Chuva de verão
3 Capítulo 3
Alberto foi quem me mostrou o que existe além do oceano.
Depois daquele presente do senhor Nascimento, eu nunca mais me desfiz do hábito de escrever um diário. Alguns anos depois, assim que Jorge cresceu o suficiente para poder cuidar de Isabela e nossa mãe, juntei meus pertences em uma malinha de mão, deixei no armário da cozinha uma boa parte do dinheiro que eu vinha guardando há bastante tempo e saí de casa.
Eu havia tomado aquela decisão anos atrás, escrevendo em meu diário na sala de estar na companhia do meu pai pendurado na parede. Foi a primeira vez em que parei de pensar no fim da minha vida e na imagem doente do meu pai e comecei a pensar em viver. Eu não tinha muito mais que vinte anos de vida sobrando, não queria ter filhos ou construir uma família e a única coisa que me prendia naquela cidadezinha em que vivíamos era minha mãe, Isabela e Jorge. Eu pretendia voltar a vê-los no futuro, mas não queria morrer sem conhecer as coisas que eu ainda nem sabia que conheceria se me permitisse expandir o que eu tinha.
Conheci Alberto em minha primeira vez visitando uma cidade grande, três horas de viagem dentro de um carro com mais duas pessoas. Nossa cidade era pequena demais para os ônibus precisarem passar por lá, mas havia alguns carros que esporadicamente levavam as pessoas até o centro urbano mais próximo. Eu conhecia meus companheiros de viagem de vista, um rapaz não muito mais velho que eu cujo pai pescava e vendia peixes e uma senhora de idade, a senhora Carneiro, que vez ou outra aparecia em nossa casa com uma cesta cheia de frutas frescas e passava a tarde conversando com minha mãe. Não perguntei a eles o que pretendiam fazer em Formosa do Sul, uma cidade famosa por suas grandes comemorações de Natal. Nós nunca tivemos um bom motivo para visitar a cidade antes e somente meu pai dizia ter ido até lá uma vez quando mais jovem. Eu pretendia ficar lá por alguns meses, pelo menos até o Natal, então eu poderia tirar minhas próprias conclusões sobre os boatos que ouvira.
Diziam que no Natal a população inteira se reunia nas diferentes praças e locais públicos da cidade, todos vestidos com roupas vermelhas e verdes. Havia grandes corais de crianças e jovens, as árvores eram preenchidas com enfeites coloridos e grandes pedaços de tecido e todos preparavam muita comida. A festa durava quase duas semanas e em cada dia as pessoas se reuniam em todo lugar para cantar, dançar e conversar.
Chegamos na cidade bastante cedo e eu tive tempo para encontrar um lugar para ficar durante os próximos dias. Eu havia passado os últimos meses conversando com moradores da minha cidade que estiveram em Formosa do Sul, pedindo direções a eles para quando eu fosse lá sozinho. Me restava apenas procurar pelos locais indicados, pedindo informação aos cidadãos de cara mais ou menos fechada que andavam apressados em todas as direções. A cidade grande era um turbilhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Pessoas entrando e saindo de comércios, vendedores berrando seus produtos de todos os lados e carros barulhentos indo e voltando.
Minha primeira reação após pular do carro de viagem e ver todas aquelas pessoas foi abrir um sorriso enorme e apertar minha mala contra o peito. Aquele alvoroço tão diferente do que eu estava acostumado fazia eu me sentir vivo, uma pessoa totalmente diferente da figura debilitada do meu pai antes de morrer.
Passei o dia andando pelas ruas da cidade, reparando naquelas pessoas de todos os tipos e trejeitos que passavam por mim e olhando os comércios através das vitrines. Parei para almoçar em um restaurante bastante lotado, em que grandes grupos de homens se sentavam juntos para comer, conversar alto e fumar. Eu nunca tinha visto tanta fumaça em um mesmo lugar, visto que as janelas do casarão não eram muito grandes. No início da noite, eu já havia encontrado uma pensão simples e alugado um quarto pequeno e barato. Havia jantar na pensão, mas eu queria sair outra vez e talvez beber alguma coisa.
A noite era incrivelmente mais silenciosa que o dia. Pontos de uma luz amarelada percorriam toda a extensão das ruas, principalmente na frente dos comércios, que agora se encontravam fechados. O homem dono da pensão havia me indicado o caminho para uma espécie de taverna a algumas quadras de distância dali. Não estava tão tarde, então ainda havia algumas pessoas na rua, grupos de mulheres carregando cestas e rapazes jovens sozinhos, assim como eu. Algumas ruas eram bastante estreitas e era preciso levantar a cabeça para enxergar o topo das construções, onde a lua surgia para iluminar meus olhos eufóricos. Eu estava cansado do dia longo, mas era como se não estivesse.
Não foi difícil encontrar a taverna. Eu havia feito questão de levar meu diário, por mais que não soubesse se seria capaz de escrever em um lugar como aquele. Não estava lotado, mas bastante cheio. Até reconheci dois ou três dos homens mais barulhentos do restaurante na hora do almoço. Encontrei um lugar mais ou menos afastado da maior concentração de pessoas e me sentei. Depois de sinalizar o que pretendia beber, coloquei o diário sobre a mesa e comecei a escrever tudo o que via. Era, na verdade, um caderno novo totalmente em branco, para marcar o início da minha nova vida fora de casa e todas as coisas que eu veria a partir daquele dia. Escrevi sobre as pessoas com quem conversei, os lugares que conheci e a organização estranha da cidade grande que de alguma forma parecia funcionar bem.
— Está escrevendo sobre o quê?
Levantei os olhos do caderno. Um homem aparentemente mais velho que eu havia sentado à mesa e agora me observava. Ele não tinha nada para beber e se apresentava melhor vestido do que a maioria dos outros homens da taverna, inclusive eu mesmo.
— É um diário, senhor. Estou escrevendo sobre o dia de hoje.
Ele acenou com a cabeça e continuou me olhando. Eu limpei a garganta.
— Me permite saber o motivo?
— É para que eu não me esqueça. Vou ler tudo que escrevi quando estiver morrendo.
Ele riu.
— E por acaso é possível saber a hora da morte antecipadamente?
— Não, senhor, mas eu tenho uma doença.
O homem me avaliou por um instante com uma das sobrancelhas levantadas.
— Você não me parece doente, rapaz.
Eu levantei os ombros, sugerindo que não pretendia confirmar meu estado doente. Ele riu mais um pouco.
— Eu me chamo Alberto – ele disse e estendeu uma mão, a qual eu apertei.
— Francisco.
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