Christmas Lights

4 Faixa 4: Cansei de correr para lugar nenhum


Em todo meu trajeto de casa até chegar do outro lado do Oceano, um pensamento me perseguiu. Justamente por estar introspectiva, reparei em tudo ao meu redor. E nisso, encontrei um padrão. Os homens que cruzaram meu caminho no aeroporto, na aeronave, no metrô, na rua, todos pareciam exageradamente felizes, fanfarrões, como se tivessem um rei na barriga. Fazendo piadas que ninguém além deles mesmos riam, falando alto e todos em trajes formais. E então eu pensei: vida ótima deve ser, hein?

Naquele momento, eu ainda não tinha percebido, ou tido qualquer indício de consciência, mas a verdade é que mulheres como eu são como o pior pesadelo para a masculinidade tóxica.

Eu me pergunto se foi esse o motivo que fez Scorpius se afastar tanto nos últimos anos. E por mais que eu não tivesse coragem de admitir, a verdade uma hora escaparia pelos meus dedos. Eu poderia estar viajando pra qualquer lugar do mundo, mas lá estava eu, voltando para a Inglaterra. Por causa dele.

Patético, Rose, patético.

Tenho total consciência dos meus privilégios, e de que choro demais de boca cheia, mas isso não desfaz o fato de que eu sonho e preciso e necessito expressar minha arte e quem eu sou. E pra isso, devo seguir meus instintos e visitar minha antiga vida. E se isso envolver Scorpius Malfoy é só um detalhe. O mais importante aqui é visitar o passado. Ver a Inglaterra como se fosse a primeira vez. Mas agora, como protagonista. Dá pra entender?

Meu pai vive preocupado comigo, falando que o mundo é dominado pelos homens e que irei sofrer mais do que o desnecessário se eu continuar com essa ideia na cabeça. Coitado. Até parece que não cresci vendo minha mãe penar naquele trabalho tóxico de Ministra da Magia. Pensa que não sei que foi por isso que nos mudamos? Ela ia adoecer se permanecesse naquele cargo. E assim como ela precisou mudar de ares e se encontrar na diplomacia e no cargo de auror do MACUSA, precisei tomar a decisão de fazer um caminho inverso. Por mais que isso significasse deixá-los para trás e lidar com os infortúnios da sociedade patriarcal.

― Primeira vez nos Estados Unidos? ― uma voz me trouxe à realidade.

― Pode até não parecer, mas eu vivo aqui há quase dez anos.

Acho que meu sotaque foi convincente porque a garota que havia acabado de sentar na poltrona ao meu lado na aeronave não questionou.

― E ainda se surpreende com isso?

― Isso o quê?

― Você não estava olhando para aquela baderna ali na frente? ― e então, apontou para um grupo de amigos falando alto e bebendo champagne.

― Ah, isso. Só estava pensativa. Esse pessoal nem precisa de requisitos para chegar ao sucesso. Ninguém nem ao menos reclamou do barulho aqui dentro. Se fosse nós… chamariam de histéricas, com certeza.

― Entendo o que quer dizer. Lá na minha agência, o que chega de gente sem qualificação pensando que carisma e dinheiro compram talento… Você nem imagina… Mas me diga, em qual área você quer tanto fazer sucesso?

O avião já tinha decolado e as nuvens dançavam bem pertinho de mim, já que eu estava na janela. Eu nunca fui muito de puxar assunto com pessoas estranhas, mas meu senso inglês de educação que ainda morava em meu sangue me fez responder.

― Estou tentando ser cantora.

― Ah é? Que coincidência.

A garota ao meu lado sorriu. Tirou do bolso um cartão de visita e me entregou. O cartão era rosa cintilante e cheio de estrelas e notas musicais.

― Alice Longbottom?! ― meus olhos saltaram de choque ― É você? É você mesmo?

― Espera…. ― a ficha dela também caiu porque deu pra ver quando o semblante de Alice mudou ― É isso mesmo! Rose Weasley! ― e aí me abraçou ― Por Morgana, quanto tempo! Como você está? Nossa, seu cabelo, o sotaque, deve ter sido por isso…

― Alice, calma. Parece até que eu morri e voltei à vida.

― Bom, foi quase. Ninguém teve mais notícias suas.

― É, eu achei que seria melhor assim. Sofreria menos, sabe. Mas agora eu estou de volta e por tempo indeterminado.

― E virou cantora! Puxa! Nada é por acaso mesmo. Quando puder, me ligue e vamos conversar sobre isso. Vai ser um prazer te agenciar.

― Agradeço muito, de verdade. Mas... Será que vale mesmo a pena? Sabe quanto tempo faz que estou tentando seguir carreira? Se eu fosse um homem mediano, idiota e sem talento, certamente já estaria ganhando meu quinquagésimo Grammy.

― Eu não posso discordar de você, Rose, mas continua valendo a pena, apesar de tudo.

― Tem certeza?

― Tenho. Confie em mim. Se for para seguir as regras deles, que sigamos então. Mas parar de jogar? Nunca.

― É, acho que você está certa.

― Claro que estou. Foi assim que me tornei chefe de tanta gente.

E foi naquele momento, naquelas risadas sinceras, que uma amizade antiga foi retomada e uma carreira se abriu diante dos meus olhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.