Cidade Dos Corvos
3 Cidade dos Corvos: Capítulo Três: Erros do Passado.
CAPÍTULO TRÊS:
Cidade:
Café.
– É confuso por correio de voz, mas eu estou bem Julia. – Minha namorada ligava muitas vezes pra mim, mas aqui em Cidade dos Corvos é muito ruim de pegar sinal, então o único jeito era responder via caixa postal quando o sinal pegava. – Estou indo para casa assim que Ellen chegar lá. Te amo, Julia. Me liga. – Falei desligando e me virando.
– Dois cafés fortes? Isso é sério. – Falou a menina do jornal atrás de mim.
– Um é para meu amigo. – Falei me virando.
– É seu parente? – Perguntou ela me mostrando uma foto no celular. – Não achei o obituário, mas isso ajuda? Ele parece exatamente com você.
Em algum lugar da cidade.
– Então, que horas nos encontraremos à noite? – Perguntou uma menina a Eduarda.
– Não tenho certeza se irei. – Falou Eduarda.
– Dillon sabe disso? – Perguntou a menina. – Heleno também não vai?
– Não tenho certeza. Pergunte você mesma a ele.
– Duda, você não irá hoje por conta do seu pai? Você sabe que ele ia querer você lá, e Heleno também. Sei que não será o mesmo, mas a polícia vai resolver isso. Você não pode se esconder.
– Não sou minha mãe. Não vou me esconder, Vivi.
– Meio que está se escondendo, como seu irmão.
– Não sou meu irmão.
– Em dois meses, Heleno passou de Sr. Popular à lobo solitário. As pessoas estão mesmo com medo dele.
– Ele está mais do que eles.
– Entendo. Mas como isso ajuda? Se ficar pensando nos monstros embaixo da cama, você nunca superará isso. Pode até mesmo morrer. Não acredito que falei isso. Por favor, me bata. – Vivi termina de falar e um menino chega com um carro tocando uma música alta.
– O que acham? É meu carro de desfile. – Perguntou o menino
– É bonitinho. – Falou Vivi.
– É bonitinho? – Perguntou o menino.
– É lindo, Dillon. – Eduarda fala e ele sai do carro.
– Não quer experimentar? – Perguntou ele abrindo a porta para Eduarda.
– Vá em frente. – Falou Vivi.
– No meio da cidade? Eu... – Falou Eduarda.
– A realeza nunca pode ter vergonha. – Falou Vivi.
Eduarda vai até ele e entra no carro.
– Obrigada. – Falou ela se sentando. – Me sinto estúpida.
– Você parece justamente como uma rainha deveria parecer. – Falou Dillon.
– Você e eu, maquiagem às seis horas, vamos fazer magia. – Falou Vivi para Eduarda. – E você, tente dirigir devagar e em frente. Não quero minha melhor amiga com problemas. – Vivi fala pra Dillon.
– Se você diz. – Falou ele e Vivi sai.
Ele chega junto de Eduarda e a beija.
Café.
– Estou dizendo coisas estranhas, e você age como se eu falasse do tempo. Por que isso? – Perguntei a menina.
– Temos um jeito diferente nessa cidade. – Falou a menina.
– O que quer dizer? – Perguntei. Antes que ela respondesse Heleno entra no café.
– Quando eu tinha 11 anos, fui a um acampamento. Uma noite, estávamos na fogueira contando histórias de terror. Uma criança falou de uma casa mal assombrada em Cidade dos Corvos. E outra falou do fantasma do cinema de Cidade dos Corvos. E finalmente falei: “Eu moro em Cidade dos Corvos, é minha cidade”. E todos se calaram. Foi quando percebi que olham para cá diferente.
– Tudo aquilo não surgiu do nada. Algo tinha que acontecer. – Falei pra ela.
– Vê a marca na parede. – Falou ela me mostrando a marca. – É a marca das inundações em 1896. A explosão do reservatório e milhares de galões d’água vieram pelo meio da cidade como um trem frenético. Tiraram corpos de cima das árvores por seis meses. As pessoas disseram que a cidade morreria, mas não. Eles reconstruíram e é linda, e amo aqui. Mas...
– Mas há tanta morte. Como se tivesse ficado trancada.
– É parte de quem somos.
– Ei Heleno, onde está a sua irmã? – Perguntou um menino chegando perto de Heleno no balcão.
– Cala a boca, Rafael. – Falou Heleno.
– O que acontecerá se ela perder? – Perguntou Rafael. – Ela irá atrás dos juízes com uma faca? É como dizem: tal mãe, tal filha.
Heleno pega Rafael pela camisa e empurra ele pra longe e quando Rafael vai pra cima de Heleno, Dyêgo coloca o pé na frente e ele tropeça, ao mesmo tempo um homem chega por trás de Heleno.
– Algum problema aqui? – Perguntou o homem.
– Não, estamos bem. – Falou Heleno e Rafael se vira pra ir embora.
– Vou me lembrar do seu rosto. – Falou ele olhando pra mim.
– É como se essa cidade tivesse criado a hospitalidade. – Falei pra mim mesmo.
– Heleno. – Falou o homem. – Sei que é difícil, mas você pode superar.
– Não sou eu quem tem problema. – Falou ele. – É o resto dessa cidade. – Heleno sai e a menina do jornal vai atrás dele.
– Você é amigo da Mykaella? – Perguntou o homem a mim.
– Sim, amigo da família. – Menti.
– Benjamim Price. Sou um dos professores dela. – Falou ele estendendo a mão pra mim.
– Dyêgo Rivers. – Falei apertando.
Em um parque da cidade.
– Você está bem? – Perguntou Mykaella a Heleno.
– Estou ótimo. – Falou Heleno. – Meu pai foi assassinado, mas você já sabe disso, já que o jornal do seu pai diz que minha mãe o matou.
– Eu lamento, sei o que houve, mas você não tem falado comigo, só quero saber como está. Não me trate como o Rafael
– Desculpa. Desculpa.
– Está tudo bem.
– Não está, sinto falta de falar com você.
– Então por que parou?
– Ouvi dizer que sua mãe voltou pra casa.
– Sim, voltou do Afeganistão uns dias atrás.
– Deve ser bom, tê-la em casa.
– Sim, é. – Falou Mykaella com uma voz meio pra baixo.
– Você está bem? – Perguntou Heleno.
– Vim aqui cuidar de você, não o contrário.
– Desculpa.
– Está tudo bem. – Falou Mykaella abraçando Heleno e encostando seu rosto no dele. – Vai ficar tudo bem.
– Mykaella. – Falou seu pai chegando e logo os dois se separam. – Pensei que você ia levar o café.
– Fiquei um pouco ocupada.
– Venha. Vou te levar lá de volta. – O pai dela fala e ela vai embora com ele.
Residência dos Collins.
Narração de Ellen.
Em meu quarto eu olhava um álbum com fotos velhas até que eu chego a um pedaço de jornal que tem como legenda “A grande inundação” sinto como se alguém estivesse me observando e uma escova que estava em cima da mesa cai sozinha. E quando me levanto pra pegar eu vejo um espírito atrás de mim, mas quando me viro ele não está mais lá, quando olho pro chão tem uma poça de água... Depois de um tempo Dyêgo voltou pra casa.
– Estava molhado, não úmido. Cheio de lama. – Falei pra Dyêgo e ele olha pra cima tentando achar o problema.
– Pode ser um cano quebrado. – Falou ele olhando.
– Não é sobre um cano quebrado.
– Ellen, essa casa é velha.
– Ela é enorme, e tem seu próprio clima. Mas não é sobre canos quebrados, Dyêgo. Havia alguém atrás daquelas cortinas.
– Talvez tenha sido o vento.
– Esse vento tinha mãos. Não precisamos fazer isso. Tem um ônibus que sai hoje à noite.
– Espera. Nem ouvi falar do meu pai.
– Mesmo que ele tenha dito que sua família foi dona da cidade, isso fará você ficar por perto? Eu não vou ficar.
– Mas não quer nem saber quem trocou as lápides? Se fosse seu tio...
– Não o chame de meu tio. Ele era um estranho, e claramente quer distância.
– Certo, mas por quê? Por que ele está mentindo para nós dois? Ele nem me conhece. O que ele esconde? Quero respostas. – Batem na porta e ela se abre.
– Sr. Collins gostaria que o acompanhassem no jantar. – Falou Carla.
– Lamento, tenho que pegar um ônibus. – Falei para Carla.
– Parece uma ótima ideia. Esperarei aqui. – Falou Dyêgo.
– Se quiser tomar banho, tem um banheiro no corredor. Tem banheira. – Falou Carla.
– Sou mais do tipo que usa chuveiro. – Falou Dyêgo.
– Temos uma banheira. É funda. Você não se decepcionará. – Falou Carla pra Dyêgo. – Vou avisar seu tio que você ficará. Ele ficará contente. – Falou Carla para mim e sai.
– Tem de ser ideia dela, não dele. – Falei pra Dyêgo.
– É só jantar. Vamos ficar de boa. – Dyêgo falou pra mim. – Talvez conseguiremos respostas.
Residência dos Mathersons.
– Você estará lá? No desfile? – Eduarda perguntou pra Heleno enquanto jantavam.
– Tenho que estudar para uma prova de química. – Respondeu ele.
– Você terá o dia todo amanhã.
– Estudarei hoje. – Falou ele levantando e levando um prato para a cozinha e colocando um pouco de comida.
– Se isso é para a mamãe, não se incomode. Ela já dormiu. – Eduarda se levanta e vai até Heleno. – Seria legal se alguém da família pudesse estar lá hoje.
– Eu nem acredito que você vai. Viu o que estava escrito no epitáfio. Você sabe que essa cidade pensa da mamãe, e de nós.
– Não é a cidade toda, está bem? Vivi não acha...
– Ela não é sua amiga.
– O que isso quer dizer?
– Ela não é. Ela te usa pra se sentir melhor.
– Heleno, sei quem meus amigos são.
– Sério? Qual deles perdeu um spray de tinta vermelha? – Heleno pergunta pra Eduarda e ela sai de perto dele com raiva.
Jantar na residência dos Collins.
Narração de Ellen.
Era muito constrangimento para mim depois de dizer aquilo tudo pro meu tio ter que ficar ali na sua presença, eu não sabia muito bem o que falar ou fazer.
– Obrigada. – Falei quando Carla me serviu.
– Essa cidade gosta mesmo de festejar. – Dyêgo falou quebrando o gelo. – Festa no cemitério uma noite, desfile no dia seguinte.
– Pretende ir? – Perguntou meu tio.
– Claro, por que não? – Falou Dyêgo. – Amo desfiles.
– Você também gosta de explorar a cidade? – Dessa vez meu tio perguntou a mim.
– Ela cresceu nessa casa? – Perguntei me referindo a minha mãe.
– Quem? – Perguntou ele se fazendo de desentendido.
– Minha mãe. – Falei. – O quarto que me colocou, era dela? – Perguntei e Carla faz um barulho com os talheres e vira-se para trás.
– Era. Por quê? – Perguntou meu tio.
– É meio... Sufocante. – Falei. – Para uma adolescente. Agora sei por que ela quis fugir e se casar.
– Acho que sua mãe teve motivos para fugir. Se eu tivesse a imaginação dela, eu teria me juntado a ela. – Ele falou, levantou-se, se dirigiu a outra mesa e voltou com um álbum de fotos da minha mãe.
Residência dos Beaumont
– Ano passado o clube de francês tentou transformar um carro em um croissant de chocolate. – Falou Mykaella para seu pai e sua mãe na mesa. – Mas não ficou bem feito, e todos pensaram que fosse uma fralda gigante.
– Mas você tinha uma dessas. – Falou sua mãe com um sorriso e Mykaella sorri. – Desculpa, falei em voz alta?
– Qual é? Eu ainda estou comendo. – Falou seu pai sorrindo também.
– Não sei se a sua também, mas minha comida está esfriando, eu vou reaquecer. – Falou a mãe de Mykaella levantando.
– Deixa que eu vou. – Falou o pai.
– Sei onde o micro-ondas fica. – A mãe de Mykaella sai e fica um clima pesado.
– Não quero fazer isso na frente da sua mãe, mas precisamos falar do Heleno. – Falou seu pai pra Mykaella.
– Já posso voltar a falar o nome dele? O que quer que eu faça? Trata-lo como um estranho? – Perguntou Mykaella.
– Te disse para manterem distancia. – Falou seu pai.
– Você fez isso por mim, pai. Ele pode ler.
– Mykaella, ele fez más escolhas. Ele não é o mesmo garoto que sentava no jardim...
– Sim, é. Se ele mentiu pra polícia foi para proteger a mãe dele.
– Meu trabalho é te proteger. Não quero mais que você o veja. Ponto final.
Residência dos Collins.
Narração de Dyêgo.
Depois do jantar, Ellen foi pro quarto com o álbum da mãe e eu como não tinha nada pra fazer fui atrás.
– Sabe o que o fez te dar isso? – Perguntei a Ellen.
– Talvez a Sra. Grunwald (Carla) o convenceu? – Falou Ellen. – Ela quer conversar, toda vez que ela me vê.
– Sério? Toda vez que ela me olha, sinto que alguém está tirando meu couro.
– Ela sabe mais sobre minha família do que eu. – Falou Ellen passando a página e parando em uma foto de uma menina pequena.
– Quem é essa? – Perguntei.
– Minha mãe, eu acho. – Respondeu ela.
– Vou tomar aquele banho agora. Vai ficar bem se eu...
– Vou.
– Certo. – Falei me levantando e ela continuou vendo o álbum da mãe até que achou um envelope, ela abriu e era uma carta que sua mãe escreveu para ela ainda antes dela nascer.
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Minha querida Ellen.
Seu pai e eu mal podemos esperar para que você nasça para vermos o seu rosto, seus olhos, seu sorriso. Para descobrir o que você gosta e o que ama.
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Dyêgo entra na banheira com espumas, assim que ele se ajeita e apoia sua cabeça dentro da banheira a cortina se afasta sozinha e a torneira liga sozinha também, ele se assusta e vai fecha-la, mas ela emperra e a água começa a transbordar, quando ele consegue desligar a torneira, alguém joga a cortina de plástico em cima dele e o pressiona para baixo tentando o afogar, ele tenta se levantar, mas sem sucesso, pois a banheira estava cheia de água e escorregava muito, mas ele consegue retirar a cortina a tempo, ele olha ao seu redor assustado, na esperança de encontrar alguém que pudesse ter feito aquilo, mas não tem ninguém e a porta do banheiro estava trancada como ele deixou.
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Uma hora depois em uma rua na cidade.
– Nunca viemos por essa rua. Tem certeza que a rodoviária é aqui? – Perguntou Ellen pra mim, mas eu não estava ouvindo. – Dyêgo!
– O que? Sim. Passei por ela esta manhã. – Respondi. – Vi alguém comprando uma passagem.
– Bom, vamos torcer para não ser a última. – Falou Ellen. – Não havia só fotos naquele álbum. Tinha uma carta da minha mãe. Ela escreveu para mim antes de eu nascer. Acho que eu era uma surpresa não estimada, mas mesmo sendo abandonada, ela queria me conhecer.
– Quando leu isso?
– Quando você tomava o banho mais longo da história dos banhos.
– Não foi o banho. Seu tio tentou me afogar.
– Espera, o que?
– Fechei meus olhos, e quando vi, estava submerso.
– Sabe, nós não dormimos...
– Ellen, não foi alucinação. Sua cortina tinha mãos e meu banho tinha ombros.
– Por que ele faria isso?
– Diga-me você. Aparentemente, roubar nossas lápides não foi o suficiente para nos expulsar daqui. – Falei e meu celular toca. – É meu pai. Preciso atender. Fique aqui. Vou comprar nossas passagens.
Residência dos ...
Mykaella desce as escadas e encontra sua mãe na sala com um lençol e um travesseiro.
– Mãe, voltou a ter pesadelos? – Perguntou Mykaella para ela.
– Odeio perturbar seu pai. Se eu acordo, ele também acorda e nós dois não conseguimos mais dormir. É melhor eu dormir aqui. – Falou sua mãe.
– Se quiser, posso ficar aqui contigo.
– Para eu te perturbar?
– Se acordar e quiser conversar, estarei aqui. Você fazia isso comigo. Papai contou que encontramos um ótimo espaço...
– Não quero voltar a clinicar.
– Por quê? Poderia abrir uma clínica. Ninguém quer ir ao Dr. Frankle. Ele está muito velho.
– Ele não é tão velho.
– Quando ele tosse sai poeira. É como bater em um tapete.
– Não estou pronta para enfrentar a cidade.
– Claro que está. Nós precisamos de você.
– Você irá se atrasar.
– Mãe, o que posso fazer? Eu quero ajudar.
– Querida, não preciso de ajuda. Só preciso de tempo para processar tudo. Todos da minha unidade morreram. Ainda não sei por que estou aqui. – Falou ela começando a chorar. – Não faz sentido que eu seja a única sobrevivente. – Ela fala e Mykaella se afasta para sair. – Se ver o Heleno hoje, diga que mandei um oi. E que sinto muito pelo pai dele. – Mykaella só diz sim com a cabeça e sai.
Residência dos Collins.
Raymond está trabalhando e Carla surge na porta.
– Arrumei aquele quarto para a sua sobrinha, achei que você quisesse ficar perto dela. – Falou Carla.
– A volta dela não era esperada. – Falou ele.
– Não é tarde para corrigir os erros. – Falou Carla e Raymond olha pra ela e a fica encarando.
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