Chá verde

6 VI. Boas intenções


Notas iniciais
Voltei.

As horas me atormentavam, a impossibilidade me afligia, pensar me desesperava.

Às 16 h em ponto alguém bateu na minha porta.

Não abri.

Fiquei de mau-humor e completamente sem fome.

Mais tarde voltaram a bater na porta. Ignorei pela segunda vez.

Menos de uma hora depois as batidas começaram.

Será que era tão difícil entender que eu só queria ficar sozinho!

Bruscamente abri a porta, irritado pela insistência, sem realmente ver quem era, falei ríspido. — Será que você não entende que eu não quero ver ninguém?

Anna estava estática, segurava uma bandeja com alimentos que ela sabia que eu gostava, também estava assustada pelo meu humor ácido.

— Me desculpe Aleksandr, eu não… ah?

Sua voz foi sumindo, ela engoliu em seco ao dar meia volta ainda assustada.

Tratá-la mal não era a minha intenção, mas foi o que eu fiz.

— Anna me desculpa.

Ela parou.

— Está tudo bem, eu julgo que fui inadequada. Ela me fala em polida educação numa clara tentativa de amenizar o meu comportamento.

— Eu que fui rude quando você apenas se preocupou comigo. Reconheci.

— Eu não quero atrapalhar só vim trazer seu almoço já que não saiu.

Eu não sairia para fazer as refeições, era o meu protesto.

— Obrigado, Anna.

Ela sorriu compreensiva ao me entregar a bandeja, a comida chegou em boa hora.

O bangalô construído no lugar paradisíaco havia se tornado uma espécie de prisão temporária.

A avalanche de emoções me destruiria lentamente. O sentimento de impotência me seguia de perto.

Eu só tinha as visitas inoportunas de Anna, numa clara intenção de aproximação solidária, sempre paciente sentada na ponta da minha cama. Ela só queria entender a razão do meu estado de espírito. Gostei de saber que ela não sabia sobre Aurora, contá-la sobre a minha desgraça estava fora de cogitação como alternativa ocultei o real motivo e disse estar triste pelo retorno precoce.

O olhar genuíno de Anna acendeu com um vislumbre de intensidade quando ela me disse.

—Seja o que for que tenha acontecido, tenha confiança que no fim tudo vai dar certo. Sorriu minimamente como se quisesse me confortar.

A loira Stepanov não estava alheia e todo aquele apoio poderia ser usado em meu favor.

Anna parecia disposta a me ajudar se assim eu pedisse. Ela era a filha do chefe, a minha mãe faria qualquer coisa para agradá-la, ela poderia ser uma porta de salvação, no entanto, eu teria coragem de falar sobre os meus sentimentos? E se a minha mãe a usasse contra mim?

Alguém tão introspectivo como eu não chorava no colo de ninguém.

Lutar contra o relógio era um desafio impossível de vencer. Entretanto, eu precisava amadurecer a difícil ideia.

— Você parece tão perdido, como se a sua vida dependesse de mim.

Anna conseguia me ler como ninguém, o que era estranho.

Toda aquela atenção poderia ser útil, mas, e se fosse o contrário? Se ela me afundasse mais? Será que Anna realmente não sabia? Ou estava junto com a minha mãe e só queria me sondar?

Deus! Eu estava enlouquecendo.

Fechei os olhos e levei minhas mãos às têmporas.

— Desculpe. Ouvir sua voz baixa.

Continuei de olhos fechados.

— Você não fez nada.

Eu que estava no meio do furacão completamente perdido e pirado.

— Você não me parece bem. Eu tenho remédio para dor de cabeça no meu quarto, posso buscar para você.

Aceitei, mal não deve fazer minutos depois que eu engolir a pílula me deitei na cama como forma de me livrar da Anna o que funcionou, entretanto, eu não esperava adormecer, eu não esperava dormir por muito tempo como aconteceu. Mais um erro que eu cometi.

Acordei sem esperanças, sem paz de espírito e sem voz.

O meu corpo agia no piloto automático como se eu não estivesse ali.

Entrei na lancha que nos levaria até o Aéroport de Raiatea, sem qualquer reação, inconformado, sem aceitar o fim da minha relação com Aurora.

Não teve um segundo em que eu olhei para trás, permanecia quieto perdido no horizonte de águas, já não falava muito, imagine irritado.

— Você realmente gostou desse lugar, não é?

Eu até gostava de Anna, porém no meu atual humor eu não queria conversar.

Doía-me saber que Aurora iria se decepcionar comigo, pois eu era um fraco mandado pela mãe, o meu coração estava quebrado por não me pertencer mais. Eu voltaria para encontrá-la e de joelhos eu pediria o seu perdão.

Durante toda a viagem de volta para casa, me mantive quieto, até o humor agradável de Anna me irritava, mas eu não conseguia fazê-la parar.

Ela não tinha culpa e sequer sabia dos meus problemas, Anna era inocente e se dependesse de mim ela continuaria a não saber.

O jeito que ela me olhou assim que entramos no carro refletia empatia. O percurso foi feito em total silêncio, mas às vezes eu via suas miradas em minha direção, enquanto eu olhava para fora sem realmente prestar atenção naquela vista de clima continental.

Eu não precisava daquele olhar de pena, eu não precisava da sua aproximação e também não precisava da sua compreensão.

Mas quando o carro parou em frente à mansão dos Stepanov o toque macio das suas mãos em contato com a minha me pegaram de surpresa e me fez olhá-la com curiosidade.

O olhar solidário fitava-me atenciosos.

— Eu sei que a viagem não foi do jeito que você esperava, e lamento que tenha sido assim. Mas... Eu quero que saiba que gostei de conhecer você melhor, já o considero um amigo e espero que tenha essa mesma estima. Um sorriso brincava em sua face ao me dizer. — Até mais Aleksandr.

Eu só pensava em como fui burro por não ter pedido a sua ajuda. A minha esperança se centrava no meu pai, no entanto, a minha mãe foi mais rápida em não deixar que Franz interferisse. Entretanto, eu tinha um rascunho de plano B na minha cabeça, porém precisava de paciência ao esperar a ação do tempo em acalmar a minha mãe.

O retorno escolar foi inevitável, tão antissocial como antes eu gostava de passar despercebido entre as aulas.

Através do sistema educacional secundário russo, nós recebíamos uma educação mais específica de acordo com a vocação de cada um. Eu gostava da área administrativa e voltei a minha atenção para esse ramo.

Sem amigos, sem laços de afeto naquele ambiente educacional extremamente gélido.

Alguns dias depois, quem bateu à minha porta?

Sim. A herdeira Stepanov foi recebida pelo meu amável pai, eu que estava no meu quarto planejando o que faria a respeito de Aurora, o vi chegar com um sorriso fraco nos lábios para em seguida anunciar que Anna Stepanov me esperava na sala.

Pensei em me negar a ir, pensei em descer e lhe dar uma desculpa qualquer e foi o que eu fiz.

Encontrei Anna de aspecto tímido sentada no sofá com uma xícara de chá na sua frente.

O rosto jovial estava levemente maquiado, nos lábios um tom rosado ficou muito bem em contraste com a pele, ao vê-la eu constatei que Anna era mais bonita do que as minhas lembranças demonstravam.

Ela me olhou um pouco embaraçada, porém isso não a impediu de sorrir um pouco mais, ela gostava de sorrir, não?

— Oi Anna.

— Aleksandr. Deixei passar. — Eu vim lhe fazer uma visita e trazer isso. Tirou do lugar desocupado do sofá um pequeno embrulho que até então, eu não tinha me dado conta que estava ali.

Entregou-me.

— Um presente?

Ela deu de ombros.

— Esqueci de ter te dado na Polinésia Francesa, ao comentar com a sua mãe ela achou uma boa ideia eu trazer aqui.

— Obrigado, Anna, mas realmente não precisava.

— Faço questão.

De um lugar mais afastado o meu pai acompanhava tudo em silêncio, olhava da Anna para mim e vice-versa. Com um olhar intrigante, difícil de decifrar, aquela expressão estava carregada de admiração e eu não entendia o motivo daquilo, todavia o óbvio podia ser notado que Franz Dushkin gostou de Anna Stepanov.

— Espero que goste.

Ao se aproximar de nós o meu pai comentou.

— Não deixe a bela moça esperando, vamos, filho abra o presente.

Depois de uma curta troca de olhar com Anna, rasguei o papel que me revelou uma pilha de Papel acetinado.

Eram as fotografias que Anna fotografou em Bora Bora.

Troquei algumas de cima e levei para baixo.

Eu estava maravilhado, Anna tinha talento, fiz um lembrete mental que na maior parte daquelas fotografias, eu não a vi fotografar. No nosso primeiro dia na praia, eu quando mergulhei, admirando a paisagem, em cima da prancha...

— Obrigado, Anna. Agradeci meio encabulado.

Ao me despedir dela pensei que talvez eu cultivasse uma aproximação com Anna, talvez a nossa amizade sobrevivesse.

Pergunto-me se eu tivesse falado sobre Aurora se as coisas fossem diferentes. Anna poderia ter me ajudado. Evelyn a adorava e não teria coragem de maltratá-la Anna tinha algo que fazia os meus pais se fascinarem por ela.

Inicialmente achei que tudo estava relacionado à posição de filha do chefe e dono da empresa, mas estava, além disso, meu pai que o diga.

Quando contei sobre Aurora, ele ficou confuso na cabeça dele, Anna era a escolhida. Franz estava errado. Ele entenderia tudo quando visse Aurora e sua força contagiante.

Eu não consigo descrevê-la com toda a maestria que eu desejava.

Ela era autêntica, fascinante, era tudo o que eu precisava. O meu coração pertencia a Aurora.

— Só tenha um pouco de paciência meu filho. Foi o seu pedido diante do meu desespero.

O meu pai não queria que eu fosse sozinho para a Polinésia Francesa, então, eu teria que esperar uma brecha no hospital para poder voltar com ele à Bora Bora.

Não era o que eu esperava, mas foi um bom começo, eu só precisava continuar a ter paciência.

Ainda teria que pensar nos meus argumentos para convencer o meu pai a trazer Aurora para a Rússia, eu faria tudo o que tivesse ao meu alcance para ficar com ela até mesmo casar!

Assim que a minha mãe soube que Anna esteve na nossa casa, ela ficou alegre ao ponto de não tocar no assunto Aurora, provavelmente tinha ideias para nos demover da viagem. Mas eu não estava preocupado, o meu pai me prometeu e ele sempre cumpria as promessas que fazia.

Eu estava certo sobre a minha mãe, porém errei o alvo, a Stepanov estava na minha casa quando cheguei da rua. Anna estava mais branca do que a última visita, os cabelos loiros caíam sobre o pulôver verde de tecido quente. Quase sorri ao vê-la mais corada do que o normal.

— Ei Aleksandr.

Suspirei antes de dizer um oi.

— Como vai?

— Bem. Andei até ela. — Na verdade, estou um pouco surpreso em vê-la.

Ela corou mais e levou uma mecha do cabelo para trás da orelha.

— Achei que soubesse que eu passaria aqui hoje.

— Eu me esqueci de avisar ao Aleksandr que a convidei para tomar um chá verde com torradas. Disse Evelyn ao entrar na sala com uma bandeja de chá.

Fiz um som com a boca, ao vê-la posicionar a bandeja na mesa de centro.

— Não quer se juntar a nós?

A minha resposta deveria ter sido não, mas quem é que resiste a um chá verde?

Ficamos nesta configuração, Anna ainda sentada no sofá de três lugares, Evelyn na poltrona e eu me arrastei ao mesmo sofá em que Anna estava a minha reação a deixou constrangida. Eu queria mudar isso.

—Então, Anna, como vai os estudos? Era o jeito de minha mãe puxar assunto.

— Bom. Estão indo muito bem, logo estarei na Universidade. Comentou empolgada.

— Que maravilha!

— Se eu não me engano você é apenas dois anos mais nova que o Alek, não é?

— Sim. Senhora A minha mãe não fazia o perfil que diga ‘por favor, me chame por você’ naquele típico clichê, ela gostava do tratamento formal.

Anna deu um pequeno gole na xícara.

— A sua mãe me falou que você pulou uma série por está avançada nos estudos.

— Sim. Não fiz o 9ª. Ano que vem irei para a Universidade Estatal de Moscovo.

— Que ótima coincidência, meu Alek também vai para a Universidade Estatal de Moscou.

Os olhos da Anna brilhavam.

Tenha a Santa paciência, controlei a vontade de revirar os olhos e bebi um pouco do líquido na xícara.

A conversa foi se arrastando, a minha mãe arrumava tanto assunto para entreter a nossa visita.

Estudos, elogios, viagens, e o assunto que eu não queria estar perto para ouvir.

Namoro.

— Você está cada vez mais bonita. Os elogios voltaram. — extremamente educada, ainda não tem namorado? Sondou.

Será que só eu notei o olhar de soslaio de Evelyn em minha direção?

Era a minha brecha, me pus de pé. — Eu preciso organizar a bagunça que fiz no meu quarto. Vir-me-ei para Anna. — Foi bom te ver Anna.

— Igualmente.

Andei até o meu quarto sem desviar a vista, o corredor estava naquele silêncio sepulcral familiar. Entrei no quarto e passei a chave na porta, eu não queria surpresas, olhei em volta, os móveis planejados ajudam a aperfeiçoar o espaço, o meu quarto não estava 100% bagunçado e nem 100% arrumado. Apenas aumentei a informação para efeito dramático.

Os assuntos do coração são demais para mim, além do que eu não estava nenhum pouco interessado em saber sobre a vida amorosa da Stepanov.

Os meses foram se passando e com eles a minha impaciência aumentava o que me deixou atribulado de espírito, o aumento dos casos clínicos exigia a maior parte do seu tempo e por conta disso eu mal o via, eu sentia saudades.

No domingo, eu tive a oportunidade de passar um tempo de qualidade com ele, o meu pai era a pessoa que mais me enchia de orgulho, as nossas almas vieram em sintonia, e por mais que ele afirmasse que eu estava agitado, eu negava. Aquele momento era nosso, por um tempo sem Aurora e sem problemas.

— Está pensando em fugir de casa ou algo assim? Inquiriu ao sentar do meu lado.

Eu o olhei de esguelha.

Por mais leveza que ele trouxesse ao tom, eu sabia a verdade.

Sondagem.

— Algo assim. Falei ao dar de ombros.

— O que houve com a paciência?

Franz conhece-me muito bem e ainda assim me questionava sobre isso?

Eu nunca tive muita paciência, nos últimos meses eu estava me saindo melhor do que eu esperava. Por hora a questão já não era mais o assunto que ele pensava.

— O que acha da gente assistir uma partida de hóquei na tevê?

— Claro.

Tanto Franz como eu gostávamos de assistir a um jogo de hóquei sobre o gelo era uma experiência no mínimo interessante, pois, os atletas se deslocavam rapidamente e suas tacadas no disco de borracha podem atingir uma velocidade a mais de 160 quilômetros por hora.

Por mais comum que possa parecer, a sensação pessoal de estar com ele e poder falar com o meu pai trazia uma emoção indescritível de afeto e muita paz. Eu só queria mais momentos ao seu lado como a família que éramos.