Chronicles of Jikan Ryoko
1 01- The WalpurgisNight
Notas iniciais

| 31 de Março de 191.000.000.000 A.C| Época das Águas|
–Não, Linea, você não deve contar aos outros sobre onde vivemos ou quem somos.
–Mas me diga o porque, papai! Por que temos que ter o poder e o conforto, enquanto os outros não? Por que temos que viver escondidos, com medo do mundo externo?
–Linea, minha querida, eu entendo os seus sentimentos. Eu sei que você não gosta, mas é assim que deve ser. Nos chamariam de aberrações se nos vissem, nos matariam incendiados. É isso que você quer? Toda a nossa geração soube esconder seus dons, e justo você, que tem um grande talento mágico...
–Pai, eu só não aceito o fato de vivermos escondidos, enquanto os outros não tem o nosso poder, enquanto Khronos está lá em cima, se divertindo com os NekroMasters! Só me diga isso, por favor, por que essa neura de aberraçã...
–Linea, eu já dei a minha ordem! — ele gritou comigo, me fazendo recuar dois passos, assustada. Ele me encarava com seu olhar severo – Você está proibida de contar sobre seus poderes ou demonstrá-los, e você só sairá do palácio com a minha permissão, está me entendendo?
Eu engoli em seco. Então, eu pai continuou, recuperando seu estado normal:
–Olhe, minha filha, eu entendo que você se sinta triste, excluída, eu também me sinto assim. Mas veja, somos os Ghenoment, a família mais desenvolvida em magia, nós estamos em posse da DreamStone, que é a razão por toda a magia nesse mundo. Você não deve usá-la para beneficiar alguém, ou isso causará grandes prejuízos. Você sabe o quanto as famílias versadas em magia sofrem para se manterem em segredos? Somos os humanos mais desenvolvidos, você tem que preservar isso!
Eu permaneci em silêncio, ainda encarando os olhos azuis de meu pai. Eu ainda não concordava com tudo aquilo de segredos, mistérios ou coisas do tipo, mas resolvi não contestar.
–Você entendeu bem, Linea?
–...Entendi, papai. – Suspirei.
***
Quando finalmente pude sair do palácio, meus pulmões finalmente puderam curtir um pouco o ar puro do lado de fora.
Quando virei para trás, vi a pedra se fechando novamente. Por dentro, havia um gigantesco palácio, decorado com as mais belas joias e magias, porém, quando se fechou, apenas uma montanha normal, coberta de gelo, podia ser vista, com uma gigantesca pedra que não poderia ser retirada pela força de um humano normal.
Enquanto eu andava pela estrada simples de pedras, eu não parava de pensar no que meu pai havia dito sobre os outros humanos. ‘’Nos chamarão de aberração, Linea’’. Eu nunca havia entendido isso. Quando eu saia de casa, eu deveria usar sempre um vestido grosso azul, sem nenhuma joia ou brinco, e ocultar sempre minha magia perante aos outros, fingir ser alguém normal, enquanto eu via aquelas pessoas pobres, humildes e muitas vezes sem alimento ou algo do tipo.
No alto, porém, havia uma terra inalcançável: a Atlântida. Era uma ilha de tamanho colossal, flutuante, de onde desciam cascatas de água de suas beiras. Estava muito acima do Astro Azul e apenas do topo das maiores montanhas é que se podia vê-la, reluzindo ao sol. Haviam também outras ilhas flutuantes ao lado, que eram as moradias dos NecroMasters, a raça superior aos humanos, que viviam desfrutando dos poderes que recebiam de Khronos. Aparentemente, ele nem sabia que os humanos existiam.
Quando o Astro Azul havia sido presenteado pela natureza graças à essência de Khronos após seu período de descanso, ao ir embora, um pequeno fragmento de sua essência se partiu e se solidificou nele, e ela era chamada de DreamStone, que era um pedaço do próprio Khronos. Quando os humanos tiveram contato com isso, eles receberam um Carma Mágico sem seus corpos. O porém, no entanto, é que apenas uma parte conseguia desfrutar da magia: outros não conseguiam controlá-la ou nem desenvolviam.
No entanto, há vários séculos, a família Ghenoment, a minha família, havia tomado a DreamStone para si, coletando assim várias informações que o resto da humanidade não tinha acesso: a verdade.
Eu sempre odiei tudo isso; eu me sentia como um pássaro acorrentado. Minha família vivia escondida em uma caverna gigantesca, escondendo de todos os poderes. Eu era a princesa dos Ghenoment, que, segundo meu pai, eu era a que tinha o Carma mais poderoso de todos. Quando eu saía, eu deveria sempre conter meus poderes e nunca demonstrar a existência de humanos que tem acesso ao conhecimento de Khronos e que desenvolveram poderes mágicos.
Enquanto isso, Khronos, o deus supremo criador do universo, estava se divertindo em Atlântida, desconhecendo a raça humana e sem dar nenhuma atenção à ela. Diversas vezes, era bem comum raios comemorando campeonatos, que muitas vezes matavam centenas de pessoas.
Quando eu cheguei à vila, percebi a grande quantidade de crianças brincando em volta, adultos conversando e rindo, outros, com fome. As casas eram pequenas e simples, com pouquíssimos recursos e tudo o mais, a maioria com pedras em volta por causa da região gelada. Todos usavam roupas simples, e as pessoas geralmente tinham cabelos brancos, fossem quem fossem. Geralmente, os únicos de cabelos coloridos eram raros: apenas as famílias versadas em magia tinham cabelos coloridos, e essas viviam escondidas, como a minha. Os Ghenoment tinham predominantemente cabelos roxos, e comigo não foi diferente. Haviam outras de cabelos verdes, azuis, laranjas, vermelhos ou rosas, ou outras diversas cores. Enquanto eu passava pelas pessoas, com minha roupa bastante simples, as pessoas se espantavam com meus cabelos super lisos e roxos. Algumas senhoras comentavam ‘’Que bonito o cabelo dela!”, enquanto eu passava.
Eu gostava de sair do palácio, ver o mundo, porém, me dava uma tristeza profunda ver as pessoas daquele jeito, sem comida ou algo do tipo. A maioria dos animais eram extremamente agressivos para a caça, o que fazia-os depender dos caçadores que geralmente morriam, e os animais também protegiam as florestas.
–ATENÇÃO, COMIDA CHEGANDO! – uma mulher anunciou, gritando praticamente do meu lado, me fazendo levar um susto – ATENÇÃO, CRIANÇAS E SEUS PAIS, COMIDA! ESTOQUE DE CENTO E DEZ! ATENÇÃO, DISTRIBUINDO!
Não demorou muito para que as pessoas corressem em direção à mulher. Ela retirava carne e frutas de um saco velho e distribuía para as pessoas, que pegavam animadas, logo devorando. Eu me afastei, apenas observando o desejo agoniado das pessoas por comida. As crianças rapidamente se alegravam, até que uma menina me ofereceu duas maçãs:
–Toma, moça, a comida vai acabar! – ela falou, com a boca cheia e o irmãozinho sorrindo para mim. Confesso que senti pena das crianças, apenas ficando imóvel – Toma, rápido, mamãe vai me matar se souber disso, ela me mandou pegar as duas pra ela escondida, você parece estar com fome! Moça!
Eu não tive escolha; embora me sentisse um lixo, pois não estava com fome nenhuma, pois eu havia acabado de participar de uma refeição gigantesca, peguei a maça, sorrindo amareladamente para a menina.
–Obrigada. Diga a sua mãe que eu roubei, assim ela não vai bater em você. – Ela deu um sorriso pra mim, e logo seu irmão a puxou rindo, e ambos foram brincar no outro lado do vilarejo, quase atropelando uma idosa que carregava sua carne de frango como se fosse uma parte sua.
***
Sentada em um pedestal, eu me sentia um completo lixo.
Eu estava com a maçã que a garotinha havia entregado para mim. Ela era meio suja, e tinha um aspecto podre, porém, era bela. Eu não estava com fome. Eu simplesmente não aturava a ideia das outras pessoas terem que ter o mínimo, enquanto eu tinha tudo à meu dispor.
Meu pai, Henegogh, sempre me dizia isso. Desde muito nova, fui criada dentro do palácio, onde treinava meus poderes. Meu pai sempre dizia que eu sempre deveria ser uma boa garota, que não desobedeceria nunca suas ordens, que deixaria as outras pessoas no pior e nossa família no melhor. Filha, você deve se conter, uma boa garota deve ser, não sinta o mundo externo, não conte-os sobre seu poder, esconda-o, não ajude os outros, não lhes dê comida feita por magia, não demonstre nada, não saia muito de casa, sirva sempre sua família, seja uma princesa exemplar e disciplinada. Não procure interagir com os outros.
Eu já estava cheia de todas as ordens de meu pai.
Desde a morte da minha mãe, Dzainimy, meu pai havia virado o chefe dos Ghenoment. No palácio moravam eu, meus primos, tios e sobrinhas. Eu não tinha nenhum irmão ou irmã, e eu era a mais poderosa de toda a família, sendo considerada a princesa. Sempre fomos sempre contidos, nunca nos expondo ao mundo exterior,contendo nossa magia lá dentro, no palácio escondido dentro de uma caverna
Meu pai guardava a DreamStone com ele, e com isso aumentava seus poderes, assim se tornando mais autoritário ainda. Eu não conseguia odiá-lo, mas não conseguia suportar a ideia de que, enquanto tínhamos magia á nosso dispor, sem dificuldades, outras pessoas morriam para conseguir comida.
Eu, mesmo sem fome, me senti obrigada a comer a maçã. Devorei-a, sentindo seu gosto podre. Quando terminei, me sentia mais péssima que todos.
Por que Khronos criara os humanos, deixara um de seus fragmentos para trás, e nem sequer ligava para nós? Mesmo os versados em magia sofriam dificuldades, como se manter escondidos, e dependendo apenas da magia da DreamStone – que não era eterna -, e os outros dependiam apenas da sorte. Enquanto isso, os NekroMasters viviam tranquilamente com Khronos, sem nenhuma dificuldade, tristeza ou dor, sequer sufoco. Diversas vezes, eu parava no topo da montanha para observar a poderosa cidade flutuante chamada Atlântida
Em vários passeios que fiz nas vilas, percebi o grande interesse das pessoas na ilha – afinal, ela era extremamente bela e cheia de natureza. Até a parte de baixo, que era a única parte que a maioria conseguia ver, era bonita. As cachoeiras que caíam de lá eram belas, porém, poucos tinham a oportunidade de bebê-la.
Eu odiava aquele deus. Se tinha alguém deveria governar o universo, este alguém não deveria ser Khronos.
Eu desci do pedestal, e me vi em um largo corredor com vários pilares velhos e cheio de fungos. O chão era extremamente largo, porém quebrado e sujo. Havia várias teias de aranha no teto, e o local era escuro. Nem eu conseguia ver o outro lado, mas aquele lugar precisava de algum jeito.
“Oculte, não os deixe sentir. Não use sua magia.’’
‘’Oculte-se!”
–Por que você não me deixa usar minha magia? – eu perguntei pra mim mesma, como se falasse com meu pai – Droga, seu velho nojento, você não pode me impedir. Você nem está aqui... saia da minha mente, pare...
***
Quando percebi, estava deslizando sobre a água que eu havia formado naquele corredor.
Eu corria com toda minha agilidade, dando piruetas, enquanto mexia meus dedos e usava minha magia para clarear o lugar; de repente, eu havia consertado os pilares e o chão. Eu criei tochas, e sai correndo que nem uma menina rebelde, enquanto água se criava, juntamente com plantas belas que apareciam ao lado. Eu não aguentava mais. Eu não podia mais conter aquilo. Eu deveria usar aquilo ao meu favor, e, de repente, estava recriando o local.
Tornei o local claro e belo, e corria, enquanto ria de mim mesma, pulando e testando a minha magia, cantando essa canção, que parecia ressoar no lugar inteiro:
‘’Deves entender! De um a dez fazer.
“E os dois deixar; os três quadrarás.”
“.E rico serás”
“Os quatro perder! Com os cinco e o seis, assim diz a bruxa’’
‘’Sete e oito conta e está a coisa pronta”
’’Nove são um e dez é nenhum”
“De bruxaria, é essa a tabuada!”
Eu estava brincando com a própria água que eu havia criado, enquanto o lugar recebia uma nova aparência, sem que eu me tocasse disso.
O único problema é que eu não havia percebido o quanto eu estava cantando alto.
–Ei, foi você que fez toda essa agitação? – Ouvi uma voz infantil dizer atrás de mim.
Meu coração quase parou. Virei para trás assustada, fechando rapidamente meu pulso e recuando alguns passos. Quando finalmente meus olhos entraram em foco, vi o dono da voz.
Era um garotinho de cabelos negros – o que me fez estranhar, já que pessoas de cabelos coloridos eram raros — , com uma roupa um tanto estranha. Sua calça era preta, e ele estava descalço. Seus olhos eram negros como o de um corvo, e me encarava com uma curiosidade imensa.
Senti meu rosto corar. Percebi que eu não havia apenas criado água no local, mas havia deixado-o muito mais belo que antes: os pilares se tornaram dourados, o teto ficou blindado, e esculturas apareceram nas paredes. Flores haviam brotado em todos os lugares, e borboletas circulavam minha cabeça. Eu não havia percebido o que havia feito. E eu não sabia que desculpa dizer para o garotinho.
–Isso tudo – ele perguntou – foi você que fez? Aquela canção foi feita por você? Digo, a da bruxa?
–...A-Ah, e-eu... d-digo, eu não fiz nada disso, olhe... e-eu estava apenas brincando com a água, sério... – eu era péssima em inventar mentiras – E-Eu não fiz nada de mais...
Eu já esperava que ele gritasse pelos pais ou para quaisquer que fossem, e me acusasse de bruxaria, e já estava pronta para sair correndo a qualquer momento. No entanto, ele fez uma coisa que me surpreendeu: ele abriu sua mão, e dela, bolinhas azuis de luz saíram de sua mão. Elas dançaram no ar como uma água balançando, e se transformou em uma águia, que fugiu para longe. Ele sorriu para mim, que estava com uma expressão incrédula no rosto
–Não se preocupe, eu não vou te chamar de bruxa. Eu também sei usar magia.
***
–Como você se chama?
–Meu nome é Nabat Tchomunnick. E o seu?
–Linea Ghenoment.
–É um nome bastante bonito. Combina realmente com você.
–Você acha? Nunca gostei muito do meu nome... acho estranho demais.
–Ora, melhor do que você se chamar Nabat. – Ele sorriu pra mim.
Estávamos sentado em cima de uma pedra espaçosa, próximos ao corredor que eu havia acabado de deixá-lo com um aspecto luxuoso à alguns minutos atrás. Ele balançava suas pernas freneticamente, e aparentava ter uns doze anos. Apesar de ser estranho, eu estava gostando de conversar com ele, enquanto observávamos as crianças correndo no vilarejo.
–Nossa, confesso que foi uma raridade imensa lhe achar. Digo, achar alguém com poderes mágicos à flor da pele. Nesse vilarejo afastado, todas as pessoas são comuns, sem nenhum tipo de poder. – Ele comentou.
–A sua família mora por aqui perto? – Eu lhe perguntei, olhando seus olhos negros que não emitiam nenhuma luz, mesmo com o sol batendo praticamente em seus olhos.
–Na verdade, a minha família não é totalmente mágica. Vivemos no vilarejo próximo daqui, porém, também é cheio de pessoas comuns. Grande parte de minha família não aderiu poder mágico. Na verdade, apenas eu consigo controlá-lo. O meu pai também conseguia, até morrer de parada cardíaca.
–Meus pêsames. – Eu falei, sem saber o que dizer. Na verdade, eu odiava aquela expressão. ‘’Meus pêsames’’ soava como algo seco e sem profundidade, apenas como algo que uma pessoa quer dizer para não deixar a outra no vácuo, e eu não tive escolha.
–Não, tudo bem. – ele sorriu pra mim – Eu tenho vários problemas com minha família. Se possível, gostaria de abandona-los assim que fosse possível, não apenas para me livrar deles, mas para deixá-los um pouco em paz. Você parece controlar perfeitamente a sua magia. Sua família é de uma descendência mágica forte ou alguma coisa parecida?
–Ah, sim. A minha família é extremamente poderosa, e por causa disso, vivemos escondidos. – eu respondi, suspirando, enquanto observava uma das crianças chorando porque havia caído em cima de um tijolo – Eu sou a mais nova da minha família, e a mais protegida por causa de meus poderes que, assim como você disse, são ‘’á flor da pele’’.
–Nossa, deve ser terrível viver isolado. – Ele pegou uma pequena pedra, e jogou-a no rio próximo. Ao bater na água, porém, não houve estrondo: a pedra simplesmente pousou tranquilamente no rio – Eu tento esconder meus poderes, assim como você. A minha mãe é relativamente boa em magia, mas não consegue controlá-la caso usando-a em excesso. Nossa casa é bem espaçosa, e a mais distante de todas as outras do vilarejo. Alguns consideram-na mal assombrada, ou formada por uma família esquisita.
–Você não tem pena dessas pessoas? – eu perguntei, não me aguentando mais – Digo, desses cidadãos que vivem sem nenhum contato com a magia e benefícios que apenas nós temos?
Ouvi ele suspirando.
–É claro que eu tenho, mas o que nós podemos fazer? Se mostrarmos nossas habilidades sobrenaturais para eles, nos acusarão de bruxaria e todos irão nos matar, e, embora nossa magia exista, seria bem difícil nos defendermos deles. Se não mostrarmos, tudo continuará igual, e ninguém vai poder mudar isso. De vez eu quando eu as vezes procuro matar os animais ao redor do vilarejo para facilitar sua caça, e deixo frutas saudáveis nas florestas.
–Isso tudo por causa do Khronos... – Eu bufei irritada, fechando os olhos. Não conseguia suportar a ideia de que toda a desigualdade era causada unicamente por causa do egoísmo de um deus. Ele, no entanto, me encarou com uma expressão de dúvida.
–Khronos? Quem é esse Khronos? O seu pai?
–Não, o meu pai se chama Henegogh. Você não sabe quem é Khronos? – eu lhe perguntei, olhando-o, mas ele negou com a cabeça. Eu me espantei logo que ouvi isso, mas logo me dei conta que Khronos não aparecia para os humanos, nem para os mágicos, e nós, os Ghenoment, só sabíamos de sua existência por conta da DreamStone – Khronos é o responsável pela criação do universo, do Astro Azul e da raça humana, juntamente com a criação da Atlântida. Ele é o responsável por isso tudo.
–Atlântida... fala da grande ilha flutuante? Aquela que só é possível vê-la em cima de uma montanha extremamente alta? – Ele me perguntou, com a testa franzida.
Eu assenti.
–Khronos é o ser que criou tudo e todos. No entanto, quando ele havia passado para descansar no Astro Azul após recriar o universo, a vida no astro se formou, juntamente com a natureza. Quando ele foi embora, uma parte de sua essência se transformou...
–...Na DreamStone. – Nabat complementou, e eu assenti – Isso significa que os NekroMasters, a raça que vive ao lado dele, também é sua criação? O meu pai me contou algumas dessas coisas há muito tempo. E que a magia se deu porque os humanos tiveram acesso incorreto à pedra?
–Exatamente. Tudo isso é por causa daquele miserável que não liga para os humanos! – Eu me levantei, enfurecida, e criei uma rocha em minha mão, que a joguei com força no alto, com esperança que atingisse Atlântida. No entanto, ao subir certa altura, ela caiu no solo firme, se espatifando por completo, me deixando que nem uma idiota em pé.
–Isso não vai adiantar. Eu já tentei destruí-la antes. – ele comentou, soltando um riso meio envergonhado – Ou você acha que eu ficaria parado diante dessa situação? Eu sou mais ou menos como você. É impossível destruí-la.
Começamos a caminhar pelo vale mais próximo. Era um local razoavelmente bonito: tinha várias flores, como se fosse um tipo de jardim. Era um local alto, então dava para ver casas de outras vilas também.
–Eu queria ter a posse dessa DreamStone – Nabat comentou, suspirando – Digo, se fosse possível que nós a tivéssemos... nós poderíamos libertar os que não desenvolveram um Carma mágico. Assim, não só as famílias mágicas teriam direito... mas é bem provável que ela já não exista mais.
–...É provável... – Eu comentei, olhando um pouco pro lado, evitando olhar diretamente em seus olhos, em vez disso, observando as plantas.
–Eu queria ver a aparência daquela pedra, digo, foi ela que nos deu essa poder, não foi? – ele sorriu pra mim, e percebi que seu dentes eram um pouco desalinhados, porém extremamente brancos – Mas, infelizmente, alguém deve ter dado sumiço à ela, ou ela mesmo deve ter evaporado... bem, isso foi a muito tempo atrás, certo?
Eu engoli em seco, e assenti.
–É, com certeza... ninguém pode saber se ela ainda existe. – Concordei, meio envergonhada, embora eu soubesse onde a DreamStone estava.
***
Já estava anoitecendo. Eram cerca de seis horas da noite, e eu e Nabat ainda estávamos andando pelo vilarejo. Ele brincava constantemente com bolhas de sabão que formava na mão, enquanto olhávamos o céu escurecendo. As pessoas de suas vilas já voltavam para suas casas, geralmente feitas de pedras ou madeira pura.
–Por que eles já estão voltando pra suas casas? – Eu perguntei para Nabat, enquanto observava as crianças sendo arrastadas por suas mães. Alguns objetos das pessoas eram levados novamente para casa com pressa, mas em geral, a vila tinha mais pedra do que pessoas.
–Porque eles temem que alguns lobos saiam da floresta e venham para estas redondezas – ele respondeu – Geralmente fazem isso. Alguns já atacaram pessoas à noite, o que fez outras se refugiarem em cavernas para fugir dos animais. Sabe, eles não tem nenhum recurso mágico pra domar aquelas bestas ferozes, ou muito menos adquirir objetos bons que só são feitos com magia. Muito menos comida.
Senti meu rosto corar. As noites no palácio eram sempre muito seguras, afinal, a pedra que tapava a entrada para o palácio era gigantesca. Geralmente, se fazia um banquete enorme de noite, e começavam os jogos, que geralmente envolviam magia. Enquanto isso, várias e várias pessoas viviam se refugiando das feras, ou lutando pra conseguir alguma coisa do Astro Azul que não fosse mágico, e lutando contra a fome e falta de armas suficientes. Enquanto isso, os NekroMasters viviam em situação extremamente melhor que a nossa, sem precisar de esconder dos outros ou se esconder de feras.
E era assim que os humanos viviam: como gatos fugindo da chuva. Nos refugiando, ou nos ocultando com medo que nos acusassem de bruxaria e atacassem-nos com fogo ou algo do tipo. Os humanos na conseguiam matar as feras, mas já condenaram centenas de pessoas mágicas. Além disso, mesmo as pessoas que tinham poderes não tinham tudo o que necessitavam, sendo obrigadas a usarem a magia para tudo, o que nem sempre era fácil. Os Ghenoment tinham a sorte de ter a DreamStone, para caso precisassem aumentar seus poderes mágicos.
–Bem – Nabat suspirou – eu acho que já vou pra casa também. Minha mãe vai ficar preocupada se eu demorar, achando que eu me perdi na floresta. Bem, até amanhã, Linea. Foi um prazer lhe conhecer. – Ele sorriu pra mim, e já ia dando meia volta quando eu peguei no seu braço de repente, fazendo-o se assustar – O que foi?
–Você não disse que queria ver a DreamStone? – eu perguntei, fazendo-o franzir a testa- Não queria conhecê-la, tocá-la? Pois bem, eu sei onde ela está.
Ele se virou pra mim
–Ah, não seja tola, Linea. Essa pedra já não deve existir a séc....
–Não, eu estou dizendo – eu respondi, antes que ele continuasse, com a ansiedade crescendo em meu peito – Eu sei... eu sei exatamente onde ela está agora. Sei onde achá-la. Onde a DreamStone está.
– E onde ela está? – ele me perguntou, com um olhar incrédulo, e eu respondi com um olhar sério:
–No palácio dos Ghenoment. Precisamos roubá-la, e assim chamar a atenção de Khronos. – eu disse, e seus olhos se arregalaram, como se ele fosse fazer mil perguntas, mas antes disso, eu complementei: — Precisamos chamar a atenção de Khronos. Eu não aguento mais isso, de ficar fugindo igual uma vaca. Vamos, a minha casa é perto.
***
–Filha, você ainda vai sair? – meu pai perguntou, me encarando de um jeito estranho, enquanto eu me dirigia para a saída com a DreamStone que eu havia acabado de roubar escondida no meu bolso – Já são 901 minózimos abaixo da Planetária. A Sétima Refeição está prestes a se iniciar, onde você está indo?
–A-Ah, eu só estou indo dar uma volta rápido, papai... – eu falei – Sério, eu não me demoro nada.
–E para onde você quer ir no mundo exterior? – ele me perguntou, com sua voz rígida e olhar sério – Você tem tudo aqui. O seu mundo é aqui. Não me venha com essas bobagens, vamos, deve estar frio lá fora.
–Papai, se você não percebe, o mundo afora é frio. – eu retruquei, encarando-o sem paciência. Eu já não poderia suportar mais aquilo – Essa região é predominante de neve. Mas, como o senhor vive apenas escondido eternamente, talvez nem saiba que estamos em um caverna.
–Não seja atrevido comigo, menina. – ele respondeu – E você é a princesa dos Ghenoment, minha querida. Vamos, esqueça o mundo afora. Você deveria viver conosco apenas.
–É verdade, Linea – ouvi uma voz feminina e irritante do meu lado. Ao me virar, me deparei com a minha prima, Benekruth, magricela e venenosa como sempre, com um batom extremamente irritante – Você não deve ficar saindo por ai, se socializando com os outros, lembre-se que somos únicos. Ou vão pensar que você está nos traindo, veja bem isso... — Ela deu uma risada escrota e irritante, repetitiva e alta. Antes que eu retrucasse alguma coisa, meu pai perguntou:
–Linea Ghenoment, você, minha filha, por acaso está se esquecendo dos mandamentos que temos nessa ordem? – eu me virei pra ele, o encarando – Não pode vê-los, Eles não a podem sentir, Não podes demonstrar...
–...Sempre ocultar, Sempre obediente serás. – Eu completei, fechando meu pulso com força nas costas, me esforçando para não ter uma crise ali.
–Exatamente, querida. Vamos, você tem tudo aqui, não deves sair com esses outros nojentos que lhe trazem más influências. – Meu pai falou, colocando a mão sobre meu ombro e tentando me puxar, mas eu continuei onde estava.
–Ora, Linea, você é tão rebelde... Ohohohohoho.....- Benekruth saiu, rindo debochadamente, rebolando pelo salão. Eu odiava aquela vadia nojenta, assim como a maioria daquele palácio.
Eu não podia deixar Nabat esperando por muito tempo.
–Papai, é sério,eu... eu prometo que não farei nada de errado. Eu lhe juro, confie em mim. Eu tenho dezessete anos, sei exatamente quais são os mandamentos, e não os quebrarei de jeito nenhum. Eu juro a você!
Esperei. Meu pai me observava com um olhar que eu não conseguia decifrar o que se passava em sua cabeça, até que ele abriu a boca:
–Tem certeza de que quer se atrasar para o banquete? – Ele me perguntou, com sua voz séria.
–Eu lhe prometo que não demorarei nada.
***
–Nabat! – eu o chamei, assim que a pedra que selava a montanha foi fechada. Ele estava esperando atrás de uma das pedras em volta da montanha, e todo o local estava coberto de neve. Ao ouvir a minha voz, ele saiu da rocha, me avistando.
–Ah, até que enfim, eu achei que seu pai a havia proibido de sair – ele comentou, olhando para a gigantesca pedra atrás de mim, quando havia chegado próxima a rocha – Uau... É aí dentro o seu palácio? Ninguém pode entrar...
–Isso não importa, veja... – eu retirei a bolsa de couro que estava amarrada à minha cintura por baixo da capa que rodeava o meu corpo. Ao retirá-la, Nabat franziu a testa – Por favor, não conte isso a ninguém, e não fale alto quando a vir...
Abri a bolsa de couro, e de lá, eu retirei um objeto que logo reluziu à luz da lua. Nabat arregalou os olhos, quase sem conseguir reproduzir nenhum som.
–É...É isso mesmo?
A pedra tinha um tom vermelho vivo e brilhante, e não parecia bem uma pedra, mas sim uma pérola. Era redonda, com uma base abaixo dela. Dessa base, várias penas azuis duras saíam, a circulando e se encontrando no topo, formando uma águia dourada. De vista, parecia um objeto relativamente comum, mas a energia que ela emanava era diferente.
Aquela era a DreamStone, que deu o poder mágico aos humanos. E eu estava a segurando, como se fosse o objeto mais banal de todos.
–...Tem certeza que é ela? – Nabat me perguntou, analisando-a – Não parece ser maravilhosa... apenas bonita. E não tem um aspecto envelhecido. Tem realmente certeza que essa é a DreamStone?
–Pode tocá-la, se duvida de mim. Você sentirá isso na sua pele. – Eu sorri ,como uma menina sapeca que desafia o irmão a comer uma guloseima proibida. Eu estendi a pedra até perto dele, e, lentamente, ele a tocou. Quando as duas mãos finalmente tocaram juntas a pedra, uma luz azul extremamente forte saiu, iluminando completamente as mãos dele. Minhas mãos puderam sentir o impacto de poder. Assustado, Nabat rapidamente retirou a mão, com seus olhos arregalados.
–Mas que diabos...
Assim que ele abriu novamente as mãos para conferir se elas estavam bem, dela, saíram cristais de neve brilhantes, em conjunto, que, ao se juntarem, formaram vários pássaros azuis transparentes. Eles sobrevoaram nossas cabeças, fazendo cair luzes estranhas, e estouraram logo em seguida, enquanto Nabat olhava impressionado. Com os estouros, gotas de água caíram em cima de nós, e eu, sorrindo, lhe perguntei:
–Sente que seu poder aumentou, certo? Você ainda duvida que seja ela mesma?
Ele, incrédulo, olhou para mim:
–Essa é a DreamStone... sem dúvidas. Então... você esteve em contato com ela durante todo esse tempo? – antes que eu respondesse, ele logo exclamou: — Linea, você tem ideia do que nós temos em mãos? Essa pedra pode trazer um poder mágico para todas as pessoas, acabando assim, de vez, toda essa diferença causada!
–Não, não vamos fazer isso. – eu respondi, e, ao vê-lo franzir a festa incrédulo, complementei: — Há vários séculos, todos os humanos tiveram contato com essa pedra. Centenas e centenas adquiriram poderes mágicos, e apenas uma minoria extremamente pequena não desenvolveu nenhum poder. Todos tinham poderes ao seu dispor à qualquer momento, e sabe o que aconteceu?
Ele não respondeu nada.
–As pessoas saíram do controle. Nenhuma delas conseguiu controlar o poder, e ele começou a se manifestar de diversas formas, até que diversas florestas foram destruídas e diversas partes do mundo congeladas.Várias pessoas morreram porque tiveram seus poderes fora do controle, ou se mataram, ou mataram outros. Dos que conseguiram fugir do caos, apenas alguns conseguiram controlar perfeitamente seu poder mágico, e esses sobreviveram escondidos. Já a minoria sem poder algum procriou em diversas gerações, pois foram as menos envolvidas nisso. Algum antepassado meu conseguiu roubar a DreamStone para sua posse, e desde então ela vem sido escondida do resto do mundo. É a primeira vez em séculos que ela sai daquela caverna. E sim, aquele palácio tem setecentos anos.
Nabat fazia uma expressão assustada.
–Então... alguém roubou a pedra e se refugiou dentro daquela caverna, e desde então passou a ser escondida lá? Nunca mais saiu para o lado de fora, sendo essa a primeira vez em setecentos anos?
–Exatamente! – eu respondi – Se dermos poderes aos habitantes dos vilarejos, eles também não conseguir controlar o Carma, como foram várias pessoas que adquiriram o poder anos atrás. Apenas iremos causar um caos que foi impedido graças à alguém que se ocultou na caverna.
–Mas, então, Linea... – Nabat começou – Se esse objeto é extremamente perigoso, por que o trouxe para fora? E não me diga que foi apenas para me mostrar, senão...
–Não, de fato, não foi só para isso. Eu quero... – eu engoli em seco – V-Você vai ver... venha comigo, me siga.
***
Deveria ser extremamente tarde da noite, enquanto eu e Nabat andávamos pelas montanhas congeladas.
O céu já havia escurecido por completo. A única luz era por conta da lua ou da Atlântida e das ilhas em volta, que estavam bem iluminadas. Andávamos entre a neve, e devíamos estar quilômetros acima do nível do mar.
–Linea... – Nabat falou, enquanto, atrás de mim, tentava se livrar da neve – O que... o que você quer fazer? Estamos andando à Henômios, e você não disse ainda o que quer fazer. O seu pai não vai estranhar a sua demora? E o seu banquete? Linea?
Eu me virei, enquanto não sentia nenhum frio graças á minha magia. Nabat também não parecia estar sentindo nenhum frio. Eu hesitei por alguns instantes, e finalmente falei:
–Eu... Eu estou fugindo. – admiti – Não voltarei mais para aquele palácio de jeito nenhum. Eu... Eu já me cansei.
–Mas, Linea, o seu pai... – Ele começou, mas eu o interrompi, irritada:
–E quem liga pra ele? – eu retruquei, fazendo-o se assustar um pouco – Eu já me cansei de tudo aquilo! Já me cansei de ser uma princesinha, que não pode sair direito. Me cansei dos Ghenoments, me cansei de toda essa vida. Eu me cansei de tudo. Não quero mais voltar pra lá. Estou fugindo. Pelo que você me contou enquanto vínhamos para cá, você tem problemas com a sua família também, não é?
–Mas, Linea, isso não é arriscado? – ele perguntou – Digo, alguém pode perceber nosso sumiço... e justamente você... que é tão...
–Eu já lhe disse, estou abandonando eternamente aquele lugar. – eu repondi – Eu não voltarei mais. Eu ainda não lhe disse o que viemos fazer aqui certo?
Ele negou com a cabeça, calado, provavelmente esperando uma explicação de minha parte.
–Irei chamar a atenção de Khronos com isso. – expliquei, retirando novamente a DreamStone e mostrando-a – Com ela. Irei tentar chamar a atenção de Khronos, para que ele não nos ignore. E, mesmo que isso não seja possível, fugirei. Você não quer vir comigo? – ofereci, e ele franziu a testa de leve – Fugiremos para bem longe dessas pessoas, dos nossos pais, de todo o mundo. Seremos livres, sem regras.
–Mas, Linea... você tem certeza disso? E se nos descobrirem? – Ele me perguntou, olhando para trás.
–Vamos, não temos muito tempo antes que a noite termine – disse, me virando para frente – E tem que ser nesta noite.
Ficamos em silêncio, andando por muito tempo, enquanto observávamos as luzes e efeitos sonoros que saíam das cidades flutuantes. Eu já me decidira. Não voltaria para os Ghenoment nem que fosse a minha única escolha. Fugiria com Nabat,e chamaríamos a atenção de Khronos. Finalmente eu havia encontrado alguém com os mesmos sentimentos que eu, e eu tinha certeza de que, se juntássemos nossas forças, conseguiríamos chamar a atenção dele.
–Linea... está fazendo muito frio... – ele disse, do meu lado, com as mãos nos ombros – Nem a minha magia está fazendo muito efeito...
–É, realmente está frio... – admiti – Mas não voltarei.Passei anos no conforto e no calor daquele palácio, enquanto várias pessoas morriam congeladas, ou pelas bestas, tentando achar comida, ou tentando extrair alguma coisa do Astro Azul, sem nenhum recurso que só poderiam ser adquiridos com magia.
Andamos mais alguns passos, até que eu parei de ouvir os passos dele.
No começo, achei apenas que era minha impressão, mas, ao andar uns dez passos, me virei para trás, e Nabat estava parado à uma distância razoável, me olhando.
–O... O que foi ,Nabat? – eu lhe perguntei, franzindo a testa – Você não está mais conseguindo andar por causa do frio?
–Linea, eu não vou mais adiante. – ele falou, e eu franzi a testa, um pouco assustada – Eu... e-eu entendo como se sente, mas... eu acho que as coisas não podem ser resolvidas dessa forma.
–...Mas como não? – eu indaguei – Você... você não quer se libertar de toda essa opressão?
–Sim, Linea, eu quero... mas não acho que o que está fazendo é certo – ele respondeu – Você não pode simplesmente fugir, com a DreamStone, e tentar chamar a atenção de Khronos. Você poderia falar com a sua família primeiro.
–Nabat, você não entende? – eu perguntei – Eles... eles não vão entender... enquanto todos tiverem o máximo de privilégios possíveis, não farão nada que considerem arriscado. Eu não roubei isso a toa, você... você vai me abandonar aqui?
Senti um vazio no peito. Embora eu tivesse conhecido Nabat há pouco tempo, eu me sentia sozinha sobre o fato de ter que fazer aquilo sozinha. A única pessoa que realmente me entendia, agora, estava querendo voltar atrás.
–Linea, vamos voltar pra casa. – ele sugeriu, recuando – Isso...Isso é loucura. Seus parentes devem estar preocupados, assim como os meus.
–Você mesmo não disse que os abandonaria assim que pudesse, Nabat? – eu perguntei, incrédula – Digo, agora nós finalmente podemos...
–Não, Linea. Eu não vou abandoná-los assim... é sério, vamos voltar pra casa. É melhor para nós dois.
–Eu não posso voltar logo após percorrer esse caminho todo até aqui, Nabat! – Eu exclamei, incrédula com tudo aquilo. Na verdade, eu deveria estar sendo super egoísta, obrigando-o fazer aquilo, mas estava impaciente demais com tudo aquilo para percebê-lo.
–Então, boa sorte na sua aventura; foi um prazer lhe conhecer, Linea Ghenoment. Até algum dia! – Ele falou, acenando para mim e dando as costas, logo começando a correr
–Ei, espere Naba–--.... – Porém, quando me dei conta, uma rajada de neve aconteceu na minha frente, me forçando fechar os olhos. Ao conseguir abri-los novamente, percebi que Nabat havia desaparecido com a neve; rápido e silencioso, sem deixar nenhum vestígio dele para trás.
Por um momento, fiquei ali parada, olhando para o local onde Nabat sumira, pensando na possibilidade que ele falara – realmente, eu poderia voltar para o palácio, e talvez, algum dia mais para frente, pensar na possibilidade de chamar Khronos. Eu levaria diversos sermões do meu pai, talvez até me proibiria de sair de casa. Mas fora isso, minha vida voltaria ao normal, como sempre; e as pessoas continuariam sofrendo, sendo a magia concentrada em apenas uma parte da população.
Não. Eu havia decidido mentalmente que não faria isso. Eu roubara a DreamStone, que não saía de dentro da caverna desde séculos e séculos. Havia percorrido um caminho imenso. Não iria desistir covardemente, assim como Nabat fizera.
Sem nem pensar duas vezes, virei me para frente, novamente encarando o caminho que faltara para mim percorrer. Comecei a andar; logo, esses passos se tornaram mais rápidos; logo, se tornaram rápidos demais ; até eu me perceber correndo intensamente na neve, usando minha magia para não tropeçar, enquanto guardava a pedra na bolsa de couro novamente.
Após longos quilômetros de corrida, finalmente, eu cheguei ao topo da montanha. Era um ponto extremamente rarefeito, onde eu tive que usar novamente meu Carma para manter minha respiração normalizada.
Após recuperar o fôlego, olhei para cima. No céu, pude avistar uma aurora, bela e viva como um pássaro colorido a voar nos céus. Além dele, lá estava Atlântida, com suas belas águas caindo de suas beiradas e as outras filhas com diversas luzes.
O ar de onde eu estava era rarefeito. O vento estava muito forte. Ao olhar para baixo, havia uma cratera gigante, como um buraco negro no chão, porém, nele, dava para alguém escalar até o lado de baixo com determinada precaução.
–Foi aqui que a DreamStone estava quando os humanos a encontraram... – eu disse para mim mesma – E daqui, Khronos foi embora, construindo sua cidade flutuante...
Mesmo sobre o frio, eu retirei a capa azul do meu corpo, ficando apenas com um vestido simples roxo, juntamente com a bolsa de couro. Minha respiração estava um pouco ofegante. Não pelo fato do ar rarefeito, mas pelo medo que me tomou naquele momento, ao retirar novamente a pedra da bolsa, e a segurar firme nas minhas mãos. Encarando-a, eu falei, como um tipo de prece:
–Hoje... é o dia que tudo isso acaba... – a pedra permanecia normal, com apenas o meu rosto refletido no vidro vermelho, e eu prossegui, como e ela fosse alguém vivo: — “Não podes sair, filha.’’, ‘’Não pode vê-los’’, ‘’Não os deixem te ver’’, ‘’Não os deixem saber do seu poder’’....
Olhei para baixo. Embora tivesse um ar rarefeito, de lá, eu percebia diversas e diversas vilas muito abaixo. Alguns eu conseguia enxergar por pouco, ás vezes apenas com a presença das tochas e fogueiras, e percebi que ali era um local que tinha conexão direta com várias pessoas. ‘’Ótimo’’, eu pensei. ‘’É exatamente disso que eu preciso’’.
–Bem, papai... – eu suspirei, e a DreamStone começou a brilhar lentamente, até atingir um brilho inigualável — ...agora eles saberão.
Em um movimento rápido, eu ergui a pedra e a lancei com força no céu, com toda a força que pude pôr, usando toda a minha magia. Foi o suficiente. A pedra não voltou ao chão. Ficou erguida no céu, até que soltou um brilho extremamente reluzente, me forçando a fechar os olhos, torcendo para que o que eu tivesse feito estivesse certo – e estava. O clarão provocou um efeito como se estivesse de dia, fazendo o céu ficar extremamente claro, apenas com um tom meio amarelado. A pedra, no alto, soltou uma ventania muito forte, me forçando a usar meu Carma mágico para me manter onde estava.
Percebi que logo as pessoas lá embaixo saíram, assustadas, para ver o estranho fenômeno que estava acontecendo. De lá de cima, ninguém podia me ver, muito menos a pedra mágica brilhando no céu. Percebi que várias pessoas começaram a se tumultuar lentamente.
–Bem – eu estralei os dedos, balançando os cabelos e dando um sorrisinho sapeca em direção á Atlântida, logo preparando meu Carma para o que viria á seguir – É agora.
Eu pus os pés no ar, e de repente, uma escada começou a se formar. Eu saí correndo com toda a minha rapidez, e a cada passo que eu dava, a escada aumentava. Era uma escada marrom, feita de madeira que brotava a cada segundo. Eu estendi meus braços para os lados, procurando emanar o máximo de energia que eu pudesse.
Foi mais que o suficiente. Uma energia verde saiu de minhas mãos, e neve dourada começou a cair. Fiz aparecer água na escada, que corria em direção contrária á minha, enquanto eu observava, olhando para baixo, que as pessoas olhavam incrédulas, umas apavoradas, outras maravilhadas. Fiz com que flores e plantas começassem a nascer ao fazer um movimento com meus braços, e toda a neve das montanhas ao redor foram substituídas por rosas e margaridas; continuei a subir desesperadamente, e de meus dedos, fiz vários rojões subirem aos céus, que explodiram e se tornaram estrondos gigantescos ao redor da Atlântida. Eu comecei a rodopiar, enquanto cantava com a maior altura e beleza que consegui:
‘’Uma magnífica cidade sempre a flutuar
E uma menina estranha sempre a cantar
Eu não irei parar de te perseguir
Por favor, eu imploro que me escute aqui
Eu sempre irei te pedir
Saia dessa sua ilha idiota que você vive!
Khronos, eu lhe peço por favor
Nos note, eu lhe peço por favor
Mais magia e mais beleza
Saindo do meu mágico interior
Mas pelos cantos, Vossa alteza,
Nos escute, eu lhe peço por favor
Percebas por favor, as pessoas que aqui sofrem!
Em um singelo e simples rodopio
Eu faço nevar
E faço as rosas, tulipas e as águas começarem a brotar”
Diversas árvores brilhantes começaram a brotar da cratera, e fiz um piso de vidro ao redor. Desci das escadas, caindo sem quebrar o piso que tinha acabado de fazer. Logo que a água lá se formou também, comecei a criar luzes e mais luzes, que começaram a rodopiar todos os lugares ali próximos, que, ao caírem lá em baixo, faziam casas se tornarem belas, ou terras se tornarem floridas. Eu deveria parecer uma louca ali, e mais ainda porque eu rasguei minha roupa logo em seguida, ficando nua. Dançando, voltei a cantar:
‘’Mas Khronos, eu lhe peço por favor
Você não percebe nada disso, eu lhe peço por favor
As pessoas precisam de ajuda, eu lhe imploro por favor!
Para controlar o Carma elas precisam de seu louvor
Não me ignore, eu lhe peço por favor!
A noite que se transforma em dia
Uma pedra que lá no alto rodopia
Sim, eu a roubei
Sim, eu definitivamente a usei
Depois de séculos, eu a peguei
Mas por uma boa causa eu farei!
Eu fugi para não mais voltar
Pouco me importa de mim o que irão falar
Eu só não quero essa realidade, eu lhe peço por favor
Pois finalmente livre eu estou!
Uma noite em nevadas
Nevadas que agora estão douradas
Rios passaram a correr
E animais começaram a morrer
Terras, casas, os lugares ao redor
Tiveram melhorias com meu poder
Mas, não suficiente
Precisamos da sua ajuda!
Não me faça de otária, eu definitivamente lhe peço, por favor!
A santa noite da libertação
A santa noite dos rodopios e uma canção
Eu a apelido de ‘Walpurgis’
A noite da salvação
Sim, eu lhe peço por favor
Pessoas, me notem também, eu lhe peço por favor
Vamos todos danças e curtir
A noite, eu lhe peço por favor!
Khronos, vossa alteza miserável, eu lhe peço por favor!
Saia do seu maldito trono e nos note, eu lhe ordeno, por favor!”
E, ainda nua, eu parei no chão, e, movendo os dedos, fiz com que as luzes ferozes se posicionassem em uma pose de ataque, diretamente mirada à Atlântida. As pessoas já não paravam de olhar, enquanto os lugares se esquentavam e rios brotavam, juntamente com flores e comidas que apareciam do nada. Meus cantos chegavam aos ouvidos de todos, e os ventos coloridos influenciavam para que as pessoas me olhassem lá de baixo. A cada momento que se passava, senti o meu poder interior aumentar constantemente, me sentindo cada vez mais poderosa do que nunca. Provavelmente minha família, ou qualquer outra família com poderes mágicos fluentes, estaria gritando de nervos nesse momento; mas eu já não me importava mais. Eu me sentia cada vez mais próxima da liberdade.
A DreamStone finalmente caiu, vindo diretamente para as minhas mãos, brilhando mais do que nunca. Eu percebi uma levíssima mancha negra se formando em seu interior, mas, achando que se tratava de algum efeito banal da pedra, deixei para lá.
–Agora – eu falei, olhando ameaçadoramente para Atlântida, novamente com um olhar sapeca roxo – você vai me notar, seu deus de merda...
Assim que apontei a pedra em direção à ilha, eu já ia lançando as luzes diretamente contra as ilhas flutuantes – o que daria um belo espetáculo de se ver. Porém, fui impedida ao ouvir uma voz extremamente alta e estridente, vinda da Atlântida:
‘’Mas que bagunça é essa que está acontecendo aí?”
Imediatamente, todo o meu campo de vista ficou vermelho. Todo o local foi preenchido pela cor vermelha, e um ruído ensurdecedor foi emanado, me forçando tapar fortemente meus ouvidos com toda a força que eu pude.
Ao final do ruído, quando as coisas se acalmaram mais, finalmente olhei para cima, e me espantei com a vista que tive: Um homem descia, flutuando, se aproximando de mim, vindo da Atlântida.
Mas não era um homem qualquer. Ele emanava uma presença enorme. Ele era alto, tinha cabelos negros e arrumados, barba, olhos extremamente azuis e rosto sem defeito algum; era, de fato, muito bonito. Usava um longo manto vermelho, segurava um cetro com uma espécime de relógio dourado no centro, e usava um tipo de armadura do debaixo do manto. Sua presença emanava direito sobre o local, como se ele mandasse ali.
Aquele era Khronos, e eu sabia perfeitamente bem disso.
O único problema era que: enquanto ele estava extremamente sofisticado, eu estava nua perante ele. Cena linda de se ver – ou não.
–Posso saber – ele começou, olhando em volta, observando toda a bagunça que eu havia feito, até seus olhos baterem em mim, que estava meio envergonhada – o que diabos foi tudo isso? Você incomodou todos os NekroMasters, e afinal... quem é você?
–Eu sou Linea Ghenoment, senhor Khronos. –eu falei, procurando manter-me calma. O frio novamente voltara a me incomodar, mas a diferença era que agora eu estava completamente pelada – Eu vim chamar a sua atenção no meio da noite, para exigir suas opiniões.
–...Opiniões? – Ele me indagou, ainda observando em volta o que eu havia feito, até seus olhos pararem na DreamStone, e seus olhos se arregalaram – Isso... o que é isto que você segura?
–Isto, senhor – eu a estendi, fazendo-a ficar de frente para Khronos – É um pedaço de seu fragmento que se soltou, quando você cansou-se de descansar no Astro Azul e subiu para criar a Atlântida. Essa é a DreamStone.
–DreamStone? – ele pegou na pedra, a analisando com cuidado, enquanto eu me mantive calada, apenas observando a cena, e admirando-o por ser extremamente bonito, mais inclusive do que eu pensava que fosse – Um fragmento meu se soltou?
–Este fragmento entrou em contato com os seres humanos, os nativos daqui, como eu, e assim desenvolveu um Carma de poder energeticamente mágico muito forte, fazendo com que nós, humanos, passássemos a ter poderes.
Expliquei toda a situação para ele em alguns minutos. As pessoas lá embaixo olhavam com curiosidade para cima, procurando ver alguma coisa. Alguns subiram a montanha e observavam a cena, falando entre si um pouco alto demais. Ao longo em que eu explicava cada detalhe da situação para Khronos, seus olhos azuis pareciam mudar de tom vez ou outra, embora eu achasse que fosse apenas impressão.
–Precisamos do seu poder- finalizei – Precisamos que o senhor faça alguma coisa para que todos os humanos passem a controlar um poder mágico como queira, tendo tanto benefício como seus NekroMasters.
Ele ficou calado por alguns segundos, enquanto várias pessoas murmuravam entre si. Eu ainda estava vermelha pelo ato de estar nua, mas não poderia demonstrar fraqueza depois de percorrer todo aquele perigoso caminho até ali. Até que ele respondeu:
–Você veio no meio de uma noite extremamente fria, desobedecendo todas as ordens e conselhos que lhe deram, arriscando sua vida e seu poder apenas para chamar a minha atenção?
–Se o senhor recusar em nos ajudar, eu continuarei a bagunçar por aqui. – ameacei – Eu não vou embora enquanto as pessoas não tenham tanto direito quanto a sua raça superior. Não irei sair, mesmo que me obrigue. Irei enfrentá-lo até que eu morra.
Por um tempo, fiquei receosa que ele fosse me pulverizar – mas ele não o fez. Ao invés disso, um sorriso meio bondoso surgiu em seu rosto, como se aprovasse o meu comportamento – o que era algo totalmente estranho. Então, ele falou:
–Pois bem, Linea Ghenoment, e todos os humanos – ele ergueu o cetro para o alto, e sua voz ressoou por todo o local: — Conforme sejam os pedidos dessa bela jovem, eu concedo aos humanos a capacidade de controlar seus poderes mágicos em todos os aspectos!
Quando eu pisquei, percebi que uma luz ainda maior que a que a DreamStone exibiu saiu do relógio que estava no centro do cetro. Essa luz me cegou, me forçando a fechar meus olhos com todas as forças e por os braços na frente. Quando tornei a abri-los, percebi que bilhares e bilhares de feixes de luz pairavam no céu, a espera de uma ordem.
–Vão. – Khronos anunciou, e cada luz foi até um humano e lhe concedeu uma espécime de relógio eou colar. Eu e Khronos observamos, eu estando incrédula, enquanto o Astro Azul brilhou intensamente, até cada ser substituída por um palácio, esculturas que se formaram, monumentos e calçadas que logo ligaram um vilarejo ao outro. As bestas logo foram todas assinadas, e as florestas progrediram e flores cresceram em todos os locais, até que todas as pessoas estavam com apetrechos estranhos. Eu, sem entender nada do que estava acontecendo, indaguei:
–Hã... o-o que foi isso?
–Eu concedi mecanismos que explorem a capacidade mágica oculta de cada um – ele me explicou, sorrindo para mim sem mostrar os dentes, de um jeito meio charmoso – Agora, eu anuncio que a Atlântida e o Astro Azul terão uma ligação eterna, e que os humanos serão igualmente beneficiados; objetos e tecnologias serão usadas no planeta. Mas, eu não posso fazer isso sozinho – ele disse, e eu franzi a testa, sem entender muito o que ele queria dizer com tudo aquilo, ainda com minha cabeça girando à mil – Eu preciso de uma governanta que possa me auxiliar no desenvolvimento desse Astro.
Ele apontou para mim, e, subitamente, senti um calor intenso invadir meu corpo. Quando olhei para baixo, percebi que um longo vestido azul-marinho apareceu em meu corpo. Era um vestido extremamente luxuoso em cada parte, com bordas brancas e onduladas, sendo um vestido bem justo. Joias e brincos apareceram em mim, e meu cabelo foi solto. Minhas unhas foram automaticamente pintadas, e recebi um salto alto. Eu estava completamente confusa com aquilo. Minha mente estava á mil, sem entender o fato de uma roupa luxuosa ter simplesmente aparecido em meu corpo, como se eu fosse um tipo de... governanta. Então, foi quando Khronos deu seu último anuncio naquela Noite de Walpurgis:
–Eu declaro Linea Ghenoment a rainha desse planeta, que governará sob minhas aprovações. A partir de hoje, nenhum humano estará na miséria, Linea Ghenoment terá todos os poderes possíveis, e a DreamStone ficará comigo.
Ω
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