Chuva de Relva
2 Amsterdã.
Notas iniciais
Michele estava na lanchonete, olhando mais uma vez o celular.
– Nada ainda? — perguntou Sara.
– Nada...
– Desista. Ele deve estar ocupado.
Michele suspirou, guardou o celular no bolso, e foi atender os clientes. Sara olhava preocupada para a amiga, então decidiu chamar os amigos; marcou uma reunião de extrema emergência na casa da Michele naquele sábado, pois ela sabia que Michele ia passear com o pai.
No sábado, um por um foi chegando na casa dela, sem que ela soubesse.
– Michele está começando a ficar deprimida, sem notícias do Fernando... — comentou Gelse, preocupada com a filha.
– Engraçado, porque ele fala conosco todo santo dia... — disse Lion, coçando o queixo.
– E ele não fala da Michele? — perguntou Miguel.
Gelse foi preparar pipoca pra eles comerem, enquanto eles seguiram a conversa.
– Fernando sempre pergunta se Michele está bem, se já decidiu sobre a faculdade e tal. Mas não sabíamos que ele não falava com ela. Pensávamos que ela não estava falando direito com ele. — respondeu Alex.
– E o que poderíamos fazer, afinal? — perguntou Suelen.
– Bom, no fim do mês, mais exatamente no dia 22, é o aniversário dela de 18 anos. O que acham de fazermos uma vaquinha para dar a ela uma viagem para Amsterdã? — sugeriu Sara.
– É uma boa ideia... Mas para que vaquinha? Eu, Lion, Alex, Suelen ou Miguel podemos pagar inteira. — disse Renato.
– Porque assim seria nosso presente de aniversário. Vou falar pra nossa chefe pra oferecê-la uma semana de folga, para que ela possa viajar sossegada.
– Ótima ideia! — aplaudiu Lion. — Mas a Michele não sabe nada de francês.
– E seu inglês é pouco. — completou Miguel.
– Já sei. Nós a seguiremos de perto. — Renato deu a solução. — Seremos seus guardiões.
– Prometem cuidar da minha filha direitinho? — Gelse chegou, passando a pipoca para todos.
– Prometemos. — disseram Alex, Lion e Renato ao mesmo tempo.
Chegou dia 22 de maio [1], aniversário de Michele. Eles fizeram uma pequena festa de aniversário, em sua pizzaria favorita [2].
Após o parabéns, Gelse comentou, fingindo bronca:
– E ninguém trouxe presente para ela?
– Ué, mas a senhora também não me deu nada... Além da festa, claro. — reclamou Michele, em tom de brincadeira. Não ligava para presentes.
– Mas nós temos um presente para você, Michele! — disse Suelen.
– Nós nos unimos e fizemos uma vaquinha, para lhe comprar uma passagem para Amsterdã! — disse Lion.
Ela olhou para os amigos, maravilhada.
– Não acredito que vocês fizeram isso...
– Mas fizemos. — disse Miguel.
– E o meu trabalho? E os treinos no Elite?
– Já avisamos o colégio e a nossa chefe, Michele. Não se preocupe. — explicou Sara.
– Pensaram em tudo, hein?
– Pois é. Amanhã nós vamos arrumar sua mala e você parte. — complementou Iago.
– Mas já?
– Claro! — respondeu Sara. — Achou que ia ser quando?
– Não sei... Estou em dúvida se devo ir...
– Nada disso mocinha! Não tivemos todo esse trabalho para você dizer "não sei". Você vai e ponto. — Alex disse, em tom de brincadeira.
Michele fez cara de emburrada, e eles lhe entregaram a passagem.
***
Então lá estava Michele, perdida no meio de Amsterdã. Sem saber o que fazer.
Onde será que é a faculdade do Fernando? O cara me explicou mas eu não entendi nada!, pensou.
Ela pegou seu celular, e deixou a mala no chão, tentando ligar para ele. Então, um cara passou e roubou sua bolsa!
– Meu deus! Ai, eu to num país estrangeiro... Oh my god! A thief! Será que é thief mesmo? — Michele estava desesperada, e começou a correr atrás dele.
Mas nem na Europa estamos livres desses ladrões? ela pensou, enquanto corria. Mas ela deu de cara com um beco, e ao olhar para trás, se viu encurralada. Os caras ao seu redor começaram a falar num francês muito rápido, e ela não compreendia.
– Fernando! — gritou Michele, em desespero. Ela queria e muito que ele aparecesse naquele momento. Então alguém começou a socar os rapazes.
Fernando? pensou. Ela estava com os olhos fechados. Ao abrir, deu de cara com o Renato.
– Está bem, Michele?
– Estou... — ela olhou ao redor, e viu que não tinha mais ninguém, além deles e do Alex e Lion. — O que fazem aqui?
– Não é óbvio? — Lion perguntou, jogando-lhe sua mala. Graças a Deus, estava tudo lá ainda. — Te protegendo. — Toma, sua mala.
Michele pegou, e viu que estava tudo dentro. Suspirou, aliviada.
– Não podíamos deixar que você fosse sozinha para um país que mal sabe a língua, não acha? — Alex disse, enquanto se aproximavam da praça mais próxima.
– Podiam ter me avisado, levei um susto...
– Acalme-se. Achou o Fernando? — perguntou Renato.
– Não... Eu nem sei chegar na faculdade dele!
– Vamos fazer assim então. Está com fome? — perguntou Lion.
– Sim, estou...
– Vamos comer algo, e então vamos atrás dele, ok?
– Certo.
Eles se aproximavam de um restaurante, quando Michele avistou Fernando, e saiu em disparada atrás dele, deixando tudo — e todos — para trás.
– Onde ela foi? — perguntou Lion.
– Ela viu o Fernando. — respondeu Alex, que também vira o amigo.
– Fernando! Ei! Aqui! — gritava Michele.
Então ele finalmente se virou.
– Michele?
Fernando sorriu por um instante, mas ele logo fez cara séria.
– O que pensa que está fazendo em Amsterdã?
– Não é óbvio? Atrás de você!
Fernando suspirou, e a levou para um banco.
– Está sozinha? — perguntou, quando os dois se sentaram.
– Não... Alex, Lion e Renato estão comigo.
– E onde eles estão?
– Os deixei para trás, ao ver você. Alex viu também, então não se preocupe.
Fernando coçou a cabeça. Michele notou que havia crescido um cavanhaque nele, deixando-o mais charmoso.
– Certo... Olha, me desculpe por ter me afastado, mas as coisas não são mais como antigamente. Ando muito ocupado, sabe...
– Não venha com essa desculpa. Eles me disseram que você fala com eles todo santo dia.
Fernando abaixou a cabeça, e Michele jurou ter visto que ele murmurou algo como Vou matar aqueles três!. Depois, Fernando se recompos, e continuou:
– Onde foi que eles estavam? Vou te levar até eles. E por favor, não me procure mais, ok?
– Eu posso voltar sozinha. E por que não?
– Desculpe, não posso falar. E eu vou contigo, pois quero falar com eles.
Eles se levantaram, e nem precisaram ir atrás deles, pois Alex, Lion e Renato os acharam antes.
– Olá, Fernando, quanto tempo. — falou Renato. Fernando foi e abraçou os amigos. Michele notou que ele nem isso fez com ela, e se sentiu triste.
Eles marcaram um reencontro, e Fernando se foi. Alex coçou o queixo.
– Engraçado...
– O que é engraçado? — indagou Michele, curiosa.
– Não sei se ele sabe, mas esse banco foi o mesmo que eles usaram nas gravações de A Culpa é das Estrelas. Você já viu o filme?
– Não. Mas li o livro, e lembro que eles se sentaram num banco. E lembro também que passou num programa que mostra os brasileiros em outros países, uma moça que mostrou o mesmo. Não tinha reconhecido. E como você sabe?
– Já vi o filme. Um amigo meu é fã [3].
– Ah, é o P., não é? — perguntou Lion.
– Sim, ele mesmo. — Alex respondeu.
– P.? — indagou Michele.
– Meu melhor amigo. — respondeu Alex. — Seu apelido é Peter Jaice, mas o chamo de P.
– Entendo... — Michele estava tentando reconhecer aquele apelido de algum lugar.
Lion o olhava com cíumes. Ciúmes de amigo ou pelo que ele sente por ele?, pensou Michele. Depois de vê-los melhor de perto, ela percebeu que os quatro possuíam muitos mistérios. Inclusive o Fernando.
– Ei Michele — Renato cortou o silêncio. — Quer conhecer o museu da Anne Frank?
– Mas é claro! — Michele exclamou. — Agora sim eu me sinto que nem a Hazel.
Alex, Lion e Renato deram risada.
Os dias foram passando, Michele pode conhecer um pouco mais de Amsterdã. Até que um dia ela estava passeando e deu de cara com uma moça.
– I'm sorry. — disse Michele, se desculpando.
– Don't worry, is my fault. What's your name? — respondeu a moça, estendendo-lhe a mão.
– Michele, and you? — Michele apertou a mão dela, de volta.
– Leticia. Where are you from?
– Brazil. You?
– Ai meu Deus! Finalmente achei uma brasileira neste país!
Michele suspirou. Ainda bem que ela era brasileira.
– Digo o mesmo. — e as duas começaram a rir.
– O que faz aqui em Amsterdã? — ela perguntou, enquanto elas caminhavam.
– Vim atrás de uma pessoa...
– Seu namorado, é?
– Bom... Mais ou menos...
Letícia sorriu.
– Sabe, eu nunca namorei ninguém.
– E quantos anos você tem?
– 18, vou fazer 19 em julho. E você?
– 18, fiz semana passada. Ganhei a viagem de aniversário dos meus amigos.
– Ah, foi seu aniversário? Parabéns! Vou te comprar algo!
– Não precisa!
– Não se preocupe, minha família é rica.
Michele suspirou.
– Ok então...
Letícia lhe comprou um par de sapatos novos, e uma bela pulseira. Michele se lembrou da que Fernando lhe dera na viagem de navio. Onde ela deve estar?, pensou.
Michele observou a nova amiga. Ela era alta, magra, elegante, mas enérgica. Possuia um longo rabo de cavalo, seu cabelo era bem liso, e castanho. Sua franja era bem fina, para a frente. Era uma moça bem bonita, e aparentava ter mais do que 18 anos.
– Está hospedada em algum hotel?
– Sim, perto de onde estávamos.
– Ok, vou te levar para lá.
Então Michele notou que havia ligações perdidas em seu celular. Alex, Renato e Lion ligavam desesperadamente para ela.
– Nossa, meus amigos me ligaram e nem vi.
– Devem estar preocupados. Mande mensagem; não estamos muito longe.
Elas logo chegaram no Hotel, onde os três a aguardavam. Letícia se despediu e partiu, alegremente. Então os três se viraram para Michele:
– Quem é? — Alex perguntou.
– A conheci por aqui. Ela me deu de presente este sapato e esta pulseira.
– E aceita presentes assim, de qualquer pessoa? Num país estrangeiro? E como vocês se comunicaram? — perguntou Renato.
– Uma pergunta de cada vez. Mas respondendo todas numa resposta só: ela é brasileira. Seu nome é Letícia, e é tão rica quanto vocês.
Lion coçou o queixo.
– Me lembro de uma família brasileira que mora em Amsterdã que possui uma filha chamada Letícia. Mas não me lembro o nome da mesma...
– Deve ser essa família então! — exclamou Michele, feliz. — E como foi o dia com o Fernando? Meu Deus, que olho roxo é esse? — perguntou Michele, ao olhar para Renato.
– Não foi nada demais....
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