Chuck e Morte.

1 Capítulo Único.


Ao recobrar a consciência, a primeira coisa que percebeu foi que estava cansado. Muito cansado. Seu trabalho foi necessário por muito tempo, desde o começo. E parecia que seria necessário ainda uma última vez. A perspectiva disso o deixava ainda mais cansado, visto o velho que era.

Mas soube desde sempre qual seria seu último trabalho. E lá estava. E onde era lá? A Morte tinha certeza de que já estivera naquele lugar. Mas fazia tanto tempo. Olhou para a janela: completamente escuro. Esperava enxergar ali alguma rua de alguma cidade qualquer, mas não havia nada senão o completo breu. Na mesa, a sua frente, jazia um pedaço de pizza. Apreciou a cortesia e a pegou cansadamente. Conseguiu lembrar-se ao comer o primeiro pedaço.

Aquele restaurante servia uma pizza deliciosa. Também era o lugar onde aquele pequeno protozoário lhea fizera o favor de devolver sua foice perdida. Qual era mesmo seu nome? O cavaleiro não era muito bom em se lembrar de nomes humanos, eles ficavam morrendo o tempo todo. Tentar lembrar-se de tudo isso cansou o velho. Terminou por consolar-se com aquela saborosa pizza.

Ao terminar, esperou calmamente. Não tinha muita pressa para encontrar com quem havia o chamado ali. “tudo termina aqui” pensou o velho “depois de tanto tempo.”

E então Ele apareceu diante de si, acomodado na outra cadeira da pequena mesa, de costas para a negritude que emanava da janela. Tinha sua própria fatia de pizza a postos, mas não tocou nela. A morte encheu-se de nostalgia ao encarar Deus naquela casca singular e se aliviou ao finalmente se lembrar daquele nome.

—sim... Dean Winchester. Ele me entretia bastante – comentou morte – toda a família na verdade.

Deus restringiu-se de responder além de um tímido sorriso. Havia certa melancolia nele, algo que a casca do “profeta” Chuck soubera encarnar muito bem. O silêncio reinou entre os dois enquanto morte desenterrava algumas memórias de bilhões ou trilhões de anos atrás.

— os Winchesters... sempre donos do palco, envolvidos com alguma calamidade. Eram ótimos! Se tornaram um pouco confiantes demais com certeza, mas foram umas formiguinhas surpreendentes.

Chuck percebeu a alfinetada sobre o excesso de confiança e se defendeu:

—não foi minha culpa se eles acharam que podiam matar a Morte. Veja o lado bom: uma aposentadoria lhe caiu bem.

—claro – Morte ponderou de forma condescendente. Esteve “descansando” desde então, não tinha muito o que reclamar. Uma boa saída de cena. Porém, não deixou de perceber uma pitada de orgulho na voz de Chuck.

Um leve tremor, como de uma trovoada, vindo da janela em escuridão se fez perceber. Mas o velho não deu atenção. Olhou mais uma vez naquele Deus ás últimas, encarnado em um frágil e velho Chuck. Qual dos dois era mais velho? Perguntou-se. Em seguida, outra dúvida se formou:

— era de se esperar que um pai sinta saudade dos filhos nas suas últimas horas de vida, mas entre todos os aspectos que poderia assumir nesse momento, não esperava que escolhesse Chuck. – Morte ponderou um pouco e continuou – é por causa dos Winchesters? Ou talvez seu soldadinho favorito, o pequeno Castiel? Talvez um prazer culpado com o rei do inferno Crowley? Ele era uma figura...

Morte estava cansada, mas não se incomodava em continuar conversando com um velho conhecido. Além disso, não tinha pressa alguma em fazer o que estava ali para fazer.

—acho que eu não deveria ter preferidos, não é? – Deus também não estava certo quanto a resposta, mas continuou – essa também é a forma com que consegui me reconciliar com alguns familiares. Só me pareceu certo terminar assim. – finalizou sinceramente, Chuck.

—ah sim, é verdade. O jovem Lúcifer. sempre querendo brincar. E finalmente você deu alguma atenção a ele. – Chuck encarava quieto seu pedaço de pizza. Morte continuou- mas isso tudo também e cortesia de sua querida irma, não é? — lembrou, observando o restaurante.

Do lado de fora daquele pequeno recinto, reinava o mais profundo caos, com Amara no trono. Enquanto o universo envelhecia, deus tornava-se mais fraco. Era evidente que no final dos tempos, a escuridão dominaria a tudo e a todos.

Sim. Tive alguma ajuda com certeza, mas consegui ajeitar as coisas com amara, ficamos bem próximos desde então. Como yn e yang – completou com um sorriso no rosto.

Morte já esquecera o que significava essas duas palavras, mas não chateou-se com isso, era velho.

—eu não teria uma partida tao agradável sem a ajuda dela – virou-se para a janela – obrigado, irmã.

Em resposta um novo tremor precorreu o recinto. Discreto, simpático até.

Aquele pequeno lugar, transportado de seu tempo, vagando, magicamente intocado pelo caos que imundava o universo no fim dos tempos, era uma cortesia de Amara. Um singular túmulo escolhido por Deus.

—ah, já entendi agora – Morte mudou de assunto – não é por nenhum filho em particular que essa casca lembre, mas a casca em si. Chuck combinou muito com você.

Deus não negaria que gostava particularmente de encarnar Chuck, mas ainda não estava convencido.

—sempre gostou de escrever coisas. E os Winchesters foram sua melhor história. Pequenas criaturinhas, sempre no meio de confusões com os adultos. Não muito fãs de regras, porém. Que nem seus dois primeiros brinquedos de barro.

—Eva e Adão não eram meus brinquedos – repreendeu Chuck. Sempre achara que faltava um pouco de humanidade a Morte. Mas levando em conta tudo sobre o cavaleiro do Apocalipse, principalmente o fato de que tinha sido acordado para o trabalhoso trabalho de ceifar Deus, talvez humildade e gentileza não se encaixasse com o personagem.

— O apocalipse, o rei do inferno, a mãe dos monstros, os leviatãs. Você jogou muita coisa na mão daquela familiazinha e até que eles conseguiram se virar. Um escritor sempre se diverte com a sua história. Não deixou um final feliz para eles, porém...

— você me faz parecer um bastardo insensível – culpou-se deus.

—você vai comer essa fatia de pizza? – Morte capturou o prato antes da resposta — o que é que acontece agora, Chuck?

Deus irritou-se com a mudança brusca de assunto, mas no final reconheceu que não seria bom ficar remoendo sua culpa. Terminou por considerar a pergunta do cavaleiro.

—não sei.

Morte surpreendeu-se com a facilidade com que Deus reconhecia não saber alguma coisa pela primeira vez desde o inicio de sua existência. O que os dois sabiam era que a morte de Deus seria um evento cósmico tao grande que talvez o universo fosse jogado em uma situação ainda mais caótica que Amara. Também perceberam que o tempo urgia. Rachaduras surgiam, emanando da janela escura. Aquele era o final de tudo.

Deus ainda ponderava, no final falou: só podemos rezar que apareçam novas histórias e novos escritores como eu, ou melhores.

Morte terminou bem a tempo sua pizza maravilhosa e roubada. Armou-se calmamente de sua foice e respondeu: rezar? Eu não sabia que você era um piadista, Chuck.

E nesse momento, morte matou deus. O que houve com o universo? Alguém ainda vai escrever sobre isso.

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