Chuva de Relva
10 Mudanças de planos.
Notas iniciais
Michele passou os últimos dias normalmente; ia para o cursinho junto com o irmão de manhã, depois ia para o trabalho e chegava em casa, exausta.
O ano estava correndo depressa, parecia que era ontem seu aniversário, quando ela descobriu que ia para Amsterdã.
Num dia, ao chegar exausta do trabalho, olhou para o calendário: já era outubro. Foi então que ela recebeu uma mensagem: era Renato.
Está ocupada?
Michele suspirou e respondeu:
Acabei de chegar do trabalho, vou tomar um banho. Está tudo bem?
Estou. Só queria alguém pra conversar... Manda-me uma mensagem quando puder sair de casa? Precisa ser pessoalmente.
Michele só queria sentar e ver TV. Mas amigo é amigo.
Ok... Vou entrar no banho aqui, depois nos falamos.
Michele se arrumava enquanto Iago chegou em casa. Avisou pra onde ia, e logo em seguida, Renato interfonava. Ela desceu e eles foram para uma pracinha, não muito longe dali. Sentaram-se em um banco, ou melhor, Michele sentou e ele foi pegar um cachorro quente num carro que estava estacionado ali perto. Quando voltou, ele observou Michele comer o dela, e, após alguns minutos, suspirou e começou:
– Vou para Paris, viver com Safira.
Michele terminou de mastigar o pedaço que estava na boca, e indagou:
– Por quê? E a faculdade?
Ele se recostou no banco, e respondeu:
– Acho que estou começando a gostar de você. Sei que já sentiu algo por mim no passado, mas agora é tarde. Por mais que eu sei que você já sofreu por causa do Fernando, eu não vou conseguir tirá-lo da sua cabeça. Vou tentar recomeçar com a Safira.
Michele olhou para o Renato. De fato, ela não sente mais nada por ele, mas ficaria triste se ele partisse por causa dela. Abriu a boca algumas vezes para protestar, mas nada saía. Enfim, acabou desistindo, e voltou a comer o cachorro quente. Assim eles ficaram um tempo, Renato finalmente começando a comer o seu, e, quando acabou, disse:
– Safira virá para o Brasil passar um tempo comigo. Depois, iremos para Paris, e nos casaremos. E você vai ao casamento.
Ela confirmou com a cabeça. Como iria negar? Adorava os dois.
Após isso, o silêncio reinou. Renato passou a comer seu cachorro quente, que estava quase frio, e Michele ia comendo o seu, quando Renato viu que ela estava com a bochecha toda suja. Ele limpou, enquanto Michele falava:
– Às vezes parece que você, o Alex, o Lion, o Fernando, enfim todo mundo, parece que vocês vivem pra me proteger. Como se eu fosse um bebê...
Renato suspirou e parou de limpar a bochecha dela.
– Sabemos que você é forte. Todos nós. Mas sentimos uma vontade imensa de ajudá-la, como se fosse quebrar a qualquer momento. – ele acabou o cachorro quente, e olhou para o relógio. – Bom, está ficando tarde, você tem cursinho amanhã e eu faculdade. Irei te levar para casa, o Iago deve estar preocupado.
– Iago já deve estar dormindo – Michele explicou, após acabar o seu cachorro quente. – ele anda estudando bastante, pra poder passar numa boa faculdade. Já sabe o que quer da vida, então quer entrar assim que acabar o colégio.
Renato apenas sorriu, mas invejava a família de Michele. Ela e o irmão podiam escolher o que queriam ser, ao contrário dos filhos da alta sociedade. Claro que ele queria ser chefe, e estava feliz na faculdade de gastronomia, mas pensava em como Fernando poderia se meter em encrenca quando a mãe descobrisse que ele largou os estudos de administração para dedicar-se a medicina. Enfim, Renato a deixou em casa, e se dirigiu a sua.
***
No sábado daquela semana, Safira chegou para passar um tempo no Brasil, como ela e Renato haviam combinado. A primeira coisa que ela quis fazer foi sair com Michele, e elas foram dar uma volta no shopping.
– E então, Michele? O que me conta de bom? Faz tempo que não nos vemos...
– Bom, me apaixonei por Fernando, não fui aprovada pela sua mãe, participei de um concurso de culinária, descobri que ele tinha noiva, perdi, Fernando foi para o exterior estudar, passou um tempo sem falar comigo, fui atrás dele, lá fui assaltada, ignorada pelo Fernando, conheci uma menina super legal que me deu esta pulseira – e Michele mostrou a pulseira que estava em seu braço – e, quando Fernando regressou ao Brasil, descobri que essa menina que foi super legal comigo era sua nova noiva. Sofri um acidente onde tive que parar de nadar, meus pais tiveram que sair da cidade pra trabalhar fora, perdi minha casa, estou fazendo cursinho para entrar numa faculdade ano que vem, que ainda não sei qual, e ah sim! Conheci um rapaz que fala que me conhece e é amigo de infância do Alex. Bom, foi basicamente isso.
Safira coça o queixo, sorri e diz:
– As coisas andam bastante agitadas por aqui, hein? Parece que foi ontem que larguei tudo no Brasil para morar no exterior... – ela olhou com carinho as pessoas andando pra lá e pra cá, agitadas. Por fim, continuou: — e em relação ao Fernando? Como se sente?
– Muito desconfortável. Tentamos evitar de falar nela, mas é impossível.
Foi quando o celular da Michele começou a tocar: era Iago. Ela atendeu o telefonema, e Iago estava em prantos.
– Mana, fomos despejados do prédio! Irão demolir aqui!
– Onde você está, mano? – indagou Michele, aflita.
– Na porta do prédio. Venha, estou assustado.
Michele contou a situação para Safira, que a levou o mais rápido possível ao prédio.
– Temos que dar um jeito nos presentes que nossos amigos nos deram – Michele olhava, triste, para todos os móveis presenteados.
– Vou dar um jeito nisso. – Safira sorriu. Então se virou para Iago. – e quanto a vocês, o que farão?
– Mana, estou de férias da escola. Irei para a casa de nossos pais.
– Ok, cuide-se.
– E você? – perguntou Safira.
Michele ligou para Sara, contou rapidamente a situação, e a amiga logo lhe ofereceu sua casa, enquanto ela arranjava algum lugar.
Logo, Safira, Michele e Sara deixavam Iago na rodoviária, e a mais velha deixou as duas na casa de Sara logo após.
– Tenho que ir para a casa do Renato, resolver as coisas do casamento. Qualquer coisa me liguem, ok?
– Ok Safira, até mais – as duas disseram, e entraram na casa da Sara.
***
Alguns dias se passaram, e Michele procurava casas com aluguel barato sem parar. De férias no cursinho, ela procurava de manhã, trabalhava a tarde, e de noite nem ia pra casa da Sara; procurava sem parar, chegando tarde da noite. Até que um dia ela foi cutucada na rua por uma pessoa.
– Pois não? Andreia!
– Tudo bem querida?
Michele coçou a nuca e contou tudo. Após terminar de contar, Andreia lhe pagou um lanche, que ela devorou. Estava com muita fome.
– Você sabe que pode contar comigo, por que nunca me ligou? Independente do casamento, eu quero te ajudar. Ficará na minha casa. Vamos, eu vou contigo avisar a Sara.
– Mas e a Valkiria? – indagou Michele.
– Está fora do país, resolvendo umas coisas. Pelo visto ela vai demorar a retornar para o Brasil.
Michele suspirou, aliviada. Mas ela não podia aceitar assim:
– Aceito a oferta. Mas tenho uma condição...
***
Fernando chegou em casa tarde, após passar o dia estudando e depois indo descontrair um pouco na casa do Alex. No dia seguinte, apesar de ser quarta-feira e ele ter aula, ele não queria levantar da cama de jeito nenhum. Foi então que as empregadas começaram a tentar acordá-lo. Mas ele as ameaçava, toda vez que uma se aproximava.
Por fim, uma delas chegou, falando:
– Senhor, você precisa acordar! Você tem aula daqui a pouco, sabia?
– Vou ter que repetir quantas vezes que não vou? Saia daqui, se não quiser perder seu emprego...
– Nada disso! Levante-se! Agora!
A empregada jogou um balde d’água na cara do Fernando, que finalmente se levantou.
– O que pensa que está... Michele?
Na sua frente, Michele estava com uma cara de emburrada, e, após o susto passar, ele reparou que ela estava com uniforme de empregada.
– Mas que...
– Olá, senhor. Sou sua nova empregada. Agora desça, o café da manhã está pronto. – Michele sorriu, e se retirou do quarto.
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