — Eu sinto que preciso dar algo a você hoje, então toma aqui. – diz Dona Maroca estendendo para Lilian um pacotinho.

— Ah, obrigada, vó – Lilian diz empolgada, adorava ganhar presentes. Foi logo abrindo o saquinho e viu que lá tinha quatro pequenos terços. Ela olhou para sua vó, surpresa.

— Quatro, vó? – Lilian diz sorrindo — Tá me achando tão pecadora assim? – diz rindo.

— Esses terços foram ungidos na Igreja hoje, eu pedi proteção à Deus e à Nossa Senhora. Pedi que eles colocassem todo meu amor por você nesses pequenos terços. Senti que você precisará deles hoje, leve-os, por favor.

— Tá bom, vó – diz Lilian achando tudo isso uma bobagem, mas amava a sua avó e nunca tiraria sarro de sua fé. — Pode deixar que levo – na verdade, ela não tinha a intenção, mas o que a vó não vê, não a machuca.

— Que bom, minha filha, – Dona Maroca diz respirando aliviada e diz — Lembre-se sempre, um pontinho de luz, às vezes é sua saída. Não se esqueça!

— Tá bom, vó, pode deixar – diz Lilian e abraça sua vózinha.

Dona Maroca sai do quarto e Lilian deixa os tercinhos sobre a cômoda.

Já eram dez para as 20h, então Lilian trata de terminar de se aprontar rapidamente para não se atrasar, e às pressas... Esquece os terços dados por sua avó.