Chá verde
16 XVI. Revelações
Notas iniciais
Será que algo a incomodava? Será que na noite anterior eu tinha feito algo de errado?
Silenciosa.
Foi dessa maneira que a minha esposa durante o nosso café da manhã.
Procurei vestígios que poderiam me ajudar a entendê-la, no entanto, o que encontrei foram os seus olhos doces e suaves em um rosto sereno.
— Está tudo bem?
— Está sim.
Ter passado a noite acordado foi o suficiente para ter efeitos negativos no meu estado de bem-estar físico e mental.
Eu já estava neurótico.
— Anna, eu...
Fitei-a profundamente.
— Sim?
— Melhor a gente conversar à noite.
— Está bem.
Inclinei-me para beijá-la em beijo doce e comportado, se eu não a beijasse ela não vinha até mim...
Comprimir os lábios ao me despedir dela um pouco mais tarde naquela manhã por ter esperado a minha filha acordar, eu beijei Abbie e sair da minha casa, tenso e com a cabeça fervendo.
Segui para o escritório completamente distraído, pensando em Anna e na minha covardia. Eu tentei me abrir e contar-lhe tudo, porém, me faltou coragem e eu recuei decidido a revelar toda a verdade naquela noite, sem máscaras ou ocultações.
Cumprimentei a Sra. Adamovich de maneira educada em minha passagem.
— Bom dia Sr. Dushkin, o senhor tem visita à sua espera. Informou-me.
Eu não estava atrasado.
— Eu esqueci algum compromisso? Perguntei incerto.
— Não. Trata-se de uma visita sem hora marcada. Ela se apresentou como uma velha amiga.
Eu não tinha amigas, pensativo eu caminhei até a minha sala.
Uma figura morena de cabelos escuros olhava fixamente em direção a uma das fotos posicionadas em cima da minha mesa. O rosto sério apresentava tranquilidade, o nervosismo da descoberta me acertou.
Fechei a porta nas minhas costas em um clique baixo.
Aurora Perrin.
Sorria lindamente em minha direção, eu queria dizer tantas coisas...
Todavia, eu só conseguia olhá-la sem conseguir dizer uma palavra sequer.
Aurora lançou os olhos para uma fotografia de Abigail sorridente, eu lembrava nitidamente daquele dia, nós estávamos no jardim da mansão Stepanov em comemoração ao aniversário de três anos de Abbie.
— Sua filha é linda e se parece com você.
Tocou na foto.
— Qual é o nome dessa princesinha?
— Abigail.
— Quantos anos ela tem?
— Três anos.
Eu poderia vislumbrar os seus neurônios tentando montar o quebra cabeça. Ela me encarou numa expressão indecifrável, abaixou as vistas para me olhar outra vez, caminhou até onde eu estava.
— Desejei tanto vê-lo outra vez que mesmo estando aqui na minha frente ainda parece irreal?
Aurora me mirava nostálgica e com incerteza levantou a mão numa tentativa de me tocar o rosto, porém não o fez.
Puxou-me para um abraço cheio de significado
— Alek...
— Aurora...
Dissemos em simultâneo.
O toque físico de um abraço cálido representava as palavras que eu não conseguia expressar. Houve um tempo em que eu almejei tanto por esse encontro, em poder olhar em seus olhos avelãs e dizer que ficaríamos bem...
Aurora me envolvia com intensidade, ela suspirou em meu pescoço, estava quieta.
— Agora sei que esse momento é real. Apertou o enlace.
Ela ainda tinha dúvidas do contrário?
— Ambos estamos aqui.
Ela inclinou a cabeça, expressava um olhar nostálgico, os lábios entreabertos se aproximaram dos meus. Mas o que eu sentia não era nada do que pensei que seria.
Não teve turbilhão, inquietação nas emoções. Procurei por algo mais, porém, só encontrei uma silenciosa afirmação como se eu tivesse tido a chance de me despedir de alguém que foi muito importante na minha vida.
Há milímetros de distância eu recuei.
Não poderia fazer isso com Aurora, com Anna ou comigo. Já não era mais um adolescente de 17 anos. Era um homem de 26 anos.
Não tinha como fugir nós dois teríamos que ter aquela conversa de uma vez por todas.
— O que está havendo com você?
Afastei-me um pouco mais.
— Os tempos são outros, Aurora.
Havia tanto entre nós...
— Sim, mas eu não mudei, continuo a mesma e sinceramente acreditei que pensávamos iguais.
Não mais.
— Ah... Aurora.
Suspirei.
— Se você soubesse...
Ela franziu o nariz.
— Então me conta! Porque você está me enrolando. — suspeitei que ontem você estivesse fugindo de mim e hoje diante da sua hesitação constato a verdade.
Sem jogos, sem mentiras.
— Não somos mais adolescentes, Aurora, eu sou casado, tenho a minha Abbie e você tem namorado que é o primo da minha mulher.
Aurora se manteve imóvel de olhos centrados, parecia montar um quebra cabeça mental numa tentativa de encontrar sentido nas minhas palavras e lentamente seu semblante se entristeceu.
— Você está falando que nós... Sua voz sumiu.
Esperei um pouco antes de dizer.
— Nós tivemos uma história linda a qual eu recordo com carinho.
— Como pode... Como...
Eu não queria magoá-la, no entanto, a verdade deveria ser dita.
— Aurora, você está nutrindo sentimentos que não podem ser correspondidos.
Numa ação abrupta ela me desferiu um tapa no rosto.
Cerrei os dentes ao tocar a região afetada.
— Como pode me falar uma coisa dessas, Alek! Você me abandonou sem ao menos ter a decência de me dar uma explicação.
Eu explodi.
— Eu não tive escolha!
Ela queria me bater outra vez, segurei sua mão.
— Você teve todas as escolhas, mas decidiu fugir.
Fiquei irado, toda a paciência que tentei manter naquela conversa foi embora.
— Você não sabe sobre o que está falando. Eu sorrio sombrio e soltei sua mão. — Eu vivi um inferno por todos esses anos, tentei te encontrar, tentei voltar à ilha, não esqueça que eu era apenas um adolescente sem forças e sem condições a minha mãe fez de tudo para me afastar de você.
Ela me lançou um olhar duro.
— E ela conseguiu, não é?
Fiquei desconfortável.
Um sim, silencioso atravessou a minha mente, porém, a escolha de seguir foi minha.
— Essa conversa não nos levará a lugar nenhum, nós não precisamos ter essa DR atrasada há quase seis anos.
— Ah! Claro, é mais fácil ignorar não é mesmo? Você não sofreu o que eu sofri, não teve o coração dilacerado.
Que absurdo.
— Mais que droga! Eu também sofri quase me destruí pela decepção e culpa, no entanto, tive que seguir que escolha eu teria?
Ela me encarou duramente
— Oh! A loira rica foi uma ótima opção, não é? Pois, além de herdeira estava disponível.
Trinquei os dentes.
— Não fale de Anna, ela não tem nada a haver com o que nos aconteceu.
— Será que não? Ela estava lá na ilha no mesmo Resort que você. Almejava você, te queria e você tolo não percebeu, qual foi a minha surpresa em saber que você se casou com a favorita da sua mãe.
Ela sabia tantas coisas sobre a minha vida que me deixou sem reação.
Anna sempre foi à escolha da minha mãe para mim.
— Eu tentei por todos esses anos te esquecer Alek, até me envolvi com algumas pessoas na esperança de te esquecer e preencher o vazio que você me provocou.
Eu havia machucado não apenas a mim mas a ela também se eu não tivesse sido tão covarde, se eu tivesse tido a coragem que ambos precisávamos..., entretanto, hoje esses e “se” não significavam nada para mim.
Com a maturidade eu entendi tardiamente que não era para ser.
— Me perdoe Aurora... Não foi proposital, eu realmente me apaixonei por você, mas agora...
Uma lágrima solitária escorreu pela sua face.
Era tão difícil ter que dizer às palavras que acabariam com as suas ilusões...
Tocou-me o rosto tão suavemente como se eu não estivesse ali na sua frente, desenhou os meus traços com as pontas dos dedos para finalmente me olhar fixamente.
Aurora tinha tantas oscilações de humor ora debochada, ora frágil.
— Você realmente não me ama mais?
Lembrei dos nossos momentos na ilha, da emoção em que eu me sentia ao me descobrir apaixonado, seu sorriso divertido, tanto afeto compartilhado, era como se naquele tempo existisse apenas eu e ela no mundo.
Procurei aquele sentimento em meu peito aquela angústia por não a ter.
— Eu já entendi Alek. Retirou a mão do meu rosto. Ficou cabisbaixa. — Foi um erro vir aqui.
Ela se afastou e me deu as costas.
Eu nutria um carinho por ela, pela nossa história, porém, o sentimento já não era o mesmo e jamais seria.
Minha mão ficou no ar, eu queria consolá-la. No entanto, eu precisava ser sincero, era o mínimo que Aurora merecia da minha parte.
— Nós precisávamos ter esse encontro para seguirmos com as nossas vidas.
Ela virou bruscamente, os olhos entristecidos mostravam sua melancolia.
Houve um tempo em que eu realmente pensei que a encontraria, tocaria em seus cabelos longos, trocaríamos declarações recolhidas no tempo e finalmente eu a teria em meus braços com toda a volúpia que um dia eu nutre por ela e a arrebataria em um beijo saudoso.
A paixão não estava mais lá, o meu coração encontrará sua destinação sem eu sequer ter me dado conta.
— Não foi desse jeito que eu imaginei essa conversa.
Aurora se aproximou como um felino em busca de carinho, me acariciou os braços, os lábios carnudos se mantinham entreabertos, o suspirar me trouxe um aroma adocicado.
Por um segundo eu nos vi na praia e como uma presa eu fiquei paralisado. Centrado em seus olhos numa busca inquietante por palavras de consolo, eu tocava na sua mão repousada em meu rosto. Aurora olhava para algo atrás de mim, foi quando eu escutei o som perdido de uma voz presa na garganta vindo da porta de entrada.
Completamente estática Anna mantinha as mãos sobre a boca, numa clara reação de espanto.
Anna me encarou com os olhos lacrimejados cheios de decepção, os vi se desviarem para Aurora em reconhecimento e revolta.
Os olhos nunca mentem, a tristeza daquele olhar inundou o ambiente como uma névoa pesada.
Dentre muitas coisas que passavam pela minha cabeça, a típica frase “Não é nada disso do que você está pensando” estava prestes a sair da minha boca, entretanto, Anna simplesmente me lançou um olhar de dor para em seguida se mover até a saída.
Fiquei atônito.
Isso não poderia estar acontecendo comigo!
Eu não fiz nada!
Aurora tentou me impedir de sair feito um louco atrás de Anna.
— Espera! O pedido chegou pelas minhas costas.
— Você. Você fez de propósito! Despejei enfurecido.
Completamente perdido e atônito sair desesperado, corri atrás de Anna que se distanciava da mesa da Sra. Adamovich que acompanhava a cena com um olhar de compaixão.
Perto o suficiente da minha mulher, eu a segurei e a puxei para mim, ela tentou se desvencilhar, mas eu não deixei, pelo contrário a segurei com mais firmeza.
Tudo aconteceu tão rápido, Anna virou e me desferiu uma bofetada no rosto, eu podia sentir a marca dos seus dedos em minha pele. Foi mais forte do que o tapa que Aurora me desferiu.
— Deixe-me em paz! Os olhos vermelhos refletiam mágoa.
Soltei-a sem reação para pensar ou se quer falar, diante do seu ato completamente inesperado.
Anna conseguiu a façanha de me surpreender, durante todos aqueles anos entre namoro e casamento, nós nunca havíamos atravessado a barreira da agressão.
Ainda com a garganta arranhada pelas palavras presas, eu a vi caminhar até a saída.
O que foi tudo isso?
Quando eu finalmente consegui esboçar alguma reação tentei alcançá-la outra vez, entretanto, me deparei com os pneus cantantes do seu carro prata.
Baguncei os cabelos numa ação de agitação e desespero.
Anna estava pensando que eu a tinha?
Eu precisava falar com ela, precisava explicar que estava isento de culpa. Eu não fiz droga nenhuma! Olhei em direção a entrada da empresa em seguida para o carro preto e finalmente dei o passo que colocaria o trem desgovernado que se tornou a minha vida de volta aos trilhos.
Destravei a porta do carro, determinado a recuperar a minha vida, eu tentei manter o limite de velocidade padrão, todavia a angústia me atormentava, eu queria chegar a casa logo, Anna poderia estar lá numa ação de fuga.
Os minutos eram preciosos.
Pressionei o pé no acelerador, não perderia a minha chance, não perderia a minha família, numa encruzilhada eu vislumbrei uma picape antiga vindo em minha direção. Tão rápido e previsível eu apaguei.
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