Cicatrizes do Passado

6 Pequenos Gestos, Grandes Confianças


O sol da manhã entrava pela janela do quarto, iluminando o rosto ainda sonolento de Saya. Ela abriu os olhos devagar, sentindo o corpo mais leve e a febre finalmente a ceder. O quarto estava silencioso, mas um aroma subtil de café fresco chamou a sua atenção. Levantou-se lentamente, tentando perceber de onde vinha o cheiro.

Na cozinha, Riku movimentava-se com calma, preparando o pequeno-almoço para ambos. Torradas, fruta, café quente, tudo meticulosamente organizado numa pequena mesa à beira da janela. Saya ficou parada na porta, surpresa.

— O… o que estás a fazer? — perguntou, ainda desconfiada, com o tom sério misturado com uma ponta de hesitação.

Riku colocou cuidadosamente o pequeno-almoço na mesa, olhou para ela e respondeu com naturalidade: — Tu ontem desmaiaste no trabalho. Achei que seria melhor preparar algo antes de começarmos o dia.

Saya franziu ligeiramente o sobrolho, mas não conseguiu esconder a ponta de incredulidade.

— Porquê?

Ele olhou pelo ombro e com um leve sorriso. — Era o meu dever ajudar alguém naquela situação. Não havia mais ninguém para o fazer.

Ela ficou alguns segundos a processar aquilo. Não estava habituada a depender de ninguém, e muito menos a aceitar cuidados sem questionar. No entanto, por dentro, sentiu uma calma que não lembrava há muito tempo.

— Obrigado…— disse, com a voz baixa, sentando-se à mesa. Não havia gestos exagerados, apenas um reconhecimento silencioso.

Durante o pequeno-almoço, o silêncio reinava, mas não era desconfortável. Era uma pausa que permitia a Saya absorver o cuidado e a presença de Riku sem sentir que a sua frieza estava a ser comprometida. Ele, por sua vez, aproveitou o momento para observá-la discretamente, notando cada gesto, cada piscar de olhos, cada sinal de vulnerabilidade que ela tentava ocultar.

Quando ela terminou, tentou levantar-se para ir trabalhar, mas Riku, com um tom firme e sério, disse:

— Hoje ficas em casa a descansar.

Saya ergueu uma sobrancelha, tentando manter a neutralidade.

— Não posso. Há trabalho acumulado…

— E depois? — respondeu Riku, firme. — Qual é o problema? Isso pode esperar por amanhã, não? — Não havia espaço para discussão, e pela primeira vez em muito tempo, Saya cedeu, suspirando e aceitando a ordem.

Antes de sair, Riku entregou-lhe o seu número pessoal. — Se precisares de algo, liga ou envia mensagem. Estarei por perto.

Saya aceitou o papel sem palavras, mas o olhar atento dela encontrou o dele por um instante mais longo do que o habitual. Algo dentro dela hesitou, uma mistura de curiosidade e desconforto. Por fim, ela suspirou, processando silenciosamente tudo o que tinha acontecido. Sabia que não podia deixar que as emoções descontrolassem a paz que construíra ao longo dos anos, mas algo naquela manhã mudou subtilmente a sua perceção sobre Riku.

Durante o dia, enquanto descansava, pensou na sua rotina de trabalho, nos prazos apertados e na vida que controlava rigorosamente. Mas pela primeira vez, percebeu que havia espaço para alguém entrar discretamente no seu mundo sem romper a barreira que ela havia construído.

E enquanto observava a luz da tarde a atravessar a janela, o coração de Saya sentiu, pela primeira vez em muito tempo, que podia confiar, mesmo que apenas um pouco. A segurança e o cuidado de Riku não eram apenas gestos isolados, eram sinais de algo mais profundo, algo que ela ainda não queria nomear, mas que, silenciosamente, começava a tocar a sua alma.

Naquele dia, Saya aprendeu algo que não admitiria facilmente: deixar alguém aproximar-se não significava perder controle significava, apenas, permitir-se sentir segurança. E, de alguma forma, sentir-se segura ao lado de Riku era diferente de tudo o que tinha experimentado antes.