Chuva de Condritos
1 Mãos de Caranguejo
Notas iniciais
Não era um dia tranquilo em Quatro-Passos. Flich Bom-de-Mira corria contra o tempo em direção à Fortaleza dos alquimistas na busca de um antídoto para conter a maldição adquirida que aos poucos dominava seu corpo. Na medida que Flich se apressava, sua coordenação motora o abandonava cada vez mais rapidamente. Já a uns duzentos metros da fortaleza, o bestial arrastava-se trêmulo no chão.
— Meas quie ponrrea! — Esperneia Flich quase sem conseguir controlar sua língua, passadas mais algumas horas e ele ficaria encerrado na condição de inadimplência motora completa graças a uma maldição adquirida na sua última caçada à uma bruxa. A Alta-Coroa de Quatro-Passos está em pé de guerra com essas manipuladoras elementais, pois foi revelado que elas guardam passagens secretas para minas abissais de Iriníctio na Floresta da Névoa-Grossa, os oligarcas locais tentaram negociar de diversas formas a passagem, entretanto, o mineral é a matéria-prima base para as poções de Reversibilidade do Semblante — a magia de rejuvenescimento — e apesar das grutas abissais escondidas nas cavernas da Floresta da Névoa-Grossa serem interminávelmente ricas desse mineral, as bruxas recusaram a passagem para o Reino, pois sabem muito bem o que acontece quando as pessoas ganham acesso a recursos naturais preciosos. E você também sabe. Portanto, por tempo indeterminado foi declarada em Quatro-Passos temporada de caça às bruxas, com valores altíssimos sendo pagos pela cabeça de uma bruxa velha — Quanto mais velha a bruxa, mais poderosa. Portanto, maior sua recompensa — E valores inestimáveis pela captura de uma bruxa viva, o que é quase impossível porque essas feiticeiras são cheias de truques.
Flich quase não conseguia mais seguir em frente e não sabia se os alquimistas possuiam antídoto para aquele feitiço, muito menos se conseguiria explicar sua condição pois estava tão debilitado que sua língua mal conseguia pronunciar um palavrão para expressar sua raiva. As pessoas na rua passavam indiferentes ao seu sofrimento, às vezes sobressaltava-se algum olhar de desprezo à situação do caçador. O que não é absurdo, as bruxas sempre foram as principais responsáveis por trazer de volta a saúde às pessoas perante as enfermidades cuja medicina técnica não havia poder de cura, e desde que foi declarada a guerra foi proibido a população manter qualquer contato com elas e a cabeça dos desobedientes aguardaria o balde enferrujado que fica a frente da guilhotina.
O Bom-de-Mira estava se debatendo, seus movimentos pararam de fazer sentido, se conseguisse falar alguma coisa diria "Misericórdia, alguém me mate pelo amor de Throo'v!", porém como não conseguia falar, seus gritos de agonia soavam assim — aAAAhnnahee ieuaiooooeahheuuHUHU?? — nessa altura do campeonato, um grupo de moleques se juntaram na calçada a frente e começaram a apostar algumas moedas em quanto tempo levaria pro pobre caçador morrer. Então uma ventania sinistra avançou a rua onde aquele macabro teatro se desenrolava, o lixo que aquela população porca jogava nas ruas ressonou o som de suas cambalhotas, e a passos lentos uma figura encapuzada se direcionou até aquele pobre-diabo estirado na beira da calçada a poucos metros do lugar onde alquimistas mercenários vendiam curas a preços comprometedores. Aquele capuz discretamente flutuante se aproximou, seus passos mal emitiam som. Flich congelou. O instinto aguçado de um caçador de bruxas sabe identificar a energia mágica dessas criaturas à vários metros, e aquele ser que se aproximava solenemente a sua deplorável presença com certeza absoluta seria uma. O espectro retirou o capuz revelando um rosto negro de semblante sério ornamentado por belas maçãs e na parte de trás da cabeça careca se revelava um longo conjunto dreads púrpuros.
— Você não vale a saliva que está escorrendo desse esgoto que chama de boca. Mas Lilith foi clara quando falou que não é sua hora de morrer. Suas mãos estão sujas do sangue de minhas irmãs, portanto lhe privarei delas. Mas a respeito da triste morte que você merece, terá que esperar mais um pouco. — Assim que os moleques que apostavam na calçada perceberam que a presença que se aproximou era a de uma bruxa, rasgaram corrida como se não houvesse amanhã — Eu não vi nada! — um gritou — Eu nunca estive aqui! — outro repetia para si mesmo — pois ver uma bruxa e não denunciar era um crime passível de prisão. A bruxa esgueirou-se perto do corpo de Flich, pegou uma agulha e furou cada uma de suas mãos, que imediatamente petrificaram-se. Em seguida, retirou de seu casaco um escorpião amarelo e apressou-se em fazer com que o animal ferroasse o caçador. Quase que imediatamente seus movimentos involuntários foram aquietando-se e a cada arrepio o Bom-de-Mira sentia seu controle voltando aos movimentos. — Raios! Estou vivo! Realmente não achei que fosse sair dessa! Obriga... — antes de terminar sua frase percebeu que sua salvadora havia sumido, e ao levar a mão a cabeça foi surpreendido com um impacto que carne e ossos não causariam em uma coçada normal no coco, o impacto das mãos de pedra atingiram a cabeça do arqueiro como uma porrada — Ai! Maldição! ... Certo, pelo menos dessa forma eu tenho capacidade de procurar um antídoto. Mas eu fui salvo... por uma bruxa? — Flich questionou sua realidade, não conseguia entender o que havia acontecido. Havia saído no começo da tarde para caçar Lilith, a bruxa de 600 anos com uma recompensa de dez milhões de ferrens, em seguida ao voltar de sua caçada mal-sucedida, ouve de outra bruxa que seu alvo ordenou sua cura, era difícil de entender, mas antes de tudo precisaria resolver suas mãos petrificadas, então andou até a porta da Fortaleza dos Alquimistas e bateu no portão, um cavaleiro vigilante de prontidão o recebeu, ele entregou cinco moedas pela passagem, pôde então passar pelo largo corredor de tijolos que o levaria até os mestres elementares que manipulavam as forças da natureza, os alquimistas.
— Mãos de pedra, hein! Não vejo um caso desses faz tempo — disse um homem com uma longa barba castanha que cobria metade de seu corpo — Me chamo Girfild, sou sacerdote alquimista, posso cuidar do seu caso, mas vou te adiantando que não será barato — exclamou o alquimista — Posso pagar, apenas me devolva o controle das minhas mãos — respondeu Flich apressado em restaurar suas condições corporais, mal podia esperar para encostar a cabeça em um travesseiro para poder pensar em como iria repensar sua carreira de caçador após os últimos acontecimentos. O barbudo mexeu em algumas prateleiras, misturou umas especiarias em um frasco e balançou tal como um barman mexe uma coqueteleira para fazer caipirinha até que o líquido com cor de pântano se tornasse um líquido brilhante de cor azul, então apressadamente pediu que Flich estendesse suas mãos de pedra e regou suas minerosas palmas cinzas. Para a surpresa de ambos, as mãos de pedra se metamorfosearam em grandes garras de caranguejo — Caralho, mas que porra que você fez com minhas mãos?! — berrou Flich indignado — Como eu temia, o feitiço que você sofreu tem um selo, para ser desfeito você terá que rompê-lo, a única forma é negociando o selo com a bruxa, mas como isso é crime nos tempos de hoje, temo que nunca mais terá suas mãos de volta, filho.
— Não! Inaceitável eu sou Flich Bom-de-Mira, o melhor arqueiro bestial do reino dos Quatro-Passos, como eu vou atirar com minha besta com essas garras absurdas!! Você é sábio, não é? Por quê não mexe outro desses elixires, faz outro abracadabra! Sei lá, porra! Eu já disse que posso pagar!
— Pode mesmo? Você já me deve cinco mil pela última poção.
— Cinco mil por essas garras medonhas? Você ficou maluco?
— A cura não é de graça, filho.
— Você não me curou!
— Você veio aqui com mãos de pedra completamente inúteis, agora tem poderosas garras que podem lhe render uns bons trocados no ramo de quebradores de cascas, ou quem sabe até consiga cortar árvores.
— Você só pode estar de brincadeira, eu não vou pagar por isso! — exclamou Flich furioso.
— Ah vai, você vai — ao pronunciar estas palavras o alquimista balançou um sino que acionou cavaleiros de prontidão atrás das portas do salão, eles eram quatro, cercaram Flich e dois foram o suficiente para imobiliza-lo, houve certa resistência, mas por não ter noção alguma de como manipular garras de caranguejo acabou facilmente neutralizado. Confiscaram um saco de moedas com bem mais dinheiro do que a poção custava e o jogaram num beco depois de uma bela surra. Aquele não era o melhor dia do Bom-de-Mira, então o caçador decidiu ir em direção a uma taverna abrir uma comanda no fiado para liquidar a pouca sanidade que lhe restava com algum hidromel.
Do outro lado do reino perto dos limites da zona urbana, uma casa com telhado piramideal ornamentada de cristais lilás espalhados pelas paredes de azulejos geométricos recebia a visita de diversos pássaros e também de algumas forasteiras ilícitas. Era uma casa de chá onde as bruxas reuniam-se secretamente para traficar minério para mercenários da alta sociedade. Dentro da casa as mesas privadas eram divididas por biombos de bambu, e pelo salão outras mesas decoradas com ornamentos por todas as partes espalhavam-se numa configuração aleatória. Geralmente as bruxas entram pelos fundos e conversam nos biombos em particular, mas as clientes que passaram pela porta balançando o torelli de ferro espalhando notas musicais agudas pelo ambiente eram tão confiantes em seu poder mágico que pouco importava para elas andarem escondidas. Alguns funcionários locais já tinham alertado-as para serem discretas pois temiam que o boato de que o estabelecimento recebia bruxas chegasse a ouvidos populares, se tornando inevitável seu fechamento, mas quando tem-se tanto poder quanto duas bruxas anciãs, as pessoas acabam ignorando qualquer conduta normativa social que não seja conveniente, portanto as bruxas sentaram-se em mesas no salão. Lilith pediu chá de amora com hortelã e Dz'ja chá de girassol radiante, olharam-se nos olhos, trocaram um beijo e se instalaram nas cadeiras. O Beijo Semiótico é um feitiço que cria uma criptografia na fala e só as duas feiticeiras que o conjuraram podem entender as falas uma da outra — Você vai me contar agora o porquê de eu ter que ir até o centro da cidade para salvar um caçador?
— Eu não a convidaria ao meu chá favorito para tratar dessas trivialidades, minha ametista. Se queres saber o porquê desproporcional esforço por aquele pobre coitado, é apenas por um capricho de cálculo. Os planetas estão entrando em conjunção na próxima estação e assim que a presença daquele infeliz caçador foi sentida pelo meu oráculo, consultei seu mapa astronômico imediatamente e os planos astrais dele são favoráveis às luas que estão vindo. Há poucas pessoas com uma conjunção de estrelas tão específica, portanto acredito que a existência dele favorece matematicamente nosso contra-ataque na entrada da estação Clísmica (Se trata de uma estação onde ocorrem diversos fenômenos naturais como tornados, chuva de granizo, terremotos e outras desventuras).
— Então você acha que ele é a chave da equação?
— Não seja exagerada, ele é apenas um sinalzinho de adição, mas no final das contas um sinal faz toda a diferença no espelho do resultado.
— Mas ele é tão específico assim?
— Os dois sóis dele estão na mesma conjunção estelar, a de Relicário. Se meus cálculos estiverem corretos como sempre, ele é a pessoa mais próxima nessa cidade de matar o rei.
— E você faz o mapa astral de todo mundo que encontra?
— Sim, é meu passatempo pessoal, mas não viemos tratar de quinquilhas por aqui, daqui há três minutos um homem de sobretudo se juntará a nossa mesa, ele trará ferrens o suficiente para três toneladas de Iriníctio, nós venderemos quatro, a diferença será paga em uma coisa muito mas muito especial.
— Deixa de suspense, me conta logo!
— Há seis semanas do outro lado do continente Troliens fizeram um novo contato com o reino de Flivor, o relevo montanhoso de lá foi feito por uma chuva de meteoritos lunares, dessas luas que colidiram e espalharam seus condritos há muito tempo, o que faz com que esses alienígenas se sintam a vontade naquela região e estabeleçam contato. O caso é que na última visita trouxeram um carregamento de Meca-Cintila (Um mineral estelar de difícil extração usado na bruxaria para invocar criaturas horripilantes) e o mercador que vem ao nosso encontro vai trazer duzentas gramas.
— Sabia que o pessoal das luas está usando Meca-Cintila para decorar festas? Dá um efeito visual fluorescente muito maneiro.
— Esse povo das Luas não tem jeito mesmo, usam o material mais difícil do sistema estelar para fazer neon.
— Quando garantirmos a paz da Floresta Mãe, a gente bem que podia tirar uma onda na Lua Tangente.
— Dz'Ja, querida, você é uma graça. Bruxas não tem paz, é o nosso karma — Comentou Lilith com uma discreta risadinha.
Então um homem de sobretudo não identificável carregando uma maleta entrou silenciosamente no recinto, caminhou até a mesa de Lilith e Dz'Ja onde deixou encostada uma maleta, retirou do sobretudo um bilhete e deixou-o sobre a mesa — Aceita um chá ou está com pressa? — perguntou Dz'Ja, mas o homem apenas ignorou e se retirou tão sorrateiramente quanto foi sua entrada.
— Mercenários... perdem tanto tempo correndo atrás de dinheiro que esquecem que a riqueza da vida está no sublime tom de um chá bem equilibrado — disse Lilith suspirosa.
— Sabe, o que ainda me intriga é o porquê de mantermos essas negociações arriscadas, nós nem usamos dinheiro na floresta, e mesmo para sair gastando mundo a fora já acumulamos tanto.
— Dz'Ja, minha flor, você tem 450 anos mas às vezes parece que tem só 200, sem querer ofender. A nossa moeda de troca não é o capital, e sim informação, veja isso — Lilith abriu a maleta e pegou uma das moedas de Ferren, a pôs sobre a mesa e encostou um dos dedos sobre a superfície lisa da porcelana arrastando de forma circular em sentido anti-horário, logo a moeda levitou um pouco e caiu levantando uma fumaça que escreveu no ar o nome de todas as últimas vinte pessoas no qual as mãos a moeda passou — Vê, aqui no quinto nome antes do mercenário, é Joseph Corta-Ventos, o príncipe de Quatro-Passos, depois Livion Conta-Milhões, o contador da corte, em seguida Lu'fioror, um alto sacerdote responsável por estudos de controle de magia, em seguida dois capangas da corte e então o mercenário cujo nome o feitiço não revela.
— O que significa que é uma bruxa!
— Exatamente, a corte de Quatro-Passos está negociando diretamente com uma bruxa estrangeira que tem acesso a Meca-Cintila, e sabes que nos outros reinos o Iriníctio não é tão abundante quanto em nossa floresta, isso significa que teremos que nos preparar contra ataques de nossas irmãs do Oeste.
— Fala sério! Não acredito.
— Acredite, por isso é importante deixar o cosmo favorável à nossa equação, cada sinal de mais conta, não temos contato com as bruxas do Oeste há mais de cem anos, não sabemos que magias elas desenvolveram durante os contatos alienígenas, esse dinheiro eu utilizo para pôr espiões dentro do palácio, no momento estou tentando descobrir quem faz a ponte entre Quatro-Passos e as florestas do Oeste, mas os feitiços de anonimato que essas bruxas utilizam é muito poderoso, meus métodos estão fracassando.
— Então o que nos resta são os espiões mesmo, vou falar com a Gibra-Cega ela conhece todos os seres vivos desse planeta, acho que ela pode nos ajudar a identificar alguém em um encontro desses de troca com a bruxa mercenária.
— Excelente ideia, agora precisamos descobrir onde fica o retiro da Gibra.
— Ela não aparece há séculos, falam que está nos abismos de Iriníctio meditando para abranger a galáxia.
— Vamos montar uma expedição, contate as outras garotas.
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