Cicatrizes do Passado

11 O Peso do Luto e a Presença que Cura


No dia seguinte Saya voltou ao trabalho. Precisava da rotina. Precisava da normalidade que os horários, as tarefas e os prazos lhe ofereciam. Era ali, no previsível, que conseguia manter o mundo em ordem. Vestiu-se como sempre, saiu de casa sem olhar demasiado para trás e entrou no edifício com a postura intacta.

Chamou Aiko pouco depois de chegar. Não quis prolongar a conversa nem dramatizar. Disse apenas o necessário.

— Preciso de falar contigo — disse, fechando a porta da pequena sala de reuniões. — É sobre o Aki.

Aiko sentou-se, tensa.

— Ele só quer uma coisa, de ti. — continuou Saya, directa. — E quando conseguir, vai-se embora, sem pensar muito. Não está interessado em ti como pessoa.

Aiko empalideceu ligeiramente.

— Hum… agora que falas nisso, ele ultimamente tem insistido para eu vá a casa dele… — confessou, num tom baixo.

Saya manteve a calma.

— As relações não se constroem sob pressão, mas a decisão é tua, eu achei que devias saber com quem estás a lidar.

Aiko respirou fundo. Havia medo, mas também alívio.

— Obrigada por me dizeres.

Aiko decidiu falar com Aki ainda nesse dia, uma vez que tinham combinado sair. Sobre a protecção do edifício da empresa, onde se sentia mais segura. Saya observou à distância. Não se aproximou, não interferiu. Conhecia bem aquele tipo de comportamento.

Como esperado, Aki perdeu rapidamente o controlo. A voz elevou-se, os gestos tornaram-se agressivos. A segurança foi chamada. Minutos depois, ele era escoltado para fora. Aiko estava abalada, mas aliviada.

— Fizeste bem — disse-lhe Saya, quando a encontrou mais tarde.

As semanas passaram. A Primavera avançava, mas Saya mal a notava. O hospital mantinha contacto regular. A saúde do pai deteriorava-se de forma lenta, mas constante. Cada chamada era um aviso. Cada silêncio prolongado, uma antecipação.

Até que, numa tarde, o telefone tocou, desta vez trazendo a notícia que Saya já esperava, mas que mesmo assim a atingiu com força: o seu pai tinha falecido. O mundo dela pareceu silenciar-se por alguns segundos, e depois a realidade bateu-lhe com toda a intensidade.

Saya desligou o telemóvel, sentindo o peito apertado, levantou-se e saiu do departamento sem dizer nada. Riku reparou de imediato. Pediu a alguém que assumisse a reunião que tinha marcada e seguiu-a.

Encontrou-a nas escadas de emergência. Saya estava sentada num degrau, o olhar perdido no vazio, como se o corpo estivesse ali mas a mente algures longe.

— Foi o hospital — disse ela, antes que ele perguntasse. — O meu pai… faleceu.

As palavras saíram planas, quase neutras. Tentou sorrir, como se fosse possível tornar aquilo aceitável.

— Pensamos sempre que estamos preparados… — murmurou. — Mas nunca estamos.

Os olhos começaram a encherem-se de lágrimas que ela tentou, em vão, conter. Um sentimento de vazio profundo tomou conta dela a familiaridade da perda e a impotência diante da vida. Respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, mas sabia que não conseguiria lidar com aquilo sozinha.

Riku aproximou-se.

— Está tudo bem — disse apenas.

Não tentou consolar com frases vazias. Não fez perguntas. Apenas abriu os braços. Ela virou-se para ele. O olhar não pedia explicações nem soluções pedia presença. Riku abraçou-a.

Riku, levou-a a casa, onde Saya agradeceu, após ela ter-se ido embora. Estendeu-se na cama onde a presença silenciosa de Riku nas escadas de energia ofereceu-lhe apoio imediato, uma âncora em meio ao turbilhão de emoções que a assolava.