Ciclo sagrado
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Somente alguns raios de sol conseguiam passar pelas grades enferrujadas das ruínas em que o pequeno garoto repousava, cercado de inúmeras penas que brilhavam e contratavam com si mesmas. Ele abre os olhos, sem assimilar nada, nem mesmo o miolo de maçã que acabara dormindo em cima. Com indiferença, caminha ao ar livre, ao mesmo em que um guarda-chuva vem em sua direção, predestinado. Ele ergue sua mão, emitindo uma luz que sincronizava com o objeto, com a estranheza estampada em sua face, contudo, pegou impulso e pulou agarrando seu novo meio de transporte, convicto que não cairia.
Voando na aquarela de tons pastéis, o que lhe era estranhamente familiar, recolheu penas que bailavam perdidas, num fundo onde outras milhares voavam, o pequeno as guardava, como se pudesse cair a qualquer momento caso contrário.
Vários obstáculos encontrara, mas o vento parecia estar a seu bel favor em rastros suaves como um pincel, balançando seu corpo ao som da brisa. Em sua mente, uma bela sinfonia tocava, era o descobrimento de um novo mundo.
Pouco depois, a presença de outrem sentiu. Agachada em um cantinho no pedregoso chão, não viu o pequeno jovem se aproximar que extendia a mão. Após vislumbrar sua aura positiva, confiou sua segurança a ele. A esta altura, a sinfonia se tornara mais alegre em ambas visões, era o prazer de uma companhia.
O tempo fez seu trabalho, manchando a extensão celeste de um tom avermelhado, enquanto o vento tornou-se mais forte, mostrando seus animais da floresta. Logo, era noite, com tons monocromáticos de azul revestindo a melodia da pacata cidade. Enfim, chegaram a um destino. A garota com suas tranças logo correu para sua casa avistar uma senhora de cama, que se encararam por um bom tempo. O príncipe apenas fechou os olhos com um sorriso, surpreendentemente alegre, assobiando.
Seguindo seu caminho, o cenário mudara juntamente com o sol. Agora apresentava uma atmosfera melancólica, com prédios destruidos e mata desvastada. O que quer que havia acontecido ali, lhe dava uma sinfonia que apertava seu coração. Alguns humanos chegavam a lhe tacar pedras e garrafas simplesmente por estar ali, enquanto pássaros e morcegos e libélulas voavam em direção contrária, escapando de serem alvos. Chegou a cair algumas vezes, por tempos tendo que se curar da dúvida e ódio que pairavam por ali. Parou novamente após ver um casebre em ruínas, no choro de um bebê. Não sabia o que houvera, mas parecia abandonado, numa cesta com apenas um cobertor. Pegou-o, achando um novo acompanhante.
Conheceu um novo lugar ao entardecer. O bebê estava de olhos abertos, curioso e olhando tudo a sua volta, especialmente para si. Contudo, o que chamava a atenção do aventureiro era o suspense amargo de felicidade que havia na nova cidade, muito mais moderna e avançada que a última, ao constatar pelo número de casas e automóveis que passavam ali e aqui, tendo que desviar rapidamente. Uma casa alta se imperava, ao ver que crianças e adultos lhe olhavam, deixou o pequenino no desconhecido, onde uma idosa que parecia saber de toda a situação o acolheu de braços abertos. Não pode deixar de notar numa criança sensível que derrubou uma lágrima, explicando que era possivelmente outro orfão que a guerra deixou.
Curioso, avançou seu caminho, vendo que mais um dia se concretizou. Voltara a algo similar a natureza, porém, muito vaga. Mas nada era perto do que iria acontecer a seguir.
O céu foi pintado de vermelho até o contorno do sol, tal qual o vermelho do sangue que manchava o chão, onde milhares de pessoinhas lutavam, matavam, assassinavam e atiravam, inclusive alguns mísseis foram lhe seguindo, sentindo a sinfonia da morte e tragédia. Algumas armas lhe atingiram, que milagrosamente não surtiu muito efeito.
Enquanto procurava refugiar-se, avistou um soldado ferido num canto de pedras. Estava abandonado para trás ou havia escolhido fugir do campo de batalha e abandonar tudo, inclusive seu orgulho? Não sabia, apenas murmurou algo familiar. Estendeu a mão, que o homem entusiasmado a pegou, sem parecer ter nenhuma desconfiança.
Deram muitas voltas a fim de voltar a aconchegante vila que parecia não estar afetada pela guerra, onde balões, bexigas e sorrisos podiam andar livremente por aí. Avistando a casa, viu a família inteira se reencontrar, sendo visto novamente pela antiga companheira. Perguntou-se se ele mesmo era um orfão de guerra, mas foi interrompido ao ver o homem murmurar algo sobre uma idosa que supostamente controlava tudo. Estava prestes a partir, quando a garotinha lhe deu uma maçã, demonstrando toda a gratidão que sentia.
Também era noite quando chegou a cidade moderna, indo diretamente a caminho de uma mansão, que ao passar pelo gramado, balas tentaram lhe perfurar, o que foi em vão, pois tinha sua destreza. Sem medo, jogou-se contra a janela, quebrando-a, ouvindo ameaças de uma dita cuja. Ignorou-a e segui em frente, vendo o olhar da mulher mudar para medo. Puxou-a e partiu em voo novamente, correndo em direção a volta onde a outra pudesse sentir o teor da angústia, do misto de sentimentos que despertava e o medo de morrer, fazendo-a espernear.
Após ter se dado satisfeito, pousou-se no chão, observando quais reações a pessoa a sua frente poderia ter, que de imediato estava falando com algo tecnológico do tamanho da palma de sua mão. Mas o pequeno apenas sentiu um medo apossar-se dele.
No dia seguinte, ao voltar para a cidade, viu tudo iluminado numa felicidade pálpavel.
Sem conseguir ignorar uma viela escura, ali adentrou, notando que ali residia um senhor imundo e tremendo.. Aproximou-se com ternura, apresentando lhe a maçã que trazia. O mesmo, após se dar conta do outro, retirou a arma de seu casaco, apontando com veemência para o menino, que assustado, balançava as mãos. O gatilho foi apertado e um coração parou de bater.
Era a miséria humana que matava anjos. A maçã não fora comida, o fruto do pecado, mas ele o guardava, sem saber do que segurava. Estava preso por um destino que seu maldito deus lhe dera, enquanto era venerado. Acolá, uma pequena pomba branca, o símbolo da paz, abaixou a cabeça em pesar, retirou uma pena reluzente de seu corpo, deixando-a do lado do falecido. Bateu as asas e se foi.
Talvez, outras companheiras pudessem fazer o mesmo e recomeçar.
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