Cicatrizes de Outra Vida.

2 Capítulo 2 - Turma de malucos.


Notas iniciais
Antes de tudo, gostaria de esclarecer para os que não conhecem a moeda japonesa Yen ou Ienes do qual me utilizarei no capítulo. Apesar do peso monetário ser baixo se comparado ao Real, tudo lá tem um valor absurdamente alto aos nossos olhos. Ex: O que seria três reais um cachorro quente por aqui, no Japão eles venderiam algo parecido por 140,00 yens. Caro? Que nada! Os valores são os mesmos, o que muda é somente a moeda. Espero que gostem do capítulo e lamento pelo enorme atraso XD

Lucy

O sol de Magnólia era, sem sombra de dúvida, tão quente quanto o de minha cidade anterior. Se mais tardar faltavam trinta minutos para as nove da manhã, e o calor escaldante já estava de torrar os neurônios em poucos segundos de exposição. Aquecimento global? Provavelmente. Me sentia derreter por dentro daquelas roupas, e a corrida contra o tempo não favorecia em nada. Para minha sorte, a localização da escola não beirava mais que três quarteirões de distância de casa, o que dava para percorrê-lo a pé — só que não em atraso. A ansiedade em chegar o tornava bem maior que o esperado.

Há poucos metros de distância ouvi o toque para inicio das aulas e praguejei pela milésima vez, aumentando a velocidade dos passos. Alcancei os portões automáticos a tempo de me imprensar entre a grade e o muro antes do seu fechamento completo.

Foi por pouco. Acrescentou minha mente junto a um suspiro de alívio. Curvada para recobrar o folego, encarei a rua deserta, cortada pelas barras de ferro.

Virei num ângulo de 180 graus para avistar a parte frontal da Academia assim como na foto postada no jornal ao lado do enunciado. O tamanho em seu comprimento era surpreendente, o que não foi considerado na imagem, e me fez pestanejar ao lembrar que não sabia a exata localização de minha sala de aula por faltar à apresentação da escola para os calouros no dia anterior. Não fosse pela Virgo me fazendo o grande favor de pegar as instruções básicas e a chaves do armário, nem esse mínimo eu teria.

Confirmei meu atraso no enorme relógio no topo central do prédio (se por assim chamar) e forcei-me mover as pernas gastas o restante do percurso para dentro, sequer encontrando uma alma viva pelos arredores para complemento do meu pesar. O mal de toda cidade do interior, que apesar da simplicidade, existe certo rigor nos costumes.

Senti a desconfortável sensação de pânico retornar, quando precisei revirar a bolsa a procura das chaves com a numeração e letra do armário, recordando quase que instantaneamente tê-las deixado em cima da cabeceira da cama. Bati vezes seguidas com a testa no metal gélido da lateral do objeto na tentativa de buscar uma solução para o problema, adicionando o “Lucy sua demente” ao final de cada batida. O dia não poderia ficar pior.

– Posso ajuda-la? – Perguntou uma voz rouca, masculina, atrás de mim.

– Esqueci minhas chaves. – Choraminguei apontando para o corredor, no momento, vazio, sem me importar de averiguar quem seria a pessoa.

– Ora, não se martirize por isso, sempre temos uma copia extra na direção.

Claro! Por que não pensei nisso? Uma luz brilhou no fim do túnel — e esperava sinceramente que não fosse um trem sentido contrário -. Voltei-me agradecida pela orientação, deixando a vista cair na figura minúscula de um velho sorridente. Hiiiii...!! O diretor! Reconheci com notável espanto. A diferença era que no catálogo estudantil não parecia tão pequeno quanto.

– Venha comigo. – Solicitou sem delongas, e obediente o segui em silêncio.

(...)

Conduzida pelo professor de história até a classe Ômega do segundo ano, me peguei estacionada na parte externa frente à porta, aguardando ser chamada. Uma situação bastante natural passada por novatos, que, admito, nunca ter experimentado, mas consideraria dispensável o nervosismo crescente dentro de mim ao ponto de revirar as entranhas. A inquietação por algo que estava dentro da sala fazia minhas mãos transpirarem de maneira absurda. Meu estomago comprimiu para o tamanho de uma laranja cravo e o coração só faltou explodir em milhões de pedacinhos quando fui mencionada pelo homem de cabelo castanho com barba por fazer.

– Essa é Lucy Heartfilia, espero que sejam amigos dela. – Disse assim que me coloquei ao seu lado.

Corri os olhos pelo ambiente fechado, procurando, desesperada, nos rostos estranhos alguém com quem pudesse me identificar e sobreviver aquele universo da rede pública. Porém, mas que um semblante familiar, o garoto que se levantou de súbito, me assustando a princípio, trouxe um sentimento nostálgico de convivência, íntimo, que não tinha explicação.

– Uma atitude muito nobre de sua parte, Natsu, se oferecer para apresentar a Academia. – Concluiu o professor, interrompendo meu devaneio.

Natsu?!

– O que? Eu! N-Não...

– Silêncio! – Pediu a balburdia de cochichos, ignorando o protesto solo do rosado. – Escolha um lugar para sentar, Lucy.

Um tanto quanto óbvio, me dirigi para o assento vazio na frente do Natsu, o observando com nítido interesse pegar a cadeira do chão e se lançar sobre ela resmungando palavras incoerentes.

– Oi! – Iniciei, me acomodando.

Demorados segundos se arrastaram, convertendo-se em minutos sem que uma resposta me fosse dada. Sua atenção não saiu das janelas e um constrangimento mudou a tonalidade de meu rosto. Fui desprezada! Tornei a posição correta, mirando o professor apoiado à beira da mesa envolto por alunos agitados, debatendo algo que estava fora do alcance de minha cabeça embaralhada.

Acabei imitando o dono dos incríveis olhos verdes, supondo que poderia ter coisas mais atraentes do lado de fora para se observar do que trocar palavras com uma novata enrolada. Infelizmente pela transparência fumê do vidro se dava para captar alguns itens próximos a nós, e por meio desse método não resisti espiona-lo. Prendi a respiração ao cruzar com o mesmo mar esverdeado de outrora fixados em mim através do reflexo da vidraça. Sustentei a vista para mostrar-lhe que havia sigo flagrado, entretanto, para minha surpresa ele pouco se importou com a afronta, pois continuou me encarando sem pudor nenhum.

(...)

O clima tenso se conservou a nossa volta todas as aulas durante a manhã inteira. Apenas quando o barulho do sinal anunciando o término das aulas do turno soou por todo o prédio e a sala começou a esvaziar, me assegurando de sua ausência, relaxei os músculos doloridos da posição paralisada, desconfortável, em que fiquei.

Acertei de primeira a cantina, mas não por conta própria, pedi informação para os três alunos que permaneceram na classe debatendo sobre o assunto de geografia, ultima matéria lecionada antes do intervalo, mas também tive o auxilio do olfato. O cheiro forte da comida percorria quilômetros. Chegando minha vez, saquei o cartão do estudante com mais de sete mil e quinhentos yens (equivalente a 1635,00 reais) em créditos não utilizados na antiga escola e solicitei a maquineta após fazer o meu pedido. A servente meneou a cabeça em desacordo com minha forma de pagamento. Descrente no que aquele rosto enrugado com a boca torta de impaciência queria dizer, tomei posse de todos os cartões da carteira formando um leque de opções a sua escolha e, somado a um olhar de suplica, implorei para que mudasse de opinião e liberasse a comida. No entanto, a mulher manteve-se impassível a situação.

– Ao menos diga onde tem um caixa eletrônico por aqui? – Cruzei os braços, me fazendo de surda às reclamações dos que aguardavam na fila.

– Traga dinheiro na próxima, menina. – Orientou seca, esticando o pescoço para ouvir o pedido de trás.

Meu queixo caiu, assim como os braços nos lados do corpo. Que diabos de fim de mundo foi esse no qual me meti que não usava sequer cartões de crédito ou débito automático? A questão veio acompanhada de um rouco faminto e protestante.

– Eu pago! – Sugeriu a pessoa da vez, tão de repente que mais pareceu uma voz fabricada pelo meu subconsciente fértil do que alguém as minhas costas. Tornei agradecida, dado de cara com olhos sorridentes do mais puro e brilhante azul e cabelos alvos como a neve. – Prazer, me chamo Lisanna. Sou do segundo Alfa. – Apresentou-se, avançando dois passos para ficar a minha direita e escolhendo sua refeição no gigante cardápio centrado na parede.

– P-Prazer, sou Lucy do segundo Ômega. – Havia uma singularidade nela que a destacava das demais alunas. – Muito obrigada! Prometo pagar o favor.

– Não se preocupe com isso, meu namorado que está pagando. – As ultimas palavras foram sussurradas como que revelando um segredo. – Venha comigo. Posso lhe apresentar alguns dos meus amigos.

Afirmei com um sorriso sincero. Estava feliz e entretida por encontrar, diante de tanta ocorrência ruim que se fez o dia, uma garota legal, disposta a me salvar do pavor da maioria dos seres humanos, a exclusão social, que desconsiderei a parte “deve conhecê-los de vista”. Contornamos as mesas do refeitório tumultuado em direção a uma que gesticulou está no canto esquerdo ao fundo, perto da janela lateral com a porta.

Nunca tive tamanha sensação de contrariedade no que havia suposto na parte salvamento como agora. E o pior, fui pega com a guarda baixa, brincando e me divertindo na conversa leviana, que a perplexidade ao cruzar de novo com o olhar meticuloso por baixo de mechas rosadas não passou despercebida pelos ali presentes.

– Vocês já se conheciam? – Perguntou Lisanna, alternando entre o garoto relaxado no comprido banco de madeira, apoiado com as costas na parede, e eu.

Natsu logo fugiu da inquisição ao virar o rosto, sobrando para mim explicar algo sem nexo nenhum.

– Seu namorado teve essa mesma reação mais cedo. – Relembrou o moreno de piercing e longos e revoltos cabelos negros. Namorado!! Como um soco no estômago o ar me faltou aos pulmões.

– Por que não cala a merda da boca, Gajeel?! – Socou a mesa, endireitando-se. Minha comida quase voando da bandeja com o susto do impacto junto à voz alterada. – Não nos conhecemos. Achei parecida com uma... prima distante.

– O Salamander está nervosinho hoje. – Ignorando o alerta, continuou provocando-o, incitando a participação do amigo sem camisa na fileira de sentados do banco onde estava.

– Falei para calar a boca seu cabeça de prego. – Levantou para ficar em cima do assento, colocando um pé na mesa e mostrando o punho cerrado no intuito de intimidar.

– Eu entendi, amor! – A albina circundou a mesa para acalmar o namorado. Ambos se encararam tempo razoável para que a chama nos verdes intimidadores apaziguasse. Um ato que me rebateu com a compressão dos lábios e aperto da bandeja. Eu não podia acreditar que estava com ciúmes!

– E você, pare de provoca-lo aqui. – Acotovelou uma baixinha azulada o denominado Gajeel.

– É comum a reação esquentada nesse idiota.

Sem pensar duas vezes, o rosado lançou seu molho de pimenta sobre o autor da gozação, o acertando no peito nu. – Esquentada é a mãe, cuequinha.

– Ora seu... – Apoderando-se da bebida exagerada nos cubos de gelo, revidou, não somente molhando o alvo como os demais próximos.

– Gray!! – Exclamaram em uníssono os atingidos.

Toda a atenção se reverte para um som ao fundo da barulheira que se constituiu a discussão em grupo, uma gargalhada de divertimento produzida por ninguém mais que o cabeludo de piercing. Ele se dobrava do tanto que ria, encostando a testa na madeira e esmurrando a mesma de leve.

Natsu semicerrou a vista numa expressão maquiavélica, enquanto sua mão sorrateira remexia os fios de macarrão do prato. Na ocasião propícia os arremessou no amigo, mas o pensamento alheio foi rápido o bastante para desviar do ataque com um simples inclinar do corpo, restando para sua acompanhante ao lado.

Presumindo eu que fosse se zangar, tomando as dores dela pela notória intimidade dos dois, me enganei, pois o tom da gargalhada só aumentou.

– Desculpe, Levy! – Lamentou o rosado com cara de nojo da atual aparência da baixinha.

Tirando, irritada, o bolo de massa do cabelo e batendo as vestes manchadas com molho de tomate, a pequena azulada ergueu-se do lugar onde estava pegando sua refeição, e quando cogitei que sairia da roda de alunos, a derramou toda na cabeça do moreno.

Recuei consideráveis passos pronta para fugir daquela turma de malucos, mas acabei esbarrando em alguém que retribuiu com um grosseiro empurrão. Avancei trôpega, tentando equilibrar a bandeja sem êxito, parando por fim com ela nas costas de uma ruiva.

– Opa! – Murmurei através do silêncio que pairou sobre o ambiente. As faces eram de puro terror e expectativa, e em cerca de segundos me veio à ideia para também aderir aquela feição.

– Quem ousou?

Hiiiiii... Ainda no chão, coloquei as mãos no topo da cabeça, apertando forte os olhos. Vou morrer!

Notas finais
Epílogo do capítulo. ... ... ... A sentença tardou, e ao abrir os olhos, temerosa, percebi que uma guerra de comida tinha dominado a cantina por inteira. O individuo que houvera me empurrado, no momento, estava a ver estrelas estirado, mórbido, no chão durante os voo de tudo o que estivesse ao alcance da galera. Juro que até vi um gato voando de uma extremidade a outra do salão. Permaneci estática com cara de paisagem em meio ao pandemônio que se instalou ao redor, e bem na mira dos variados tipos de molho, bebidas, carnes, massas... me sujando todo o fardamento acadêmico... "Sim, o dia podia ficar pior!" ... ... ... O que acharam? Comentem! Até o próximo capítulo o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.