Cicatrizes do Passado
13 Fantasmas do Passado
A manhã começou calma, com o sol a penetrar pelas janelas do apartamento de Saya. No entanto, ao abrir a porta de saída, algo no chão fez o coração dela disparar: um objecto familiar, um vestígio de um relacionamento que pensava ter enterrado há anos. Era Shin, ou melhor, o lembrete dele a ressuscitar memórias que ela jurara esquecer.
Saya pegou no objecto com mãos ligeiramente trémulas, o estômago apertado. Tentou reorganizar os pensamentos e manter a postura firme que sempre a caracterizava, mas a ansiedade corria-lhe pelas veias. Decidiu levar o objeto consigo para o trabalho, mantendo-se controlada, mas o olhar atento de Riku não passou despercebido. Ele reparou imediatamente na sua tensão, no ligeiro tremor nos ombros e na forma como segurava o objeto.
Mais tarde, quando tiveram uma abertura, Riku chamou-a discretamente para as escadas de emergência. Lá, longe de olhares indiscretos, ele perguntou
— Está tudo bem, Saya? Pareces preocupada.
Ela hesitou, surpresa com a preocupação genuína dele, mas decidiu confiar. Contou-lhe tudo sobre Shin, sobre o relacionamento tóxico que a marcou profundamente e que a levou a mudar-se para a cidade, longe da mãe e dele. Falou com dificuldade, as palavras saindo entrecortadas, enquanto Riku a envolvia num abraço protetor, firme mas gentil.
— Estou aqui. — disse ele, suavemente, deixando que ela se apoiasse sem medo. — Não vais enfrentar isto sozinha.
Essa simples frase trouxe-lhe uma sensação de segurança que ela não sentia há anos. Pela primeira vez, alguém que não era da família ou colega de trabalho oferecia apoio incondicional, sem julgar ou pressionar.
A tarde seguiu-se de forma aparentemente normal, mas a tensão permanecia no ar. Riku teve de se ausentar para uma reunião com um cliente que duraria até ao final da noite, deixando Saya sozinha. Ela tentou concentrar-se no trabalho, mas a sensação de ser observada não a abandonava.
Ao chegar a casa, ainda em alerta, olhou pelo ombro e não viu ninguém. Respirou fundo e abriu a porta. De repente, foi empurrada para dentro do apartamento.
Era Shin.
— Há quanto tempo, Saya…— murmurou ele, com um sorriso malicioso que fez o sangue dela gelar.
Ela tentou reagir, levantando-se rapidamente à procura de algum objecto para se defender, mas ele era forte e astuto. Agarrou-a e empurrou-a para o quarto, deixando-a sem capacidade de reação. Lá, pouco podia fazer além de esperar que ele terminasse, onde as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto.
Assim que Shin terminou, saiu do apartamento, o pânico tomou conta de Saya. Tremendo, sem conseguir organizar os pensamentos, ligou para Riku, em lágrimas, pedindo ajuda.
— Riku… — a voz falhou. — Vem… por favor…
Em poucos minutos, Riku chegou. A porta estava semiaberta, a sala desarrumada, sinais de violência visíveis.
— Saya? — chamou, já a correr.
Ele entrou rapidamente, avaliado o cenário e, ao ver Saya, sentiu um aperto no peito. O corpo dela apresentava nódoas negras, a roupa estava rasgada e o olhar transmitia dor e vulnerabilidade. A raiva subiu-lhe como um incêndio. O punho fechou-se com tanta força que sentiu a pele esticar. Quis destruir quem lhe fizera aquilo. Mas conteve-se.
— Estou aqui — disse, aproximando-se devagar, como se temesse assustá-la.
Saya tentou levantar-se, mas o corpo não respondeu. Sem hesitar, Riku pegou-a ao colo e levou-a para a casa de banho. Ali, com paciência e firmeza, ajudou-a a limpar-se. Vestiu-a num robe confortável, enquanto ela soluçava, a emoção acumulada a transbordar. Ele apenas a abraçou com firmeza, oferecendo segurança silenciosa.
Quando ela começou a acalmar-se, dirigiram-se à cozinha, onde Riku preparou algo leve.
— Vem comigo para a minha casa durante algum tempo. Vais ficar segura enquanto resolvo esta situação. — disse, com um tom firme, mas calmo.
Saya, exausta e ainda trémula, apenas agradeceu, reconhecendo, silenciosamente, a importância da presença dele. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que podia confiar plenamente em alguém, e que essa confiança não significava fraqueza.
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