Ciclo 1
1 Capítulo único
Notas iniciais
“Você também vê, certo?”
A garota ergueu a cabeça, alarmada, quando uma voz familiar surgiu de trás de si. Seu olhar bateu com o de uma figura esguia e pequena, cujo sorriso era quase oculto por madeixas.
Devagar, assentiu, dando espaço para a outra se acomodar ao seu lado. Chamaria-a de 茸.
茸 sentou-se, observando a imensidão alaranjada. Ondas suaves batiam contra as pernas longas de sua companheira, chamada Aya.
Aya encarava o sol amarelo-gema, ignorando o mar. 茸 deixou seu olhar descer para aquelas marcas, e então voltou a sorrir. “Você vê o fim do mundo, nee-chan?”
“Vejo.”, resposta monossilábica e amarga, correspondente a quem falava. Fumaça do cigarro de palha ascendeu aos céus. É claro que tinha visto, queria dizer, grosseira. Como não teria visto, se S também vira?
茸 adquiriu um olhar curioso. “E você não se importa com ele?”
“Não.”
Silêncio. Logo, 茸 se conformou com a resposta. Aya se recusava a olhá-la, mantendo as orbes frias fixas no horizonte.
“Você me odeia, Aya?”
“Deveria.”, suspirou. “Porque isso lhe importa agora?”
“Porque o fim do mundo está vindo.”, 茸 respondeu, profeticamente. “E se ele está vindo, eu quero poder entender tudo antes de partir.”
Aya passou um instante em silêncio, e então sorriu de desgosto.
“Ah, entendi. Você precisa da minha peça, certo?”
“Sim.”, admitiu 茸. “Você é a última. Falta apenas uma das suas peças para completar seu quebra-cabeça. O rosto...”
De imediato, Aya pôs-se em pé.
“Que pena.”, respondeu, mal disfarçando o azedume. “Eu não vou ser mais um de seus troféus, 茸.”
茸 perdeu a compostura, o sorriso galante e tranquilo falhando por instantes.
“Ora.”, um de seus olhos piscou involuntariamente. “Vai mesmo me fazer passar por outro ciclo?”
“Vou. E por outro, e outro, e outro, e então outro — e quando você pensar que pôs as mãos em mim, haverá infinitos ciclos pela frente.”, desceu a máscara sobre o rosto ferido. “Eu não vou libertá-la, 茸. Eu me recuso.”
Para sua surpresa, 茸 se levantou. Tinha a face tranquila e as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. “É o que veremos, minha cara.”
“É o que veremos.”, reafirmou, carrancuda, por baixo da dureza da máscara.
É o que veremos.
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