Cicatrização?

1 Capítulo Único



Kiku tinha lutado com tudo o que tinha, mesmo depois de seus companheiros terem se rendido ele não desistiu, foi até o fim. Agora, podia sentir a insuportável dor no lado direito do abdômen.


Foram Alfred quem fizera aquilo com ele. Lhe dera dois tiros, um do lado do outro; duas balas de canhão tão fortes que foram capazes de que tirar a pele e parte da carne, sendo possível ver uma parte das costelas. Demoraria a cicatrizar, e talvez a pele nunca mais crescesse adequadamente, sabia que aquela cicatriz profunda, apesar de relativamente pequena, ficaria para sempre em seu corpo.


O japonês sempre tentava fugir da lembrança, mas ela sempre lhe vinha, era um pesadelo insistente, uma lembrança dolorosa que não o deixava dormir.


Era de madrugada e Kiku dormia tranquilamente. Ainda estava havendo a guerra, e ele só conseguia a tranqüilidade plena ao se deitar em seu futon e se entregar ao sono profundo. Mas aquela noite fora diferente, e ficaria marcada eternamente em sua memória.

6 de agosto de 1945, Little Boy. Alfred invadira sua casa novamente para lhe atirar covardemente enquanto dormia ou estava distraído. Ele tinha marcas de tiros e bombas por todo o corpo, mas ainda assim não desistia de lutar. Mas nesse dia fora dor tão intensa e insuportável que ele realmente achou que nunca mais recuperaria aquele pedaço de carne que lhe fora incinerado. Apesar de relativamente pequeno o local atingido, lhe doía demasiadamente. Mal Kiku sabia que não teria tempo nem de começar pensar em uma cicatrização.

9 de agosto de 1945, Fat Man. Outra bomba, outra cicatriz. Essa, ainda maior, bem do lado da primeira. Alfred lhe sorria sádico, enquanto mais uma vez saía correndo de sua janela, como um menino que acabou de apertar a campainha de alguém desconhecido e depois saiu correndo. Kiku, por experiência com a situação, não pressionou a região desprovida de carne e pele, e corroído pela tristeza, caminhou lentamente até o espelho de seu quarto.

Ele tinha manchas por todo o corpo; hematomas, cortes, arranhões, marcas de tiros, bombas e canhões por todo lado. Muitas ainda escorriam sangue, deixando os esparadrapos improvisados vermelhos e encharcados. Além de sangue, lhe escorriam lágrimas grossas e pesadíssimas, lágrimas de angústia e desespero, lágrimas de tristeza e de arrependimento. Lágrimas, muitas lágrimas. Se pudesse, Kiku teria se ajoelhado na frente do espelho, curvado seu corpo e apoiado a face nas mãos, mas não poderia fazer tal proeza. Seus joelhos tinham ataduras encharcadas de sangue precisando ser estancadas; em um dos joelhos parte da carne aparecia. Com as duas crateras recém adquiridas no abdômen, não poderia se curvar. Sua face estava repleta de cortes de espada, marcas de panelas e arranhões vermelhos. E suas mãos enfaixadas ainda lhe doíam muito para agüentar as lágrimas salgadas lhe caindo. Japão estava acabado, não havia um lugar sequer que ele não estivesse machucado de algum modo.

Sua mente também estava machucada, talvez a mais grave ferida fosse lá. A sensação de impotência, de andar em círculos, de ter lutado tanto pra nada... Era horrível!! Kiku por vezes pensara que seria melhor morrer do que se render naquela guerra, e ainda cogitava aquela opção; continuar lutando, até o fim, literalmente.

Uma imagem lhe surgiu à mente, enquanto se mantinha de pé, ainda se observando no espelho. Se lembrou de Ludwig; ele tinha se rendido. Será que deveria fazer o mesmo?

Depois de muito tempo pensando, Kiku Honda, 2 de setembro daquele mesmo ano, se dirigiu ao guarda roupa e o abriu automaticamente. Com cuidado para não machucar as mãos, pegou um lençol branco, e lentamente o amarrou em um cabo de vassoura. Uma lágrima lhe escorreu solitária pela face enquanto caminhava até a porta de madeira de bambu, a arrastava e tentando não refletir sobre o que estava fazendo, a cravou na grama do quintal, pondo fim à guerra, se rendendo. Ficou a observar a bandeira branca improvisada frutuando com o vento em frente à sua majestosa casa, que agora se encontrava parcialmente destruída.


Agora anos tinham se passado desde o acontecimento. Seus joelhos já estavam flexionáveis novamente. Suas mãos não tinham mais ataduras e seu corpo voltara ao que era antes. A expressão desolada lhe abandonara a face (apesar de vez ou outra, retornar) dando lugar à sua expressão (ou a falta dela) séria e pensativa como sempre, mas agora, com um ar mais... experiente? Nem o próprio Kiku conseguia se interpretar com clareza agora. Numa cadeira de balanço velha, na varanda de sua casa agora quase reconstruída, ele assistia o Sol dando os ares de sua graça, e a Lua se despedindo com suavidade e a calmaria rotineira.


Lentamente ele levou a palma da mão ao abdômen; ele ainda sentia uma leve dor. A carne demorava a crescer, mas ao menos o sangue parara de jorrar a alguns anos. Ele não tinha certeza se um dia voltaria a ter pele ali, mas ele não mais se importava com aquilo. Perdoara Alfred e os outros Aliados, e vivia em harmonia entre os países do G8. Lembrava com pesar daquela época dolorosa para tantos. Mas estava tudo “bem”, o tempo estava fazendo o seu trabalho e apaziguando os antigos sentimentos do país-arquipélago.


Notas finais
Bom e aí, o que acharam? Mereço reviews estreladinhos? *--*
Bom, ficou meio dark, mas esse era o intuito mesmo, então... é isso. Ah, e os fatos em maioria são baseados nos reais, mas eu não segui tudo à risca não, se não, ñ teria esse drama todo. Mas na história real, dos livros e etc o Japão continuou lutando mais um pouquinho mesmo com as bombas. E o país já estava sendo bombardeado em muitos outros lugares, mas de bombas atômicas foram só essas duas.
Bom é isso, Bjokas, obrigado por ler e ñ esqueçam os reviews ein? ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!