Notas iniciais
Fiquei muito feliz em desenvolver essa ideia com Paty enquanto na loucura de novembro, decidiamos o que fazer com as inúmeras ideias de fanfic que surgiam na nossa mente. Essa fanfic completa a próxima de amanhã e vice-versa, mas a leitura desta não interfere na outra são independentes. Espero que gostem, foi uma das minhas ones escritas favoritas desses dois. ❤️

Hermione estava preocupada. Eu via em seu rosto a cada vez que recebíamos mais um resultado negativo. Ela dava um sorriso nervoso, meio de lado, tentando esconder a aflição, mas eu a conhecia bem demais. Ela não podia me enganar. E a cada vez que algum dos meus irmãos anunciava que a família iria aumentar, eu sentia a pressão aumentar. Era inevitável e até irônico considerando o número de irmãos que eu tinha. Com o nascimento de James agora eu era o único da família que ainda não tinha dado um neto para meus pais — quer dizer, Charlie também não, mas Charlie é Charlie.

Em certo ponto chegamos a procurar ajuda médica, talvez houvesse alguma coisa de errada conosco, certo? Errado! Tudo absolutamente normal! “Acho que vocês estão estressados demais. Talvez vocês devessem procurar algum hobby ou atividade para relaxar.” Foi o que a médica trouxa disse. Relaxar! Ora, muito fácil para ela falar! Mas, tudo bem. Resolvi fazer o que ela disse não por mim, mas por Hermione — apesar de também estar me sentindo prestes a explodir.

O trabalho no Ministério me consumia demais, me cansava demais. Era obrigado a viver em alerta todos os dias. Tínhamos vencido a Guerra para viver em paz, certo? Mas a cada dia eu me sentia mais distante dessa tão sonhada paz. Harry parecia bem, como se tivesse nascido para aquela adrenalina constante; eu dava graças aos céus quando voltava para casa. Só que agora todos os dias encontrava minha esposa triste. Era um pesadelo. Então se o que a tal médica disse tinha chances de funcionar, eu precisava tentar. Foi com isso em mente que encostei numa floricultura na volta para casa e comprei algumas mudas de planta.

Escolhi flores. Pareciam mais fáceis de cuidar. Alguns bulbos de tulipas, outros de margaridas e, por fim, rosas. No começo ela torceu o nariz e foi contra:

— Oras, Ronald, se for para ter um hobby que seja um que tenha a ver com meus livros…

Mas mesmo sendo contra no começo, logo estava criando um jardim. Descobriu através da internet que as tulipas no plantio deviam ser distribuídas em buracos e deixar os lados pontudos para cima. Observei Hermione colocar a terra nos buracos juntando com as mãos. Por fim, depois de fazer tudo com a maior atenção e cuidado, ela pegou um regador e começou a regar água suavemente em cada flor.

— Regá-las suavemente após o plantio é o ponto-chave para que ela comece logo a crescer.

O “ponto-chave”. Agora minha esposa sabia os pontos-chaves de cultivo de plantas! E ela era tão delicada no regar, fazia com tanto cuidado e carinho… Sim, carinho! Coisa que eu não recebia dela há tempos. Eu olhava carrancudo para o canteiro como se ele fosse uma pessoa roubando todo o carinho de Hermione para si.

Já a margarida ela descobriu um lugar em seu canteiro que pegava boa parte do sol, já que a planta gosta de calor. Distribuiu cada muda no buraco e logo as regou, mas disse avisando:

— Margaridas precisam de água todos os dias, mas atenção se for algum dia regar meu canteiro não encharque o chão, pois muita água faz ser propício para o surgimento de fungos que matam a flor.

Agora eu não podia mais simplesmente ligar a torneira para regar uma singela margarida, senão segundo ela eu as afogaria. Logo me senti um inútil que não sabia nem observar o tanto certo de água para se colocar.

As margaridas eram outras que viviam precisando de atenção. Não bastava apenas plantar — tinha que ter o lugar certo, a quantidade de água certa. Detalhes demais! Foi assim que acordei com os berros da minha adorada esposa numa manhã de domingo.

— RONALD! Eu não acredito que você fez isso!

— Fez o quê? — Juro que não pensei em verbalizar essas três inocentes palavrinhas, mas foi tarde demais.

— Você matou! Você matou! — agora ela estava louca, eu tinha certeza.

— Matei? Mas, o que…? Quem? Do que você está falando, Hermione?

— Olhe só para elas, Ronald! — Ela esbravejou apontando para as que em vida um dia se chamaram margaridas. — Elas estão afogadas! Você matou minhas margaridas afogadas.

— Mas, Hermione, eu só fiz o que você disse: coloquei água…

— Eu disse especificamente para não encharcar o chão! Eu sabia que isso ia acontecer, eu sabia! — e continuou brigando comigo. Como se eu tivesse culpa das margaridas serem tão sensíveis assim! Estava pensando seriamente em colocá-las como número um na lista de indesejáveis. Mas na certa eu seria o segundo da lista, pois, Hermione certamente me colocaria em seguida. De qualquer forma, tentei não me abater já que a cada vez que eu fazia uma mísera reclamação sobre as flores, minha irritante sabe-tudo fazia questão de me lembrar que aquilo tudo havia sido ideia minha. E o pior de tudo: ela estava certa, mas, céus! Como elas eram irritantes! Tulipas, margaridas, todas elas. Mas principalmente as margaridas.

Na verdade, as margaridas tiravam todo o tempo que Hermione tinha comigo, assistíamos filmes quando chegávamos do trabalho e ela agora dedicava pelo menos vinte minutos com as mudas recém-plantadas-quase-afogadas. Um tempo que era meu em primeiro lugar! Margaridas roubavam o tempo de Hermione comigo.

— Está bicudo por quê? Eu disse especificamente para não afogá-las…

Não aguentava mais aquela conversa de afogadas e água adequada e hunf! Prometi que não ia mais brigar com ela pelo episódio das margaridas. Até que veio o das rosas.

O canteiro de rosas era mil e uma recomendações só para o plantio.

— O solo deve ser preparado antes. Deve ter bastante húmus e ser argiloso.

As margaridas e as tulipas já estavam plantadas há uma semana quando ela conseguiu preparar o terreno para receber as mudas de rosa. O solo tinha bastante esterco de gado e farinha de ossos — até hoje não faço ideia onde ela encontrou isso na Londres Trouxa. Escolheu o lugar que batia mais sol no jardim, pegou uma pá e uma fita métrica, e começou a cavar os buracos. Hermione media — isso mesmo, media! — os buracos que fazia! Precisavam ter de 30 a 40 centímetros. Hermione era muito precisa.

— ... É importante regar as rosas perto do meio-dia, quando o sol está mais forte e a água não pode estar fria.

Pronto! Além de vinte minutos da tarde agora meu almoço havia sido preenchido com regar rosas! “Seguir o horário é fundamental, Ronald.”, ela dizia. Hermione não se alimentava direito só para ficar mais tempo no canteiro.

Ela cuidou de seus canteiros com tanto amor e afinco. Com tanto amor, mas tanto amor que todos os dias observava ela conversar com as mudas pedindo para florescerem bem, suas unhas eram cheias de terra e nem um pouco cuidadas; ela ficou absorta naquele novo hobby. Tão absorta que nem notou o dia que torci o tornozelo no trabalho e nem da vez que fiquei fazendo um jantar por horas a fio em comemoração a três anos de casamento.

— Quem te viu, quem te vê, dona Hermione? No começo até me criticou e achou um absurdo eu trazer bulbos de flores.

Eu amava quando ela revirava os olhos e tentava não admitir que minha ideia tinha sido ótima.

— ...Só estou criando um novo hábito, precisava de um hobby, não precisava?

— Sim, mas não sabia que era capaz de cantar enquanto regava.

— Está com ciúmes porque nunca cantei para você? — ela perguntou rindo e então comecei a pensar.

Será que eu estava com ciúmes das flores? Não, não estava com ciúmes das flores. Como poderia ter ciúmes de flores?

Minha constatação é que Hermione Granger-Weasley era bastante passional em relação a flores e pouco passional em relação a mim.

E isso não é ciúmes! É fato comprovado.

Passaram-se dias, passaram-se semanas e os primeiros botões apareceram, logo as tulipas cresciam lindas e compridas em cores diversas e as margaridas se esparramavam em cada parte do jardim. Menos as rosas, essas não floresciam.

Elas me intrigavam. As rosas, quero dizer. Após o fatídico incidente das margaridas afogadas eu decidi que iria me envolver o menos possível o que quer que tivesse a ver com aquele jardim. Eu só não contava me encantar com as rosas. Me pegava conversando com elas todos os dias — mas, sempre me certificava que Hermione não soubesse, é claro. Imagina o que ela diria se me visse agora conversando com as rosas. Não, eu não queria dar esse gostinho a ela. Era o nosso segredinho: meu e das rosas. Parecia terapêutico para mim e para elas. Quer dizer, se Hermione não andava me dando a devida atenção eu também tinha que recorrer a alguma coisa, certo?

Talvez você esteja se perguntando se a essa altura já havia algum sinal de um bebê. Sinto dizer, caro leitor, que não, não havia nenhum bebê. Meses já haviam se passado. James Sirius, meu afilhado, ainda nem completara um ano de idade e minha irmã já anunciava a segunda gravidez assim como Bill e Fleur. Eu estava feliz por meus irmãos e pelos novos sobrinhos (ou seriam sobrinhas dessa vez?) que viriam, mas ainda assim uma sensação de vazio ainda me acompanhava. Estava reflexivo naquela manhã conflituado por estar feliz e triste ao mesmo tempo, e nem percebi que meus pés me levaram automaticamente para o jardim. Dei bom dia às tulipas e acenei brevemente para as margaridas — sim, eu ainda as evitava após o incidente da água — enquanto passava por elas e por todas as outras aquisições que Hermione adicionara ao nosso canteiro, até chegar a minha sessão favorita do jardim.

Já havíamos passado do começo da primavera, e enquanto as outras flores do jardim de Hermione floriam pomposas, a roseira continuava tímida e sem flores. Acho que por estar distraído naquela manhã, não reparei até estar bem próximo a ela. Lá estava! Um botão de rosa! Eu mal podia acreditar. Esfreguei meus olhos e me aproximei com cautela para garantir de que não era minha imaginação. Por alguma espécie de milagre, Hermione ainda não havia acordado naquela manhã. Na verdade, já haviam algumas semanas que o sono da minha esposa parecia completamente desregulado: ela, sempre tão ativa, agora só dormia. Estava passando até menos tempo no jardim. Borrifei um pouco de água e me peguei sorrindo e cantando feito um bobo, completamente encantando por aquele botãozinho de rosa tão delicado e indefeso.

— Ora, ora. Quem te viu, quem te vê, hein, Ronald? Quer dizer que agora você também canta enquanto rega! — a voz de Hermione soou atrás de mim. De onde ela havia surgido?

— Hermione! Quer me matar de susto? Eu poderia ter estragado tudo! — ela me olhou confusa. Praticamente li seus pensamentos e antes que ela formulasse um “O quê?”, eu prossegui. — Um botão de rosa, Mione! Veja! Ela finalmente está florindo!

Vi seu rosto se iluminar a medida que ela constatava o que eu acabei de dizer.

— Oh! Tão pequeno… — ela comentou com os lábios apertados em preocupação.

— Acabou de nascer, será que devemos protegê-lo? — perguntei realmente preocupado.

— Proteger um botão de rosa? Dê que exatamente? — me encarou intrigada.

— Dos raios de sol que podem o queimar, do vento forte que pode o sufocar, da água abundante da chuva que pode o afogar. — eram tantos problemas que passavam por minha cabeça.

— Mas ele lutou tanto para chegar até aqui… — Hermione ponderou passando os dedos delicadamente no caule. — Conseguiu se alimentar sozinho, abriu caminho em meio a um território novo, ele precisa florir sozinho.

— E se ele não conseguir?

— Nós estaremos aqui para lhe socorrer.

Era como ter um filho e ter medo dele sair de casa, medo do que o mundo poderia fazer com ele. Ao mesmo tempo querendo que ele cresça, floresça e que mostre toda sua magnitude. Eram tantos questionamentos que se passavam pela minha cabeça. Pesquisava diversas maneiras e o que fazer para poder ajudar aquele pequeno botão recém-nascido.

Eu não queria e não podia deixar que ele se machucasse, desta forma acordava mais cedo, ficava em volta do botão toda manhã espantando possíveis pássaros que pousavam na roseira em busca de insetos, pensei se não colocava uma rede em volta do botão para protegê-lo, mas não queria o ferir ou inibir seu crescimento, por fim, virei um eterno vigilante de botão de rosa.

Hermione continuava a cuidar das tulipas, regava as margaridas e deixava que eu cuidasse do nosso único botão de rosa vermelho. Eu havia pesquisado em um livro de botânica (o que rendeu uma gostosa gargalhada da Hermione e uma constatação que eu estava mais zeloso que ela com as flores ao ponto de ler um livro), que os botões de rosa se abriam em mais ou menos duas semanas. Era como assistir à metamorfose da borboleta, eu precisava ver aquele botão abrir suas pétalas, uma a uma.

Parecia que ele ia começar a abrir, suas pétalas vermelhas estavam levemente levantadas, não mais que algumas horas elas se mostrariam ao mundo e eu ficaria orgulhoso por vê-lo vencer.

Eu não consegui ficar acordado para vê-lo se abrir completamente, mas na manhã seguinte, duas semanas após ele aparecer, peguei meu borrifador e corri até o jardim.

Ele estava lá, completamente fechado. Bufei chateado. Mas espere aí, ele estava mais fechado que o normal, suas pétalas pareciam mais grudadas umas nas outras que horas atrás. Um botão de rosa pode abrir e fechar? Preciso pegar o livro de botânica para pesquisar.

Virei as costas ao botão a fim de ir atrás do meu livro quando vi Hermione parada atrás de mim me observando. Carregava uma xícara de café em mãos, e parecia mais linda que o normal naquela manhã, seus cabelos estavam mais volumosos e chamativos e eu amo quando estão assim.

—… Eu li no livro ontem a noite. Parece que deve fazer carinho nas pétalas para ajudar a flor a despertar de manhã. — Hermione me respondeu como se lesse meus pensamentos. Às vezes acho que ela faz isso mesmo, lê meus pensamentos. Não no sentido de usar legilimência, mas no sentido de sermos tão conectados um com o outro que o outro pensa exatamente aquilo que você está pensando sem falar daquilo antes.

Bom! Já que ela havia feito o trabalho de ler o livro, eu poderia fazer o trabalho de acariciar as pétalas. Cheguei perto do botão e passei meus dedos, que estavam trêmulos de expectativa, suavemente nas pétalas.

Então a magia aconteceu, as pétalas começaram a se abrir, uma a uma, lenta e magistralmente. Eu estava de boca aberta assistindo tudo.

— É lindo. — exclamei sem me conter. Foi quando percebi.

Tinham letras nas pétalas, letras pequenas distribuídas em cada pétala aberta. P-A-R-A-B-É-N-S-P-A-P-A-I formavam um caracol indo até o centro.

— “Parabéns, papai”? — perguntei a mim mesmo tentando pensar. Como existia uma frase na flor? Ela estava florindo agora com uma frase?

Olhei de rabo de olho pra Hermione e ela me encarava sorrindo, com todos os dentes à mostra e com os olhos marejados.

— Hermione, você fez isso? — perguntei quase escutando meu cérebro trabalhar. Ela acenou confirmando com a cabeça e eu comecei a sentir meu coração pulsar desesperado e meus olhos se encherem de lágrimas. Ela está grávida?

— Eu estou grávida, Rony. — ela leu meus pensamentos mais uma vez respondendo minha pergunta e a única coisa que fiz foi me lançar de joelhos a seus pés, abraçando sua barriga e depositando vários beijos a agradecendo.

Ela ria ao mesmo tempo em que chorava. E eu só sabia chorar e rir com ela.

— O plano do hobby deu certo, eu fiz o teste essa manhã e pensei num jeito de te contar, como estava tão ocupado com o botão de rosa eu pensei que seria ideal…

Levantei do chão e a abracei beijando seus lábios e a calando.

— A bruxa mais brilhante de seu tempo com o melhor anúncio de gravidez improvisado.

A gente só sabia rir e chorar.

— Bom… — ela começou a dizer com o olhar na rosa, completamente florida e estupenda. — Se for menina eu tenho um nome.

Sorri para ela sabendo exatamente qual o nome ela ia sugerir. A beijei a agradecendo novamente e logo estávamos brigando porque eu queria a carregar no colo para levar até dentro de casa e ela me dizia que não era feita de açúcar e que podia caminhar muito bem com seus próprios pés.

Pensando no meu pequeno botão de rosa, que agora crescia dentro do meu amor, quando ela nascesse e crescesse, eu conseguiria deixar ela florir pro mundo, será que conseguiria fazer ela crescer como tentei com essa rosa juntamente com Hermione? Bom… isso seria outra história, não é?

Rose nasceu de 38 semanas, meu pequeno botão vermelho e significando reinício e que a palavra família, ganhava um novo significado.

Foi entre as flores que o ciúmes apareceu, mas foi entre as flores que meu botão mais precioso nasceu.

Notas finais
Merecemos comentários?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!