Christmas Tree Farm
7 Me diga, amor, você me reconhece?
Notas iniciais

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OS DOIS se olharam rapidamente e desviaram o olhar, de forma discreta.
— A fazenda da sua mãe é muito bonita. — Rachel elogiou.
— Valeu. Você também está bonita hoje. Quero dizer, esse vestido combinou muito com você! — Garfield elogiou, com as bochechas levemente coradas.
— Obrigada! — Rachel agradeceu, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha e oferecendo um leve sorriso.
Rita observava os dois com atenção, alternando o olhar entre um e outro.
— E então, como vai a vida? — Garfield comentou, coçando a nuca.
— Estou indo bem. — Ela apertou a alça da bolsa, preta, de lado. — Estou fazendo coisas novas.
Um breve silêncio se instalou, denso. O vozerio distante e o tilintar de taças soaram mais altos do que deveriam. Nenhum deles sabia ao certo se devia sorrir, mudar de assunto ou apenas esperar que o momento passasse.
— Aceita vinho tinto, querida? — Rita perguntou, com uma taça e uma garrafa nas mãos. — Se você não estiver dirigindo, é claro.
— Claro, Srta. Farr. É o pai da Kory quem está no volante hoje. — Rachel esclareceu, pegando a taça. — Você ainda bebe, Gar?
— Não. Eu particularmente prefiro ficar apenas no refrigerante agora.
— Isso é bom. — Ela sorriu, dando um gole no vinho.
— Ainda trabalha como criminologista? Parece que você se deu bem na faculdade. — Gar perguntou, pegando um copo de Coca-Cola que a mãe lhe ofereceu.
— Sim, estou atuando na Unidade de Vítimas Especiais em Londres, já faz uns sete anos. — Ela ajeitou discretamente a postura, mantendo o copo de vinho firme entre os dedos, embora a borda da taça tremesse quase imperceptível. — Sou detetive. Decidi morar lá assim que terminei a faculdade. Tenho uma casa principal na cidade e uma casa de campo em Surrey Hills, tudo conquistado com o meu esforço.
Fez uma pausa curta, sorrindo fraco, passando o polegar pelo vidro frio da taça.
— Acho que estou no caminho para ser promovida a tenente, algum dia… — disse, dando um novo gole no vinho. — Sinceramente, eu amo o que faço. Por mais assustador e revoltante que seja às vezes, sinto que é a minha maneira de ajudar, especialmente mulheres e crianças que não têm voz e que vivem presas a homens tóxicos. — Ela ergueu o queixo — É mais do que uma carreira pra mim, é uma vocação.
— Parece que você conquistou tudo que queria, fico feliz em saber disso. Acho que isso merece um brinde. — disse Gar, erguendo o copo. Rachel respondeu positivamente o gesto. — Ainda bem que não me deu ouvidos naquela época.
— Tudo bem, águas passadas. Do que adianta revirar o passado? O arrependimento jamais reescreve o que já foi feito. — Rachel rebateu, dando outro gole no vinho. — Enfim, soube que você se tornou um médico neurocirurgião, sua mãe tem muito orgulho de você.
— Ela é a minha fã número 1. — afirmou, sorrindo para a mãe, que estava servindo os copos dos demais convidados.
— Oi, Garfield. — Kory disse, chamando sua atenção. Ela se aproximou conduzindo o irmão mais novo, com as mãos repousadas sobre seus ombros.
— E aí, Kory, como vai?
— Bem — Ela sorriu.
— Esse é o Ryan? — Rita perguntou, voltando a se aproximar do quarteto. — Meu Deus, como ele cresceu! Ficou mais forte e bonito, ele está a sua cara!
— Obrigada. — Kory trouxe o irmão para mais perto da rodinha. — Ele é um pouco tímido com as pessoas.
— Não gosto de pessoas. — Ryan respondeu, sorrindo forçado. — E não gosto de locais muito barulhentos.
— Ryan, por favor, seja educado! — Kory cochichou, dando-lhe um leve beliscão na manga de seu terno azul marinho. — Me desculpem. Sabem como é, adolescentes — Riu sem graça.
— Sei bem como é. — Gar comentou. — Meus estagiários do ciclo clínico ainda agem como adolescentes, muitas emoções à flor da pele, enfrentam as famílias e as crenças dos pacientes… sempre me dão um trabalho.
— Viver é uma batalha, sempre disse isso. — Kory riu.
— Quantos anos ele tem? — Rita perguntou.
— Dezessete.
— Meu Garfield era igualzinho nessa idade. — Rita riu. — Se prepare que isso é só uma amostra do que terá que aguentar por mais no mínimo 5 anos. Até hoje ele me enche de preocupações.
— Mãe!
— Aceita vinho tinto, Kory? — perguntou Rita, já estendendo a taça.
— Não, obrigada. Estou proibida de beber. Restrições médicas.
— Por quê? Você está doente? — indagou, franzindo a testa.
— Mãe, por favor... — Gar a repreendeu, num tom de leve constrangimento.
— Eu diria que é por motivos de força maior — Kory respondeu com um sorriso enigmático, lançando um olhar cúmplice para Rachel.
— Eu quero. — Ryan ergueu a mão, animado.
— Nem pensar — Kory cortou, firme. — Você ainda não tem idade pra isso.
— Eu não sou bebê!
— Ora, pra mim você sempre será meu bebê.
Rachel riu.
— Verdade, meu anjo. Ouça sua irmã — disse Rita, ainda com a taça na mão.
Ryan bufou e se afastou de leve, cruzando os braços.
— Vocês são todos quadrados... — resmungou baixinho.
Rita fingiu ignorar e olhou para o pulso.
— Alguém poderia me dizer, por gentileza, que horas são? Meu relógio parou — disse, dando uns tapinhas na tela. — Acho que a bateria foi pro espaço.
— Também... esse relógio é praticamente um fóssil. — comentou Garfield, sorrindo. — Quando você comprou isso, eu nem sonhava em virar um feto.
— Meu menino, sempre tão piadista!
— Mas falando sério, mãe, tá na hora de se modernizar. Compra um smartwatch. Vive melhor.
— Tá bom, querido, mas... que horas são, afinal?
— 19h30min — respondeu Rachel, conferindo o celular. — As horas estão passando tão rápido hoje...
— Nem me diga, florzinha — disse Rita, com um suspiro exagerado.
— Rita. — Cliff apareceu encostado no batente da porta. — Você pode vir aqui fora um instantinho?
— Claro, só um minuto. Cliff, por favor, cumprimente as meninas.
— Tudo certo, a gente já se cumprimentou lá fora — Kory adiantou, sorrindo.
— O que foi que aconteceu? — Rita perguntou, já começando a franzir a testa.
— Larry... — Cliff suspirou. — A playlist aleatória de Natal tocou a faixa “Last Christmas”, me esqueci de tirar essa das que poderiam tocar, e ele começou a lembrar dos “dias de glória”. Agora está preso num looping de baladas sobre corações partidos e amores mal resolvidos. Tá ouvindo como se fosse trilha sonora da vida fodida dele. Enfim… tá foda!
— Tá bom, tá bom… vou deixar vocês em paz um minutinho, meninos — disse, pegando a bandeja de bebidas de volta. — Ainda tenho mais gente pra mimar hoje. E tenho que ajudar o Larry lá fora, já bebeu tanto que está até chorando ouvindo as mais românticas do George Michael.
Do lado de fora, o som abafado de “Careless Whisper” escapava pelas frestas da porta, a melodia vinha da direção do karaokê.
Assim, Rita se afastou, indo para o lado da direção da voz angelical de Michael.
— Parece que você não mudou nada. — Gar reparou, voltando-se para a ruiva.
— Eu diria que, fisicamente, só um pouquinho. Tirando o fato de que agora me tornei uma rata de academia. — Kory comentou, sorrindo.
Rachel riu discretamente, levando a taça de vinho de volta à boca. A Tamaraneana prosseguiu:
— Bom... Jane Austen continua sendo minha autora terráquea favorita, e “Orgulho e Preconceito” ainda é meu livro preferido dela.
— Velhos hábitos nunca mudam. — Rachel comentou.
— Eu gosto muito de “Orgulho e Preconceito”. A versão com zumbis, é claro. O filme, a propósito. — Gar disse com um sorriso torto.
— Não te julgo. — Anders riu. — Ver mulheres empunhando espadas, aniquilando zumbis e escondendo armas debaixo de várias camadas de vestidos me deixou ainda mais gay do que já sou. Honestamente? Eu só quero me casar com a Lily James.
— Quem não quer? — Rachel concordou, rindo.
O comentário fez os três rirem baixo, quase ao mesmo tempo, como se retomassem uma sintonia antiga.
— Quer uma opinião impopular? “It”, de 1990, ainda é melhor que o de 2017. E mais fiel à obra original. — Kory afirmou.
— Nisso eu concordo. — Gar assentiu com a cabeça. — A atuação do Tim Curry amadureceu igual vinho. Mas também gosto muito da atuação do Bill Skarsgård. Ambos foram muito importantes para suas respectivas épocas.
— E o tio Stephen King ainda é o meu escritor de terror favorito. — Foi a vez de Rachel falar. — Penso em publicar minhas próprias obras, inspiradas nele. E, claro, “Carrie” ainda continua sendo um clássico do terror do século 20!
— Que legal, Rae! Você sempre foi muito boa contando histórias de terror quando saíamos para acampar com os titãs júniores, em volta da fogueira. — Gar comentou. — Você vai se destacar no mercado.
— Quem sabe um dia!
O trio caiu num breve silêncio, incômodo. Olharam para o teto, para o chão, apenas deixaram os olhos vagar. O celular de Kory vibrou suavemente na sua bolsa.
— É meu pai. — Ela murmurou, olhando a tela. — Vou procurar o Ryan rapidinho e já volto. Qualquer coisa, é só me mandar uma mensagem.
— Ok. — Rachel respondeu com um aceno.
Ela acompanhou Kory com os olhos até que sumisse de vista, depois comentou:
— A casa da sua mãe mudou bastante desde a última vez que estive aqui. Ela ainda está com o Steve?
— Não. Graças a Deus, ela já expulsou aquele cara das nossas vidas faz tempo!
— Ele era cruel com você.
— Bom... acho que eu fiz por merecer. — Gar deu um gole no refrigerante, que desceu amargo pela garganta.
— Não diga isso. Você era só uma criança. Ele é quem devia ter tido paciência. Foi muito ruim com você. E com sua mãe também. — Rachel defendeu.
— Ele era um monstro… um monstro muito pior do que aqueles que eu tinha pesadelos quando criança…!
— Sinto muito por isso.
Nesse momento, Victor se aproximou com seu cabelo black power impecável, uma jaqueta de oncinha vibrante e o perfume Kaiak anunciando sua chegada antes mesmo do primeiro passo.
— Maninha do meu coração! — exclamou, abrindo os braços e puxando Rachel para um abraço apertado, beijando sua testa em seguida. — Que bom que veio! Tava com saudades.
— Mas a gente se viu no Dia de Ação de Graças… — Ela lembrou.
— Vinte e sete dias já é muita coisa pra mim! — respondeu, rindo também, enquanto esticava a mão esquerda até o ombro esquerdo da Roth. — Tanta coisa pode mudar em um mês…
— Concordo com esse cara. — disse Gar, dando um gole no refri.
— E os meninos? — Roth perguntou.
— Acredita que já foram dormir? A Karen disse que eles mesmos falaram que dormir cedo vai deixá-los com energia pra aguentar a ceia à meia-noite. Achei um raciocínio brilhante, sinceramente.
— Eles são uns anjos. — comentou Rachel.
— De fato. — Victor assentiu. — Só espero que 2025 traga um milagre pra nossa família.
— Tenho certeza que vai. Basta ter fé. — Gar disse, com um tom calmo, mas confiante.
— Rachel, posso te pedir um favor? — Victor se virou para ela, com a expressão um pouco mais séria. — Será que posso “pegar emprestado” o Garfield por uns minutinhos?
— Claro, o que houve? — Ela perguntou, já erguendo as sobrancelhas.
— Deu problema no aquecedor do nosso quarto e no das crianças, e a Karen tá preocupada com o Joivan. Tá bem frio lá em cima, e com os anticorpos dele baixos por causa da medicação… a gente não quer arriscar uma pneumonia logo agora. Achei melhor pedir reforço técnico antes que ela decida dormir na cozinha com ele.
— Ah, tudo bem, vai lá. — Rachel assentiu, gentilmente.
— Valeu, maninha. — agradeceu Victor, já se virando com Gar ao seu lado.
O som icônico de “Over the Horizon” se fez presente no recinto. Gar encolheu os ombros e pegou o Samsung do bolso da calça.
— Desculpa gente, tenho que atender, é uma ligação urgente do Polo Norte. Mas já vou lá em cima te ajudar com o ar condicionado, Vic, um minuto. — Explicou-se, logo dando-lhes as costas e indo para fora da casa, num lugar mais restrito.
— Polo Norte? — Rachel perguntou, olhando para Victor.
— Deve ser o Papai Noel que ele contratou, por favor, não conta nada para as crianças. — Cyb deu uma piscadinha.
— Entendo. Pode deixar, jamais deixaria o episódio traumático que aconteceu com o Ryan se repetir.
— A Kory me contou que ele ficou vigiando o peru por três anos consecutivos, depois daquele Natal. Acho que ficou com medo de outro homem verde, igual ao Grinch, aparecer e destruir o Natal dele, de novo.
— Jim Carrey deve ter ficado triste por não ter sido chamado para essa “continuação”.
Os dois se entreolharam e riram, discretos.
— Como somos maus, Rae-Rae.
Assim que os dois se afastaram, Rachel percebeu que suas mãos estavam suadas. Ela esfregou uma contra a outra discretamente, tentando disfarçar a ansiedade que começava a tomar forma em seu peito. O coração batia rápido — mais do que deveria, mais do que ela gostaria.
Ela se recostou na cadeira, respirando fundo. “Será mesmo uma boa ideia desenterrar fantasmas do passado?” A pergunta ecoou em sua mente, insistente. “Se a gente não deu certo antes — várias vezes — o que faria dar certo agora?”
Mas por mais que tentasse racionalizar, algo dentro dela se recusava a aceitar que aquela história estivesse, de fato, encerrada.
[...]
“Feliz natal”, eu embrulhei e mandeiCom um bilhete escrito “eu te amo”, eu falei sérioAgora sei o quanto eu fui idiotaMas se você me beijasse agora,Eu sei que iria me enganar de novo.No último Natal, eu te dei meu coraçãoMas no dia seguinte, você o jogou foraEste ano, pra me poupar das lágrimasEu o darei para alguém especial[...]
Quando Garfield chegou ao quarto no segundo andar, encontrou Ray dormindo tranquilamente em sua caminha, que parecia grande demais para ele. Ele estava bem coberto, aninhado entre as cobertas. Na cama ao lado, porém, Joivan tentava descansar com a cabeça no colo de Karen. As duas camas eram separadas por uma mesinha de cabeceira, sobre a qual havia um abajur e alguns ursos de pelúcia. Era visível que o pequeno Joivan tremia e tossia baixinho.
— Boa noite! — disse Gar a Karen, ao entrar no quarto.
— Boa noite — sussurrou ela, sorrindo com cansaço.
— Feliz véspera de Natal!
— Pra você também.
— Infelizmente, não trago boas notícias... O Noel vai se atrasar um pouco hoje. Muitas ruas estão interditadas.
— Tudo bem — respondeu Karen, tentando manter o bom humor —, se você conseguir consertar esse aquecedor, já vamos ficar eternamente gratos. E o Joivan não vai nem cobrar um presente, né, meu anjo?
O menino adormecido esboçava um sorriso tímido. Garfield riu com suavidade, comovido.
Victor se aproximou da cama de Ray e deu um beijo carinhoso no topo da testa da criança adormecida, que esboçou um sorrisinho largo em resposta.
— Vou dar uma olhada no aquecedor — disse Garfield, já se dirigindo à porta. — Mas deve ser só o filtro de ar sujo. Faz tempo desde a última vez que o tio Cliff limpou. Em dez minutos resolvo.
Garfield desceu até o porão onde ficava o aquecedor. A luz amarelada da lâmpada pendurada no teto mal iluminava os cantos, mas havia um toque especial, vários pisca-piscas estavam decorando as paredes tijoladas, obra de sua mãe e do tio Larry. O som do aquecedor funcionando era baixo, mas irregular. Ele se ajoelhou ao lado do aparelho e começou a inspecionar.
Ao abrir o compartimento inferior, notou um leve cheiro químico atingindo suas narinas; estranho demais para ignorar. Aproximou-se da pequena janela de inspeção e observou a chama do queimador: não era azul como deveria, mas de um tom alaranjado trêmulo.
— Isso não está certo... — murmurou, franzindo a testa.
Logo notou fuligem escura ao redor das grades de ventilação internas. Com o rosto cada vez mais sério, tirou a tampa e iluminou com a lanterna embutida do braço mecânico. Havia umidade acumulada nas laterais do gabinete e marcas finas, escuras, no interior do trocador de calor.
Foi então que viu: uma rachadura fina e escurecida atravessava uma das serpentinas metálicas.
Ele então puxou o detector portátil de monóxido de carbono do cinto. Ao ligá-lo, o alarme apitou quase imediatamente. Níveis perigosos.
Garfield empalideceu.
— Droga... — murmurou, já desligando o aquecedor por completo. — Isso é grave. Como ninguém percebeu isso antes…?!
Subiu de volta rapidamente, com passos firmes.
Victor andava de um lado pro outro no corredor, com uma das mãos enfiada no bolso metálico da calça preta justa e a outra passando desajeitadamente pelo cabelo.
— Maninho, eu ia te procurar agora. Parece que ficou ainda mais gelado aqui.
— E ficou! — respondeu Garfield, sério — Precisei desligar o aquecedor da casa inteira. Descobri um trocador de calor rachado. Vamos ter que esvaziar a casa com urgência, pela segurança de todo mundo.
— Que droga, cara! E como vamos encontrar um técnico nessa hora?
— É exatamente o que eu tô tentando descobrir — disse Gar, colocando as mãos na cintura e soltando um suspiro cansado. — Vou ver se o tio Cliff conhece alguém que esteja de plantão. Ele tem contato com praticamente todo mundo da região. Que horas são, afinal?
— 20h17min . — respondeu Victor, olhando o relógio no pulso.
— Beleza... Talvez ainda dê tempo de alguém vir hoje e salvar a ceia. — Gar pegou o celular nas mãos.
— Vou ajudar a Karen a tirar as crianças do quarto. — Victor avisou.
— Ótimo. Acabei de avisar minha mãe. Ela e o tio Larry vão orientar os convidados lá embaixo a saírem com calma. Ainda bem que temos a casa secundária e os outros espaços onde podemos colocar as pessoas e a comida da ceia.
— Vai dar tudo certo, maninho — disse Victor, colocando a mão firme no ombro de Garfield. — Isso não vai ser o fim do Natal dos Titãs.
— Tô começando a achar que o Ryan estava certo e que eu sou o Grinch mesmo…
— Para com isso, cara — riu Victor. Garfield riu junto, um pouco mais leve.
— Só fico me perguntando como ninguém percebeu isso antes. A gente checou tudo hoje de manhã, justamente pra evitar imprevistos assim...
— Imprevistos surgem pra lembrar a gente de ficar alerta.
— Verdade — concordou Garfield, suspirando fundo enquanto pegava um pano e jogava sobre o ombro. — Vou lá ajudar minha mãe a organizar a saída dos convidados. Cuida bem das crianças.
— Pode deixar. Já deu tudo certo.
Victor virou o corredor e, antes de entrar no quarto, parou por um segundo, respirou fundo e tocou a maçaneta com calma.
— Que o espírito de Natal apareça... e salve esse Natal! — murmurou.
[...]
Sala cheia, amigos de olhos cansadosEstou me escondendo de você e da sua alma de geloMeu Deus, achei que você fosse alguém em quem eu podia confiarEu? Acho que fui só um ombro pra chorar.Um rosto em um amante, com fogo no coraçãoUma garota em uma fachada… mas você a despedaçou.Talvez este ano,Talvez este ano, eu o darei a alguém especial[...]
Rachel se viu sozinha.
Deu mais um gole no vinho e tentou se misturar, conversando brevemente com alguns rostos conhecidos. Ouviu atualizações sobre suas vidas, acenou com a cabeça, sorriu aqui e ali... mas ainda se sentia deslocada no meio da multidão.
Onde estava Kory?
Assim que terminou a taça, decidiu levar o copo até a cozinha. No entanto, ao entrar no corredor, percebeu algo estranho: a fazenda parecia maior do que ela se lembrava.
O corredor havia se estendido, longo e silencioso, agora decorado com quadros.
Fotografias da própria fazenda em diferentes estações. Algumas eram de Rita montada em um cavalo e outra dela em uma competição de natação, e havia imagens de Cliff com sua antiga família — antes do acidente que o deixara daquele jeito.
Fotos de Larry nos anos 40, sorrindo ao lado de seus aviões.
Fotos de Garfield: criança, adolescente, adulto. Formando-se em medicina. Ele pequeno, ao lado dos pais — já falecidos — antes da Sakutia, antes da sua pele ganhar uma coloração esverdeada, antes de se tornar um transmorfo.
Rachel sorriu, com ternura.
Mas ao parar diante da sessão de quadros da formatura, franziu o cenho. A foto de Garfield, lançando o capelo para o alto, parecia estar, supostamente… piscando para ela?
Suspirou fundo.
Ok, havia bebido vinho demais. Já estava mexendo com a sua cabeça.
Caminhou pelo corredor até avistar uma porta entreaberta. Curiosa, espiou por dentro. Era uma salinha com janelas grandes, que ocupavam quase toda a parede, oferecendo uma vista linda e inspiradora de uma floresta de pinheiros, todos decorados com luzes natalinas.
A sala era branca, com uma decoração rústica e delicada. No centro, repousava um piano igualmente branco e elegante, ladeado por um espelho dourado e três castiçais com velas, enquanto um banco estofado aguardava em frente.
Garfield já a levara ali antes, no começo do namoro, no primeiro Natal que passaram juntos na fazenda. Foi também a primeira vez que conheceu seus sogros: a adorável Rita Farr e o vil Steve Dayton.
Na parede central, uma lareira crepitava suavemente. O fogo lançava faíscas, dançando sobre as poucas toras que restavam. Algumas meias de Natal estavam penduradas na moldura da lareira, pintadas à mão. Rachel se agachou, pegou duas lenhas da pilha ao lado e as colocou entre as chamas, alimentando o fogo que ameaçava apagar.
Aproximou-se do piano. Levantou a tampa com cuidado e sentou-se. Seus dedos repousaram sobre as teclas, e uma lembrança a envolveu como uma melodia suave: a primeira vez que tocou aquele piano com Garfield. Juntos, haviam tocado “Bagatelle No. 25 in A Minor (Für Elise)”, Ludwig van Beethoven.
Garfield lhe contou, naquele dia, que essa foi a primeira canção que sua mãe o ensinou a tocar após a conclusão da adoção e que quase explodiu de alegria ao conseguir aquele feito.
Ela também aprendera piano na infância, em Azarath. Seu mentor, Azar, a ensinara como forma de distração. Um passatempo solitário. Por causa de sua linhagem demoníaca, Rachel era proibida de manter qualquer tipo de contato físico com as outras crianças, nem mesmo nas brincadeiras mais inocentes. Era vista como perigosa. Impura. Uma besta de quatro olhos.
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Então, ela se agarrou a uma memória específica. Ela e Azar tocavam no piano branco, que ficava no centro do templo onde viviam.
A pequena Rachel, de apenas nove anos, estava irritada por ter errado a melodia pela terceira vez seguida. Azar, ao seu lado, sorriu com ternura e a guiou com a mesma paciência de sempre, antes de dizer:
— Não é só sobre tocar as notas certas, Rachel. É sobre encontrar... a melodia certa.
— Mas o que é a melodia certa? — perguntou, confusa.
— Écomo encontrar a companhia certa. Às vezes, você tenta vários caminhos, várias combinações… até que, de repente, tudo soa como deve soar. Você sente. — respondeu Azar, olhando para as teclas.
— Como mágica? — Rae sorriu.
— Quase. Mas é uma mágica que leva tempo. E escuta.
Rachel tocou novamente, desta vez com mais intenção. A melodia ganhou um pequeno brilho novo. Azar observou, satisfeito. Mas então ela errou de novo — e bufou, estressada, com os olhos marejados.
— Estou cansada disso!
— Tudo bem, vamos tirar uma pausa de cinco minutos.
— Não é sobre a aula… é que… tô cansada de tudo isso! — desabafou, a voz embargada. — Nenhuma das crianças quer brincar comigo. Elas me ignoram. Dizem que sou um monstro. Que sou suja... Eu estou cansada de viver sozinha.
Ela faz uma pausa, e sua voz saiu ainda mais baixa:
— Eu só queria que minha mãe ficasse mais comigo... Ela só lê uma história de vez em quando, antes de dormir, e mesmo assim parece com pressa. É pouco. Eu sei que ela não gosta de mim. Que não me quer de verdade. E isso... isso me faz me sentir errada. Como se eu não devesse existir.
Azar abaixou a cabeça por um instante, com pesar. Depois, tocou suavemente as mãos dela, corrigindo sua postura no piano.
— Eu sei que dói, pequena. Mas às vezes... leva tempo para encontrarmos a companhia certa. Alguém que veja além do que os outros enxergam. Que nos escute como a música escuta.
Rachel o encarou em silêncio, engolindo as lágrimas.
— Mesmo que demore muito?
— Especialmente se demorar. E quando isso acontecer, você terá certeza de que encontrou a pessoa certa.
E com essas palavras, Rachel tentou de novo e conseguiu acertar as notas.
Como sentia falta dele…
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De volta ao calor da lareira, Rachel deslizou os dedos pelas teclas e suspirou fundo.
— Eu ainda não tenho totalmente certeza do que quero…
Então, começou a pressioná-las com leveza, deixando emergir a melodia contemporânea de “On the Nature of Daylight”, de Max Richter.
Alguém que passava pelo corredor, a caminho de volta para a festa, parou ao ouvir a música. Encostou-se discretamente à porta, os olhos fixos na pianista, e sorriu. Com passos silenciosos, entrou na sala e se aproximou até a parte de trás do piano.
Rachel acenou com a cabeça ao notar sua presença, mas logo voltou a atenção para as teclas.
— Você ainda continua ótima nisso — ele comentou, com suavidade.
— É… faz anos que eu não toco. Até estou surpresa.
— Talento nunca se perde. Só descansa, pra depois voltar ainda mais forte — disse ele, com um sorriso.
— Essa foi uma boa citação, Gar. — Rachel respondeu, já conduzindo a melodia para os acordes finais.
Assim que terminou, Garfield aplaudiu, oferecendo-a uma sequência calorosa de palmas.
— Obrigada.
Garfield se aproximou mais e apoiou os cotovelos no piano, observando Rachel com carinho nos olhos.
— Está a fim de um dueto? Para relembrar os velhos tempos? — Roth perguntou, com um leve sorriso.
— Sinceramente, minha querida, acho uma ótima ideia, de verdade. Até sugeriria “River Flows in You”, do Yiruma… mas, infelizmente, temos que esvaziar a casa o quanto antes.
— Por quê? O que aconteceu?
— Descobri um trocador de calor rachado no aquecedor. E, sinceramente, ainda não faço a menor ideia de como isso aconteceu. Tudo parecia certo na revisão de manhã.
— Ainda bem que a fazenda da sua mãe é enorme. O importante é que ninguém se feriu. E vai dar tudo certo, ainda são 20h22min.
Ela se levantou do banco e começou a caminhar ao lado dele, devagar, pelo corredor iluminado por luz âmbar. Antes de deixar o quarto do piano, Garfield apagou o fogo da lareira, para evitar mais acidentes.
— Falando em “River Flows in You” — Garfield puxou assunto com um sorriso nostálgico. — Lembra que você dizia que parecia trilha sonora de filme triste?
— Bom… ainda continua parecendo. Mas é bonita. Triste e bonita.
— Faz quanto tempo desde a última vez que tocamos no piano da minha mãe? Lembro que éramos a atração principal no Natal.
— Uns dez anos, no mínimo. A última vez foi… antes do término.
— Antes do caos — Ele murmurou.
Rachel apenas assentiu. Garfield começou a andar lentamente pela sala, parando diante da janela. Os convidados já estavam sendo realocados para a casa secundária. A luz das árvores lá fora refletia nos olhos dele, verdes e cansados.
— Sabe… às vezes fico pensando que, se o Garth não tivesse se metido entre a gente, talvez… — hesitou. — Talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Rachel parou e se virou lentamente para ele, o olhar tenso. Ambos estavam agora perto da porta de entrada da casa principal.
— Garth?
— É. — Garfield cruzou os braços. — Ele sempre teve um crush em você. Era visível. E ele soube exatamente como me atingir. Disse coisas, fez insinuações… mexeu com a minha cabeça. E quando percebi, vocês dois estavam juntos.
Rachel ficou em silêncio por um instante. Seu maxilar travou levemente.
— Achei que já tivéssemos conversado sobre isso — disse, com a voz firme, mas controlada.
— Se não acredita, conversa com a Lucky, ela também tem relatos ruins em relação ao Lennes.
— Claro. — Umedeceu os lábios. — E quanto à Tara Markov? Soube que vocês estavam juntos até uma semana atrás. Lembro de como ficou obcecado quando a viu pela primeira vez na Murakami School, porque ela se parecia demais com a Terra. E logo no início do nosso namoro, você mentiu pra mim, desmarcou um compromisso nosso de última hora... E quando eu saí com a Kory naquela noite pra comprar comida para a nossa noite das garotas, vi você com ela, sentados dentro da nossa pizzaria favorita. Mesmo depois de a gente afirmar que aquela não era a Terra, que a estátua dela continuava intacta no subsolo e que era dois anos mais nova. O Garth também teve algo a ver com isso?
Ela cruzou os braços, espelhando a postura dele.
Garfield abaixou a cabeça e suspirou fundo.
— Isso… isso foi culpa minha…
— Garfield, isso nunca teve a ver com o Garth. Teve a ver com a forma imatura com que você lidava com tudo. Com o álcool. Com a raiva. Com os meus sentimentos. Com a solidão que você dizia sentir… Mesmo quando eu estava ali. Do seu lado. O tempo todo. Eu estava realmente disposta a sacrificar muita coisa por você. É triste que nunca tenha valorizado isso.
Garfield desviou o olhar, como se cada palavra fosse um golpe certeiro.
— Eu sei — murmurou. — E me arrependo. Todos os dias.
Rachel não respondeu de imediato. Apenas o observou, como se tentasse decifrar se aquele arrependimento era real — ou apenas mais uma tentativa de se absolver.
Então, um som agudo de vidro quebrando ecoou pela casa. Rachel reagiu instintivamente, pulando na direção de Garfield. Por um instante, os rostos ficaram perigosamente próximos, a respiração entrecortada.
— Me desculpa — pediu, se afastando com rapidez, constrangida.
— Tudo bem. — Ele deu um sorriso nervoso. — Eu também me assustei.
— RYAN!! — Alguém gritou com desespero, a plenos pulmões, como um lamento rasgado vindo do fundo da alma.
Era Kory.
Garfield e Rachel se entreolharam, alarmados, e dispararam para fora da casa. O frio os envolveu de imediato, e flocos de neve caiam em silêncio.
A neve no chão estava manchada por estilhaços de vidro… E um rastro vermelho se destacava, vindo de uma das janelas do terceiro andar da casa principal. Sangue.
Convidados corriam na direção do local, formando um círculo instintivo ao redor da área. Murmúrios aflitos e respirações trêmulas se misturavam ao som abafado da neve sendo pisada.
Rachel e Garfield abriram caminho entre os curiosos até verem Kory ajoelhada no chão, chorando, agarrada ao pai, com um pequeno lenço rosa apertado na mão.
— Kory, você está bem? — Rachel se aproximou, a voz firme, mas suave, ajoelhando-se ao lado da amiga.
Kory a olhou com os olhos vermelhos, úmidos de pânico. Sua voz saiu trêmula:
— Foi o Ryan... Ele acabou de ser sequestrado.
Sem hesitar, ela caiu nos braços da amiga, que a envolveu num abraço apertado, sentindo seu desespero palpável — tudo enquanto a neve continuava a cair, silenciosa, sobre um Natal que acabara de desabar.
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