As idas ao médicos do St. Mugus eram recorrentes para Harry, o que fazia com que encontros aleatórios com Malfoy também o fossem.

O loiro não dissera nada sobre o buquê de flores, e por isso Harry chegou à conclusão de que ele não deveria saber das últimas ideias de sua mãe. Talvez fosse melhor assim, porque a cada vez que se encontravam no corredor, Malfoy franzia o cenho, torcia o nariz, desviava seu caminho; o total oposto do que sempre fizera. Parecia que aquele garotinho que queria a atenção de Harry não vivia mais lá. Restava apenas uma casca vazia de alguém que já fora alegre.

Harry se perguntava se o outro se ofenderia com aqueles pensamentos que insistiam em cruzar a mente do garoto que sobreviveu. Se importaria se soubesse que ele percebera que não era mais furacão, e sim uma leve brisa de verão? Se ofenderia se soubesse que ele percebera que não era mais tsunami, era só a onda que se pula no ano novo? Sequer pensaria duas vezes no assunto se Harry dissesse que se preocupava?

Oras, porque se preocupava ele não sabia. Harry Potter e Draco Malfoy não compartilhavam laço algum entre eles.

Seria isso verdade mesmo, depois de tudo que passaram? Não estavam do mesmo lado na guerra. Os dois faziam partes de retas concorrentes que estavam fadadas a se encontrarem em algum ponto.

Harry suspirou, tentando afastar aqueles pensamentos de sua cabeça, mas se via no sexto ano mais uma vez, uma obsessão surgindo em seu peito por alguém que não se importava com ele.

Seria mesmo obsessão?

Hogwarts estava sem um professor. Após todo o fiasco de todos os professores de Defesa Contra as Artes das Trevas, McGonagall pensara que talvez fosse melhor esperar um pouco antes de sair por aí contratando um qualquer. No meio tempo, os alunos do oitavo ano dariam aulas para aqueles de níveis inferiores.

― E é por isso que o chamei aqui hoje, Sr. Potter. Já que são duas casas distribuídas para cada aula, e os conhecimentos de nenhum aluno de oitavo ano se iguala aos de um adulto, eu pensei em escolher dois estudantes de cada casa para lecionar.

― E porque só eu fui convocado? ― Harry detestava aquilo. Desde que ele derrotara Voldemort, todos o viam como um adulto sábio e ponderado. Harry mal havia descoberto sua sexualidade, como poderia saber sobre qualquer outra coisa que não equivalesse ao seu próprio umbigo?

― Porque não tenho certeza se deveria deixar alguém da Sonserina lecionar essa aula. ― Ela foi direto ao ponto.

― Eu acho que ninguém melhor para ensinar sobre algo do que alguém que já viveu perto do mesmo. ― Harry deu de ombros. ― Estava pensando no Malfoy, não estava?

― É verdade que ele viveu com o Lorde das Trevas em pessoa. Isso é debilitante para qualquer um, tenho certeza. Você acha mesmo que ele está do nosso lado?

Harry não entendia porque havia virado porta-voz da bondade de Malfoy. Qual era a necessidade de sempre perguntá-lo a mesma coisa? Ele já havia testemunhado, deixado bem claro o que ele pensava sobre o loiro.

Ele não queria faltar com respeito com McGonagall, mas tudo que ele sentia vontade de fazer naquele momento era revirar os olhos e sair dali.

― Eu já dei meu depoimento, Sra. McGonagall. Eu já deixei bem claro o que eu acho dos Malfoy. Se é sua vontade colocá-lo como professor temporário de Defesa Contra as Artes das Trevas, então faça isso. Eu não tenho autoridade nenhuma para opinar sobre o coração de Malfoy.

Então, ele pediu licença e deixou a mulher em seu escritório, pensativa.

Os primeiranistas tinham caras de bebês.

Ele observava os alunos da Grifinória e Sonserina entrando na sala de aula, em grupos totalmente separados. Ao seu lado Malfoy estava calado, impávido, o total oposto de Harry, que estava nervoso como se fosse sua primeira lição de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Ele e Draco haviam arrumado a sala de tal forma que fosse possível todos se movimentarem livremente. Decidiram começar por uma coisa divertida. (Bem, pelo menos, Harry havia decidido. Draco simplesmente ficou calado, encarando-o enquanto dava sugestões para as paredes.)

Saindo de seu silêncio depois de quase cinco minutos, Malfoy disse: ― Vamos ensiná-los feitiços defensivos. Podemos fazer um pseudo-duelo e ensiná-los o único feitiço que você sabe.

Harry não havia achado graça na piada, mas concordou com a ideia dele; era uma ideia boa, afinal.

― Então. ― Ele disse, chamando a atenção dos primeiranistas, que viraram seus olhos assustadoramente atentos para Harry. ― Uh… Hoje, nós vamos aprender feitiços defensivos. ― Ele disse, baixo demais.

― O quê? ― Uma garota perguntou, no fundo da concentração de alunos. Harry respirou fundo.

― Feitiços defensivos. ― Disse Malfoy, em alto e bom tom. ― Eu e Potter iremos demonstrar alguns feitiços e vocês terão que recriá-los.

― Por que você está aqui? ― Um garoto da Grifinória perguntou, olhando torto para Draco, que não pareceu se importar. ― Por que um Comensal da Morte vai nos ensinar a lutar contra si próprio?

― Se eu fiz alguma coisa nessa vida foi para que ninguém nunca mais tivesse que lutar contra Comensais. ― Harry disse. ― Eu não morri e voltei para ouvir você falando mal de alguém que salvou a mim e a todos mais de uma vez.

Draco franziu o cenho, como se a fala de Harry houvesse o irritado. O moreno não entendia essas reações, que pareciam só existir quando ele tentava fazer algo de bom para o relacionamento dos dois.

As crianças calaram seus protestos depois da fala dele, porém, o que foi uma pequena vitória.

A aula correu sem maiores problemas. Harry, porém, conseguia sentir os olhos cinzentos de Malfoy cravando adagas em sua nuca toda vez que ele virava as costas para ele.

Ele ainda conseguia sentir esse olhar quando se deitara para dormir.