UTI VIP — QUARTO 1501

Terça-feira, 14h30 — Quinto dia de observação

Katherine estava sentada na cama, folheando alguns relatórios médicos que Rafael havia trazido para mantê-la ocupada. Alessandro estava em sua cadeira habitual ao lado da cama, revisando emails no tablet. A rotina dos últimos cinco dias havia se estabelecido: ele não saía do lado dela, e ela aproveitava para se atualizar sobre o hospital sem forçar muito.

Luara estava organizando alguns medicamentos na mesa quando ouviram vozes no corredor. Duas figuras femininas se aproximaram da porta — uma mulher de aproximadamente 45 anos e uma jovem de 14 anos.

A mulher mais velha tinha cabelos castanhos com alguns fios grisalhos, vestia roupas simples mas limpas — uma blusa azul-clara e calça jeans desbotada. A menina ao seu lado era impressionantemente parecida com Katherine quando jovem: cabelos loiros longos, olhos verdes expressivos, mas com uma timidez que transparecia em sua postura.

— Com licença, a mulher disse hesitante na porta. Podemos ver Katherine Luna De Médici?

Alessandro se levantou instintivamente para averiguar quem eram as visitantes, mas Katherine segurou seu braço firmemente. Ela havia reconhecido a voz imediatamente.

— Luara, Katherine disse suavemente, deixe elas entrarem, por favor.

Alessandro olhou confuso para Katherine, que fez um gesto tranquilizador com os olhos.

As duas mulheres entraram no quarto, a mais velha visivelmente nervosa, a menina escondendo-se ligeiramente atrás dela.

— Tia Vanessa, Katherine disse, sua voz carregada de surpresa e emoção contida.

Alessandro ficou ainda mais confuso. Katherine nunca havia mencionado nenhuma família além do pai e da mãe.

Katherine pediu perdão a Alessandro com o olhar antes de se dirigir à visitante:

— Por que está aqui, tia Vanessa?

Vanessa se aproximou cautelosamente:

— Katherine, eu... fui chamada porque sou a parente mais próxima de Valéria. Precisam de alguém para assinar alguns documentos legais.

Katherine observou a menina ao lado de Vanessa:

— E ela? É sua filha?

Vanessa balançou a cabeça:

— Não, Katherine. Esta é Celine.

A revelação veio como um choque:

— Celine é filha de Valéria com Marcus Vieira, o homem rico com quem ela fugiu quando você tinha dez anos.

Katherine sentiu o mundo girar ligeiramente. Uma irmã. Ela tinha uma irmã.

— Quando Marcus faliu, Vanessa continuou, Valéria negligenciou Celine da mesma forma que fez com você. E quando Marcus morreu, eu peguei a guarda da menina. Valéria nem se importou.

Katherine olhou para Celine, vendo nela a mesma vulnerabilidade que ela própria havia sentido na infância:

— Fico feliz que ela tenha tido alguém que a amparasse.

Alessandro observava tudo em silêncio, processando as informações e admirando a compostura de Katherine.

— Mas por que veio me ver? Katherine questionou novamente.

Vanessa respirou fundo:

— Queria me desculpar pelas atitudes de Valéria. E por ter sido ausente na sua vida, mesmo sabendo que ela te negligenciava.

Katherine balançou a cabeça:

— Tia Vanessa, você não tem nada pelo que se desculpar. Você não fez nada de errado.

Ela olhou diretamente para Celine:

— Só peço que cuide bem dela. Não deixe Valéria destruir a vida desta menina como tentou destruir a minha.

Vanessa assentiu:

— Prometo, Katherine. Celine é minha prioridade agora.

O PRESENTE INESPERADO

14h45

Celine, que havia permanecido quieta durante toda a conversa, se aproximou timidamente da cama. De sua pequena bolsa, ela retirou uma pulseira de miçangas azul-celeste, feita à mão com cuidado evidente.

— Eu... eu fiz isso para você, Celine disse com voz suave. Assim que soube que tinha uma irmã.

Katherine recebeu a pulseira com lágrimas nos olhos:

— É linda, Celine. Obrigada.

Ela colocou a pulseira no pulso, admirando o trabalho delicado da menina.

— Azul-celeste é minha cor favorita, Katherine sorriu. Como você sabia?

Celine corou ligeiramente:

— Tia Vanessa disse que você trabalhava em um hospital e que os médicos usavam azul.

DESPEDIDA EMOCIONAL

15h00

Vanessa se aproximou da cama:

— Katherine, sei que não tenho o direito de pedir, mas... posso te abraçar?

Katherine estendeu os braços:

— Claro, tia Vanessa.

O abraço foi longo e carregado de anos de ausência e arrependimento.

— Cuide-se, Katherine. E se algum dia quiser conhecer melhor Celine...

— Gostaria muito, Katherine interrompeu. Quando eu estiver melhor, vocês podem nos visitar em casa.

Celine se aproximou hesitante:

— Posso... posso te abraçar também?

Katherine sorriu:

— Venha aqui, irmãzinha.

O abraço entre as duas irmãs foi tocante. Alessandro observava com emoção, vendo Katherine descobrir uma família que não sabia que existia.

Após as despedidas, Vanessa e Celine se retiraram, deixando Katherine visivelmente abalada.

LÁGRIMAS INEXPLICÁVEIS

15h15

Assim que ficaram sozinhos, Katherine começou a chorar. Não eram lágrimas de tristeza nem de alegria — eram lágrimas de confusão emocional.

Alessandro se aproximou, envolvendo-a em seus braços:

— Por que está chorando, amor?

— Eu não sei, Katherine soluçou. Não sei ao certo por que estou chorando.

Alessandro a segurou firmemente:

— É muita informação para processar. Descobrir que tem uma irmã, ver que Valéria repetiu os mesmos padrões...

Katherine se acalmou gradualmente nos braços dele:

— Alessandro, Valéria ainda está no hospital?

— Sim, mas escoltada pela polícia. Assim que receber alta médica, será presa.

Katherine apenas enxugou as lágrimas e ficou pensativa, processando tudo que havia acontecido.

ALTA MÉDICA

15h30

Rafael entrou no quarto carregando uma pasta:

— Katherine, tenho boas notícias. Seus exames estão perfeitos. Você recebeu alta.

Luara apareceu na porta acompanhada de Donatella, que carregava uma sacola elegante:

— Trouxe roupas para você se trocar, querida, Donatella sorriu. Escolhi com cuidado.

Katherine abriu a sacola e encontrou:

Uma calça jeans preta justaUm coturno de salto médioUma camisa social comprida de manga longa brancaUm corset preto para usar por cima da camisaE, para sua surpresa, um batom vermelho queimado

— Mamma, você lembrou do meu batom favorito, Katherine sorriu emocionada.

— Sei que você adora esse tom, Donatella piscou. Vai te fazer sentir mais você mesma.

TRANSFORMAÇÃO

16h00

Katherine se trocou no banheiro do quarto, e quando saiu, estava irreconhecível. A calça jeans realçava sua silhueta, o corset sobre a camisa criava um visual elegante mas despojado, e o coturno dava um toque de personalidade. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto despojado, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto. O batom vermelho queimado completava o visual.

Alessandro a observou admirado:

— Você está linda. Parece você mesma novamente.

Katherine sorriu, sentindo-se mais confiante:

— Obrigada. Estava precisando me sentir eu mesma.

ESCRITÓRIO DE KATHERINE — 15º ANDAR

16h30

Katherine saiu do quarto e foi diretamente para seu escritório. Havia algumas questões administrativas para revisar e assinar — era o máximo que Alessandro a deixaria trabalhar naquele dia, mas ela agradecia, pois queria se sentir útil.

O escritório estava exatamente como ela havia deixado. Sofia havia mantido tudo organizado, e havia uma pilha de documentos esperando sua assinatura.

— É bom estar de volta, Katherine murmurou, sentando-se em sua poltrona de couro.

Alessandro se acomodou na cadeira em frente à mesa:

— Agora me conte sobre sua tia Vanessa.

Katherine suspirou, organizando os pensamentos:

— Vanessa é irmã mais nova de Valéria. Cinco anos mais nova, se não me engano.

— Por que nunca mencionou ela?

— Porque tínhamos pouco contato. Depois que Valéria nos abandonou, eu queria distância de qualquer coisa relacionada a ela.

Katherine pegou uma caneta, mas não conseguiu se concentrar nos documentos:

— Vanessa tentou manter contato algumas vezes quando eu era adolescente, mas eu sempre recusei. Queria esquecer que aquela família existia.

— E sobre Celine? Não sabia da existência dela?

Katherine balançou a cabeça:

— Não fazia ideia. Valéria nunca mencionou ter tido outra filha.

Alessandro se inclinou para frente:

— Como se sente sabendo que tem uma irmã?

Katherine ficou em silêncio por um momento:

— Confusa. Feliz por ela ter tido Vanessa para cuidar dela. Triste por saber que Valéria repetiu os mesmos padrões de abandono.

— E agora?

Katherine olhou pela janela panorâmica:

— Agora quero conhecer melhor minha irmã. Quero que ela saiba que tem uma família que a ama.

Alessandro sorriu:

— Então vamos convidá-las para jantar na mansão quando você estiver completamente recuperada.

Katherine sorriu pela primeira vez desde a visita:

— Gostaria muito disso.

Ela olhou para a pulseira de miçangas azul-celeste em seu pulso:

— Sabe, Alessandro, talvez algo bom tenha saído de toda essa situação com Valéria.

— O que?

— Descobri que tenho uma irmã. E que ainda existe bondade na família Carson.

Alessandro se levantou e beijou sua testa:

— Você sempre encontra luz na escuridão, Kate. É uma das coisas que mais amo em você.

Katherine segurou sua mão:

— Agora vamos para casa. Quero abraçar nossa filha e contar para ela que tem uma tia nova.

E assim, Katherine Luna De Médici deixou o hospital não apenas fisicamente curada, mas com uma nova perspectiva sobre família, perdão e segundas chances. A pulseira azul-celeste em seu pulso era um lembrete de que, às vezes, os presentes mais preciosos vêm dos lugares mais inesperados.


Notas finais
Agora tudo muda para Kate em relação a irmã, ela tinha mais alguem para proteger....