— Ah, o mundo é um lugar maravilhoso. — Disse Draco, aparecendo na sala de estar de sua casa. Estava com um ótimo humor. E tudo começara na enfermaria de Hogwarts.

Primeiramente, ele percebera que seus amigos — Pansy, Blaise e Goyle — estavam lá para ele, não importa o que acontecesse. Eles já haviam provado aquilo várias vezes, mas saber que eles estavam lá até para defendê-lo de Potter, o garoto de ouro… Era incrível. Saber que os seus amigos tinham a capacidade de entender que ele não queria, de maneira nenhuma, ficar sozinho com ele e impedir que isso acontecesse… Era muito bom. Pela primeira vez, ele sentira que não estava completamente sozinho no mundo.

Segundo, a conversa que ele tivera com Pansy naquele quarto, depois que Potter saíra.

— Não acha que Potter anda muito estranho? — Ela perguntara, sentando-se na cama, ao lado dele. — Ele me parece extremamente apegado a você, e olha que vocês dois mal conversam.

— Você acha mesmo? — Draco perguntou, pensando um pouco sobre o assunto.

Era verdade que Harry Potter estava insistentemente tentando se aproximar dele, desde… Desde o ínicio do ano, honestamente. Desde que ele jogara umas verdades na cara dele, desde que os dois se encontraram no corredor da sala do Dr. Lionhart. O loiro não entendia o porquê do súbito interesse do Eleito por ele. Claro, ele era uma pessoa simplesmente muito interessante, mas porque justo Harry Potter iria querer se aproximar?

Pansy tinha razão, era muito estranho.

— Será que ele… sei lá, tem uma quedinha por você? — Ela sugeriu, o que fez com que Draco gargalhasse. Então, ele percebeu que Pansy falava sério. — É sério, Draco. — Ela ainda disse.

— Honestamente, eu não acho que o Salvador do Mundo Bruxo tenha uma quedinha por mim, um ex-Comensal, Pansy. — Ele disse com um certo humor. — Mas vamos pôr sua teoria à prova…

E desde então ele tem tentado descobrir se Harry Potter realmente tinha uma quedinha por ele, e os resultados foram um tanto óbvios.

Ele estava estático. Não conseguia acreditar que o Santo Potter tinha um crush, e menos ainda que esse crush era Draco Lucius Malfoy.

Era extremamente divertido ver como o moreno ficava completamente vermelho quando Draco lançava-lhe sorrisos e piscadelas, quando o provocava. Não era muito diferente de quando Harry ficava vermelho de raiva; na verdade, ambas as situações traziam prazer para Draco, que adorava ter uma reação de Potter. Saber que ele tinha sentimentos pelo loiro era extremamente satisfatório, e agora trazia um novo passatempo para ele.

Draco deitava na cama de Pansy, discutindo com a garota o que ele deveria fazer em seguida, qual seria o melhor plano para aproveitar aquela situação a máximo. Foi então que eles ouviram, da casa ao lado, um grito bem familiar.

— EU NÃO GOSTO DE GAROTOS! — Era a voz de ninguém mais, ninguém menos que Harry Potter. — SAI! — Ele gritou alguns segundos depois.

Draco levantou-se, olhando pela janela. Pôde ver Harry se jogando em sua cama, sozinho no quarto.

— Parece que ele não está levando isso muito bem. — Disse Pansy.

— É… — Draco disse, pensativo. Será que deveria continuar com aquela história?

Ele honestamente imaginava como Harry deveria estar se sentindo. Passou pela mesma coisa. A primeira fase sempre é a negação. Se lembrava de como fora descobrir que estava apaixonado por um garoto quando era mais novo, lembrava-se de como sentira repulsa de si mesmo. Lembrava-se de como chorava escondido, pedindo para Merlin, para os céus, para o universo inteiro, que o fizesse voltar ao normal, que o fizesse ser normal.

Não era fácil passar por aquilo. Não era fácil lutar consigo mesmo, principalmente por causa de algo que você não conseguia mudar, apenas esconder, rezar para que fosse só uma fase, para que tudo passasse. Você espera e deseja que você esteja errado, que aquilo tudo seja só um mal-entendido.

Ele sentia a dor de Harry, porque aquela também já fora a sua dor. E aquilo era algo que ele não desejaria para ninguém, aquele ódio profundo de si mesmo, o nojo de si próprio. Não, aquilo certamente era algo que ninguém deveria experienciar na vida; nunca.

Talvez fosse melhor parar com aquela brincadeira. Ou será que isso faria bem para Potter? Talvez, percebendo que os seus sentimentos são reais e estão ali, talvez tudo fique mais fácil. Não, no que Draco estava pensando? Ele já havia passado por aquilo, sabia que nada ficava mais fácil. Não até você se aceitar. Não até você chegar à conclusão de que nada vai se resolver, e você só precisa desistir de resistir. Pelo menos fora isso que ele fizera. Desistiu de insistir naqueles sentimentos negativos e focou em outras coisas, como assassinar seu diretor ou sobreviver com o Lorde das Trevas em sua casa.

Ok, talvez Draco não fosse a melhor pessoa a ajudar Harry, já que ele nem mesmo havia sido capaz de aceitar aquela parte de si próprio. É, talvez os dois precisassem de um pouco de ajuda nesse quesito.

Suspirou, jogando-se na cama de Pansy novamente, a cabeça no colo dela. A garota começou a passar a mão em sua cabeça, seus dedos embrenhando-se em seus cabelos loiros.

Nem mesmo Pansy sabia. Ou pelo menos, Draco achava que ela não sabia. Ele não estava pronto para contar para ela, não estava pronto para contar para ninguém. Se a visão de todos os puro-sangue fossem como a visão de seus pais… então ele definitivamente não queria contar para Pansy, ou Blaise, ou Goyle.

— Draco, me diga que você não está se sentindo culpado. — Disse Pansy, o encarando.

— O que te faz pensar que estou?

— Essa sua cara de arrependimento e amargura.

— Eu sempre tenho cara de arrependimento e amargura. Faz parte do meu charme.

Pansy não disse nada para retrucar aquela resposta, apenas soltou um suspiro, e deixou Draco mergulhar-se em seus pensamentos novamente, pensando em um certo garoto de cabelos rebeldes e olhos verde-esmeralda.