Christmas eve
1 A magia do Natal
“I'll be home with my love this Christmas…”
Os sorrisos eram fáceis, a vida parecia mais leve quando encerrou a entrega dos presentes ao lado dele, sendo seu bom ajudante, um entregador muito eficiente.
A neve caía e tingia de branco tudo o que não era, acentuava o que já tinha aquele tom, como os fios compridos de Klaus, a barba. Detalhes que ao longo do ano, Jesper passou a notar e se deixar encantar.
Enquanto voltavam, ouviam a alegria das crianças da vila ao encontrarem os presentes de Natal, riam enquanto as renas seguiam caminho sob controle de Klaus, as rédeas firmes para que não se perdessem em seus passos rápidos em meio à neve que os fazia perder a trilha que os levaria de volta ao lar.
Havia cumplicidade, havia um ou outro olhar curioso entre eles, houve também um momento de calor e constrangimento quando as mãos se encontraram ao repousar no banco do trenó.
O resvalar de dedos, o entrelaçar suave e momentâneo. A gargalhada de Klaus ao tentar mudar o rumo do evidente constrangimento de ambos, não por qualquer desconforto, pelo contrário.
— Um chá cairia bem, não acha? — Jesper indagou ao descer do trenó, limpando o grosso casaco, sabendo que outros os esperavam ali.
— Claro, com certeza!
A animação se manteve com eles, enquanto Márgu corria para abraçar Jesper, tão logo caindo no sono em seu colo enquanto sua família ajudava na breve limpeza da cabana de Klaus. A conversa fluiu de animada à algo cansado, a animação da véspera de Natal dando lugar ao cansaço de tamanho trabalho e empenho.
Aos poucos, um a um se despediu, Alva junto à eles, dando um beijo na bochecha de Klaus e outro na de Jesper, lhes desejando uma boa noite.
A cabana estava repleta de vida, de luz, de calor. Como era antes, quando Klaus tinha seu amor sempre ao seu lado e a ideia de uma grande família feliz para o futuro, este que nunca veio.
Sozinhos ali, Jesper enfim tomou a coragem, assim como parecia também tomar o chá, em goles longos e afobados. Aproximou-se, nada sorrateiro como previa, seu modo estabanado e nervoso era fácil de notar, Klaus não levou nem meio segundo para isso. Seguiu-o quando ele lhe tocou o braço e sinalizou que o acompanhasse. Rumaram até a sala que usava como sua oficina, onde criava tudo o que fora entregue às crianças, onde agora tinha uma árvore com luzes coloridas a enfeitar a casa para o natal.
Não notou, não de cara, nada de diferente ali, claro, havia luz. Mas muito mais que só luz, havia ele. E no momento, mais que apenas ele. Klaus seguiu-o com o olhar, atento a cada gesto, a cada sorriso nervoso, a cada vez que ele coçava a nuca em uma frustrada tentativa de se acalmar.
— Esqueceu um. — Jesper apontou para a árvore, o presente de embrulho discreto ao pé da mesma. Quase imperceptível pelo embrulho verde que mesclava-se tão bem à decoração.
— Isso é… pra mim?
— Bem, pra mim que não é. Não teria graça fazer algo e me dar de presente, eu já sei o que é. — As pontas dos dedos eram apertadas. O sorriso vacilava nos lábios, a expectativa para saber se havia acertado no presente para Klaus, tudo somava para deixá-lo nervoso.
— Fez pra mim? Você fez?
Jesper notou ali duas coisas; 1- ele conseguia surpreender alguém, 2- Klaus tinha o sorriso mais amoroso que ele já havia visto em toda sua vida.
— Eu… não foi um dos meus melhores serviços, mas…
Calou, era melhor esperar para ver a reação de Klaus, queria que ele desembrulhasse o presente e com ele achasse a carta. Não apertava apenas as pontas dos dedos umas nas outras, puxava também a barra das vestes, enroscava os dedos no tecido, mordia o lábio. Assistia de camarote enquanto Klaus abaixava-se para pegar o embrulho verde, abrindo-o e sorrindo ao ver o entalhe — sem sombra de dúvidas mal acabado — na casinha para pássaro.
— Deveria fazer algo para você, mas pensei que talvez fosse mais proveitoso fazer uma, assim terá menos serviços depois.
Silêncio.
Jesper respeitou o silêncio enquanto Klaus tirava a carta do envelope selado, enquanto os orbes pareciam acompanhar cada palavra ali escrita, e o péssimo desenho que ilustrava.
— Não sou bom desenhista também, as crianças me ganham fácil, mas… se notar bem, temos uma diferença. Todos os desenhos elas parecem tristes, querem algo. E eu… eu achei esse algo. Aqui. Curiosamente nesse emprego, nesta ilha, com essas pessoas… com você. Tá vendo? — Comentou próximo o bastante para olhar seu desenho nas mãos de Klaus, tocando o antebraço dele, deslizando os dedos de modo suave, resvalando-os aos dele para então tocar a folha. — Estou sorrindo, com você ao meu lado.
Era intimidade, uma conquistada, batalhada e merecida. Era parceria, era saber que um combinava com o outro, que se davam bem.
Klaus manteve a atenção nos detalhes, no desenho, no toque em seu braço, no formigamento que tomou a pele. Era preciso até mesmo respirar fundo quando permitia que os olhos seguissem aos dele, que o encarasse enquanto via-o sorrir tão pleno com o que havia dito.
Sentia-se sempre assim quando com ele; um estranho conforto. Era estranho o fato de, em pouco tempo, se tornarem tão íntimos. Bastava um olhar e se conheciam, e sabiam. E sentia-se realmente confortável com ele, não tinha insegurança ou desconforto quando ele o olhava, quando se aproximava como estava fazendo, quando o tocava como agora, quando os dedos enveredavam por seu rosto, resvalavam por sua barba. O arrepio era certo, o ar que parecia esquecer como seguir aos pulmões, o vermelho que tingia a face.
— E você? Você está feliz?
A pergunta veio fluida, tal como os toques que discorriam. Os olhares trocados, o toque cadenciado que vinha na cintura de Jesper pelas enormes mãos de Klaus.
— Sim.
Era uma certeza. Uma daquelas que raramente se tem na vida, mas quando a tem, nada faz mudar. Ele tinha certeza, certeza de que era feliz com aquele intruso em sua vida. Com Jesper e todas as complicações e quebra na rotina que ele trazia. Klaus era, novamente, feliz.
A felicidade, por sinal, era o que o fazia agir. Agia ao puxar Jesper para mais perto, já com sua mão na cintura alheia. Era a felicidade que o fazia sorrir em resposta ao sorriso dele quando o envolvia com os braços ao redor dos ombros. Era a certeza de ser correspondido, após a carta e o desenho, que o fazia agora inclinar-se para selar os lábios aos dele. Singelo, casto. Mas quente.
Sorriu ao fim do beijo, sentindo as carícias em seu rosto enquanto Jesper ficava na ponta dos pés para que sua testa colasse à dele.
Estavam certos daquilo, do passo que davam rumo ao “desconhecido”, afinal, era novo. Embora sentisse que fosse certo e de longa data quando selavam os lábios num beijo carinhoso.
— Tenho um presente para você também. — Comentou caminhando, entrelaçando seus dedos aos de Jesper enquanto o guiava para o quarto.
— Ho ho ho!
À título de curiosidade, tinha de fato um presente sobre a cama. E mais que isso, ao fim da noite tinha também um novo casal deitado, ressonando baixinho enquanto a magia do natal os unia mais uma vez.
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