Cicatriz
1 Cicatriz
Aurus segurava uma caixa ornada em suas mãos. Dentro dela tirou uma tiara de prata com uma ametista. A jóia que no passado o encantou, que havia dado nome a sua filha. A jóia que o lembrava do passado.
Desde sempre ele sabia que humanos e demônios não poderiam viver juntos, por mais que ambas as partes quisessem. Era algo fora dos padrões normais. Mesmo assim, ele ainda não entendia o motivo, o único motivo, que o fazia querer ficar ao lado da humana.
A ordem foi dada, e ele não tinha pra onde fugir. Sentiu-se encurralado enquanto voltava para sua casa. O que mais odiava era seguir ordens, mas dessa ele sabia que não teria como escapar. Ou ele matava ou seria morto. Uma ordem simples no ponto de vista de um demônio, mas não pra ele. Aurus não sabia o motivo, mas demorou mais do que o normal para voltar.
Entrou na casa segurando sua espada, e o que ele não queria que acontecesse estava acontecendo. A humana, Elysia, estava a sua frente o esperando com um sorriso.
-Por onde andou? –Ela perguntou sem perceber o perigo, ainda sorrindo – Foi difícil fazer a Ametista dormir. Ela gosta quando você a coloca na cama, demorou anos pra dormir. Ficou me perguntando onde o papai dela estava. Eu nem sabia mais o que responder.
-É melhor que ela esteja dormindo – Aurus simplesmente respondeu – Assim ela não verá o que vai acontecer.
Aurus não deu a chance para a humana. Sem tempo para reagir, seu pescoço foi atingido pelo fio afiado da espada. Enquanto Elysia tentava se agarrar em alguma coisa, Aurus também sentiu como se fosse atingido e ignorando o sofrimento da humana em se manter viva, partiu para o quarto da criança.
Ametista dormia agarrada a um ursinho de pelúcia e não notou a presença do pai em seu quarto. Aurus sentou-se na beirada da cama da criança e a olhou por um longo tempo antes de colocar suas mãos em volta do frágil pescoço. Sem coragem de fazer o que tinha em mente, levantou-se e olhou pra menina, que ainda dormia tranquilamente. Ele inventaria uma desculpa na hora para, pelo menos, deixar ela viva por mais tempo.
Voltou para sala encontrando Elysia caída no chão, morta. Agachou e tirou os cabelos da mulher, misturado com o sangue, de sua face tomada pelo desespero.
-Elysia – Tocou o rosto da mulher — Agora você entende porque demônios e humanos não devem ficar juntos. -Disse retirando a tiara da humana – Mas não se preocupe, Ametista ainda está bem.
Sem mais nada a fazer dentro da casa Aurus saiu, tendo a certeza que nunca mais voltaria. Havia agora uma última coisa se fazer
“Sparda”
-Mestre Aurus – Um demônio o chamou, trazendo de volta pra realidade.
-O que quer, demônio? – Guardou de volta a tiara na caixa, antes que o demônio pudesse ver a jóia.
-Hati está esperando pelo senhor.
O demônio o guiou pelos corredores do local que passavam uma sensação desconfortante até um tipo de arena, onde outro demônio com aparência angelical esperava impaciente.
Aurus odiava ter que pedir algo a algum demônio, ainda mais ele sendo da elite e sendo como Hati. Mas ele sabia que a chave do calabouço onde Ametista estava não podia ficar em suas mãos. Sem contar que os outros demônios poderiam acusá-lo de estar protegendo a mestiça.
-Espero que tenha um bom motivo pra me chamar, Aurus. – O demônio de forma angelical disse sem conter seu ódio.
-Preciso que fique com a chave.
-Ora, ora. Aurus está com medo da sua filha mestiça. Ou está com medo de fazê-la sofrer?
-Se não quiser eu procuro outro demônio, Hati. – O cortou – Isso é o que não vai faltar, tenho certeza.
-Você não tem nem coragem para isso Aurus. – Suspirou agitando suas asas — Irei cuidar dela pra você, mas deixo bem claro que não é por você que faço isso. Você deve saber que apesar de ter cumprido sua promessa a Mundus ele ainda não confia plenamente em você. Então não se ache só porque conseguiu me fazer cuidar da mestiça. Você não tem esse tipo de poder ainda. Somente Lívia pode fazer tal coisa fora eu.
Aurus sabia que não era certo. Ele tinha consciência que Hati era violento, talvez não tanto quanto Lívia, mas mesmo assim podia ser comparado a ela na crueldade.
-Espero que não se arrependa – Hati voltou a falar -Você me deu a chave e só terá de volta quando ela desistir, assim como filho de Sparda.
-Não irei me arrepender – Respondeu vendo o demônio ir embora.
Voltou sua atenção ao demônio que o havia guiado e agora ria baixinho, mostrando como havia gostado do dialogo. Aurus entendeu a risada. Como resposta liberou seu poder demoníaco fazendo o ar ficar mais denso e o demônio se assustar.
-Ainda me acha fraco, demônio? – Disse se aproximando, mas não deu chance de resposta. Com um golpe de sua espada cortou o demônio ao meio, e voltou pelo mesmo caminho que havia utilizado.
FIM
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