Notas iniciais
Hey! Não, eu não abandonei a fic. xD O fim de ano foi bem conturbado e algumas coisas acabaram saindo um pouquinho do controle, sinto muito. Mas aqui estamos nós! A história agora salta para o Samuel de dezessete anos. ^^ Boa leitura :)

Samuel percebeu, com o canto do olho, o copo de café sendo pousado na banqueta ao seu lado. Deveria estar completamente centrado na música, mas não pôde deixar de acompanhar os passos do professor, que atravessava a sala para espiar a avenida pelas janelas.

— Pressione as cordas com mais força — Hélio ditou sem olhar em sua direção.

Esse havia sido o mantra da aula, uma vez que Samuel não conseguira corrigir o ponto. Porém, mesmo querendo, não havia muita coisa que pudesse fazer. Os dedos estavam fatigados e esfolados nas pontas, de modo que cada mudança de nota nas cordas de aço lhe provocava uma careta de dor.

— Segure o Lá. — Hélio apontou para cima com o indicador. — Com suavidade, Samuel.

A nota saiu oscilante e acabou na metade da semínima, o que acarretou um muxoxo de desaprovação do professor.

— Mas hoje está difícil, hein.

Quando a música acabou, Samuel suspirou com certo alívio e apoiou o violoncelo nas pernas para apanhar seu copo de café. O calor nos dedos quase entorpecidos foi reconfortante, assim como o doce amargurado da bebida em sua boca seca.

— Você está alongando e aquecendo os dedos direito antes de tocar? Parece que eles estão bem fracos. — Hélio abandonou as janelas para caminhar até ele, enquanto enrolava o cabelo comprido num coque. — Deixa eu ver.

Samuel flexionou os dedos, sentindo uma dor ardida nas articulações. A ponta dos dedos da mão esquerda tinha perdido a primeira camada de pele e estava avermelhada. Ele vinha praticando os exercícios de aquecimento – talvez com menos frequência –, mas aquele não era bem o problema.

— Acho que está tudo bem, não precisa.

Hélio queria uma explicação para seu desempenho razoável, entretanto, Samuel não podia largar a verdade em seu colo. Duvidava muito que o professor fosse apenas dar de ombros diante dela. Muito pelo contrário, se ele soubesse, tomaria providências e seus pais receberiam a notícia em primeira mão.

— Ok, mas eu vou dar uma olhada mesmo assim. — O professor tomou seu pulso em um toque frio e sedoso, que enviou arrepios por suas terminações nervosas. Ele alisou a ponta de seus dedos com delicadeza, concentrado em encontrar algum problema. — Você está descascando... Parece que anda treinando até demais.

Na outra mão de Samuel, o copo de café tremeu. Era difícil manter-se totalmente indiferente a Hélio àquela distância. Ele comprimiu os lábios e fitou o professor com cautela, estudando os traços delgados de seu rosto e os fios de cabelo negro que o emolduravam.

— Você nem imagina. — Samuel recolheu a mão quando seu olhar foi fisgado, e tentou disfarçar o embaraço voltando o rosto para o violoncelo entre suas pernas. — Acho que só não estou muito concentrado hoje.

Hélio o encarou com um ar divertido, afastando-se devagar. Samuel respirou fundo, aliviado e levemente constrangido. Nos últimos tempos, controlar seus hormônios nas aulas de música vinha se tornando uma tarefa difícil.

— Alguma coisa está te incomodando? — Hélio terminou seu café e sentou-se na cadeira oposta a ele, apanhando o próprio violoncelo no suporte para arranhar algumas notas.

Uma parte de Samuel queria contar – através dos anos, havia aprendido que podia contar quase qualquer coisa para o professor –, embora não soubesse por onde começar. No entanto, uma parte maior ainda sabia que isso significaria levar uma bronca, ser dedurado para os pais, ter seus planos arruinados e ficar de castigo até a faculdade.

Decerto, Hélio interpretaria aquilo como um impulso inconsequente e infantil. E Samuel havia gastado muito tempo tentando se provar como alguém maduro, na esperança de que isso suprisse a diferença de idade entre os dois. Não poderia estragar as coisas quando já havia se esforçado tanto.

— As provas da escola — mentiu. — Minhas notas em Biologia estão quase alcançando o núcleo da Terra de tão baixas. Sabe o que é ter notas baixas em Biologia quando seus pais são médicos?

Hélio ergueu as sobrancelhas em desconfiança, desviando os olhos do braço do celo por um segundo para avaliá-lo. Samuel temeu ser pego na mentira, porém, pôde relaxar no momento seguinte, quando o professor indicou que tinha engolido.

— Tudo é questão de prática. Na sua primeira aula, você mal sabia os nomes das cordas e agora, quatro anos depois, você já consegue ler partituras.

— Ahn... Acho que as Leis Mendelianas não são tão simples assim. — Samuel soltou um riso frouxo.

— E música clássica é simples? — O professor lhe sorriu sarcástico.

— Nem um pouco.

— Eu posso te ajudar com uma coisa ou outra se estiver tão ruim assim. — Hélio deu de ombros, deslizando os dedos pelas cordas do violoncelo sem pestanejar.

Samuel terminou seu café num gole e lançou um olhar rápido para o relógio acima da porta. A aula acabaria em menos de dois minutos.

— Pode ser, mas não hoje. — Ele passou seu violoncelo das pernas para o suporte e juntou as partituras. — Nosso tempo está acabando.

Podia sentir o olhar do professor acompanhando cada movimento seu. No entanto, se erguesse os olhos para encontrá-lo, não conseguiria manter uma expressão neutra. Hélio podia dizer quando ele estava aprontando algo quase com tanta precisão quanto sua mãe.

— Por que a pressa?

— Tenho umas coisas da escola para fazer. — Samuel jogou a mochila sobre o ombro e levantou-se ligeiro.— Te vejo no sábado, professor.

— Samuel... — Hélio o chamou em vão, parando o movimento do arco sobre as cordas do violoncelo. — Treine as escalas em casa!

Quando a porta encontrou os batentes, Samuel já tinha começado a descer a escada.

Checou os dedos da mão esquerda enquanto corria os degraus depressa. Precisava lembrar-se de utilizar as bandagens que surrupiara do armário de remédios antes do treino. Se não conseguisse manter pelo menos as mãos intactas, Hélio iria começar a reclamar sobre sua queda de desempenho.

Samuel não podia permitir que suas atividades ocultas interferissem em sua vida normal.

O soco veio rápido e de lugar nenhum. Samuel só o percebeu quando os nós dos dedos ralados de Matias encontraram a lateral de seu rosto.

O galpão inteiro girou num borrão violento de cores e luzes, terminando num baque doloroso no chão coberto de linóleo do tablado. Matias abaixou-se ao seu lado, com os pés descalços a centímetros de seu nariz, e encaixou a mão calejada em seu pescoço. No segundo seguinte, Samuel estava suspenso no ar, engasgando para conseguir tomar fôlego. O gosto de sangue invadiu sua boca quando os machucados na parte interna de sua bochecha se abriram. Eram uma cortesia do próprio Matias na última luta da terça-feira.

— Cara, você não vai durar um round da luta desse jeito.

Samuel tentou falar, porém, um grunhido estrangulado foi tudo o que conseguiu. Matias o soltou sem cerimônia, deixando que seu traseiro encontrasse o chão duro.

— Meu conselho é o seguinte: — O outro se agachou à sua frente, puxando as pernas do calção mais para cima. — Volta para casa, toma um banho, passa alguma coisa nesses machucados e esquece essa história de lutar no Buraco. Você pode ser negro, ter essa cara de encrenqueiro e tudo, mas é filhinho de papai. Gente como você chega aqui tentando bancar o sangue-bom e vai embora em estado crítico. Depois, não dura muito para ter tempo de se arrepender.

Fora do tablado, Tadeu, um dos coordenadores do Buraco, mandou os dois liberarem o lugar. Alguém precisava passar um pano ali antes das lutas da noite começarem.

Samuel cuspiu sangue e saliva no linóleo, e limpou a boca com o dorso da mão. Matias o ajudou a ficar de pé e gritou para que trouxessem gelo para sua bochecha.

— Não sou filhinho de papai.

— Sei. — Matias o obrigou a se sentar num banco velho do lado de fora dos sanitários. — A gente tem um pessoal que levanta a ficha de todo mundo que vem aqui no Buraco, Samuca. Sabemos nome, idade, o que faz da vida e tentamos descobrir porque estão aqui. Por isso cobramos dez mangos na entrada: sigilo e precaução.

Um garoto de uns treze anos apareceu com uma sacola com gelo picado. Era moreno, com o cabelo baixo e crespo, e uma porção de cicatrizes nos braços e no rosto. Samuel pensou que deveria se parecer com ele se não tivesse ido parar nos braços dos pais. A sensação de sorte que aqueceu seu coração só o fez se sentir ainda pior por estar no Buraco.

Matias lhe entregou a sacola de gelo e despachou o garoto.

— Ele também pode lutar? — Samuel colocou a sacola na bochecha machucada.

— Quem? O Matheus? — Matias coçou a cabeça careca e se recostou na parede descascada. — É complicado, Samuca. Pelas regras da gerência, ele não pode lutar, mas pode ser treinado. Meninos como ele nunca conheceram o pai e precisam de alguma coisa que os faça se sentir mais homens. A maioria sonha em encontrar o cara e pedir respostas, ou só dar um gostinho da dor que sentiram a vida toda.

Samuel observou o garoto cruzar o galpão até a mesa da gerência e receber um afago na cabeça de um dos coordenadores.

— Você não é como ele, Samuca — Matias fez questão de ressaltar, notando sua postura. — Pode ter nascido de uma favelada como ele, mas foi tratado a pão de ló. Tenho certeza de que você nunca passou fome, ou teve que parar de estudar para ajudar a mãe a vender fruta na feira. Além disso, você tem pais bacanas e bem de grana.

Por um momento, Samuel pensou em replicar e dizer que Matheus provavelmente nunca tinha apanhado por ser gay. No entanto, sua língua se enrolou no medo: talvez acabasse apanhando de novo e não poderia se defender mais uma vez.

— Você é um menino bom e legal. Só tem dezesseis anos nas costas, não estrague sua adolescência desse jeito.

— Você não sabe por que eu estou aqui — Samuel murmurou, tentando parecer tão durão quanto os garotos da sua idade pensavam ser.

As palavras de Matias doeram quase tanto quanto seu soco. Lígia e Raul eram pais maravilhosos, e com certeza não mereciam que o filho estivesse metido num lugar como aquele.

— Talvez não. — Matias deu de ombros, levantando-se. Quase não havia suado com o treino, enquanto Samuel tinha gotas grossas descendo pela têmpora. — Mas eu tenho um palpite: vingança. Já estou há tempo demais no Buraco para conseguir sair, e isso quer dizer que já vi de tudo um pouco.

Samuel sustentou seu olhar por alguns segundos, então uma pontada de dor desviou sua atenção.

— Eu peguei leve contigo, Samuca. — Matias torceu os lábios grossos, como se sentisse pena. — Os outros caras não têm essa sensibilidade quando sobem lá. — Ele apontou para o tablado, onde dois garotos esfregavam panos no linóleo. — Eles estão nas ruas, estão acostumados a espancar de verdade, a matar se a situação pedir.

— Eu preciso disso — Samuel resmungou teimoso.

— Quem avisa amigo é. — Matias deu meia volta em direção aos fundos do galpão. — Espero não ter que tirar seu corpo morto do tablado.

Samuel massageou o maxilar, encarando os pés descalços com um ar desolado. Os ombros relaxaram sob um suspiro exausto. Conforme a adrenalina diminuía em seu sangue, o corpo esfriava e os músculos começavam a denotar o esforço excessivo. Matias estava certo: ele não duraria um tempo numa luta de verdade.

Preguiçosa e cautelosamente, Samuel levantou-se para calçar os tênis ao lado do tablado. Lavou o rosto na pia suja dos sanitários e não se preocupou em enxugar a água ou o sangue. Teria hematomas novos em algumas horas e talvez uma infecção na parte interna da bochecha. Pelo menos as mãos estavam quase inteiras, graças às bandagens.

Ele pensou se Hélio e os pais notariam os machucados, se o repreenderiam. Com sorte, o tom de sua pele disfarçaria alguns dos roxos, todavia, eles ainda poderiam ser notados sob um olhar mais cuidadoso.

— Seu celular não parava de tocar, cara. — O garoto no balcão que funcionava como a recepção do Buraco lhe entregou a mochila. — É melhor desligar da próxima vez. Ninguém merece música clássica no toque do celular.

— Valeu. — Samuel ignorou o comentário sobre seu toque. Um allegro de Vivaldi era perfeitamente aceitável.

Apanhou a camiseta, o frasco de desodorante e o celular dentro da mochila. Enquanto se vestia para ir embora, checou as mensagens e as ligações perdidas. O pai queria saber onde ele estava, o grupo da sala discutia sobre as provas da próxima semana e Hélio havia lhe mandado uma série de exercícios para o fortalecimento dos dedos.

Ele sorriu de canto com discrição, enquanto jogava a mochila nas costas. Era óbvio que Hélio notaria seus novos machucados.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.