A QUEDA

Cidade de Northfield: 07 de março de 1980

Ethan caminhava por uma sala sem limites visíveis. A escuridão não era ausência de luz, mas algo denso, quase sólido.

O chão sob seus pés era água — fria, imóvel — e, ainda assim, não havia reflexo algum. Nenhuma sombra, nenhum sinal de que ele realmente estava ali.

Ele tentou entender onde estava, mas o pensamento escorria como a água sob seus pés. O medo veio primeiro como um sussurro, depois como um aperto no peito. Estava sozinho. Completamente sozinho. Os pelos de seus braços se arrepiaram, e cada passo parecia errado, como se o lugar o rejeitasse.

Num piscar de olhos, a sala desapareceu.

A noite o envolveu em uma floresta sombria. Árvores altas se inclinavam umas sobre as outras, abafando o céu. O ar era pesado, e o silêncio, opressor.

Foi então que ele viu.

Preso a uma árvore, balançando levemente com o vento inexistente, havia o corpo de um jovem. Os cabelos ondulados, de um castanho-claro apagado pela escuridão, caíam sobre a testa e o rosto imóvel. A pele pálida demais, os olhos vidrados em algo que Ethan não podia ver.

Seu coração disparou, batendo tão forte que parecia querer escapar do peito. O pânico tomou forma, cravou-se em seus ossos.

Um instinto o fez olhar para trás.

Da escuridão, uma figura emergia lentamente. Tinha a forma de uma múmia, envolta em faixas sujas, o rosto completamente oculto. Apenas os olhos eram visíveis — vermelhos, atentos, famintos. Eles se fixaram em Ethan com uma certeza terrível: aquilo estava ali para matá-lo.

Antes que pudesse correr ou gritar, o chão cedeu sob seus pés. A floresta, a criatura, o corpo — tudo despencou junto com ele.

Ethan caiu.

E acordou.

Ethan acordou assustado, sem entender direito o que havia acontecido. Levou alguns segundos para reconhecer o próprio quarto. Respirou fundo e, pouco a pouco, sentiu o alívio chegar.

— Foi só um pesadelo — murmurou para si mesmo.

O despertador começou a tocar, insistente. Ele esticou o braço e o desligou, ainda com o coração acelerado. Levantou-se da cama e foi se arrumar.

Depois de pronto, desceu as escadas em direção à cozinha. Ainda nos primeiros degraus, já era possível ouvir o barulho metálico das panelas se chocando. A Sra. Holloway estava cozinhando o café da manhã para suas irmãs gêmeas, Bianca e Elizabeth — meninas de cabelos longos e ondulados, narizes redondos e expressões sempre curiosas.

A Sra. Holloway, de cabelos longos e pretos, olhou em sua direção e sorriu.

— Bom dia, Ethan.

— Bom dia — ele respondeu baixo, ainda um pouco distante.

— Espera só um pouco, já estou terminando o café da manhã — disse ela, voltando-se para o fogão.

Ethan hesitou. Tinha combinado de chegar mais cedo à escola para encontrar os amigos.

— Não vou poder esperar hoje — respondeu. Pegou apenas algumas bolachas da mesa. — Tenho que ir.

Despediu-se de Bianca e Elizabeth com um aceno rápido e beijou o rosto da mãe antes de sair.

Do lado de fora, montou na bicicleta e começou o caminho até a escola. O vento batia em seus cabelos ondulados, que brilhavam no tom castanho sob a luz da manhã, assim como seus olhos.

No meio do caminho, o walkie-talkie preso ao guidão começou a tocar.

— Ethan! — era a voz animada de Charlie. — Tá vindo pra escola?

— Tô sim, já estou a caminho.

— Tenho uma boa notícia… consegui ingressos pro cinema.

— Sério? Vamos assistir o quê?

— Não importa. A gente decide quando você chegar. Anda logo, o Quinn já está aqui comigo.

— Tá bom, já estou chegando.

Ethan desligou o alquitoque e continuou pedalando até avistar a escola. Hollow Creek High School estava escrito em letras grandes na parede da entrada.

Charlie e Quinn o esperavam perto do portão. Ele encostou a bicicleta na área reservada e caminhou até eles.

— E aí! — disse Charlie, animado.

Quinn apenas acenou com a mão.

— E aí — respondeu Ethan. — Como vocês estão?

— Bem — disse Charlie, enquanto começavam a entrar na escola. — Ontem passei a noite inteira jogando videogame. Consegui zerar Zumbis Assassinos.

— É mesmo? — Ethan respondeu, distraído.

— Você não deveria ficar jogando a noite toda — comentou Quinn.

Charlie revirou os olhos.

— Você só sabe dar sermão. Relaxa. Só se vive uma vez.

No corredor, era possível ver vários cartazes colados nas paredes. DESAPARECIDO, dizia o título em letras grandes. Em um deles, havia a foto de um garoto de cabelos castanhos e olhos da mesma cor.

Ethan parou por um instante.

O coração apertou.

Esse garoto parece com o que eu vi no meu sonho.

Espantado com o próprio pensamento, apontou para o cartaz e perguntou aos amigos:

— Quem é ele?

Charlie olhou para onde Ethan apontava.

— Esqueci de falar… esse é o garoto que desapareceu. Robert Parke.

— Parke? — Ethan repetiu, um pouco surpreso. — Irmão do William Parke?

— Sim — respondeu Charlie.

A imagem da floresta voltou à mente de Ethan. A árvore. O corpo. O rosto que ele não conseguia esquecer.

Como isso é possível… murmurou, quase sem perceber.

— O que você disse? — perguntou Charlie.

— Nada — respondeu Ethan rápido demais.

Charlie o encarou por um segundo a mais do que o normal.

— Certo… — disse, desconfiado.

Eles chegaram à sala, entraram e se sentaram próximos um do outro. Enquanto aguardavam a chegada do professor, continuaram conversando, como se tudo estivesse normal.

Mas para Ethan, nada mais parecia normal.

Ethan mal percebeu o tempo passar. As palavras do professor se misturavam aos próprios pensamentos, sempre voltando ao mesmo rosto preso na árvore. Quando o sinal do recreio ecoou pela sala, foi como se ele acordasse de novo.

Os três seguiram para o refeitório. Sentaram-se juntos, almoçando e conversando como de costume, tentando manter a normalidade.

— Depois do cinema, vamos ao fliperama? — perguntou Charlie, animado.

— Por mim, tudo bem — respondeu Quinn.

— Pode ser — disse Ethan, distraído.

Charlie tinha cabelos lisos e loiros, olhos castanhos-claros sempre atentos ao redor. Quinn, ao seu lado, tinha cabelos pretos e lisos, olhos castanho-escuros e uma expressão constantemente irônica.

De repente, Charlie se calou.

Uma garota passou perto da mesa — cabelos longos, pele clara, olhos azuis. Charlie acompanhou cada passo dela com o olhar.

Quinn percebeu imediatamente. Cutucou o ombro do amigo.

— É ela que você tá a fim?

Charlie desviou o olhar, sem graça.

— Ela é muito linda… mas não sei se tenho chances.

— Provavelmente não — respondeu Quinn, tirando sarro.

Charlie ficou furioso.

— Vai à merda!

Quinn e Ethan começaram a rir ao mesmo tempo. Charlie cruzou os braços, fingindo indignação, mas logo acabou sorrindo também.

Ethan, porém, logo se afastou do momento. Seu olhar percorreu o refeitório até parar em um garoto sentado algumas mesas adiante.

William Parke.

O irmão de Robert.

A semelhança era impossível de ignorar. O formato do rosto, o cabelo castanho, o jeito quieto. O estômago de Ethan se revirou.

A floresta voltou à sua mente.

A árvore.

O corpo.

Ele desviou o olhar, incomodado.

Foi só um sonho, tentou convencer a si mesmo.

Mas, pela primeira vez, essa explicação parecia frágil demais.

À tarde, o shopping já estava cheio. Pessoas entravam e saíam das lojas, o som distante de músicas se misturava às conversas e ao eco dos passos no chão brilhante.

Os três caminharam pelo corredor principal até o cinema, identificado por cartazes coloridos e filas que começavam a se formar em frente às bilheterias. O cheiro de pipoca era impossível de ignorar.

Por alguns minutos, Ethan conseguiu se misturar ao movimento ao redor. O barulho, as luzes e as vozes abafaram seus pensamentos.

O cartaz.

O sonho.

A floresta.

Tudo ficou em segundo plano.

Ou pelo menos, parecia.

— Vamos assistir qual? — perguntou Charlie, diante dos cartazes iluminados.

Eles pensaram por alguns segundos.

— Que tal O Iluminado? — sugeriu Quinn.

— Ótima ideia — disse Ethan.

— Então pronto, vai ser esse — concluiu Charlie.

Pouco depois, os três entraram na sala escura do cinema. A luz da tela era a única coisa que quebrava a escuridão. O filme já estava na metade quando Ethan começou a se sentir mal.

Não era dor.

Era uma pressão estranha, como se algo apertasse sua mente por dentro.

— Vou ao banheiro — avisou, inclinando-se para os amigos. — Já volto.

— Não demora — disse Charlie.

Ethan saiu da sala. O corredor estava silencioso, iluminado por luzes frias. Conforme caminhava até o banheiro, a sensação piorava. A cabeça girava, os pensamentos se embaralhavam. Ele encostou na parede por um instante, respirou fundo e seguiu.

No banheiro, jogou água no rosto e ergueu o olhar para o espelho.

Mas não era mais ele.

Ethan percebeu, com um choque mudo, que estava vendo através dos olhos de outra pessoa.

Era noite.

Um garoto pedalava sua bicicleta por uma rua mal iluminada, carregando uma bolsa de jornais. O ar frio, o silêncio pesado, o medo constante de estar sozinho — tudo isso atravessava Ethan como uma onda.

Três garotos surgiram à frente.

Valentões.

Pelo jeito como o garoto tentou mudar de caminho, ficava claro que aquilo já tinha acontecido antes.

A tentativa falhou.

Eles o viram.

O do meio, de cabelos pretos e lisos, abriu um sorriso curto, quase satisfeito.

— Olha quem tá aqui… — disse.

O medo explodiu dentro do garoto.

Ethan sentiu tudo.

A tensão travando o corpo. O pânico acelerando o coração. A vontade desesperada de desaparecer.

— Dylan — chamou o valentão.

O garoto tentou correr, mas foi segurado pelos outros dois. Eles o puxaram para um beco escuro, longe da rua.

Os golpes vieram.

Ethan não sentia a dor física.

Mas sentia a humilhação.

A raiva contida.

O medo sufocante.

A angústia de não poder escapar.

Era demais.

A mente de Ethan parecia se partir. Ele não entendia quem era aquele garoto, nem por que estava vendo aquilo. Tentou se afastar, fechar os olhos, mas não adiantava.

Então, de repente, tudo foi arrancado dele.

Ethan voltou a si no banheiro, o coração disparado, a cabeça latejando de confusão. O mundo girou. As forças o abandonaram.

Sem conseguir se manter em pé, ele caiu.

A escuridão veio logo depois.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.