Ciclo.
1 Ciclo. - Capítulo único
— Precisamos falar sobre isso — Ela disse observando ele tomar um gole de café enquanto o seu cappuccino esfriava.
— Eu não quero — Ele sequer levantou os olhos para responde-la.
O silêncio pairou sobre os dois, deixando ela desconfortável.
— Não podemos ficar prolongando isso — Ela tentou novamente, sendo outra vez ignorada — Vamos adiar até quando essa conversa?
Ela tentava se manter calma, mas estava visivelmente nervosa por estar sendo ignorada. Começou a olhar para os lados desesperadamente como se estivesse procurando ajuda ou algum caminho que ela poderia seguir caso sentisse vontade de sair correndo.
— Porque quer fazer isso? — Ele disse, fazendo ela voltar a sua atenção para ele de forma surpresa, já que aparentemente ele não queria conversar.
— Eu não quero — A voz dela saiu quase como um sussurro, como se ela estivesse com medo de admitir em voz alta que também não queria ter aquela conversa — Mas precisamos.
O silêncio angustiante voltou quando ele colocou a xícara de café vazia na mesa, fazendo ela tomar metade do cappuccino em um único gole. Já estava morno, não queimou a garganta, se ela demorasse mais para terminar a bebida, seu próximo gole seria totalmente frio.
— E porque precisamos? — Ele perguntou, olhando friamente para ela.
Ela pensou cuidadosamente em suas palavras antes de dize-las.
— Eu não me sinto mais feliz aqui, com você, e muito menos desse jeito que estamos — Ela fez uma pausa — Não é algo que eu queira fazer, mas eu preciso me libertar de você, e você sabe que também precisa se libertar de mim.
— Mas quando começamos, você parecia animada, queria que durasse para sempre — A lembrança dos primeiros dias fez o coração dela acelerar, ainda mais com ele se lembrando.
— Antes... eu era mais nova, mais ingênua, não sabia totalmente o que eu esperava, eu criei expectativas e me frustrei — A emoção começou a aparecer — Antes era tudo novidade, eu estava animada por ser um novo passo na minha vida, achei que finalmente tinha me encontrado, mas não foi assim, eu não me encontrei, eu me senti mais perdida, limitada, me senti sufocada.
— E isso tudo foi culpa minha? — Ele perguntou, encarando ela.
Ele se serviu de mais café enquanto ela observava pensativa.
— Não foi só culpa sua — Ela respondeu — Eu sei que também não atingi todas as suas expectativas, sei que frustrei muitas vezes e vou entender se você não me perdoar por isso, eu sei que você também era mais novo, diferente, e que juntos nós crescemos e mudamos.
— Você acha que crescemos tanto ao ponto de não cabermos mais um com o outro? — Ele levou a xícara de café a boca e assoprou a fumaça.
— Sim.
O silêncio voltou a mostrar a sua presença entre eles, fazendo ambos pensarem em suas próximas palavras.
— Onde eu errei com você? — A pergunta dele pegou ela de surpresa, e ela não respondeu de imediato.
— É difícil citar todos os momentos, eles não foram grandes, mas foram o suficiente para incomodar, e quando começaram a acumular, começaram a cansar também — Ela não conseguia olhar para ele — Houve momentos de desrespeito, de menosprezo, de falta de compreensão, houve momentos em que você literalmente me pediu para me rebaixar para caber onde você estava, e isso para mim é inaceitável.
— Mas você também fez isso comigo — Ele tentou se argumentar — Você mesma admitiu que errou comigo.
— Errei sim com você e eu não vou negar, mas eu nunca te pedi para se rebaixar para caber comigo, ao invés de tentar ampliar o que tínhamos para nós dois cabermos, você queria que eu fosse menos — Ela disse um tanto irritada.
— Eu tinha os meus motivos — Ele gritou.
— E eu tinha os meus — Ela gritou de volta — Eu queria que nós dois fossemos gigantes e que estivéssemos em um lugar onde nós dois poderíamos nos apoiar, mas você nunca me ouviu.
Ambos estavam com a respiração ofegante após os gritos.
— Eu entendo os seus motivos, mas você nunca se deu o trabalho de entender os meus, assim como ainda não está entendendo o motivo desta conversa — Ela disse mais calma — Isso não é só sobre mim, ou só sobre você, é sobre nós dois, juntos, e sobre a caminhada que nós tivemos, e sobre como agora devemos seguir em caminhos separados.
— Eu não quero ter que fazer isso.
— Eu também não, mas eu não quero mais ficar do lado de alguém que não me ouve, que não me respeita, que não está me permitindo crescer — Ela sentiu a garganta fechar e começou a segurar o choro.
Ele deu outro gole no café com o olhar baixo, e quando colocou a xícara novamente na mesa, começou a observar as pequenas bolhas de movendo como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Eu não queria ter essa conversa — Ele murmurou.
— Eu também não — Ele murmurou de volta.
Ela termina o cappuccino com outro gole. Já estava totalmente frio, quase gelado.
— Espero que entenda que não é totalmente pessoal, mas se não fecharmos esta porta, iremos ficar estagnados aqui para sempre, sendo infelizes, nos estressando, sendo a pedra no sapato do outro — Ela disse.
— Eu estou feliz onde eu estou — Ele disse.
— Mas eu não — Ela respondeu, olhando para ele e sentindo as lágrimas escorrerem — Não estou feliz aqui com você, e sei que você será mais feliz quando eu finalmente for embora.
— E se eu te pedir para ficar? — Ele perguntou.
— Eu vou dizer não.
— Não tenho direito a outra chance?
— Já teve a sua chance, e você fez as suas escolhas, assim como eu fiz as minhas — Ela olhou para a xícara de cappuccino vazia — Não há mais chances para nós, estava tudo acabado.
— Eu quero que você fique — Ele pediu.
— Mas eu estou indo embora.
Eles se encararam em silêncio, com a sensação que não havia ar suficiente para os dois.
— Fica — A voz dele quase não saiu.
— Não — A dela também.
Ela se levantou, ajeitou a cadeira e o olhou uma última vez. Ele apenas a observou, se virando na cadeira conforme ela passa para trás dele, fechando a porta quando finalmente passou por ela. Ele ficou ali, esperando ela mudar de ideia de voltar. Ela nunca olhou para trás.
Fale com o autor