Cidade de Alvorada
4 Capítulo 4
Lilian roda o salão inteiro e fica surpresa – e não de uma maneira positiva. Não há corredores, portas para banheiros... Nada ali.
Ela olha para as janelas que antes brilhavam com a luz da rua e agora estão tomadas pela escuridão. Ela se aproxima da janela e tenta olhar para fora e não consegue ver nada, é só um breu profundo.
Ficando cada vez mais assustada, ela começa a olhar freneticamente ao redor em busca de seu namorado. Lilian vê as pessoas de preto oferecendo bebidas fosforescentes as pessoas na pista. Os convidados com as roupas mais antigas olham uns para os outros, aceitam a bebida e se deliciam com ela. Bebem e riem, riem e dançam... Dançam sem parar, dançam em uma velocidade inumana.
Lilian estava ofegante só de olhar. Ela percebeu que quem tomava o drink, começava a dançar e rir igual ao grupo que ela avistou anteriormente. E olhar delas... Um olhar alucinado e carregado de maldade.
Com o coração acelerado pelo pavor, Lilian começa a empurrar as pessoas desesperada atrás de Douglas.
E enfim, ela o avista de longe. Lilian percebe que ele está com o drink na mão, prestes a bebê-lo.
— Douglas, não! – grita Lilian correndo em sua direção, empurrando todos que estavam em sua frente.
Desesperada, corre até ele e derruba o copo no chão. Ao entrar em contato com o chão, o líquido começa a soltar uma fumaça branca com um odor fétido de carne em decomposição.
— Você colocou isso na boca? – indaga Lilian segurando seu rosto, praticamente gritando. – Por favor me diz que não colocou esse treco na boca!
— Não! – responde Douglas com os olhos arregalados — Eu tinha acabado de ganhar daquele cara que nos recebeu na porta.
Lilian agarra a mão do namorado e sai correndo desesperada atrás de Ana e Cristian, rezando para que eles não tenham aceitado a bebida.
Empurrando os loucos dançantes, Lilian se sente em um mar tempestuoso com ondas gigantes tentando derrubá-la. Quanto mais pessoas ela empurrava, mais pessoas apareciam na sua frente. Parecia não ter fim.
Enquanto lutavam para encontrar seus amigos em meio ao pandemônio de pessoas totalmente desiquilibradas, Lilian por fim conseguiu ver os rostos das pessoas da festa com clareza... Eram rostos com olhos mortos e fixos, com sorrisos sádicos e hálitos pútridos. Seus olhos ardiam com o odor.
Já quase chorando, enfim eles avistam Ana e Cristian, que estão abraçados e perdidos na música. Música que só eles escutam, porque a música parou de tocar a muito tempo, só o que se escuta são risos loucos e gritos agudos.
Lilian sabia que estava no inferno e pensa desesperada em como sair dali.
Chegando perto dos amigos, ela os sacode e os tira do transe que aparentemente estão.
— Ana, Cristian, precisamos sair daqui, agora! – Lilian grita desesperada.
— Vamos achar uma saída, segurem na mão um do outro e não larguem por nada – diz Douglas agarrando a mão de Lilian, Lilian de Ana e Ana de Cristian.
Juntos, começam ir em direção a porta em que entraram, mas ela não está mais lá. Eles seguem frenéticos pela parede a procura de uma porta e nada. Não há saída!
— Meus Deus, o que vamos fazer? – Lilian diz já chorando desesperada de medo. Seu coração estava para explodir.
— Não sei. – Responde Douglas, igualmente em pânico.
Ana e Cristian tem lágrimas escorrendo pelos rostos, o desamparo nos olhos os fazendo brilhar mais do que nunca.
Lilian olha para frente e vê as pessoas de roupa escura olhando para eles e rindo, um riso alto e debochado. Naquele momento ela toma ciência de que eles são demônios, demônios que sua avó avisava da existência e ela achava que era crendice de pessoas idosas. “Que tolice a minha...” pensou.
Lilian então se põe a pensar. Olha freneticamente em volta do salão pela milésima vez. “Não há saída, não há saída!” pensava desesperada. Depois de tanto repetir esta mesma frase quase como um mantra... Lilian lembrou da conversa que teve com a sua avó logo antes de sair.
Sua postura prontamente volta ao normal e ela grita aos amigos:
— Um pontinho de luz, é a saída!
— O quê? – Ana pergunta confusa.
— Procurem um pontinho de luz, não importa se é minúsculo, procurem nas paredes um pontinho de luz. – Lilian fala para os amigos – Peguem os terços e os coloque em suas mãos, envolva a palma da mão com eles.
Os amigos nem hesitaram. Fizeram o que ela disse e começaram a procurar o ponto de luz.
Depois de muito procurar, Lilian viu que atrás do homem que lhe deu o convite, estava o pontinho de luz que tanto procuravam.
— Está ali, — Lilian diz aos amigos – atrás do cara que nos deixou entrar.
— Como vamos passar por ele? – Douglas pergunta — O cara é, por mais que seja louco admitir, um demônio.
— Eu não sei, só sei que vamos conseguir. – diz Lilian confiante.
Eles, de mãos dadas e com os terços enrolados nas mãos, vão unidos passar pelo demônio que os enganou.
Vendo os jovens chegando perto dele, ele sorri cheio de maldade.
— Pensando ir a algum lugar meus jovens. — Ele sorri largamente. Era possível ter um vislumbre de sua língua bifurcada como de uma cobra.
— Nós vamos embora agora, – diz Lilian reunindo toda a coragem que existia dentro dela. — E você vai nos deixar sair.
— Ah, eu vou é? – ele sorri e mostra a língua como se de fato fosse uma cobra e agarra a mão de Lilian.
Neste momento, sua mão começa a queimar e ele grita desesperado.
— Minha mão! A minha mão! – dizia o demônio olhando sua mão queimar, incrédulo mas com muito medo carregado na entonação de sua voz
A mão que ele agarrou, é a mão em que estava o terço que sua vó lhe dera antes de sair de casa.
Ele se afasta, sai da frente deles e o ponto de luz cresce e
Lilian grita:
— VAMOS AGORA!!!
Eles correm em direção a luz e a atravessam.
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